Historiando Chico Buarque – APESAR DE VOCÊ

Autoria de LuDiasBH

Portinari 1a

Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia/ Você vai se dar mal/ Etc. e tal.” (Chico Buarque)

O príncipe velho, invejoso e mau, com cara de bom avô, tramou dia e noite para derrubar a rainha de seu reino, mal ela dele tomara posse. Seu maior sonho era ser rei, ainda que por alguns meses. O mau-caráter aliou-se aos crápulas, calhordas, canalhas e tudo que havia de pior no seu reino, a fim de chegar ao trono. E tanto urdiu, teceu, forjicou e entrelaçou os fios da discórdia e da malquerença que nem mesmo o conselho, composto por homens, até então considerados doutos, predispôs-se a intervir na defesa da soberana. Ao contrário, o conselho também tramou ardilezas e deslizes para levar o príncipe-mau ao poder. Tanto é que a rainha e seu povo não deram mais ouvidos àqueles que outrora eram tidos como os sábios do reino. Estavam manchados pela parcialidade e comprometimento com as injustiças. Não mais mereciam ser vistos como bons juízes na defesa do reino. O fato é que a rainha foi afastada de seu trono sob a desculpa de que deveria se defender, quando na verdade tudo já se encontrava tramado, tecido, urdido, convencionado, manipulado, maquinado e decidido.

Nas ruas e em suas humildes casas, os camponeses choravam a traição enredada. Tinham a certeza de que tempos turbulentos viriam para eles, os reais edificadores do reino, e dias benéficos seriam propiciados aos amigos do príncipe-mau, sugadores do suor dos humildes. Entre lágrimas cantaram para o príncipe invejoso: “Hoje, você é quem manda/ Falou, tá falado/ Não tem discussão/ A minha gente hoje anda/ Falando de lado/ E olhando pro chão, viu”. Mas alguns homens e mulheres mais esclarecidos complementaram que a canção também deveria ser direcionada ao conselho de doutos do reino, que não se posicionara como era de seu dever, sendo, portanto, o maior responsável pelos ardilosos fatos em andamento. E ao conselho foram dirigidos os versos: “Você que inventou esse estado/ E inventou de inventar/ Toda a escuridão/ Você que inventou o pecado/ Esqueceu-se de inventar/ O perdão”.  Agora, que buscasse luz para a escuridão em que ajudara imergir o reino e seu povo mais carente.

Com o afastamento da rainha, o homem-mau e seus comparsas, muitos deles há muito tempo merecendo ver o sol nascer quadrado, mas a quem foram confiados honoríficos cargos com a conivência do conselho de doutos, que de tudo tinha conhecimento, puseram-se a tripudiar sobre a rainha e os camponeses. Festejaram em suas luxuosas mansões com bebidas caras, importadas de reinos mais poderosos, sob o tilintar de taças de cristal, durante dias e noites. Mas o povo camponês não se deu por vencido. A guerra ainda poderia ser ganha, se todos os fracos juntassem as mãos, uma vez que perfaziam a maioria. E assim, após o trabalho, essa gente passou a reunir-se nas ruas e praças, gritando contra a vingança perpetrada pelo velho príncipe e sua gangue do mal: “Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia/ Eu pergunto a você/ Onde vai se esconder/ Da enorme euforia/ Como vai proibir/ Quando o galo insistir/ Em cantar/ Água nova brotando/ E a gente se amando/ Sem parar”. Nada como um dia atrás do outro. Todos haveriam de pagar caro pela guerra à rainha, declarada.

Os camponeses passaram a contar com a ajuda de muitos intelectuais, artistas, estudantes, mídia alternativa e pessoas de bom coração, também vítimas do despreparo, prepotência e descontrole do príncipe-mau, que continua na posse do reino, urdindo, com seus sequazes, cruéis e estúpidas mudanças a serem jogadas no lombo do povo humilde. Dizem os tais, que até que irão construir uma ponte sem volta para o reino. Mas nas ruas, promessas a eles são dirigidas, dia após dia, pelo povo injuriado: “Quando chegar o momento/ Esse meu sofrimento/ Vou cobrar com juros, juro/ Todo esse amor reprimido/ Esse grito contido/ Este samba no escuro/ Você que inventou a tristeza/ Ora, tenha a fineza/ De desinventar/ Você vai pagar e é dobrado/ Cada lágrima rolada/ Nesse meu penar”. Até as crianças do reino sabem que nada fica impune neste mundo de meu Deus. Mais cedo ou mais tarde a cobra fuma para o lado do malfeitor e seu séquito. Tudo é questão de tempo, pois algo ruim e podre encontra-se a caminho, conforme informa o oráculo do reino. Quem viver verá que toda glória é finita, por mais imponente que seja o laureado!

Muitos dos camponeses, que aderiram ao príncipe invejoso, arrependeram-se. Observaram que o reino fora entregue aos que com ele se locupletavam, inclusive gatunos do erário público. E tanto a corja sacia-se e enriquece-se que o conselho dos doutos já não tem mais gavetas para guardar denúncias sobre a súcia. Essas já estão a sair pelo ladrão, sem que os doutos tenham coragem de ao menos lê-las. Alegam que há muito tempo para isso, uma vez que não são  direcionadas à rainha e a sua gente. E na rua o povo, agora em maior número, continua a cantar: “Inda pago pra ver/ O jardim florescer/ Qual você não queria/ Você vai se amargar/ Vendo o dia raiar/ Sem lhe pedir licença/ E eu vou morrer de rir/ Que esse dia há de vir/ Antes que você pensa”. E como haverá de vir!

O príncipe velho e mau tem sido notícia na mídia mais poderosa do reino, que com ele tramara a queda da rainha e, que lhe tece os mais loroteiros e pabolas elogios. Mas algo ainda atormenta o homem invejoso, que sempre sonhou em ser rei, e os seus asseclas: ser chamado de “golpista”. Ele e seus sequazes tiveram a petulância de  pedir ao conselho de doutos que proibisse a rainha de dizer, ao povo de seu reino e de outros, que fora vítima de um iníquo golpe, ou seja, tirada do trono pela força da vingança. Esquecem eles que os demais reinos  testemunharam e comprovam todos os seus ardis e tramoias. Mas o povo continua a cantar nas ruas e praças: “Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia/ Você vai ter que ver/ A manhã renascer/ E esbanjar poesia/ Como vai explicar/ Vendo o céu clarear/ De repente, impunemente/ Como vai abafar/ Nosso coro a cantar/ na sua frente”. E esse dia não tardará a chegar – reafirma o oráculo ao povo.

Obs.: Ouçam APESAR DE VOCÊ

Nota: pormenor da obra de Candido Portinari, Guerra e Paz.

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