Chardin – A GOVERNANTA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Chardin faz-nos admirar a simplicidade e a verdade que norteiam suas obras, atraindo a todos devido à perfeita imitação da natureza, que prende o olhar. (Abade Desfontaines)

O pintor francês Jean-Baptiste-Siméon Chardin, além das naturezas-mortas, gostava de pintar quadros sobre o cotidiano das pessoas. Era muito habilidoso e possuidor de grande sensibilidade, ao harmonizar cores e tema. A sua obra A Governanta, exposta no Salão de Paris, em 1739, foi muita apreciada pela crítica e pelo público.

A composição mostra uma governanta e um garoto numa sala. Ambos estão vestidos de acordo com a moda da época. Ela conversa com o menino que, de olhos baixos, mostra-se indeciso. O garoto usa cabelos presos com uma fita azul, também presente em sua vestimenta. Debaixo do braço esquerdo estão os livros. Até ali, ela foi a responsável por sua educação, mas agora ele tem que trilhar outros caminhos, aprender coisas mais sérias, que provavelmente nem ela saiba. O que sugere que a governanta esteja aconselhando-o no enfrentamento de uma nova vida.

Uma porta entreaberta leva a outro ambiente, sugerindo a entrada do garoto no mundo dos adultos, onde as regras mudam, e onde há prazer e sofrimento. A escola é o início de uma nova vida. Na parte esquerda da porta está a assinatura do artista e a data em que a obra foi concluída.

Atrás do garoto está uma mesa de jogos com uma gaveta meio aberta, o que traz a ideia de que ele ainda não tem cuidado com suas coisas. As cartas no chão sugerem que estavam guardadas na gaveta. Para trás estão ficando seus brinquedos e jogos: cartas, raquete e peteca. Sinônimo de que sua vida agora não é mais só de brincadeiras. Ao apontar para a porta, as duas cartas principais: rei de copas (representa o amor) e o às de espadas (representa a morte) mostram que o menino terá no futuro alegrias e sofrimento.

A governanta mostra-se cônscia de suas obrigações e do dever cumprido na educação da criança até ali. A sua expressão é ao mesmo tempo de firmeza e de carinho para com o menino. Ela também parece sofrer com as mudanças, mas o incentiva a ir em frente. Traz em uma das mãos o chapéu tricorne do garoto e na outra uma escova. Provavelmente seja a última peça a ser acrescentada à vestimenta da criança.

Ao lado da governanta, em primeiro plano, está a sua cesta de trabalhos. Dentro dela estão objetos simples como novelos de lã.

Ficha técnica
Ano: 1739
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 46,5 x 37,5
Localização: National Gallery, Ottawa, Canadá

Fontes de Pesquisa
Os pintores mais influentes do mundo/ Girassol
A história da arte/ E.H. Gombrich
Arte em detalhes/ Folha

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Mestres da Pintura – JEAN-BAPTISTE-SIMÉON-CHARDIN

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A magia de seu trabalho é difícil de compreender-se. Usa espessas camadas de cores, uma sobre as outras, com o efeito final filtrando do interior. Alguma vezes parece que uma nuvem de vapor foi soprada através da tela, outras como se espuma de luz tivesse sido arremessada contra ela… Se se olha de perto, tudo se torna confuso, comprime-se, desaparece; quando se afasta, as formas reaparecem e vervivem. (Diderot)

Quem disse que se pinta com cores? As cores são utilizadas, mas as pinturas são feitas com emoções. (Chardin)

O francês Jean-Baptiste-Siméon Chardin (1699-1799) é tido como um dos mais importantes pintores de naturezas-mortas da arte europeia, sendo suas obras muito estudadas pelos artistas do gênero, posteriores a ele. As suas naturezas-mortas, assim como sua pintura de gênero, são elementos importantes da arte francesa. Sobre o pintor, assim escreveram os Goncourt, dois irmãos franceses: “Ele limita a sua pintura ao mundo humilde ao qual pertence, e ao qual pertencem seus hábitos, seus pensamentos, suas afeições […] adere à ilustração e à representação das cenas que tocam e o comovem…”

Chardin nasceu em Paris. Era filho de um marceneiro que o enviou para ter aulas Nöel-Nicolas Coypel, responsável por sua formação como pintor. Ao restaurar os afrescos de Rosso e Primaticcio em Fontainbleau, com Van Loo, adquiriu uma vasta experiência. Chardin  casou-se, mas sua esposa e filha morreram dentro de um período de dois anos de distância  uma da outra. Seu filho, também pintor, afogou-se em Veneza anos mais tarde, enchendo sua vida de eventos tristes. Foi aceito, aos 29 anos de idade, como pintor-mestre pela corporação de pintores da Academia de São Lucas.  Em 1728, foi para a Academia Real de Pintura e Escultura . Sua famosa tela “A Arraia”, ao ser exposta, fez com que ele fosse notado e reconhecido.  Em 1733, iniciou suas pinturas figurativas. Dois anos depois, passou a expor no Salão do Louvre.

