A LOUCURA NA IDADE MÉDIA

Autoria de LuDiasBH

feno123

Hoje, convivendo com os mais modernos remédios usados no tratamento de doenças mentais, pois assim como as demais partes do corpo humano a mente também adoece, não fazemos ideia do sofrimento passado pelas pessoas, doentes mentais, que viveram na Idade Média. Tal conhecimento leva-nos à observância de como foi grande o salto dado pela ciência médica, e como vem se transformando a visão sobre a doença mental e seus portadores, mesmo que nos rincões esquecidos ainda haja muito preconceito a ser desmitificado.

Na Idade Média e princípio da Idade Moderna, os relatos sobre a vida das pessoas acometidas pelas doenças da mente eram tenebrosos. Elas eram deixadas à mercê de correntezas, jogadas de uma cidade para outra, etc. Na Europa, o sistema mais usado era o banimento dos doentes, tanto por barco quanto por terra, levados na companhia de transportadores de mercadorias, de um lugar para outro. Banidos eram também os mendigos, errantes, soldados licenciados, aleijados e doentes.

As pessoas sem teto, na Idade Média, correspondiam a um número altíssimo, muitas vezes chegavam a 30% dos moradores de uma cidade. Como essas fossem protegidas por muralhas e fortificados portões, tornava-se fácil impedir a entrada dos grupos errantes. E, mesmo quando um mais sortudo conseguia adentrar-se em uma cidade, acabava ferozmente banido. Mas fazia-se uma diferença entre os aventureiros e os loucos, havendo um pouco mais de consideração para com os últimos. Uma vez constada a insanidade mental do indivíduo, um barqueiro ou guia recebia o encargo de distanciá-lo da cidade, quando a ela não pertencesse. Era enviado para seu local de origem ou, então, deixado em qualquer outro lugar. A única preocupação dos citadinos era a de que jamais voltasse a aparecer.

Na Idade Média, o conceito de louco e o de  pecador, em razão da ignorância da época e do fervor religioso, tinham definições similares. Os que infringiam os mandamentos da lei de Deus (pecadores) e os doentes mentais propriamente ditos estavam no mesmo barco, pois tanto uns quanto outros não reconheciam o caminho que levava ao Paraíso. Os primeiros ainda tinham melhores chances de serem salvos. Religião e doença mental, portanto, faziam parte do mesmo balaio. Para a época, todo “pecador” era também um “demente”.

Os loucos, pertencentes a uma determinada cidade, eram tomados como propriedades dessa, não sendo expulsos, mas encarcerados em cadeias ou em casas de dementes, caso manifestassem um comportamento violento. O local era vigiado por um funcionário da cidade, detentor de uma baixa categoria. É bom que fique claro que o local funcionava apenas como um depósito, sem que os doentes recebessem qualquer forma de tratamento. O mesmo acontecia às vítimas de outras doenças graves, tidas como incuráveis. A única crença depositada era num milagre, para lhes restituir a saúde. Embora isso possa parecer a nós, cidadãos do século XXI, um ato hediondo, havia motivos justificáveis para tanto:

• a ciência engatinhava, desconhecendo as causas de muitas doenças, incluindo as mentais.
• a religião direcionava a vida das pessoas, e tudo era atribuído ao poder onipresente de Deus, sem a necessidade da interferência humana. Ele era o senhor da vida e da morte.
• o sofrimento era inerente e necessário à vida, logo, o importava era a outra vida no céu.

Se o doente não apresentava sinais de violência, ele vivia normalmente com a família, integrando-se a ela e à sociedade, pois sua doença era mandada por Deus, e todos dependiam de suas graças. Mas, se não tivesse quem cuidasse dele, o coitado era enviado para um asilo. Para as pessoas saudáveis, ajudar um louco propiciava-lhes uma boa ação aos olhos de Deus, pois as boas obras contribuíam para a salvação da alma. Os loucos eram, portanto, vistos como necessários, pois ofereciam às pessoas uma oportunidade de, com suas boas ações, ganharem o reino dos céus.

Com a entrada da Idade Moderna, quando a Igreja Católica passou a perder sua unidade e força, as coisas mudaram, pois Lutero e seus reformadores passaram a apregoar que as boas obras não tinham valor algum para a entrada no reino dos céus. O que foi péssimo. Ajudar os loucos, mendigos e aleijados perdeu o valor religioso de antes, para infelicidade desses pobres sofredores. Assim, de necessários, eles passaram a ser indesejáveis e segregados. Para retirá-los do seio da sociedade, foram criados inúmeros asilos e prisões, onde se empilhavam doentes psíquicos, ladrões, mendigos e errantes. A reforma religiosa, portanto, em nada contribuiu para minorar o sofrimento dos necessitados, ao contrário, aumentou-o.

O uniforme do louco era muito conhecido, sendo usado pelo bobo da corte e em festas de Carnaval. Dele fazia parte sinos, que deveriam tocar sempre que o demente movia-se. Eram representados com um espelho na mão, ou com um cetro ou bengala. Muitas vezes, o louco carregava uma crista de galo sobre o gorro, ou orelhas de burro. O aloucado simbolizava a condição humana, fazendo parte do reino dos instintos e também do reino do espírito, pois todo indivíduo era, por natureza, um louco. Por volta de 1500, vários livros foram publicados sobre as vítimas da loucura.

Hoje há uma nova visão em relação ao louco, não sendo mais visto como um pecador, incapaz de encontrar o caminho do céu, mas alguém com um modo de ser diferente dos demais.

Nota: pormenor do quadro O Barco dos Loucos, de Bosch

Fontes de Pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen

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