O PROBLEMA COM DEUS

Autoria de Lu Dias Carvalho

Deus

Acabo de ler o livro O Problema com Deus, do escritor estadunidense Bart D. Ehrman, o mesmo autor de O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não Disse?, que até agora já vendeu 100 mil exemplares no Brasil. É surpreendente ver um homem com um conhecimento tão profundo, dono de uma posição privilegiada dentro dos setores do Cristianismo, ter a coragem de se desnudar, colocando às claras seu ponto de vista em relação à fé que norteou sua trajetória por um longo tempo, apesar das críticas recebidas dos “donos da verdade”. Segundo o autor, o problema que vem o atormentando ao longo da vida, justamente por ser um dos maiores pesquisadores sobre a Bíblia, estudioso das origens do Cristianismo, Ph.D em estudos do Novo Testamento e, até então, chefe de um do Departamento de Estudos Religiosos de uma famosa universidade americana, é o sofrimento. E ele não mais conseguia conviver com isso.

O foco central do livro é o sofrimento e o porquê de Deus permitir que os homens sofram tanto, principalmente os mais inocentes e os mais frágeis. Bart D. Ehrman joga por terra todas as explicações fáceis, inclusive aquela sobre o livre-arbítrio, dadas até agora pelos mais diferentes segmentos religiosos cristãos, na tentativa de explicar por que um Deus todo poderoso permite a presença do mal e do sofrimento humano em níveis tão excruciantes. Ele não concebe a ideia de que “Deus pode fazer o bem a partir do mal, que o sofrimento pode ser benéfico, que a própria salvação depende do sofrimento.” Mostra também as inúmeras incoerências contidas no mais importante livro cristão e critica as mega-igrejas que só falam de riqueza material e do sucesso, sem se aterem ao real sofrimento humano.

Ao falar dos diversos tipos de sofrimento pelos quais tem passado a espécie humana, o escritor começa citando o Holocausto:

“É relativamente fácil citar os números convencionados daqueles que foram assassinados pela máquina nazista, mas quase impossível imaginar a intensidade do sofrimento produzido. Seis milhões de judeus assassinados a sangue-frio, simplesmente por serem judeus. Um em cada três judeus da face da Terra, foi eliminado. Cinco milhões de não judeus – poloneses, checos, ciganos, homossexuais, “aberrantes” religiosos e outros. Um total de 11 milhões de pessoas mortas, não em batalha como combatentes inimigos, mas como seres humanos considerados inaceitáveis por aqueles que detinham o poder, e brutalmente assassinados. Ter conhecimento dos números de certa forma disfarça o terror. É importante lembrar que cada um de todos aqueles mortos era um indivíduo com história pessoal, um ser humano de carne e osso, com esperanças, medos, amores, ódios, famílias, amigos, bens, saudades, desejos. Cada um tinha uma história a contar – ou teria, se tivesse vivido para isso.”.

No seu livro, O Problema com Deus, o escritor Bart D. Ehrman trabalha as seguintes questões, numa linguagem clara e acessível:

• O que os autores bíblicos dizem sobre o sofrimento?
• Eles dão uma resposta ou muitas respostas?
• Quais de suas respostas contradizem umas as outras, e por que isso é importante?
• Como nós, pensadores do século XXI, podemos avaliar essas respostas, que foram escritas em diferentes contextos, tantos séculos atrás?

Livro: O problema com Deus
Autor: Bart D. Ehrman
Editora: Agir

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ÁFRICA – CONVERSANDO COM UM TUAREGUE

Autoria de Lu Dias Carvalho

tuar

Caros leitores, o jornalista catalão, Victor M. Amela, fez uma belíssima reportagem com o tuaregue Moussa Ag Assarid, que estuda Administração na Universidade de Montpellier, no sul da França. Não vou reproduzi-la na íntegra, porque vocês poderão encontrá-la muito facilmente na internet. Mas vou colher as principais informações contidas e colocá-las numa ordem que dê maior compreensão ao texto.

Nós, tuaregues, não portamos documentos ou conhecemos a própria idade. Não abrimos mão do turbante fino de algodão que nos cobre o rosto e nos possibilita ver e respirar através dele na imensidão do deserto. Somos chamados de homens azuis, porque o fino tecido do turbante índigo, mesclado com outros pigmentos naturais, ao desbotar, solta uma tinta azul que adere à pele, deixando-a com tons azulados. O azul, para os tuaregues, é a cor do mundo. É a cor dominante: a do céu e a do teto da nossa casa.