O pintor francês limitava-se a pintar cenas plácidas, mas cheias de intensidade poética. Nelas tudo estava à vista, sem surpresas ou significados simbólicos. Ele era influenciado, sobretudo, pela natureza. Ao pintar, Chardin abria mão da imaginação para retratar o motivo diante de si. Usava cores contidas, matizadas e a arrumação dos objetos na tela parecia casual, sem nenhum destaque para a iluminação. Suas pinceladas apenas davam vida ao comum e faziam com que o todo parecesse mais do que a soma das partes.

Era admirador de Rembrandt, David Teniers – o Jovem, Willem Kalf, Johannes Vermeer, Pierre-Jacques Cazes e Noël-Nicolas Coypel. Artistas que se inspiraram em Chardin: Gustave Coubert, Édouard Manet, Henri Fantin-Latour, Paul Cézanne, Henri Matisse, Giorgio Morandi, Lucian Freud, dentre muitos outros.

Chardin teve uma longa carreira, iniciada com a pintura de naturezas-mortas, vistas, naquela época, pela Academia Francesa, como uma categoria inferior da arte. Depois passou a pintar cenas do cotidiano, sempre retratando ambientes humildes. Sua pintura é tida como verdadeira, direta e honesta. Morreu aos 80 anos de idade depois de um longo período de enfermidade, mas ainda pintando.

Fontes de Pesquisa
Os pintores mais influentes do mundo/ Girassol
A história da arte/ E.H. Gombrich
Arte em detalhes/ Folha

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O HOMEM E A ANDROPAUSA

Autoria do Dr. Telmo Diniz

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Diferentemente do que ocorre nas mulheres durante a menopausa, quando há a interrupção das menstruações e a parada na produção dos hormônios femininos, na andropausa ocorre uma redução gradativa na produção dos hormônios masculinos, notadamente da testosterona. Se esta queda se dá de forma muito abrupta, advêm os sintomas da andropausa ou do distúrbio androgênico do envelhecimento masculino (Daem).

A andropausa pode causar grande variedade de sinais e sintomas nos homens, que, se passarem desapercebidos, geram grandes transtornos para quem sofre do problema. No diagnóstico, leva-se em conta o que o indivíduo sente, ou seja, as suas queixas principais associadas à mensuração dos hormônios no sangue. A testosterona não apenas controla o desenvolvimento das características sexuais no homem e as funções de reprodução do seu corpo (desejo sexual, ereção, desenvolvimento e maturação do espermatozoide), mas também desempenha papel importante na memória e no bem-estar físico e emocional.

Algumas doenças e o próprio envelhecimento mimetizam os sinais da andropausa. Daí a dificuldade no diagnóstico diferencial. A deficiência de testosterona se manifesta clinicamente por múltiplos sintomas, desde os sexuais até os menos específicos, que se refletem na queda do desempenho físico e mental e em problemas neuropsiquiátricos como depressão, ansiedade, alta irritabilidade e dificuldade de concentração. Os sintomas raramente são reconhecidos como decorrentes de deficiência hormonal, sendo atribuídos ao estresse causado pelo trabalho ou a dificuldades do dia a dia.

A andropausa pode levar a sérias alterações de saúde. Portanto, deve ter seus sintomas levados a sério (vários homens têm vergonha de falar quando o assunto envolve a esfera da sexualidade). Os sinais e os sintomas variam e dependem da idade de cada indivíduo. Normalmente, o que chama a atenção é a disfunção da ereção e a diminuição da libido. Sintomas frequentemente presentes, e pouco relacionados com a andropausa, compreendem letargia, cansaço generalizado, perda de cabelo, diminuição dos testículos, perda da memória, desatenção e mudanças de humor (irritabilidade), diminuição da massa muscular e densidade óssea (osteoporose).

Os sintomas podem ser minimizados e tratados por meio da Terapia de Reposição Hormonal (TRH). A reposição está indicada quando a presença dos sintomas sugestivos de deficiência androgênica for acompanhada de níveis séricos de testosterona baixos. A TRH tem efeitos colaterais e, portanto, deve ter indicação e acompanhamento médico restrito. Os objetivos da TRH são restaurar a libido, melhorar o humor e vigor físicos, desenvolver a massa muscular e melhorar a densidade óssea. Em síntese, melhorar a qualidade de vida da pessoa.

