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Crítico de Arte – Professor Pierre Santos

A ARTE GÓTICA (1ª Parte)

Autoria do Prof. Pierre Santos gamela1234

Não é sem razão que muitos autores, referindo-se às técnicas de construção equacionadas pela arte que encerra o ciclo medieval, falam em milagre gótico. De fato, como que do dia para a noite, num passe de mágica, vemos alijar-se o peso maciço da igreja românica e do edifício brotarem verdadeiros tentáculos de aranha rendados a impelirem-no para cima, como se o templo estivesse tentando a libertação das amarras de pedra de seus alicerces, para ascender ao encontro do céu. Eis, afinal, satisfeito o anseio de enlevo e êxtase que, dominando e superando a materialidade do instrumental de construção, leva o elemento síntese de suas ansiedades, a Catedral, a se transformar toda ela numa contrita prece de pedra e de argamassa.

Sem dúvida, não foram nada fáceis as soluções que o engenho do arquiteto gótico obteve. Se o ponto de partida era aparentemente simples, como seja a visão estrutural do conjunto, seu equacionamento estava longe de ser um “ovo de Colombo”, como querem acreditar alguns historiadores; ao contrário, demandou muito esforço e concentração. Coroados de êxito o raciocínio, o planejamento e a execução, o arquiteto gótico inaugurou imprevistas possibilidades para o estilo, que dominou durante mais de três séculos toda a Europa, em cuja visão estrutural (à qual, se alguém, por analogia, tivesse dado o nome de pedra armada, teria estado absolutamente correto) encontramos o legítimo ancestral da moderna estrutura de cimento armado.

O ponto de partida foi a retomada de um elemento arquitetônico existente desde havia muito – o arco ogival ou quebrado – de cujas possibilidades estruturais os arquitetos anteriores não souberam tirar partido. Esta retomada foi, sem dúvida, um “ovo de Colombo”, que acionou e acelerou o processamento da revolução operada pelo estilo gótico. Mas, como uma coisa puxa outra, seu emprego devido numa conjuntura necessariamente complexa exigiria do arquiteto, como um desafio, outros achados agora originais, que perfizessem em seu conjunto a ambicionada harmonia expressiva e simbólica. Aceitando o desafio, esse arquiteto, como se diz, agarrou com unhas o bloco pétreo, e, subjugando-o aos caprichos de sua inteligência, replicou desafiando, por sua vez, as leis da gravidade, com o emprego dos princípios que agiram sobre a articulação entre os vários elementos de que lançou mão.

O objetivo primordial era um equilíbrio ideal para as forças que agem sobre a construção, neutralizando-as em suas pressões, não simplesmente através da sustentação do peso vertical da gravidade, mas atacando-as por oposição a todos os sentidos para os quais se distribuem desde as perpendiculares às inclinadas, nas direções transversal, longitudinal e oblíqua, por intermédio de elementos que confirmassem esses sentidos, recebendo-lhes os pesos e remetendo-os simultaneamente ao apoio do solo. A gravidade tem as suas forças e o material tem o seu peso. Tratava-se, neste impasse, de encontrar medidas de equilíbrio e neutralidade para todos os elementos empregados.

E aqui se nos revela em toda a sua plenitude o milagre gótico: o objetivo foi conseguido. Primeiro, pelo cruzamento dos seis arcos ogivais em cada conjunto de quadro colunas, de forma que cada uma apoiava três meios arcos do primeiro lance e mais dois do lance seguinte, a que se articulava, numa sucessão de lances modulados desde a entrada à abside da igreja, sem falar no apoio que dava também aos arcos das abóbadas laterais; segundo, pela repetição do mesmo sistema, em menores proporções, em naves laterais, uma ou duas de cada lado da principal conforme o tamanho do templo, colaborando estas no embate contra os empuxos oblíquos; terceiro, e aqui está uma das mais significativas criações do estilo, pelo uso do arcobotante que, amarrado também ao ponto de união dos vários arcos da abóbada central ou das imediatamente laterais, conforme se trate de igreja de três ou de cinco naves, se lançava por cima da última nave, como elemento externo dessa estrutura, indo apoiar-se em leves escoras que contornavam o edifício, neutralizando, assim, as forças inclinadas e constituindo-se num todo altamente decorativo do exterior, em sua elegante volta por detrás da abside, a lembrar uma coroa preciosa, e em sua passagem nas laterais, acima das naves; além disso, colaborava ainda na expulsão das águas pluviais, lançando-as para longe da base e evitando o comprometimento dos alicerces que, assim, não se deixariam minar por infiltrações de chuva. Ora, esta era o grande terror de todos os arquitetos anteriores, pois a chuva caindo ano após ano, muitas vezes com incalculável intensidade, sempre se infiltrava diretamente nos alicerces, os quais, constantemente, corriam o risco de ceder à falta da terra deslocada pelas águas, exigindo após cada estação chuvosa cuidados permanentes, que nem sempre conseguiam ser eficazes. Com os novos recursos técnicos e achados revolucionários introduzidos na arquitetura, estava vencido esse grande fantasma que sempre ameaçava a arquitetura de então.