Nós somos um povo antigo do deserto, solitário e orgulhoso, que vive à própria sorte. Somos chamados de os Senhores do Deserto, única raça capaz de viver no infernal Saara. Usamos o alfabeto “tifinagh”. Somos calculados em cerca de três milhões e, apesar de todas as mudanças, a maioria permanece nômade, pastoreando seus rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos num reino feito de infinito e silêncio. Mas a população diminui. “É preciso que um povo desapareça para que percebamos que ele existia!” denunciou certa vez um sábio. Eu luto para preservar o meu povo.

O mundo dos tuaregues é o deserto imenso e silencioso, onde se pode ouvir o bater do próprio coração, quando se está sozinho. Não existe melhor lugar para quem deseja encontrar a si mesmo. Conservo com nitidez as recordações de minha infância: acordo com o sol. Perto de mim estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as conduzimos onde existem água e grama… Assim fez meu bisavô, meu avô e meu pai… e eu. No mundo não havia nada, além disso, e eu era muito feliz assim!

As cabras nos dão leite e carne e são levadas, ali e acolá, em busca de pasto. Aos sete anos já é permitido à criança afastar-se do acampamento para aprender coisas que lhe serão importantes no deserto: farejar o ar, escutar, apurar a vista, orientar-se pelo sol e estrelas. E a se deixar ser conduzido pelo camelo. Caso se perca, o animal o levará aonde há água. Lá tudo é simples e profundo. Existem poucas coisas no deserto e cada uma delas possui grande valor. Lá, cada pequena coisa proporciona felicidade. Cada roçar é valioso. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos, de estarmos juntos! Lá ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já é.

Na cidade existem cartazes de mulheres nuas. Por que essa falta de respeito para com a mulher? Na cidade também existem torneiras de onde escorre a água. Que abundância e que desperdício, capazes de fazer um tuaregue chorar. A água para um tuaregue é sagrada. Até então, todos os dias da minha vida tinham sido dedicados à procura d’água. Até hoje, quando vejo as fontes e chafarizes decorativos que existem aqui, sinto uma dor imensa dentro de mim. Porque no começo dos anos 90 houve uma grande seca, os animais morreram, nós adoecemos… Eu tinha uns doze anos e minha mãe morreu. Ela era tudo para mim. Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las bem. Ensinou-me a ser eu mesmo.

Convenci meu pai a me deixar frequentar a escola. Todos os dias eu caminhava quinze quilômetros para chegar até ela. Até que um professor arrumou uma cama para eu dormir, e uma senhora me dava comida quando eu passava em frente à sua casa. Entendi: era minha mãe que me ajudava.

Minha paixão pelos estudos nasceu dois anos antes, quando o rally Paris-Dakar passou pelo nosso acampamento, e caiu um livro da mochila de uma jornalista. Eu o apanhei e devolvi a ela. Mas ela me deu o livro de presente e disse que ele se chamava “O Pequeno Príncipe”. Naquele instante prometi a mim mesmo que um dia seria capaz de lê-lo… Foi assim que consegui uma bolsa para estudar na França.

 Do que mais tenho saudade é do leite de camela. E do fogo de madeira. E de caminhar descalço sobre a areia tépida. E das estrelas: lá, nós as admiramos todas as noites. Cada estrela é diferente da outra, como cada cabra é diversa da outra. Aqui, à noite, vocês ficam vendo televisão.

A insatisfação é a pior coisa que existe aqui. Vocês têm tudo, mas nada lhes é suficiente. Vivem se queixando. Na França passam a vida queixando-se. Vocês se acorrentam por toda a vida a um banco por causa de um empréstimo, e existe essa ânsia de possuir, essa correria, essa pressa. No deserto não existem engarrafamentos, sabe por quê? Porque lá ninguém quer passar à frente de ninguém!

Você me pergunta qual é o momento de maior felicidade no meu deserto. Digo-lhe que ele se repete a cada dia, duas horas antes do pôr-do-sol: o calor diminui e o frio da noite ainda não chegou. Homens e animais retornam lentamente ao acampamento e seus perfis aparecem como recortes contra o céu que se tinge de rosa, azul, vermelho, amarelo, verde… É fascinante! Esse é um momento mágico. Entramos todos na tenda e fervemos a água para o chá. Sentados, em silêncio, escutamos o barulho da água que ferve. A calma toma conta de nós. As batidas do coração entram no mesmo compasso dos gluglus da fervura.
Que paz! Aqui vocês têm o relógio; lá, nós temos o tempo.

