Arquivo da categoria: História da Humanidade

Esta categoria tem por objetivo mostrar aspectos e costumes sociais da vida humana em tempos idos.

SEITAS FILOSÓFICAS NO IMP. ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Duas conhecidas seitas fizeram parte do Império Romano: a epicurista e a dos estoicos. Ambas ofereciam a seus seguidores uma maneira de viver sem recear os homens, os deuses, o acaso e a morte. Alegavam que a felicidade de cada um não podia se atrelar aos caprichos da sorte. Assim sendo, os homens, embora mortais, deviam ser serenos como as divindades que cultuavam. Cada um deles era senhor de sua própria vida, tendo o direito soberano de dispor-se dela quando assim o desejasse, em vez de sujeitar-se à deliberação da natureza ou desse ou daquele deus.

 O estoicismo, segundo o dicionário Aurélio, era “a designação comum dada às doutrinas dos filósofos gregos Zenão de Cício e seus seguidores Cleanto, Crisipo e os romanos Epicteto e Marco Aurélio, e caracterizava-se, sobretudo, pela preocupação com o estado da alma, que, pelo equilíbrio e moderação na escolha dos prazeres sensíveis e espirituais, atingia o ideal supremo da felicidade, que é a imperturbabilidade.”. O adepto da seita devia procurar chegar a um estado mental inatingível, diante das perturbações da vida. O método dos estoicos baseava-se na existência de uma razão e de uma providência. Era fundamental cultivar o amor pela família e pela cidade, para não se tornar infeliz.

 O epicurismo, segundo o dicionário Aurélio, era “uma doutrina de Epicuro, filósofo materialista grego, e de seus seguidores, entre os quais se distingue Lucrécio, poeta latino, caracterizada, na física pelo atomismo, e na moral, pela identificação do bem soberano com o prazer, o qual, concretamente, há de ser encontrado na prática da virtude e na cultura do espírito.”. O adepto da seita devia apenas se libertar das angústias ilusórias que o aprisionavam. Era preciso livrar-se das falsas necessidades, vivendo de amizade e água fresca. O homem devia liberar-se de seus medos enganadores, advindo de suas superstições, e honrar os pactos de amizade, baseados em interesses justificáveis, para manter a felicidade.

 As duas seitas nutriam grande indiferença pela morte. Exortavam seus adeptos a livrarem-se dos desejos inúteis: dinheiro, honrarias e bens perecíveis, uma vez que esses jamais ocasionariam uma segurança inflexível. Ambas as seitas eram a favor do suicídio, desde que um doente ou perseguido, não mais pudesse ter uma vida normal em seu grupo ou na cidade onde vivia. Tais seitas filosóficas também não impunham ditames morais a seus adeptos. Prometia-lhes tão somente a felicidade. Tanto numa quanto noutra predominavam os elementos racionais. Seus partidários eram convencidos, através da razão, a livrar-se dos sofrimentos e dos desejos fúteis.

 Os filósofos eram vistos com grande admiração, quando viviam de acordo com aquilo que pregavam em suas doutrinas. Podiam tanto aconselhar como repreender, e pregavam em muitas cidades. Os futuros cristãos pegariam, emprestadas das seitas filosóficas romanas, as palavras: “conversão”, “dogma” e “heresia”.

Ilustração: sarcófago conhecido como “de Plotino”, do fim do século III ou IV.  Um letrado senta-se ao centro com livros aos pés. Ele é o defunto, que deveria ser um homem muito famoso. Ao seu redor estão seus parentes ou discípulos. (Museus do Vaticano, Roma)

 Fonte de pesquisa
História da Vida Privada I / Comp. das Letras

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AS ELITES NO IMP. ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Em quatro séculos (de Marco Aurélio a Justiniano), grandes mudanças ocorreram na vida dos moradores das cidades e em seus arredores, no Império Romano. Nessa fase havia uma grande diferença entre as elites, conhecidas por “notáveis” ou “bem-nascidos”, e as pessoas do povo, tidas como “inferiores”. A classe superior procurava se distanciar da gente simples, através de um estilo de cultura e vida moral, que julgava não ser possível partilhar com a gente comum. A vida moral implicava no afastamento do povo, ficando a cultura apenas à mercê das elites. A educação formal dos filhos dos “notáveis” tinha por objetivo transformá-los em cidadãos experientes, de acordo com a classe em que se achavam inseridos.

