A CAVERNA DO DIABO (II)
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Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

Não havia qualquer infraestrutura de atendimento a turistas em Xiririca. Fomos procurar uma dependência da Prefeitura e lá conseguimos saber que a caverna ficava “longe” da cidade, que não havia estrada nem qualquer serviço de informações ou apoio na região da caverna. O funcionário da prefeitura nos sugeriu que à noite fossemos ao único armazém da cidade, aonde, justamente na sexta-feira, ao fim da tarde, chegavam os “caboclos” e nativos da região para “compras” e “abastecimento”. Essa deveria ser nossa fonte de informações.

Quando saíamos da repartição da prefeitura encontramos dois jovens que chegavam à cidade em um jipe e que também queriam conhecer a caverna. Já estávamos no fim da tarde. Fomos então juntos ao tal armazém, a “venda” da cidade. Esse era mesmo o lugar para se saber sobre a região, sua gente,  costumes e caminhos.  Os frequentadores eram quase todos homens muito rudes que trabalhavam no cultivo, transporte da banana ou do palmito nativo. Muitos vinham de horas de caminhadas a pé pelo mato ou em rústicas canoas “bananeiras” pelos rios e braços daquela bacia do ribeirão Xiririca, afluente do rio Ribeira. Quase todos eram negros, mulatos ou caboclos.

O armazém era o mais rústico e primitivo. Os principais itens de abastecimento eram sal, querosene, facões, lamparinas, cordas, alguns itens de arreios como cabrestos e selas muito rústicas. A “tecnologia” mais avançada em iluminação eram os lampiões a carbureto. De vestuário, os itens mais importantes eram os largos chapéus de palha e rústicos sapatões de couro com sola de pneu. Muito pouco havia de comestíveis, além de arroz, feijão, farinha, sal e café. Além do “abastecimento”, uma coisa importante para os frequentadores era o encontro e o “papo” ao redor da “pinga” à luz de “carbureto”.  Não havia mulheres. Era ali que aconteciam os encontros daquela gente, ou melhor, daqueles homens rudes. Às sextas-feiras, até o fim da tarde, ali aconteciam o encontro, as novidades, o “prosear” e o abastecimento ao redor de uma dose da “marvada” cachaça. Depois do encontro no armazém, cada um enfrentava sua outra  jornada de regresso aos ermos de suas casas, quase sempre ribeirinhas, distantes e muito pobres.

Foi nesse ambiente que tivemos nosso “banho” da cultura local. Aí ficamos sabendo de muitas das lendas que povoavam a mente daquelas pessoas e que muito tinham a ver com onças e gente morta na  “Caverna do Diabo”. Havia entre essas histórias gente e gado mortos pelas onças, próximos ou no interior da caverna. Outras histórias tinham a ver com suçuaranas (onça parda), sua caçada e prejuízos dados aos rebanhos, em grande parte soltos pelo mato, sem limites de cercas ou pastos. Também nos foi falado dos riscos decorrentes da total escuridão e das cavidades do rio interior da caverna. Era óbvia a necessidade de um fio para que encontrássemos o caminho de volta para a saída: como o “fio de Ariadne” da lenda grega para saída do labirinto do Minotauro. Fio para pesca era um item encontrado no armazém: compramos um rolo.

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