Nota: imagem copiada de cuidadosnaterceiraidade.blogspot.com

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David – A MORTE DE SÓCRATES

Autoria de Lu Dias CarvalhosocratesÉ a maior realização da arte desde a Capela Sistina (Sir Joshua Reynolds)

A composição intitulada A Morte de Sócrates foi pintada pelo artista francês Jacques-Louis David (1748 – 1825) a pedido de um mecenas. Tanto o tema heroico quanto as formas clássicas dizem respeito ao neoclassicismo, sendo o artista o pioneiro e líder da pintura neoclássica na França. Em seu estilo, o artista dava destaque a tudo que fosse de rara qualidade na Antiguidade clássica.

David pintou a cena em que Sócrates encontra-se na prisão e recebe a visita de seus discípulos, momentos antes de tomar a taça de veneno, preferindo morrer a ter que mudar suas ideias em nome do conhecimento. Ao contrário dos amigos que o cercam, impotentes e chorosos, ele se mostra vigoroso, não se deixando abater. O pintor realça sua figura, jogando sobre ela toques de luz.

A cena acontece numa sala em estilo romano. Ao lado do mestre estão nove de seus discípulos. Embora Platão apareça na composição – o homem assentado aos pés da cama – à época ele se encontrava doente e não esteve presente no momento da morte do seu querido mestre. Era também muito mais novo, pois contava com 20 anos de idade na ocasião.

Sócrates aproveitou até os momentos finais de sua vida para ensinar. Em sua sabedoria usou o que lhe ia acontecer para debater com seus discípulos sobre a imortalidade da alma. Seu dedo levantado indica que há uma dimensão mais elevada do que a Terra, onde vivem os mortais. Não há tensão ou medo em seu corpo. Ele nem ao menos dirige o olhar para a taça de cicuta, apenas estende a mão para pegá-la.

Apolodoro é a figura que se encontra encostada na parede, com as mãos para cima em grande desespero. Segundo Platão, Sócrates foi obrigado a pedir que ele fosse embora, tamanho era o transtorno em que se encontrava. O pintor David optou por colocá-lo na sombra, mais afastado do grupo.

Com exceção do rapaz que segura a taça de veneno, as pessoas presentes no ambiente fazem parte do círculo de amigos do filósofo. O moço, vestido de vermelho foi encarregado de levar o veneno e testemunhar a morte de Sócrates, mas ele também se encontra visivelmente perturbado, virando-se e tapando o rosto para não ver a cena. O heroísmo do filósofo e a injusta sentença são demais para ele que aperta os olhos com os dedos. Cristo, um dos discípulos mais queridos de Sócrates, está assentado a seus pés, com a mão direita em seu colo. Ao ser anunciada a sentença, ele tenta convencer o mestre a fugir.

Platão, assentado na cabeceira da cama, reage com dignidade diante da morte do mestre. Imóvel, apenas acompanha com os ouvidos as palavras de Sócrates. Direciona seus olhos para o chão, como se estivesse perdido em pensamentos, filosofando sobre o destino do mestre. Um dos discípulos traz o rosto entre as mãos, enquanto outro, de costas, clama aos céus. São variadas as expressões de tristeza e dor vista no ambiente.

O cálice de veneno ocupa o centro da composição. David inteligentemente coloca-o em evidência ao direcionar para ele o braço de Sócrates e o do do rapaz que oferece a taça com o líquido mortífero. Um ambiente descortina-se depois da porta, onde estão presentes alguma figuras, duas delas indiferentes ao que se passa na sala ao lado. Num outro ambiente à esquerda,  seguida por uma mulher, a esposa de Sócrates é vista deixando a prisão.

Ficha técnica
Ano: 1787
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 1,30 x 1,96 cm
Localização: Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA

Fontes de pesquisa
Tudo sobre arte/ Editora Sextante
História da arte ocidental/ Editora Redeel

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O TATU-BOLA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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É fato que passei por muitos contratempos ao ganhar o status de mascote da Copa do Mundo Fifa de 2014, realizada no Brasil. Se pertenço à família dos bolas, sendo conhecido como tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) ou tatu-bolinha, encontro-me em casa, pois Copa não é sinônimo de bola? E eu tenho a capacidade de dobrar minha carapaça como uma bola, literalmente. E rolando se vai ao longe, de uma trave a outra, em busca do momento perfeito para o gol. Embora humilde, oriundo dos cerrados e caatingas do nordeste e centro-oeste brasileiros, eu represento todo o meu país. Sou um filho genuíno destas terras onde cantam os sabiás, embora, infelizmente, eu me encontre no rol das espécies aqui ameaçadas de extinção.