Um “bem-nascido” devia dominar não apenas a linguagem como também a postura, tanto no controle dos gestos, quanto no movimento dos olhos e até mesmo na respiração, agindo em consonância com as chamadas normas morais da classe superior. Sua educação refinada e seu comportamento moral, moldado no de seus pares, tinha por objetivo livrá-lo das emoções anormais, próprias da gente inferior. Era preciso precaver-se contra o perigo do “contágio moral” da gentinha, gentalha ou ralé.

A preocupação dos “notáveis”, em cumprir seu código moral, era tão grande, que a saúde pessoal e o comportamento público estavam interligados. Apregoavam eles que os humores do corpo (o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra) deviam ser preservados, pois tanto a perda de reservas necessárias quanto o acúmulo desordenado dessas eram prejudiciais ao indivíduo. Um homem bem educado, portanto, deveria evitar as consequências desastrosas de tais distúrbios. Em assim sendo, o corpo era o espelho do “bem-nascido”, devendo, também, submeter-se ao regime alimentar, aos exercícios e aos banhos – métodos gregos tradicionais.

Um “notável” mostrava sua posição privilegiada através da autovigilância em relação ao cumprimento do código de sua classe, o que o distanciava da classe inferior. Era, reprovável, por exemplo, que um “notável” surrasse um escravo, num acesso de raiva, não porque isso fosse um ato desumano, mas porque fazia mal ao “bem-nascido”, destituindo-o de sua boa imagem, que devia ser vista como equilibrada. Se incorresse num erro desse tipo, seria comparado ao próprio escravo, o que implicava num “contágio-moral”, ou seja, na sua desmoralização diante de sua classe.

Ilustração: Camafeu mostrando Constantino sendo coroado por Constantinopla, século IV / Museu Hermitage

Fonte de pesquisa
História da Vida Privada I / Edit. Companhia das Letras

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AS RELAÇÕES SEXUAIS NO IMP. ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Em quatro séculos (de Marco Aurélio a Justiniano), grandes mudanças ocorreram na vida dos moradores das cidades e em seus arredores, no Império Romano. No que diz respeito ao sexo, a classe considerada superior não via diferença entre o amor homossexual e o heterossexual. O prazer físico era plenamente aceito, podendo advir de um tipo de relação ou de outro. A única preocupação do moralismo vigente à época era no que diz respeito ao parceiro de prazer, para que não houvesse “contaminação moral”. Trocando em miúdos, significava que um homem de classe superior não podia relacionar-se sexualmente com alguém de classe inferior. Além disso, o homem ficava também proibido de manter uma posição passiva durante o coito, o que era considerado um comportamento das pessoas de classe inferior.

Era vedada ao “notável” a prática da sexualidade oral com sua parceira, pois tal comportamento era visto como uma inversão de hierarquia, uma vez que o papel de passividade deveria caber à mulher, sendo ela inferior ao homem (ainda que fizesse parte da elite). Tratava-se, portanto, de um comportamento tão reprovável quanto o “contágio moral” com um indivíduo de classe inferior. As mulheres dos “notáveis” não exerciam nenhuma função pública junto a seus maridos, sendo por isso consideradas inferiores. Uma vez que não habitasse tal mundo, tão ambicionado pelos homens, também não motivavam interesse neles. Eram tidas como “enfeites” que eram livres para agirem como quisessem, desde que não se intrometessem no universo político masculino.

Todo homem “bem-nascido” movia céus e terra para mostrar-se digno de sua posição social. Buscava, a todo custo, manter sua boa imagem diante da sociedade a que pertencia, seguindo ao pé da letra seu código de moral, sobretudo às claras. Seus escrúpulos derivam apenas de sua sujeição aos ditames sociais. Nada mais, além disso.  O temor de tornar-se efeminado, o que o levaria a ser visto como passivo, ou de ser emocionalmente dependente de uma mulher, o que também demonstraria sua passividade, era-lhe inaceitável.

 O homem via-se como um ser superior. Imaginava que sua energia advinha de um reservatório de “calores” que era seu corpo. A mulher, por sua vez, possuía baixo nível de “calor” e, em consequência, seu comportamento era mais frágil, denotando fraqueza moral. Não era benéfico para um varão perder “calor”. Portanto, uma forte descarga sexual podia fazer mal a seu temperamento, levando-o a perder o vigor e a dedicação ardente à vida pública. Rezava-se que a masculinidade, quando sabiamente preservada através da “abstinência sexual”, podia ser notada até mesmo através da voz do sujeito. E, por basearem-se em tais códigos sexuais, os chamados “notáveis” submetiam suas famílias a um austero puritanismo masculino.

