SÍNDROME MENTAL E VIDA A DOIS

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Lívia Cristina Linhares

Mais uma vez estou aqui para agradecer por este espaço e para falar um pouco de mim.

Estou na minha terceira crise. Sofro de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Síndrome do Pânico (SP) ao longo de nove anos. O meu desespero se dá, principalmente, porque tenho muita idealização suicida e despersonalização. Eu sinto pânico somente em pensar que possa fazer algo contra mim numa hora de extremo desespero. Sei que muitas pessoas passam por isso, podendo, assim, avaliar como me sinto.

Meus pais são idosos. Ambos já perderam um filho repentinamente e eu acompanhei o estado de sofrimento em que eles ficaram. No que depender de mim não quero nunca trazer essa dor para eles, mas quando estou com crise de depressão, tudo que eu quero é acabar com a minha vida, embora isso seja totalmente contra minha religião, mas minha cabeça pira e tenho dificuldades em lidar com isso. Quando sou atingida pela despersonalização, aí é que fico achando que pirei de vez… Nada parece real, nada faz sentido e me desespera estar vivendo neste mundo louco que minha cabeça criou. Tenho a sensação de que estou presa lá dentro e que jamais irei sair.

Não posso dizer que já estou bem, ou que já voltei a ser como era. Ainda não sinto alegria ou vontade de viver. Tudo tem sido muito difícil para mim, mas já sinto os pensamentos suicidas e a despersonalização menos vezes. O pânico tenta se arrastar por mim algumas vezes por dia, porém já o controlo um pouco mais, consigo mudar o foco da minha mente. Apesar de tudo, continuo insistindo em sair (hoje fui pintar o cabelo e as unhas, mesmo sem vontade), a fim de desanuviar a cabeça.

Fiquei alegre ao ler aqui neste espaço sobre maridos/companheiros de mulheres que sofrem de depressão (ou de qualquer outro transtorno mental) e eles as compreendem e ajudam no tratamento. Na minha segunda crise depressiva, em 2010, decidi que não queria me envolver com mais ninguém. Não achava justo eu arrastar uma pessoa para viver comigo, uma mulher doente, tendo que me aturar nas crises, quando o remédio parasse de fazer efeito. Esta é minha maneira de pensar e de enxergar a minha situação, o que deixa minha vida ainda mais sem sentido.

A minha família sempre fala que é um “saco” e um “inferno” quando estou depressiva. Por isso, decidi que ficaria sozinha, porque não sou merecedora de alguém. Já faz oito anos que estou completamente sozinha. Na verdade, eu nem lembro mais como é ter alguém ao meu lado no que diz respeito ao amor. E aí aparecem pessoas nos comentários deste blogue que me mostram que posso ter uma vida “normal”, que existem parceiros com compreensão e companheirismo na hora do sufoco ou do sossego, dando sempre a maior força. Isso me transmitiu uma esperança, um sentimento que já não tinha há muitos anos. Além de tudo que aqui recebo, agradeço por isso também, por me mostrarem uma maneira diferente de ver a vida, dizendo-me que posso ter alguém afetivamente ao meu lado numa vida a dois.

Enfim, hoje foi mais difícil do que ontem, mas menos difícil do que alguns dias atrás. Gostei da ideia da Lu para eu fazer um diário, pois é bom ver o nosso progresso, vou tentar adotar esta ideia. Um beijo enorme no coração de todos que aqui vêm. Obrigada pela força! Todos vocês são para mim muito especiais.

Nota: Os Amantes de Vence, obra de Marc Chagall

11 comentários sobre “SÍNDROME MENTAL E VIDA A DOIS

  1. Ana Maria

    Olá, Lívia!

    Que bom que você achou este cantinho. Aqui vemos que não estamos sozinhos, apesar de estarmos distantes fisicamente, as palavras e os sentimentos nos aproximam. Apesar da família não entender ou não procurar compreender o que estamos sentido, não podemos nos isolar do mundo. Todos nós merecemos a chance de ser feliz e ter alguém que nos ame e apoie. Às vezes é difícil, temos medo de achar alguém e perder, de nos machucar após um envolvimento, mas não podemos deixar a peteca cair e fechar o coração. Há muitas pessoas no mundo e o dia de amanhã pode nos reservar surpresas!

    Desejo tudo de melhor pra você!

    Abraço

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    1. Livia

      Querida Ana Maria,

      Muito obrigada pelo seu comentário e pelas suas palavras tão doces e otimistas. E você está certa, o amanhã nos reserva tantas surpresas. E por que não esperar pelas boas surpresas da vida? Venho tentando me manter mais aberta e com pensamentos positivos a respeito do assunto.