Algumas pessoas da mídia questionaram o porquê de a dona FIFA ter me escolhido, em vez de eleger o mico-leão-dourado, ou o tamanduá-bandeira, ou a onça-pintada ou a ararinha-azul, como mascote. Não tenho nada contra esses meus irmãozinhos, mas questiono: o que há de errado comigo? Como os demais, também sou filho desta terra amada, bonita por natureza. E com os filhos não se pode ter preconceitos, sejam eles brancos, amarelos, azuis ou verdes. Todos devem ser amados e protegidos na mesma proporção. E todos devem defender seu torrão pátrio com orgulho, respeito e responsabilidade.

Depois de tentarem colocar a minha autoestima de tatuzinho no buraco, embora eu não me importe com tais rabugices, pois sou chegadinho numa toca, certos “narcisos” passaram a implicar com meu nome. Disseram que Fuleco lembra as palavras “fuleiro” e “furreca”, que significam “coisa sem valor”. Mas não dei a mínima. Saibam os pernósticos de plantão, que não se mede um animal pelo nome, assim como não se julga um homem. Conheço pessoas com nomes esdrúxulos, mas que deixaram seu nome na história da humanidade, enquanto outros pretensiosos, como nomes rebuscados, não valem ou um tostão furado. “Garrincha”, por exemplo, não tem um nome capaz de agradar aos pedantes, mas que era bom de bola, isso era. E quem tem que se preocupar com o nome são os jogadores, pois a Copa serve de vitrine para eles. Se terminada a Copa, passarem a me proteger, assim como os outros animais em vias de extinção, já me dou por muito agraciado.

Para quem ainda não sabe, o nome desse tatuzinho aqui, que não é outro senão eu, tem uma razão de ser. Trata-se da junção de Fu (de futebol) + eco (de ecologia). O “l” é apenas uma letra de ligação, mas eu a considero como “l” de legal, pois é assim que me considero. O resto é blábláblá, falta de assunto, coisa de gente que vê o mundo com lentes de fundo de garrafa, sempre de mal com a vida. E como se não bastasse tanta implicância, disseram ainda que sou muito feio e que me pareço com um ET, o que me deixou muito prazenteiro, pois o homem procura por ETs há centenas de anos. Existir um extraterrestre aqui na Copa, em solo brasileiro, é sinal de que simbolizo a vida inteligente deste país.

Os pernósticos disseram também que eu lembro “cemitério”, “buraco”, “esconderijo”. Essa foi ótima! Significa que sou vida e também sua finitude. O que é o “cemitério” senão a morada final de todos os homens? Aquele “buraco” será o “esconderijo” de seus ossos, por anos a fio, até que o tempo transforme-os em pó. Por que tanto medo da morte? Basta apenas que vivam bem a vida! Em muitos lugares, os cemitérios constam hoje da lista de locais a serem visitados,  sendo vistos com respeito e admiração pelos visitadores. Mas não há muito o que que dizer para as pessoas que não aceitam a finitude da vida e que se sentem como os donos do planeta, os detentores da verdade suprema. Eis a questão!

Certo senhor, de cujo nome nem me lembro, qualificou-me como “um dos mascotes esportivos mais repulsivos de todos os tempos”. Pessoas preconceituosas existem aqui e em todas as partes do planeta, e continuarão a existir, quer queiramos ou não. Quem sou eu para mudar o mundo. Se esse senhor me trata assim, um animalzinho inocente e vulnerável, com um habitat cada vez mais reduzido pela ganância humana, incapaz de fazer mal a quem quer que seja, imaginem o quão preconceituoso ele é, e como deve tratar mal as pessoas com as quais convive. Portanto, dei o dito por não dito. O importante é o conceito que faço de mim mesmo, o amor que tenho pelo meu país e por meu povo. Sou cônscio, sobretudo, da minha real importância na manutenção do ecossistema e do próprio planeta. E é por meus irmãos e por mim, em vias de extinção, que quero fazer um gol de placa na proteção do planeta como um todo.