Ilustrações
1.Catedral de Notre-Dame de Paris, vendo-se uma das torres, os arcobotantes na extensão do edifício, até contornarem a abside, a rosácea e a torre-lanterna no lugar onde as coberturas longitudinal e transversal se  cruzam/ 1163.
2. Rosácea da Catedral de Notre-Dame de Paris – 1270.

A ARTE BIZANTINA

Autoria do Prof. Pierre Santos

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No novo rito então recém-libertado, o construtor enfrentou sérias dificuldades para erguer seus templos, por desconhecimento de técnicas para tanto próprias. Entretanto, o passo decisivo para melhor caracterização estilística da arquitetura cristã seria dado no período seguinte, com o equacionamento da cúpula bizantina e das soluções neutralizantes das forças de gravidade. Este sistema de cobertura por domo não era original do estilo, o qual vinha sendo usado já havia algum tempo; todavia, era solucionado, grosso modo, através do emprego de cobertura por trompas, que consistia no aumento significativo dos muros de sustentação, resultando num interior sextavado, às vezes oitavado, e, continuando curvilineamente essas paredes, que delimitavam o espaço interior, seis ou oito trompas curvilíneas iam encontrar-se no pináculo do eixo vertical centralizado dessa cobertura. Sobre não permitir maiores arrojos no tamanho desses indivíduos arquitetônicos, o sistema também não lhes oferecia segurança, a saber que o peso da gravidade, ao exercer-se de encontro ao anteparo do teto, tendia a distribuir-se obliquamente, forçando a abertura lateral dos muros de sustentação e o consequente ruir do teto, não obstante os pesados contrafortes externos. O fato se devia a que o arquiteto de então ainda não sabia como alinhar uma cúpula circunférica a uma planta quadrangular, para melhor distribuir os pesos, motivo pelo qual raras vezes empregou antes o sistema, a ele preferindo o antigo, de escora e sustentação, como é o caso da Igreja basilical de Santo Apolinário o Novo, edificado na cidade italiana de Ravena antes da edificação de Santa Sofia de Istambul, mas já sob o governo de Constantino. Posteriormente, Justiniano mandaria cobrir as paredes da Igreja de Santo Apolinário com belos mosaicos fabricados em Istambul e para lá transportados de navio, junto com a especializada mão de obra então inexistente em Ravena.

Aquele antigo sistema construtivo não era o que pretendia o homem de Bizâncio. Antes, interessava-lhe, em primeiro lugar, ampliar as dimensões do templo, de modo a torná-lo condizente com a exuberância e a grandeza do Império, e, em segundo lugar, dar-lhe destinação e simbologia propícias a expressar a riqueza do conteúdo espiritual, que animava o novo culto, já agora extenso. Esse ideal fora atingido por intermédio da solução dada à cúpula, chamada sobre pechinas ou pendentes, o que se esclarecerá adiante. Consistia o novo método no abandono das plantas de cruz latina, de braços desiguais, e na adoção da planta em cruz grega, de braços equilaterais, que melhor se prestava à solução. Conseguia-se assim um amplo quadrilátero, no qual se inscrevia a idéia da cruz de braços equilateral, cujo eixo ou cruzeiro podia ser coberto por grande cúpula semiesférica, em altura jamais atingida.

O método em sua concepção era muito simples:

  1. assentavam-se nos ângulos do quadrilátero quatro poderosas colunas;estas eram unidas, duas a duas, a partir do capitel, por intermédio de quatro arcos de meia volta;
  2. nesses arcos apoiava-se um tambor circular; e
  3. sobre este se erguia, majestosa, a cúpula circunférica, simbolizando no seu côncavo o céu.

