Botticelli – ADORAÇÃO DOS MAGOS

Autoria de LuDiasBH

reis magos

É lamentável perceber que os poderosos são os mesmos em todos os tempos, como se a maldição do poder estivesse entranhada na alma humana, sem nenhuma possibilidade de cura. Observe o querido leitor que, para os virtuosos da Igreja, a pintura de Botticelli tinha por finalidade a disseminação da fé, enquanto para os nobres e os influentes burgueses, ela representava o poder, o domínio, o privilégio. Mas que tipo de poder? Agradar aos mais poderosos e a possibilidade, ainda que ilusória, de barganharem com Deus. Pois sabiam os tais senhores que eles levavam uma vida descomedida, guiada pela usura e pelos prazeres da carne, sem se importar com o povo. Ao terem que deixar a vida terrena, o fardo a carregar seria extremamente pesado. Portanto, nada melhor do que amenizá-lo antes da partida sem volta. E um quadro votivo (ofertado em cumprimento de voto ou promessa) haveria de fazer com que Deus se enternecesse e abrandasse o julgamento do patrono da oferenda.

É interessante notar que, mesmo nas obras predominantemente religiosas, lá estavam eles, os votivos, a lembrarem ao Senhor o quanto foram piedosos e devotados à fé, durante a vida terrena, portanto, deveriam ser recebidos no “paraíso” de braços abertos, em razão de tamanha magnanimidade.

Na Adoração dos Reis Magos, de Sandro Botticelli, podemos ver o “suborno” explicitado com bastante clareza. Na sua pintura, o artista reproduz o rosto de vários membros da família Médici e seus amigos. Até mesmo o responsável pela encomenda exigiu que também fosse retratado. E, se Deus se esquecesse da fisionomia de um deles? Melhor seria se acautelar, pois um homem prevenido vale por dois. O artista também é retratado na pintura. Observem:

  1. Guaspare di Zanobi, o aristocrata, que encomendou a tela, aparece no grupo da direita, com o olhar fixo no observador, segurando com a mão enluvada de branco a borda de sua veste azul e dourada.
  2. Os Médici são representados nas vestes dos Reis Magos, os mais importantes depois do Menino Jesus e seus pais.
  3. O rei, que toca o pé do Menino no colo da Virgem, traz as feições de Cosimo, o Velho.
  4. Os dois homens, ajoelhados no centro e à direita, trazem a fisionomia de Piero, o Gotoso e de Giovanni, seu irmão.
  5. Lorenzo, o Magnífico, pensativo, está trajando preto e vermelho, no grupo da direita.
  6. Giuliano, irmão mais novo de Lorenzo, encontra-se empertigado na extrema esquerda da pintura, armado de uma espada.
  7. O próprio pintor Botticelli está representado no grupo da direita, envolto por um manto de cor dourada, observando o espectador.
  8. Os demais personagens, embora representem a nobreza e os grandes burgueses, apoiadores da família dominante, são de difícil reconhecimento.

Nesta pintura é possível perceber a profunda relação que existia entre Sandro Botticelli e os poderosos da família Médici. A reverência era tão grande que Cosimo, o Velho, e seus filhos Piero e Giovanni, são retratados como os Reis Magos.

Ficha técnica:
Data: 1475
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 111 x 134 cm
Localização: Galleria degli Uffizi, Florença, Itália

Fonte de Pesquisa:
Grandes Mestres/ Abril Coleções
1000 obras primas…/ Könemann
A Arte em Detalhes/ Robert Cumming
A História da Arte/ Sextante

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