      Um beijo grande no seu coração,

      Lívia

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  2. Moacyr Praxedes

    Olá, Lívia!

    Gostei muito do seu depoimento. Vejo que é uma pessoa sensata e sensível, portanto, apta a ser feliz. Não acredite no que os outros dizem, não deixe ninguém resolver sua vida por você. Mire-se no exemplo do grande físico Stephen Hawking que sempre buscou ser feliz, apesar de sua doença totalmente incapacitante. Enquanto estamos vivos, temos a obrigação de buscar ser felizes, apesar de todos os percalços da vida.

    Abraços!

    Responder
    1. Livia

      Olá, Moacyr,

      Obrigada pelo seu comentário. Esse assunto é muito delicado e importante pra mim. Ler a opinião e o incentivo dos demais, ainda mais do sexo oposto, me ajuda demais nessa caminhada conflituosa que criei dentro de mim, entre o transtorno psicológico e a vida amorosa. E sim, Stephen Hawking foi inspirador em palavras e em ações. Você está certíssimo, ótima lembrança.

      Um beijo e um abraço carinhoso,

      Lívia

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  3. Rene

    Oi, Lívia!

    Obrigado pelo seu depoimento!

    Faço tratamento para ansiedade, pois tive uma forte crise no início de fevereiro. Logo achei esse espaço aqui, que só tem me ajudado.
    Na minha experiência, toda vez que sinto que vou perder o controle, ou tenho a sensação de que vou talvez até enlouquecer, eu aplico alguma técnica que me traga para o “aqui e agora” – o tempo presente. Uma que é muito eficiente é a da “respiração consciente”: onde quer que eu esteja, começo a inspirar iniciando o movimento pelo meu diafragma, ou seja, expandindo a barriga para inspirar pelo nariz e contando até 3; depois, seguro a respiração, também contando até 3; e então expiro pela boca (sem assoprar, apenas deixo a boca levemente aberta) contando até 6, encolhendo a barriga, sem fazer força. Faço lentamente, por uns 3 minutos pelo menos, ou até me sentir melhor. A ideia é a de liberar o ar dos pulmões, ocupar a mente com a atividade da respiração e ao mesmo tempo proporcionar uma sensação de calma e a percepção de que estou presente, no aqui e agora. Além disso, continuo contemplando as coisas ao meu redor se estiver fazendo alguma atividade, prossigo, mas mais lentamente. Logo as sensações ruins passam.

    O importante pra mim tem sido aceitar o momento como ele se apresenta, não lutar contra ele, apenas aceitar, até mesmo porque ele é passageiro, assim como os pensamentos e as sensações. Mesmo as piores sensações e pensamentos passam, como nuvens no céu. Quando vem um pensamento ruim, tento vê-lo, testemunhá-lo como ele é: algo apenas passageiro, muitas vezes inútil ou não verdadeiro. Um pensamento não é uma verdade absoluta. Ele é um fenômeno temporário. Deixo-o passar, ele passa mesmo. Assim também são as crenças. Temos muitas crenças disfuncionais, por razões que às vezes nem conhecemos. Quando vem uma crença negativa, por exemplo, de que eu não vou mais encontrar nenhum par afetivo – sim, eu já cheguei a pensar várias vezes sobre isso – eu logo questiono essa crença, pois por mais que haja a opinião dos outros (sempre haverá), isso não determina os acontecimentos.

    O acontecimento de uma relação afetiva, de um encontro entre seres afins, é algo natural, é da vida, pode ocorrer para qualquer um de nós, quando nós menos estamos esperando. Aos poucos estou aprendendo que as coisas acontecem no presente, que o presente é o lugar da mudança e é o tempo onde tudo acontece. Porque limitar as nossas possibilidades a partir de crenças negativas? Não devo ficar repetindo pra mim mesmo: vai aparecer o par ideal! Isso poderia ser frustrante. Idealizações não ajudam muito, mas se libertar da falsa crença de que não terei uma vida afetiva novamente é algo fundamental. A vida é aberta, cheia de possibilidades. Tudo está em movimento.

    Você está aqui, Lívia, com toda a sua força, sua energia de superação, já enfrentou e aprendeu muito, pelo que entendi. Estou certo de que você está avançando. Tenho muita fé na sua força!

    Um grande abraço!