Como ficava a classe inferior em relação a tais códigos? Aos inferiores os “notáveis” apresentavam a outra face da moeda, permitindo-lhes um comportamento inteiramente diferente do deles. Para eles não havia código moral. Quanto mais fraca fosse a gentalha, mais acima ficavam os “bem-nascidos”. E, ao contrário de nossos dias, na vida pública romana havia uma grande indiferença pela nudez, que nada tinha a ver com a vergonha sexual conhecida posteriormente, em razão do cristianismo. A nudez estava em todos os lugares: nos banhos públicos, nos esportes (atletas), diante dos escravos, etc. A exibição vista nas mulheres do povo era tida como própria da classe inferior, contrapondo-se à superioridade da elite.

 Nota: Sexo no Imp. Romano

 Fonte de pesquisa
História da Vida Privada I / Edit. Companhia das Letras

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OS BANHOS NO IMPÉRIO ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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As casas de banho, com suas águas frias e quentes, eram uma fonte de prazer no Império Romano. Elas nada tinham a ver com a prática de higiene, como alguns são levados a imaginar. Poderiam ser comparadas à ida à praia nos dias de hoje. Para elas se dirigiam homens livres, escravos, mulheres e crianças. Todos podiam desfrutar de tal lazer. Tampouco havia preconceito contra quem quer que fosse. Existiam os espaços destinados às mulheres e aos homens, separadamente. O povaréu pagava uma quantia simbólica, e podia passar um bom tempo em ambientes luxuosos, tidos como uma dádiva do imperador ou de algum notável.

Um gongo era o responsável por sinalizar, diariamente, a abertura das casas de banho públicas. Em qualquer cidade havia, pelo menos, um banho público. As famílias ricas também tinham salas de banho particulares em suas casas. Contudo, havia aqueles contrários a tal prazer, como os cristãos e os pensadores, que viam como fraqueza a ida a tais lugares, em busca de divertimento. Eles só tomavam banho uma a duas vezes ao mês. A sujeira, ao contrário dos dias de hoje, em que a higiene, além de ser vista como limpeza e asseio e é também um ramo da medicina que tem como objetivo a prevenção de doenças, era uma prova de orgulho para aquela gente. Os emporcalhados mostravam com altivez que não sucumbiam ao aprazimento ocasionado pela limpeza. Um filósofo, por exemplo, que trazia sua barba suja, apenas confirmava o quão rígido era o seu caráter.

Era nas casas de banho públicas que as famílias reuniam-se, os amigos encontravam-se, anedotas eram contadas e falava-se das novidades e fofocas do Império.

Nota: imagem copiada de www.sewerhistory.org

Fonte de pesquisa
História da Vida Privada I / Comp. das Letras

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PESSOAS E DEUSES NO IMP. ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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As pessoas tinham para com os deuses idêntico tratamento dedicado aos poderosos. Era o mesmo modelo das relações políticas e sociais. Não aceitavam a obediência cega aos seres considerados divinos, mesmo sendo eles tidos como superiores, pois uma relação servil, cheia de temor, mostrava uma imagem negativa do devotado e também das divindades. Entendim que devotamento não se traduzia em escravidão. O temor aos deuses era tido como “superstição”. As pessoas saudavam-nos com a mão, sempre que passavam diante de suas imagens. Sempre os recordavam, avivando-lhes o amor-próprio, de que eram divinos e poderosos, portanto, obrigados a atendê-las em seus pedidos. Visitavam os templos, principalmente os dos deuses vizinhos, saudando-os todas as manhãs.

Os pagãos viam seus deuses como seres bondosos, justos, caridosos e sempre prestes a acudir os mortais. A maioria deles acreditava que a divindade preferia uma oferta humilde, como um bolo, de alguém de bom coração, do que receber as ricas oferendas advindas de indivíduos perversos. Havia também aqueles que tentavam negociar com tais seres, oferecendo-lhes sacrifícios em troca da obtenção de riquezas, ou seja, julgavam-nos de acordo com o próprio caráter. Isso é algo ainda muito comum aos dias de hoje, apesar de tantos séculos de distância, tanto nas religiões politeístas quanto nas monoteístas. Fizeram da fé um balcão de negócios.