Os quatro triângulos curvilíneos formados pelos arcos que saíam de cada uma das colunas, sabendo-se que em cada uma se apoiavam dois deles, e se completavam ao encontro de cada quarto do tambor, constituíam as pechinas ou pendentes, citadas acima, que eram elementos de sustentação da cúpula, pois recebiam seu peso e o distribuíam pelas colunas. Mas, como a neutralização de peso se dava apenas no sentido vertical, o empuxo oblíquo da gravidade continuava a exercer-se, embora em intensidade arrefecida, não obstante o aumento de peso e, muitas vezes, comprometia a segurança do edifício. Para neutralizar, o arquiteto bizantino usou sistema semelhante ao antigo, mas com solução revolucionária, encostando à dada coluna duas grossas paredes no sentido dos arcos, de forma que o espaço interno do quadrilátero se visse completado, nesse prolongamento, pela idéia da cruz grega,cujos braços em algumas igrejas eram cobertos por meia cúpulas, as quais, amarrando-se nos arcos superiores, colaboravam na neutralização dos pesos e, em outras igrejas, por cúpulas menores que a central, radiando em torno desta.

Citem-se dois exemplos bem característicos desses estilos. Primeiro, a famosa Igreja de Santa Sofia de Constantinopla, construída no século VI, na fase de ouro da Arte Bizantina, estando no trono seu mais famoso Imperador, Justiniano, a qual significa, por assim dizer, uma síntese do estilo e constituía o motivo do orgulho máximo do Império, faustosamente decorada de mosaicos ao tempo de sua edificação, que desapareceram sob a cal muçulmana, apenas alguns escaparam. No Ocidente, temos a não menos famosa Catedral de São Marcos de Veneza, de construção posterior, coberta por cinco cúpulas e também toda decorada de mosaicos, embora os mais famosos mosaicos bizantinos encontrem-se na cidade italiana de Ravena, na Igreja de Santo Apolinário, o Novo e na Igreja de São Vital, esta construída também por Justiniano, edifício de interior oitavado, esplendidamente decorado. Leve-se em consideração que Santa Sofia de Constantinopla ficou bastante descaracterizada quando os árabes tomaram aquela cidade, transformaram a igreja em mesquita e passaram a chamá-la a partir de então de Santa Sofia de Istambul. Hoje, os próprios árabes reconhecem o erro de seus antepassados e procuram restaurar o templo, ao qual já devolveram um pouco da antiga magnificência.

Voltando ao equacionamento dos problemas arquitetônicos, observe-se que, embora seja extraordinária a solução dada ao sistema de cúpula, o mesmo não se pode dizer com referência à dada à neutralização dos empuxos. A multiplicação de grossos muros laterais e sua amarração a pesados contrafortes externos de reforço tornam o edifício muito pesado na parte inferior, em contraste com a superior, que dá idéia de leveza. Esta se vê ainda acentuada pela possibilidade de se abrirem janelas no tambor de apoio da cúpula, como no caso já referido de Santa Sofia, por onde penetra luz, indo refletir-se nas pedras vitrificadas dos mosaicos a cobrirem toda a cúpula e pechinas e paredes, dando a impressão de uma luz extraterrena a evidenciar a suntuosidade do templo. A ideia de solenidade é aumentada pela postura sempre hieratizada das figuras, como que captadas em eterno suspense.

Ilustração
Santa Sofia de Istambul, com sua grandiosa cúpula central e os quatro minaretes acrescentados pelos árabes.

A ARTE ROMÂNICA (2ª parte)

Autoria do Prof. Pierre Santos

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Embora a igreja românica já nos pareça melhor articulada em seus vários elementos, que nos dão realmente a impressão de comporem um todo harmônico, dão-nos também em seu conjunto a impressão de peso excessivo e esmagamento, confirmada pela solidez da floresta de colunas e pelos interiores sombrios, como veremos adiante. Todavia, a total predominância de cheios sobre vazados, na proliferação de suas paredes, deu verdadeira oportunidade a que se desenvolvesse nessas igrejas a arte mural, no mais das vezes na técnica do afresco, tendo sido empregado também o mosaico e, mais raramente, a tapeçaria e o mármore em variações tonais.