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CAPITALISMO E MEIO AMBIENTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

bola verde

O mundo tornou-se perigoso, porque os homens aprenderam a dominar a natureza, antes de dominarem a si mesmos (Schweitzer).

 A natureza pode suprir todas as necessidades do homem, menos a sua ganância (Gandhi).

Não podemos mais ignorar que o capitalismo mórbido entrou numa corrida maluca pelo lucro pecuniário, levando a vida em nosso planeta às raias da loucura. E neste ensandecer consumista, quem está levando os piores golpes é o meio ambiente, supermercado de onde se tira avidamente as mercadorias necessárias à vida, mas onde não se faz reposição alguma, numa matemática suicida. Para dar um exemplo do que acontece bem debaixo de nossos olhos, basta olharmos nas ruas das cidades brasileiras, os lugares vazios deixados pelas árvores que tombaram, quer pela idade, raios ou por uma praga qualquer (quando não pela mão cruel do homem). Os locais permanecem vazios, sem reposição, enquanto o ar continua cada vez mais cheio de poluentes, trazendo inumeráveis doenças respiratórias, com os veículos fazendo a festa. Quem pagará a conta? A vida como um todo.

O uso da tecnologia pelo capitalismo é feita em várias vertentes, mas só que de uma maneira estúpida e irracional. Não é mais possível que continuemos fingindo que somos ostras, ignorando os prejuízos causados ao planeta onde vivemos e, em consequência, a nós mesmos. Esta covardia precisa ser detida, enquanto existe um mínimo de racionalidade em alguns de nós. Podem persistir divergências acerca do tamanho do impacto sobre a vida na Terra, mas negar o óbvio torna-se cada vez mais impossível: a poluição, o aquecimento global, o desgaste da camada de ozônio, o lixo nuclear, o desgaste do solo e das poucas florestas que ainda restam, os perigos levados à saúde através dos conservantes alimentícios, os agrotóxicos cada vez mais poderosos, etc, são indiscutíveis. Somente os loucos varridos contestam-nos.

Nos últimos séculos, o planeta vem inchando consideravelmente. Somos hoje mais de 7 bilhões de habitantes. O crescimento da população tem sido acelerado pelo avanço da medicina nos mais variados campos. O mais preocupante é que o inchaço vem se dando principalmente nos países mais carentes, social e economicamente mais atrasados, numa proporção de 9/1, ou seja, para cada criança nascida num país rico, nove nascem em um país pobre. O que não deixa de ser uma matemática deveras preocupante. Já vemos isso no grande número de imigrantes que deixam seu país de origem em busca de trabalho em outros mais desenvolvidos. Somente o equilíbrio na distribuição de riquezas do planeta poderá segurar os indivíduos na própria terra, caso contrário o caos instalar-se-á, mais cedo do que imaginamos.

Os nossos governantes, em sua imensa maioria, possuem uma visão imediatista de lucro. Não se preocupam em elaborar e seguir um planejamento, que utilize uma tecnologia raciocinada e não tão destrutiva como a que ora vemos mundo afora. Na China, em várias cidades, já é necessário o uso de máscaras pela população, para conseguir respirar. O país está vendendo toda a sua riqueza mineral e vegetal, em busca de lucros rápidos e poder. Os países ricos ali têm feito a sua cozinha a lenha, onde a fumaça devora tudo. E no futuro, como viverá aquela gente? Que isso nos sirva de exemplo. Todo crescimento deve ser planejado, responsável, voltado não apenas para o presente, mas também para o futuro, se quisermos deixar um legado positivo para as futuras gerações.

Os grandes empresários e os governos que querem o crescimento a qualquer custo, não levam em consideração a saúde da Terra. Tudo é feito em curto prazo, como uma maneira de alcançar o máximo de lucro no menor tempo possível. Até mesmo os governantes, de quem os governados esperam bom senso, recusam-se a assumir a abordagem de tais temas, relegando-os às futuras gerações, como se urgentes não fossem. É a magnitude do uso das riquezas do planeta pelo capitalismo, sem se preocupar com a gravidade da finitude dessas.