Os devotos tinham muita consideração por seus deuses, procurando ficar sempre em relação direta com aqueles que tomavam por protetores. Faziam-lhes promessas, participavam de peregrinações e traziam-nos até mesmo em seus sonhos. Era importante para eles demonstrar o quão fieis eram na confiança devotada. Invocavam-nos nos mais diferentes momentos: parto, doença, negócios, guerras, viagem, etc. Tinham a formulação de um voto e a oferenda, por mais simples que fossem, na mesma igualdade da prece. Para Lúcio Apuleio, escritor e filósofo romano, um ímpio era aquele que nunca:

  • fez um pedido solene a nenhum dos deuses ou frequentou um templo;
  • levantou a mãos aos lábios em sinal de adoração, diante de uma capela;
  • ofertou aos deuses de seus domínios: alimentos de suas colheitas e crias de seus rebanhos;
  • dedicou aos deuses uma capela, um canto ou bosque sagrado, em sua casa de campo.

Nunca houve nenhum ateísmo popular na Roma daquela época. Porém, os romanos cultos, como Cícero, Virgílio e Horácio, por exemplo, não criam em nada. Ainda assim, eles sabiam que a religião tinha um ponto de verdade ao apresentar-se como fábulas, em que se inseriam a Providência e o Bem.

Nota: deuses romanos, imagem copiada de http://www.estudopratico.com.br/mitologia-romana

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VISÃO SOBRE A MORTE NO IMP. ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Eram poucas as angústias vividas pelas pessoas da época do Império Romano em relação às aflições existenciais, uma vez que filosofia, devoção e religião não tinham muito sentido para elas. Questões como “Quem sou? De onde vim e para onde vou?”, que nos trazem desassossego e perturbação, não eram comuns àquela gente, pois tais indagações nasceram com o advento do cristianismo. A filosofia hoje, além de ser ensinada na escola, é parte de nossa cultura. E cada religião traz consigo exercícios espirituais e ensinamentos de regras de vida. A ideia da vida pós-morte, nos dias de hoje, varia de acordo com a doutrina de cada uma. Ou seja, há credos para todos os gostos, bem diferente do que se vivia no Império Romano.

 Os povos antigos não atrelavam à religião os preceitos de vida e os exercícios espirituais, mas tinham-nos como parte daquilo que podemos chamar de “filosofia”. A religião encontrava-se mais ou menos separada dos conceitos sobre morte e além. Mesmo as seitas existentes traziam apenas um caráter filosófico. Elas tinham por objetivo ensinar normas de vida a quem as quisesse. Se o indivíduo optava por ser epicurista (epicurismo: doutrina de Epicuro, filósofo materialista grego) ou estoico (estoicismo: designação comum às doutrinas dos filósofos gregos Zenão de Cício e seus seguidores), por exemplo, ele seguia as convicções de sua seita.

A preocupação com o além-túmulo, envolvendo a imortalidade da alma, inexistia no Império Romano. Isso não era um sofrimento existencial para aquela gente. As seitas epicurista e estoica não acreditavam na eternidade. A religião pagã tampouco interferia em tal ponto de vista na tentativa de anulá-lo. Os que acreditavam no além constituíam um grupo separado, dividido em pequenas seitas. A opinião mais disseminada era a de que “a morte era um nada”, “um sono eterno” e que o mundo das Sombras não passava de uma fábula. Nenhuma doutrina apregoava a existência de uma vida após a morte. Portanto, pelo fato de não ter uma doutrina comum, tais indagações não faziam parte da vida da imensa maioria dos romanos, e, como consequência, eles não criam em nada. O que importava era a vida terrena.

Os romanos, de modo geral, tinham a morte como um local de descanso após uma jornada na Terra. A imagem de um navio ou cavalo encontrado em sarcófagos não alude a uma viagem à eternidade, mas à viagem constituída pelo caminhar durante a permanência na vida terrena. Embora eles tivessem uma semana no mês de fevereiro para celebrar seus mortos, levando-lhes oferendas, não acreditavam que eles se alimentassem com elas. Tal procedimento não passava de um mero ritual.

Nota: Mosaico encontrado em Pompeia. Representa “Gozemos enquanto é tempo.”. O esquadro, instrumento de medida apresentado, mostra que a morte é igual para todos e dá a verdadeira medida de tudo. (Nápoles, Museu Arqueológico)

 Fonte de pesquisa
História da Vida Privada I / Comp. das Letras

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