Autoria de Lu Dias Carvalho
Uma coisa, que me vem me chamando a atenção há muito tempo, é o número de filhos de cantores seguindo a carreira musical do pai ou da mãe. Trata-se de algo nunca visto com tanta frequência no mundo das artes, em qualquer lugar do mundo. E aí me vem uma séria indagação: será que se trata de talento ou meramente de oportunismo? Tenho certeza absoluta de que o leitor responder-me-á que, na quase totalidade, trata-se do mais puro oportunismo.
Este assunto veio-me à baila, quando dias atrás, em razão de uma forte gripe, tive que ficar acamada. Inquieta, comecei a mudar de canal o tempo todo. E, para minha surpresa, deparei-me com uma dupla sertaneja (Dablio & Phillipe) em que Nathan Phillipe é filho de Luciano Camargo, que canta com seu irmão José de Camargo, que por sua vez tem uma filha cantora de nome Vanessa Camargo. Ou essa família foi brindada com tão forte dom musical, ou os filhos estão procurando se deitar na fama dos pais. Pelo visto, ninguém quer dar duro, achando que o sobrenome é um passaporte para o sucesso.
Em razão da surpresa exposta acima, comecei a elencar nomes de filhos de cantores famosos que seguem a mesma profissão. Vejamos alguns, Luiza Possi, filha de Zizi Possi; Jairzinho e Luciana Rodrigues, filhos de Jair Rodrigues (falecido em 2014); Nana Caymmi, Dori Caymmi e Danilo Caymmi, filhos de Dorival Caymmi; Diogo Nogueira, filho de João Nogueira (morto em 2000); Pedro Leonardo, filho do sertanejo Leonardo; Tiago, sobrinho de Leonardo e filho de Leandro (morto em 1998); Maria Rita, filha de Elis Regina (falecida em 1982); Martinália, filha de Martinho da Vila; Sandy e Júnior, filhos de Xororó e sobrinhos de Chitãozinho; Aline Lima e Alison Lima, filhos de Chitãozinho e sobrinhos de Xororó e primos de Sandy e Júnior; Pipo Marques e Rafa, filhos de Bell Marques; Lucas, filho de Péricles (Exaltasamba); Fiuk, filho de Fábio Júnior; Cláudio Lins, filho de Ivan Lins e Lucinha Lins; Victor, filho de Rick (Rick&Renner); Preta Gil, filha de Gilberto Gil; Marcelo, filho de Gian (Gian&Giovani); Moreno, filho de Caetano Veloso e sobrinho de Maria Betânia. Pelo menos Chico Buarque não colocou nenhuma das filhas para seguir seus passos. Palmas para ele. Vou parar por aqui, para não cansar o leitor, mas ainda há muita gente para entrar na lista.
O Brasil é um país com 201 milhões de habitantes e, como dizem, há gostos para todos os tipos. Até mesmo para as “cacas”. Enquanto existe gente talentosíssima entre os citados, alguns parecem zombar do público, pois não cantam absolutamente nada. Dentre esses, de baixíssima qualidade, alguns apenas se limitam a fazer uma segunda voz da mais baixa categoria. Ninguém merece isso num país tão carente de grandes valores e exemplos. Nosso povo precisa aprender a distinguir entre o que realmente vale a pena ser ouvido e aquilo que lhe é empurrado por uma mídia, cuja medida de qualidade é unicamente o sobrenome da família do “artista”. Enquanto grandes talentos não possuem vez, por não possuírem padrinhos e dinheiro, outros, sem autocrítica, deitados na cama do sobrenome, sem uma gotícula de talento, ganham grande espaço na mídia. E pior, seus pais fingem ignorar que os filhos são desprovidos de aptidão para tal arte, pois o que lhes importa é a fama e mais dinheiro.
Dias atrás, ouvi alguém perguntar o porquê de o país não contar mais com grandes cantores. A resposta é “elementar, meu caro Watson”, basta questionar o que leu acima. Some-se a isso a ausência dos festivais, responsáveis por trazer à tona talentos como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Tom Zé, Gal Costa, Marília Medalha, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ivan Lins, Taiguara, Paulo Diniz, Tom Jobim, e tantos outros.
A nossa música sertaneja de raízes morreu. Quanta tristeza! O que ouvimos agora são músicas paupérrimas, de duplo sentindo, cujas letras apresentam um amor melodramático e doentio, que normalmente se escoram em refrãos paupérrimos, com os passos desengonçados dos supostos cantores. Ai que saudade de Pena Branca e Xavantinho, Jacó e Jacozinho, Milionário e Zé Rico, Alvarenga e Ranchinho, João Mineiro e Marciano, e tantos outros que enriqueceram este país com suas canções de qualidade. Até quando seremos obrigados a conviver com tanto lixo? Possivelmente, enquanto houver as tão presentes “macacas de auditório” e gente que não valoriza o que é bom.
O Brasil já chegou a ser famoso por sua música popular. Referência em várias partes do mundo. Portanto, caro leitor, temos que dizer não a um monte de “titicas” que está por aí. Não compremos alhos por bugalhos. Valorizemos o dinheiro, fruto de nosso trabalho, fazendo boas escolhas. Não enriqueçamos essa gente sem talento algum, que surge na mídia feito erva daninha, e depois aparece podre de rica, sem nenhum compromisso com seu povo e seu país. Que eles trabalhem como nós.
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