Subsidiárias e dependentes da arquitetura, a ela adaptadas, as artes da pintura e da escultura não tiveram como artes autônomas maiores desenvolvimentos no período. Apesar disso, deitarão mais tarde importantes influências sobre artes futuras, sendo para elas a base de seu desenvolvimento. Essas manifestações artísticas figurativas se faziam dentro dos mais rígidos princípios espiritualistas e simbólicos, muitas vezes submetendo as figuras a uma deformação, poder-se-ia dizer, primária, sendo às vezes intrigantes. Há, contudo, muitas obras figurativas de grande valor e notável expressividade realizadas pelo artista da época, principalmente na criação de animais imaginários, exóticas vegetações e, às vezes, frisos geométricos para destaque de pormenores arquitetônicos.

Uma vez equacionadas no princípio do século XI, após longo período de experimentações, as soluções da construção românica expandiram-se com rapidez pela Europa, agora pacificada, geográfica e politicamente já quase definida, principalmente Itália, França (então Gália), Alemanha, Inglaterra, Espanha e Portugal. Não obstante a unicidade das soluções construtivas em suas generalidades técnicas, o estilo, em cada região aonde chegava, adaptava-se às necessidades e às idéias próprias locais, apresentando de umas para outras substanciais diferenças de tratamento. Nessas diferenças, que muitas vezes eram profundas, os especialistas têm visto pluralidade de estilos subsidiários, como afluentes que formam um rio comum, tais as escolas de Borgonha, Provença, Auxerre, Auvergne, etc. Baseado nesta pluralidade de pormenores estilísticos, o arqueólogo francês M. de Gerville, no princípio do século XIX, propôs a denominação de Românico para designar o estilo, tendo em vista a afinidade de sua formação com a formação das chamadas línguas românicas, aquelas derivadas do latim castrense, o falado nos quartéis: italiano, francês, espanhol e português. A proposta fez sucesso, mormente em se considerando as influências de Roma pagã e cristã na origem do estilo.

Finalmente, é preciso destacar a grande e fundamental importância que as chamadas Ordens Religiosas passaram a ter durante o período românico, com seus mosteiros estrategicamente espalhados pela Europa, não só pela sustentação e difusão que deram ao estilo, mas também pela atuação religiosa, política, social e econômica dos monges seus componentes. Um fator aleatório muito contribuiu para isto: quando se aproximava o fim do primeiro milênio (então como agora… seria isto sempre um sintoma de fim de milênio?), correu a notícia de que o mundo iria acabar no ano 1.000. Em todas as partes, todas as religiões se desdobraram em preces, pedindo aos seus deuses que poupassem o mundo do descalabro. O Cristianismo não deixou por menos: multiplicou-se em súplicas e penitências, num misticismo nunca antes visto. E Deus atendeu ao pedido. A cristandade em agradecimento levou ao máximo o seu esforço construtivo, cobrindo a Europa de norte a sul com belas igrejas românicas, ao lado de muitas das quais iam se estabelecendo os mosteiros, e adquiriu com o tempo o hábito de organizar, periodicamente, grandes peregrinações, que constavam de extensa marcha coletiva por uma via que se iniciava no norte da França e descia até Santiago de Compostela, na Espanha, ao longo de cujo caminho igrejas e mosteiros iam sendo visitados.

Aqui entra a atuação das Ordens Religiosas: para receberem essas grandes multidões que chegavam, demoravam alguns dias para as suas preces e de novo partiam, sucedidas por outras, tiveram que aparelhar não só as abadias, mas, principalmente, os seus mosteiros e suas hospedarias, além de terem assumido o gerenciamento das romarias. Por tudo isto, é fácil imaginar agora a incrível ascensão das mesmas, em termos de importância representativa, no mundo de então e em todos os setores. Duas Ordens tiveram papel destacado nisso tudo: a de Cluny e a de Cister, ambas de origem borgonhesa, a primeira primando pela decoração luxuosa; a segunda, pela sobriedade e proporção de suas abadias e mosteiros. Mas todas cultivando uma arte que se tornou importante no contexto românico: a arte da iluminura de manuscritos, com tanto carinho feitos pelos monges escribas.