Os problemas relativos ao desgaste de nosso planeta Terra derivam, principalmente, do uso excessivo de energia, pois frotas de automóveis multiplicam-se pelo mundo, poluindo a atmosfera, principalmente por meio do óxido de nitrogênio, enquanto os transportes públicos, que deveriam minimizar o problema, são relegados a um segundo plano. Não se tem a clareza, ou pelo menos fingem não ter, de que os recursos de nosso planeta não são renováveis, e de que outras gerações deles precisarão. Enquanto isso, o grosso dos governantes, em todos os patamares administrativos, fazem parte da máfia que esconde os dados que revelam os riscos ambientais a que estamos expostos, manipulando e enganando a opinião pública, para que essa apoie todas as suas sandices.

Doenças antigas, tidas como exterminadas, estão voltando com uma força muito maior, enquanto outras novas aparecem. Rios, mares, lençóis freáticos e o ar encarregam-se de transportar os dejetos desta nossa sociedade “tão” evoluída, por todo o planeta, antes tão azul. Troca-se hoje a simplicidade de vida pelo conforto retirado, a duras penas, do meio ambiente. Estaremos todos nós alienados e hipnotizados pela sedução do capitalismo doentio, em vista de nossa negligência em relação à destruição ambiental que se processa ferozmente? Será que também acreditamos que os recursos da natureza, mãe generosa, são ilimitadamente disponíveis? Se o fazemos, não passamos de tolos.

Bem melhor seria se ouvíssemos os nossos ancestrais que nos ensinavam que é melhor prevenir do que remediar. A continuar no ritmo de destruição em que se encontram as riquezas naturais da Terra, não haverá muito a ser remediado, só nos restando lamentar pelos inocentes que virão atrás de nós, com o passar dos tempos.

Nota: Imagem copiada de www.zun.com.br

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ÁFRICA – AS MULHERES NA CULTURA SOMALI

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O território, que hoje constitui a Somália, era repartido entre ingleses e italianos. Mas em 1960, os colonizadores partiram, houve a unificação das duas partes e nasceu um país independente. Poucos anos depois, a corrupção e a luta entre os clãs esfacelaram o país que hoje é um dos mais pobres do continente africano, além de carregar uma cultura que torna mais difícil ainda a unidade entre as diversas etnias.

Absurdamente, as crianças somalis precisam saber de cor toda a genealogia de seu clã. Embora os filhos pertençam ao clã do pai, é importante conhecerem a linhagem da mãe. Nas guerras civis, o clã a que pertence o indivíduo pode significar vida ou morte. A linhagem funciona como uma espécie de casta que é rigorosamente respeitada. Quando dois somalis encontram-se, passam a desfiar toda a genealogia. Se descobrirem que tiveram um antepassado em comum, mesmo que na nona geração, sentem-se ligados como primos. Eles passam a se ajudar mutuamente.  Existem clãs superiores e aqueles considerados inferiores, que precisam se afastar para dar passagem aos outros. Na Somália, os indivíduos que pertencem ao clã sab, são tratados como párias (como os dalits indianos). A intolerância é escancarada. As características físicas e os laços de sangue são levados a extremos, sendo responsáveis pelas guerras civis.

Na Somália, a educação das meninas é toda voltada para a honra. Elas devem ser fortes, espertas e desconfiadas e, sobretudo, acatar as normas do clã. A desconfiança, ensinam os mais velhos, impede que elas sejam roubadas ou possam se perder. Pois quem perde a virgindade mancha não apenas a própria honra, mas a do pai, dos tios, dos irmãos e dos primos. Ao desonrar pai, mãe ou irmão, a mulher estará desonrando toda a sua estirpe. O castigo é a morte por apedrejamento ou ser enterrada viva.  Algumas garotas têm a sorte de apenas serem banidas do contato com a família, sendo repudiada por todos.

Antes de escolher uma esposa, o homem primeiro escolhe o pai da noiva, que deve ter boa reputação dentro do clã. Da moça é exigido que seja jovem, perfeita fisicamente, pura, forte e trabalhadora.  A sogra é responsável por inspecionar sua virgindade. A vida da garota fica nas mãos da futura sogra que não possui nenhum conhecimento sobre a anatomia do hímen. Muitas vezes ela é virgem e é julgada como se não fosse, dado o desconhecimento da mãe do noivo. E sua vida vira um verdadeiro inferno, quando não é morta por membros da família, pela desonra acarretada.