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David – O JURAMENTO DOS HORÁCIOS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Essas marcas de heroísmo e virtude cívica, apresentadas aos olhos do povo, eletrizarão a alma e plantarão as sementes da glória e da lealdade à pátria. (Jacques-Louis David)

Esta obra contém algo ao mesmo tempo pungente e terno; uma alma alça voo no ar frio do aposento, entre estas paredes frias, em volta desta fria banheira funerária. (Charles Baudelaire)

Esta é uma das composições mais famosas do pintor francês Jacques-Louis David, que tinha apenas 17 anos, quando a pintou, elogiada pelos críticos e pelo público. Apresenta um episódio histórico da história da Roma antiga, numa guerra travada com a cidade de Alba Longa, entre duas famílias: os três irmãos romanos (os Horácios) e os três irmãos inimigos (os Curiácios). O combate mortal definiria quem ganharia a república romana. Durante a batalha, dois irmãos da família Horácios morreram, mas o único que sobrou, acabou com todos os seus adversários, assegurando o domínio de Roma.

O pintor mostra o momento em que os irmãos Horácios, diante do pai, juram fidelidade ao Estado romano e, se preciso for, darão por ele a própria vida. Eles optam pela lealdade à República romana em vez da lealdade à família, pois Horácios e Curiácios possuem estreitos laços familiares e emocionais:

1. um dos irmãos Horácios é casado com uma irmã dos Curiácios;
2. um dos irmãos Curiácios está comprometido com uma irmã dos Horácios.

Os três irmãos Horácios, abraçados, e com a mão direita estendida em juramento, apresentam-se como heroicos guerreiros diante do pai, mostrando seus perfis ao observador. Trazem os rostos sérios, e seus corpos expressam a linguagem corporal de que, através do dever da disciplina, estão prontos para o combate, até para morrer, se necessário for. Os músculos tensos simbolizam a vontade férrea de lutar.

O pai dos irmãos Horácios demonstra dignidade e sacrifício em sua pose. Na mão esquerda, ponto central da pintura, levanta três espadas iluminadas pela luz solar, simbolizando três vontades,  e com a direita parece abençoar os filhos, a quem entregará as armas. Seu gestual simboliza a comunhão dos três irmãos através do juramento feito. A vitória terá mais valor do que a vida. O velho Horácio traz a cabeça levantada e os olhos fixos no punho das espadas. O vermelho vivo é a cor predominante no grupo masculino, cor da paixão e da Revolução.

Três mulheres acabrunhadas e dóceis, assentadas à direita da composição, abaixam a cabeça para não verem a cena. Duas delas têm os braços inertes, ao contrário dos homens que demonstram ação, enquanto a terceira aconchega-se aos netos. A suavidade dos traços femininos denota emoção e tristeza. Sabina, a mulher de branco, é casada com um dos irmãos Horácios, sendo uma irmã dos Curiácios. A outra, que nela se apoia, é Camila, irmã dos Horácios e noiva de um dos Curiácios. Ambas são irmãs da mesma sina.

A sombra dos quatro homens cai diretamente sobre as crianças, debaixo do manto azul da mãe dos Horácios, a avó delas. O menino maior olha fixamente para os homens. Ao apontar as crianças com a sombra, o pintor passa a mensagem de que mesmo elas deverão, se preciso for, pagar o preço que a lealdade ao Estado requer.

O ambiente em que o grupo encontra-se é totalmente desprovido de ornamentos, com exceção de uma lança, no fundo escuro do arco dórico central. Num cenário romano, com colunas dóricas e colunas semicirculares, tudo remete ao mundo masculino e militar, que exala despojamento e disciplina. As figuras da composição estão distribuídas pelos três arcos dóricos. Os três irmãos são emoldurados pelo primeiro, o pai pelo segundo e as mulheres e as crianças pelo terceiro.

Tudo na composição lembra a época romana: togas, elmos e espadas, copiados fielmente. Até mesmo os rostos mostram o conhecido “nariz romano”.  As linhas retas  definem os corpos masculinos e as curvas dos femininos. A assinatura, à esquerda da composição, na parte inferior, é neoclássica. Está escrito “L. David faciebat Romae Anno MDCCLXXXIV” (significa: Criado em Roma por David em 1784). David fez esta tela com o intuito de que ela fosse uma obra de propaganda na derrubada da monarquia francesa, o que aconteceu quatro anos depois. A representação do juramento heroico de lutar até a morte era uma alegoria ao desvelo dos revoltosos franceses.

Obs.: Esta pintura, reconhecida como uma obra-prima, significou também um chamamento à revolução estética e política e, mais tarde, como um dos mais importantes documentos do neoclassicismo.

Ficha técnica
Ano: 1784
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 330 x 427 cm
Local: Museu do Louvre, Paris, França

Fontes de pesquisa
Arte em detalhes/ Publifolha
A história da arte/ E.H. Gombrich
O Sol do Brasil/ Lilia Moritz Schwarcz
1000 obras-primas da pintura europeia/ Editora Könemann

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