Centenas de templos, portanto, foram edificados durante aqueles dois séculos. Entre as igrejas e abadias mais representativas contam-se as seguintes: Saint-Front de Perigueux  /  Paray-le-Monial, em Saone et Loire  /  Abadia dos Homens e Abadia das Mulheres, em Caen  /  Abadia de Fontenay  /  Cluny  /  Cister  /  Saint-Trophime de Arles  /  Abadia de Montmajour  /  Notre Dame de Port, em Clermont  /  Notre Dame La Grande, em Poitiers  /  Saint-Sernin de Toulouse  /  Sainte-Foy de Conques  /  Santiago de Compostela  /  Saint-Pierre de Moissac  /  Igreja Madelena, de Vezelay  /  Saint-Gilles Du Gard  /  Duomo de Fiésole  /  Saint-Benoît sur Loire  /  Igreja de Issoire, em Puy de Dome  /  Maria Laach, na Renânia  /  Catedral de Bamberg – e centenas de outras.

Antes do fim do século XII, algumas igrejas começaram a introduzir em suas estruturas, mas de maneira bastante acanhada, alguns elementos que irão caracterizar de modo mais completo o estilo seguinte, como o cruzamento de arcos, mas só em naves laterais, muito raramente nas centrais, e o arco ogival em alguns detalhes, como o coroamento de portadas e janelas. Entretanto, ainda estava longe o momento em que se poderia tirar desses elementos todos os proveitos auferíveis.

Ilustrações
1.Catedral e Monastério de Santiago de Compostela, terminal da Via de Peregrinação
2.Catedral e Abadia de Jaca, na Via de Peregrinação.

A ARTE ROMÂNICA (1ª Parte)

Autoria do Prof. Pierre Santos

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Outros motivos que não a ostentação de luxo e poderio imperial, bem como necessidades bem diversas daquelas que caracterizavam o Império Bizantino, conduziram o arquiteto românico a resolver os seus problemas construtivos de maneira diferente dos construtores de antes. Distante do Oriente, de onde em raras oportunidades emigraram formas, como para Ravena e Veneza, mas não de vulto a criar raízes e adaptação nas regiões para onde emigraram; com tradição construtiva cristã local já considerável desde o Paleocristianismo, no que contam as influências de vários povos nômades e bárbaros, como os godos e tantos outros, que invadiram a desprotegida Europa de norte a sul, durante períodos como o merovíngio, o carolíngio e o otoniano – sabendo-se que o impulso construtivo artístico não se interrompeu no Ocidente com a mudança da capital para o Oriente, mas ao contrário, sofreu lenta evolução até determinar estilos futuros tardios; e, finalmente, à necessidade de se darem locais apropriados às massas de aficionados, já agora maiores e desejosas de prece e recolhimento – são alguns dos fatores que levaram a religião cristã do Ocidente ao encontro de soluções próprias para a sua arquitetura, desenvolvidas nos séculos XI e XII, com um período anterior de amadurecimento, ao longo dos três séculos anteriores.

Soluções arquitetônicas do romanismo

Na verdade, as soluções bizantinas, mesmo arrojadas (e também mais caras), limitariam as necessidade de expansão do templo, a saber que edifícios grandiosos como Santa Sofia e São Marcos raramente se levantaram, pela sangria econômica que a edificação representava. Essas soluções, tal como eram postas, não se coadunavam bem com as pretensões dos dirigentes românicos. O novo estilo, por isso mesmo, voltou-se para a primitiva arquitetura cristã e fê-la evoluir-se. Primeiro, retomou sua planta em cruz latina, a qual se vira então melhor adaptada com ampliação do transepto, pela necessidade de atender à multiplicação das irmandades religiosas, merecedoras de lugar especial durante os rituais. O transepto cortava a nave longitudinal transversalmente e era separado do primeiro corpo da igreja por uma cancela, onde geralmente se constituía em piso mais elevado, formando os braços da cruz. No eixo desse cruzeiro, onde o bizantino punha a cúpula, o românico adaptou uma torre lanterna quadrada ou octogonal, para iluminação da igreja. Depois, em lugar do precário teto de madeira da basílica antiga, adotou para todas as partes do edifício a abóbada de canhão ou plena Cintra, em pedra, enquanto nas naves laterais colocou uma abóbada de meia Cintra, ou seja, de um quarto de circunferência, visando à neutralização do empuxo que a pesada cobertura central exercia.

Para fazermos idéia simplista desta edificação, este novo sistema de construção equivalia a tomar o quadrilátero usado na solução bizantina anterior e acrescentar-lhe vários outros quadriláteros num sentido longitudinal, além do transepto transversal – sistema este que, sobre ampliar em muito o interior útil do templo, elevou-se sobremaneira, como pretendia a Igreja na expressão do êxtase, a altura da abóbada.