Um casamento não pode ser efetuado sem a presença de um guardião da moça: pai ou irmão. E, na falta desses, atua o parente masculino mais próximo do lado paterno. O casamento consanguíneo na Somália e em parte do Oriente Próximo e da África é o mais desejado pelos pais, pois conserva o patrimônio da família, faz crescer os clãs e os conflitos são logo resolvidos com facilidade. O que também acarreta vários problemas na descendência, em razão dos laços de consanguinidade.

Uma boa esposa tem que ser uma baari, ou seja, uma escrava devotadíssima, que honra a família do marido e a alimenta sem questionar e nem se queixar. Nunca chora ou faz qualquer exigência. É forte no serviço e traz a cabeça sempre baixa. Mesmo que o marido seja cruel, estuprando-a ou espancando-a, ela deve abaixar os olhos e ocultar as lágrimas. Deve dizer para si mesma que Deus é justo e onisciente e vai recompensá-la no além. De modo que todos ficarão conhecendo a sua paciência e força e haverão de cumprimentar seu pai e sua mãe pela maravilhosa educação que lhe deram. Também estará honrando seus irmãos, tios e primos. Pois uma mulher deve falar com orgulho sobre a sua submissão para outras famílias, de modo que a família do marido possa apreciar a sua obediência e vir a gostar dela.

A mutilação dos órgãos genitais é um dos maiores absurdos encontrados na cultura somali. Vejam o artigo: ÁFRICA – A ABLAÇÃO DA GENITÁLIA FEMININA

Fontes de Pesquisa:
Reconciliação (Benezir Bhuto)
Infiel (Ayaan Hirsi Ali)
Nove Partes do Desejo (Geraldine Brooks)

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AFEGANISTÃO – O CASAMENTO NO PAÍS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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É triste ver como em certas culturas a mulher (muitas vezes ainda uma criança) continua sob o jugo machista da sociedade em vigor, tratada como escrava e sem nenhum direito de opinião. Vimos isso na Índia com o hinduísmo e agora no Afeganistão com o islamismo. Fato que se repete nos demais países islâmicos.

A primeira esposa de um afegão é escolhida a dedos pela sogra, que leva em conta seus dotes físicos, morais e pecuniários. Os outros casamentos ficam por conta da escolha do próprio filho (o homem pode ter outras esposas). O primeiro casamento é especial, talvez pelo fato de que a primeira esposa carregue a maior responsabilidade pela família do marido.

É a mãe do noivo quem faz o pedido de casamento aos pais da futura nora. Embora esses fiquem felizes com o possível casamento da filha, a tradição reza que devem sempre responder “não” ao pedido. A negação significa que a escolhida é muito preciosa e que eles não querem que ela deixe a família. Tudo é um faz de conta, para que o dote seja o mais generoso possível.

Ao contrário do que vimos na cultura hindu, em que os pais da noiva são os responsáveis pelo pagamento do dote à família do noivo, entre os afegãos quem recebe tal pagamento é a família da nubente. Mas, tanto ali como acolá, a futura esposa não é consultada em nada. A transação comercial é realizada entre os pais do futuro casal.

Nos tempos em que o Taleban governava o país, as famílias procuravam casar suas filhas o mais depressa possível, pois a milícia costumava raptar jovens solteiras, para que se casassem com seus homens. Mesmo sendo impedidas de saírem às ruas, para não serem vistas, os talibãs eram informados de que essa ou aquela família tinha uma filha bonita. Invadiam as casas e roubavam as garotas.

Embora as mulheres afegãs, na sua imensa maioria, andem pelas ruas em trajes escuros e desmazelados, no dia do noivado ou do casamento devem se apresentar maravilhosas, com muita pintura, penteado chamativo e vestimenta colorida e cheia de pedrarias. O visual, que parece aos olhos ocidentais, exagerado e chamativo, em Cabul significa virgindade.

Antes da festa de noivado, outra é celebrada para comemorar o acordo feito entre as duas famílias, marcando o fim das negociações. É quando a sogra pendura um colar de ouro no pescoço da futura nora e as futuras cunhadas e tias colocam-lhe anéis nos dedos, deixando-a cheia de ouro (casamento entre famílias ricas).

Os afegãos tradicionais não gostam de pelos no corpo. Consideram-nos nojentos e horrorosos. Gostam do corpo suave e liso. De forma que a noiva precisa fazer uma limpeza corporal completa, deixando apenas os cabelos e os cílios. Todo o resto é raspado. As afegãs pobres, que não podem fazer uso dos serviços de um salão de beleza, ou as que são extremamente tímidas, para permitir que lhes removam os pelos pubianos, fazem o serviço em casa. Algumas chegam a arrancar os pelos com as mãos ou com chicletes.

Qualquer que seja o método usado, a depilação corporal é aterrorizante. Quase toda mulher sabe disso, assim como os demais simpatizantes da feminilidade. No caso afegão, o consolo é que o noivo também passa pelo mesmo ritual, removendo todos os pelos corporais. Mas, apenas lhe raspam o corpo, ao contrário da mulher que tem os pelos arrancados na raiz.

As mulheres afegãs não possuem vida social, de modo que as festas de noivado e casamento transformam-se em grandes acontecimentos. Mesmo os cinemas são proibidos a elas. De modo que tais eventos são feitos com esmero, sem a preocupação de economizar nada, como se quisessem compensá-las pela vida de reclusão. Muitas famílias ajuntam dinheiro ou fazem muitas dívidas para tal fim.

Nas festas de noivado e de casamento, homens e mulheres ficam segregados em compartimentos diferentes. Quando a família tem posses, a festa acontece em andares diferentes, com duas bandas tocando. Quando não é rica, o salão é dividido em dois por uma cortina. Há músicas o tempo todo. As danças são sensuais, tanto do lado masculino quanto do feminino. Depois a comida é servida abundantemente. A regra é que cada convidado coma dez vezes mais que o seu normal. Não há utensílios, de modo que todos comem com as mãos. Quando as vasilhas de comida são retiradas da mesa, os convidados começam a ir embora.

As fotos de casamento são tiradas com as irmãs do noivo, segurando o Alcorão acima da cabeça da noiva. Procuram imitar as estrelas dos filmes de Bollywood, que todo mundo adora no Paquistão, apesar da rivalidade com a Índia.

A futura esposa (e sua família) deve permanecer triste durante todas as cerimônias relacionadas ao casamento, mostrando-se descontente com esse, pelo fato de ter de trocar a casa dos pais pela casa da família do marido. Sua tristeza funciona como um sinal de respeito pela família que irá deixar. Portanto, quem se esbalda na festa é o noivo e sua gente.

A cerimônia de consumação é o próximo evento da agenda matrimonial do casal. Vão para um quarto, enquanto as famílias e convidados ficam esperando que o marido entregue um lenço branco manchado com sangue, que comprovará a virgindade da esposa. Caso isso não aconteça, ela é entregue de volta a sua família e o casamento é anulado, debaixo de muita humilhação.

Após o casamento, marido e sogra, muitas vezes, mostram-se verdadeiros tiranos. A esposa passa a ser uma empregada da casa, fazendo todos os serviços, enquanto o marido trabalha e se diverte na companhia de outros homens. Para que um homem se divorcie de sua esposa no Afeganistão, só precisa dizer três vezes, diante de testemunhas “Eu me divorcio de você”. Num divórcio afegão, a causa da separação é sempre atribuída à mulher. Ou ela é má cozinheira, ou é desobediente, ou não era virgem. E, nada pode ser pior para uma mulher do que ser abandonada pelo marido. Uma mulher divorciada é tratada como “puta”, não merecendo o respeito das pessoas. Jamais poderia ser uma primeira esposa de outro homem.

As mulheres, em países como o Afeganistão, continuam não fazendo parte das decisões políticas e sociais. O que é uma pena, pois muito poderiam contribuir para o crescimento do país.

Nota: Imagem copiada de http://focalfixa.wordpress.com/2011/12/16/

Fonte de pesquisa:
O Salão de Beleza de Cabul/ Deborah Rodriguez/ Editora Campus

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ALDEIA GLOBAL E O CAMINHO DO MEIO

Autoria deLu Dias Carvalho

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Marshall McLuhan criou, nos anos de 1960, o termo “aldeia global”, para mostrar que as fronteiras dos países estavam sendo eliminadas e a Terra estava se transformando numa única comunidade com bilhões de pessoas. Como acontece nas comunidades, principalmente com os indivíduos obrigados a aceitá-las por imposição, essa reunião de pessoas teve e tem os seus altos e baixos. Algumas estão felizes com o andar da carruagem, enquanto outras estão permanentemente insatisfeitas, ao constatarem que lhes sobrou apenas um pangaré.