Elemento muito original criado pelo românico foi o deambulatório, que o povo de então denominava charola, o qual consistia na construção de várias capelas menores, às vezes simples altares, dispostas num corredor semiesférico em torno da abside, parte terminal da igreja onde o sacerdote realiza os rituais litúrgicos perante o altar-mor ali localizado; atrás, portanto, da parede curva como um grande nicho da ábside, atrás da qual ficava o deambulatório. Essas capelas radiais foram criadas para atender às necessidades das peregrinações tão em moda àquele tempo. É sabido que, então, os fiéis se reuniam em grandes grupos e partiam em romaria por essas várias igrejas, que se localizavam de norte a sul, ao longo das chamadas vias de peregrinação, até Compostela, no norte da Espanha, devido ao que ficaram também conhecidas como Caminho de Compostela. Nessas capelas, cada fiel encontrava o santo de sua devoção, bem como as imagens dos santos aos quais essas igrejas eram consagradas.

O estilo românico, obviamente, acrescentou muita coisa ao impulso para o céu desejado pela arquitetura cristã, mas ainda mostrava inconvenientes. Estes só seriam superados, quando daí evoluísse para o gótico. Ora, a pesada abóbada central exigia pesadas e possantes colunas para o seu sustento; as pesadas abóbadas laterais que, além do peso do próprio material, ainda recebiam grande parte do empuxo da central, exigiam grossas e resistentes paredes para apoio; por sua vez, essas paredes exigiam o reforço de poderosos contrafortes externos, nos quais se escoravam. A compacidade construtiva requerida por esta espécie de arquitetura criava um sério inconveniente para a época, sabendo-se que somente raras janelas, e sempre estreitas, podiam ser abertas, deixando muito obscurecido o interior, além do que as soluções empregadas ainda não tinham conseguido contornar o problema das águas pluviais, ameaça sempre iminente. Exteriormente, essas igrejas apresentavam total sobriedade (embora houvesse exceções, como a Catedral de Poitiers, com seu rico exterior todo em pedra branca trabalhada): os efeitos decorativos inclusive das fachadas eram muito comedidos, ao contrário da decoração interior. Para dar maior movimento de massas arquitetônicas ao exterior, além da torre lanterna situada no cruzamento de naves e das reentrâncias formadas pelos contrafortes de apoio das naves laterais, o românico também acrescentou ao corpo do edifício duas torres, as quais, em certos casos, subiam acima dos cem metros de altura. Algumas igrejas, estas mais raras, apresentavam apenas uma torre. A basílica primitiva e a igreja bizantina não possuíam nenhuma torre; mas, de modo geral, apenas um simples e limitado campanário afastado do corpo do templo.

Ilustrações:
1.Catedral de Poitiers
, toda por assim dizer esculpida em pedra branca da região, destacando-se na parte de cima sua torre lanterna, 1140.
2.Cripta de Saint-Sernin.

OS EVANGELHOS E OS EVANGELISTAS

Autoria do Prof. Pierre Santos

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Os Evangelhos
Todos nós sabemos o que são os evangelhos ou pelo menos temos boa noção do que sejam. A rigor, trata-se daqueles textos contidos no Novo Testamento e escritos pelos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, dentre os quais apenas São Mateus e São João estavam incluídos entre os doze apóstolos de Cristo. Procuraram eles transcrever, da maneira a mais objetiva possível, as parábolas e os ensinamentos passados por Cristo, nos seus sermões proferidos na Galileia. Nessa empreitada era sempre coadjuvado por seus doze apóstolos – Pedro, André, Tiago Maior, João, Filipe, Bartolomeu, Judas Tomé, Tiago Menor, Mateus, Simão, Judas Tadeu e Judas Iscariote – os quais se encarregavam de esclarecer, para aqueles que não tivessem entendido bem as parábolas, o real significado das mesmas. Na verdade, esses doze homens pelo Senhor escolhidos eram seus reais discípulos, pois sabia que, em sua falta, iria caber-lhes a disseminação de seus ensinamentos.