Não há como pular fora desta aldeia, pois a sua evolução é inevitável e, em função disso, a espécie humana precisa aprender a conviver com suas benesses e malefícios.  São muitas as dores enfrentadas no diluir das fronteiras, sendo algumas passageiras e outras crônicas. Dentre elas podemos salientar o mal dos dias atuais: o fanatismo religioso que vem descambando para o extremismo e o terrorismo confesso, assim como o anarquismo moral. Não há quem não saiba que ambos são empecilhos à harmonia da aldeia global.

 O extremismo, seja lá de que natureza for, não tem compromisso com o agora. Suas ações visam resultados em longo prazo. O fato de se estar vivo e o de lutar por uma vida valorosa no presente não tem significado algum. Enquanto as pessoas equilibradas lutam, tendo como objetivo o alcance do bem comum para si e para os que estão à sua volta, os extremistas torcem para que o caos se instale, seguidores que são da filosofia do quanto pior, melhor.

 Por sua vez, o anarquismo moral é o desrespeito aos valores e à ética que devem nortear um povo. É a falta de parâmetros na distribuição de riquezas no mundo. É a falta de cooperação entre aqueles que detêm a capacidade de agir, visando o bem comum. É a busca pela riqueza e pelo poder a qualquer preço. É o descaso para com o planeta Terra e suas espécies. É a prepotência, o viver sob o comando do ego, inimigo capcioso e vil.

 Sempre tive dificuldade em me ater às crenças religiosas, pois as vejo como fatos da história, mas acredito piamente no poder imensurável que cada homem carrega dentro de si, pois ele é um microcosmo. Tudo encontra em seu interior,  tanto o bem quanto o mal. Se tal poder for usado com sabedoria, reverterá em bons frutos para todos, mas o contrário se dará com quem o usar de outra forma, pois não se pode plantar urtiga e colher alface. De que adianta ir aos templos “sagrados”, se se negligencia o templo interior, onde se aprende a reverenciar a si mesmo, os irmãos de planeta e a própria Terra? Quem vive de aparências não passa de um vaidoso tolo.

O fato de sermos generosos com todas as espécies de vida não significa  um caminho para o perdão de nossos “pecados” ou para a redenção de nosso “carma” numa outra dimensão. Esqueçamos isso. É apenas a única forma de sermos felizes agora, pois a energia advinda de nossas boas ações fluirá sobre nosso corpo carnal e nossa mente, no presente momento em que a ação se processa. Se arremessarmos uma bola na parede, ela voltará para nós. Assim acontece com as nossas ações, que reverterão em energia negativa ou positiva, em relação a tudo que fizermos. A escolha é de cada um de nós.

 A palavra-chave para vivermos bem nesta “aldeia global”, onde crenças e valores morais estão divergindo e entrando em conflito todo o tempo, é o equilíbrio, o célebre Caminho do Meio ensinado por Buda, que convida todos os homens, indiferentemente de suas crenças e ideologias, a se unirem em torno dos melhores interesses de cada comunidade, colocando de escanteio o ego, a prepotência, o desejo de posse. Precisamos aprender que nada nos pertence de fato, pois tudo nos é emprestado por um determinado tempo.

Cada um de nós é único nesta “aldeia global”, o que individualiza as nossas responsabilidades para conosco, para com os outros e para com a Terra e demais formas de vida. A nossa racionalidade permite-nos exercer e sofrer influências. Não podemos fugir da raia. A omissão reverterá em energia negativa, enfraquecendo-nos diante do mundo e, sobretudo, diante de nós mesmos. Nenhum de nós ficará imune às próprias escolhas, conforme a lei de Ação e Reação.

 Os três sábios da Antiguidade: Aristóteles, Buda e Confúcio (ABC) ensinaram, em épocas diferentes, que o extremismo é o maior dos males da humanidade, pois se contrapõe à felicidade, à saúde e à harmonia. Resta-nos continuar buscando o equilíbrio em tudo que fizermos. Sempre em busca do Caminho do Meio, do bom senso, do ecumenismo e do sentimento de igualdade.

Nota: imagem copiada de http://tudosobreglobalizao.blogspot.com.br

 Fonte de Pesquisa:  O Caminho do Meio/ Lou Marinoff

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