Contudo, o primeiro a ter ideia de registrar, em linguagem bem inteligível, as pregações de Jesus, não foi nenhum dos autores dos quatro livros que compõem o Livro dos Evangelhos aos quais se somaram o Ato dos Apóstolos, de São Lucas, as treze Epístolas, de São Paulo, as três de São João e, também deste, o Apocalipse. Quem realmente pensou nisto primeiro foi São Paulo que, em suas treze cartas – Romanos/ Coríntios I/ Coríntios II/ Gálatas/ Efésios/ Filipenses/ Colossenses/ Tessalonicenses I/ Tessalonicenses II/ Timóteo I/ Timóteo II/ Tito/ Filémon – endereçadas às igrejas por ele fundadas, expõe de maneira bem resumida as principais mensagens de Cristo.

No alvor do culto e durante grande parte do século I, os deões sentiam falta de ter em mãos, por escrito, as palavras do Senhor, para se guiarem com maior segurança durante as orações conjuntas. Para tanto, pediam a alguém alfabetizado e mais culto para anotar, a partir do relato de pessoas que tivessem ouvido as pregações do Senhor, os seus ensinamentos. Este costume, contudo, estava sujeito a vários perigos, como o da deturpação, da falta de unidade nos escritos e, principalmente, de esses ficarem incompletos, como realmente ficavam, pois a tradição da oralidade vai sofrendo alterações ao longo do tempo e, “como quem conta um conto, aumenta um ponto”, de acordo com a sabedoria popular, esses relatos iam perdendo cada vez mais a fidelidade em face da certeza dos ditos sagrados.

No princípio do século II, o Papa Alexandre I, tendo em vista os referidos perigos e conhecedor dos textos escritos, primeiramente por Mateus e João, apóstolos diretos de Cristo, em seguida, por Marcos e Lucas (havia outros textos que, na época, também circulavam, os quais, por não apresentarem a completude e a segurança comprovadas nos textos dos evangelistas, deixaram de ser considerados), determinou a compilação dos quatro textos aprovados, quais sejam, o evangelho segundo Mateus, o primeiro deles, o evangelho segundo Marcos, o segundo na ordem e o evangelho segundo Lucas, o terceiro deles, sendo estes três chamados sinópticos ou semelhantes por terem a mesma estrutura e seguirem o mesmo esquema, com poucas diferenças; e ainda o evangelho segundo João, “o bem amado”, como a ele se referia Jesus, diferente dos outros textos, porque se ateve mais à vida do Mestre e é mais completo na transcrição dos discursos do Senhor, pelo que é considerado evangelho teológico. A eles o Papa mandou acrescentar as Cartas escritas por Paulo, o Ato dos Apóstolos escrito por Lucas, autor também do terceiro evangelho, as Cartas e o Apocalipse escritos por João. Assim compilados, definidos e aprovados, o Papa recomendou seu uso a todas as comunidades cristãs, a cujos líderes era facultada a obtenção de cópias, as quais eram feitas por copiadores oficiais, que se atinham com exclusividade aos textos, sem nenhuma sofisticação.

Essa forma de culto foi mantida até o final do século VI, ao longo de cujo tempo a liturgia foi evoluindo até à definição ideal de todos os rituais, com o uso dos evangelhos devidamente estabelecido. Àquela altura, os monastérios já iam se espalhando por vários lugares e os monges assumiram o ofício de copistas, no qual se especializaram a tal ponto, que se puseram a fazer obras em tudo notáveis, tornando-se os responsáveis por uma das artes mais representativas da Idade Média: a arte das miniaturas e iluminuras de livros.

Ao longo do século VII, copiava-se normalmente o Livro dos Evangelhos, por encomenda das igrejas cristãs espalhadas pelo mundo. Mas aí, os monges começaram a sofisticar cada cópia. Reis, políticos e importantes colecionadores de obras de arte viram essas cópias e fizeram encomendas para si, personificadas. Aí veio Carlos Magno e incrementou o empreendimento do setor, como passaremos em revista na próxima postagem.

Os Evangelistas
São Mateus foi o autor do primeiro evangelho. Era filho de Alfeu e seu nome mesmo era Levi. Exercia a profissão de publicano, ou seja, de cobrador de impostos (profissão odiada à época) na cidade de Cafarnaum, a serviço de Herodes Antipas. Consta que Jesus, um belo dia, após atravessar o Lago de Tiberíades, ao passar pela porta de uma taberna, avistou lá dentro Matias e seus ajudantes, ocupados em conferir a coleta de impostos. Então, indicando-o num amplo gesto, disse-lhe: “És meu escolhido. Segue-me”. E Mateus obedeceu, tornando-se um de seus doze apóstolos. A propósito, há neste blog uma extraordinária postagem de LuDias sobre um quadro de Caravaggio, que trata exatamente desta passagem bíblica, intitulado: Caravaggio – A VOCAÇÃO DE SÃO MATEUS

Enquanto o Mestre viveu, Mateus o seguiu muito de perto, sem perder nenhuma de suas pregações, inclusive indagando aos condiscípulos, com muita curiosidade – segundo narra em algum lugar de seus textos – sobre aquelas proferidas antes de sua incorporação ao grupo, que Ele não tenha repetido. Aproveitava os momentos em que ficava parado para tudo anotar. Além de ter testemunhado tantos acontecimentos em sua maioria surpreendentes, participou da Santa Ceia e presenciou as aparições de Cristo ressuscitado, sua ascensão e o episódio do Pentecostes. Depois, na qualidade de pregador independente, enquanto levava os ensinamentos do Senhor a regiões como da Palestina e da Etiópia, sentiu necessidade de por em ordem e dar melhor redação às suas anotações. Assim nasceu o seu evangelho.

São Marcos foi o autor do segundo evangelho. Era filho de Maria de Jerusalém. Barnabé (seu primo), Lucas, Paulo, Marcos e outros personagens, são considerados entre os apóstolos bíblicos de Cristo, e não entre os doze escolhidos pelo Salvador. Provavelmente nasceu em Jerusalém, mas pouco se sabe sobre sua vida. Sabe-se, contudo, que foi um veemente e exímio pregador, tendo viajado a inúmeras localidades em companhia de Barnabé e Paulo, a fim de levar a elas as palavras do Mestre. Esteve no Egito, onde fundou a Igreja de Cristo, e na Itália, onde fundou a cidade de Veneza, da qual é o padroeiro. Seu evangelho foi escrito em Roma, por sugestão de Paulo, quando lá esteve para dar assistência ao amigo, que estava encarcerado. Dedicou seu evangelho, de estilo simples e vigoroso, aos cristãos provenientes do paganismo, constando de 661 versículos, pelo que é o mais extenso de todos e segue, para a disposição da matéria, o esquema do de Mateus, assim como Lucas.

São Lucas foi o autor do terceiro evangelho, como também de Atos dos Apóstolos, inseridos no quinto lugar do mesmo livro. Viveu no século I da era cristã, era sírio nascido em Antióquia, médico de profissão e pintor nas horas vagas, tendo pintado vários quadros com o tema da Virgem Maria e, segundo consta, retratos de Paulo e de Pedro. Só por curiosidade, é por isto que as Guildas de São Lucas, na Flandres medieval, tinham seu nome e a Accademia di San Luca, de Roma, com filiais em outras cidades européias, tem como um de seus objetivos a proteção dos pintores. Mencionado várias vezes nas epístolas de São Paulo, com este viajou por alguns lugares e depois, sozinho, andou pregando o evangelho no sul da Europa, na Macedônia, em Jerusalém e, finalmente, na Grécia, onde foi martirizado.

São João foi o autor do quarto evangelho. Usou esquema próprio, diferente dos demais na distribuição da matéria escrita, não sendo sinóptico como os demais, pois sua preocupação bem centrada foi narrar a vida e a obra de Jesus Cristo, descrevendo com mais finura os ensinamentos do Senhor e sendo mais inclinado à contemplação do que à ação, o que fez sua diferença. Nascido em Batsaida, na Galiléia, foi chamado pelo próprio Jesus para segui-lo, juntamente com seu irmão Tiago Maior. Esteve presente em todos os importantes lances da vida de Cristo e foi o único a segui-lo até na hora de sua morte, na cruz, ocasião em que foi o apoio de Maria, de quem cuidou. Depois de muitas andanças pregando o evangelho, foi viver em Éfeso, na Ásia Menor, nas costas da Turquia, de onde comandou várias igrejas que havia criado e onde escreveu seu evangelho. Quando Domiciano assumiu o poder, foi exilado para a Ilha de Patmos, onde escreveu o Livro do Apocalipse ou da Revelação, o último a ser incluído no Livro dos Evangelhos juntamente com suas três cartas endereçadas a todos os cristãos. Faleceu em Éfeso já velho, onde foi sepultado.

 Ilustrações:
1.Os quatro Evangelistas, iluminura do séc. VIII
2. Os quatro Evangelistas, séc. IX, Cat. de Aachen, Alemanhna