    Responder
    1. Livia

      Querido Rene,

      Nem sei como responder a esse seu depoimento tão cheio de orientações positivas para mim. Obrigada por me ensinar a técnica da respiração, vou usar com certeza! Obrigada por suas palavras sobre acreditar em mim. Como faz diferença a gente ler isso, ver que alguém está depositando confiança na sua força! E sim, tenho tentado ter menos crenças negativas a respeito de relacionamentos, estou tentando trabalhar em mim que sou merecedora, sim, de alguém bom, pois sou um ser humano do bem e um transtorno mental não pode me limitar. É um trabalho árduo e longo, mas eu venho tentando melhorar isso, até mesmo estou fazendo terapia, que foi algo que não fiz em nenhuma das duas crises anteriores.

      A questão da aceitação que você comentou também tem feito muito diferença pra mim. E isso aprendi com nossa tão amada Lu… Aceitar esse momento, aceitar que é uma fase e acreditar que podemos sair dessa ainda mais fortes. E isso tem me feito bem! Não tenho como agradecer pelas pessoas tão maravilhosas que este blog da Lu colocou em meu caminho. Toda a minha gratidão e admiração pela alma tão nobre de todos vocês.

      Um beijo grande,

      Lívia

      Responder
  4. LuDiasBH Autor do post

    Lívia

    O seu depoimento, assim como todos os demais que aqui se encontram, é muito importante para que possamos compreender os meandros dos transtornos mentais, assim como as suas diferentes manifestações. Veja bem, seu texto/depoimento foi tão valioso que o nosso amiguinho Fernando, ao lê-lo, sentiu que não se encontrava só, abrindo aqui o seu coração. Quando manifestamos nossa jornada pelos caminhos tortuosos de nossa mente, compreendemos que não somos os únicos a lidar com as conexões atrapalhadas de nossos neurônios, pois fazemos parte de um batalhão de lutadores e lutadoras em todo o mundo. Isso, ao invés de nos tornar fracos, fortalece-nos, pois nos livramos de cair nas teias da “vitimização”, achando que fomos “escolhidos”, dentre os mais de sete bilhões de habitantes do planeta. A verdade que é que os transtornos mentais, até o ano 2030, estarão ocupando o primeiro lugar no ranking mundial, mas até lá, acredito que medicamentos ultramodernos estarão no mercado, uma vez que a Ciência vem avançando mais e mais.

    Amiguinha, existem, sim, homens e mulheres maravilhosos(as) que se postam ao lado dos(as) companheiros(as) com transtornos mentais, dando-lhes um grande suporte emocional. Eu mesma posso comprovar isso, pois tenho um marido que sempre me ampara e me enche de amor, principalmente quando me encontro em crise. Ele torna a minha vida bem mais leve, pois sei que posso contar com sua força e compreensão.

    Amiguinha, fico feliz ao saber que você agora é capaz de compreender que existem verdadeiros anjos que compreendem nossa doença e nos dão a mão, pois faríamos o mesmo por eles. Pode se encher de esperança, porque nada impede que você tenha um companheiro maravilhoso ao seu lado. Não acredite nas palavras de sua família que, assim como centena de milhares de outras, não tem preparo para lidar com tais crises. Você realmente precisa botar sentido em sua vida. Comece buscando conhecer outras pessoas, mas assim que engatar um relacionamento mais sério com alguém, fale-lhe dos problemas que vivencia, o que o deixará feliz por contar com a sua confiança. Não gosto das pessoas que omitem seu transtorno, como se dele tivesse vergonha. Amar é confiar!

    Quero lhe dizer que você é uma pessoa muito especial, capaz de se colocar por inteira, também preocupada com as outras pessoas. Seu texto está impecável, pois transmitiu seus pensamentos com muita verdade e lucidez, em suma, é um exemplo para todos nós. Fiquei orgulhosa de contar com a sua presença neste espaço.

    Um grade abraço,

    Lu

    Responder
    1. Livia

      Querida Lu,

      Já lhe disse, mas estou toda boba em ter meu texto aqui. Eu me abri muito quando expus os sentimentos e pensamentos que se passam dentro de mim, principalmente no que envolve os transtornos mentais e a vida afetiva. Ver relatos de pessoas que têm seus parceiros como um grande companheiro de vida, e ver que esses relacionamentos não são definidos pelos transtornos mentais, foi como voltar a respirar após muito tempo embaixo d’água.

      Eu mal posso descrever e agradecer o suficiente pelo seu espaço. Primeiro, por esse seu trabalho lindo de criar um blog tão diversificado, que tem seriedade nos assuntos e uma correspondente sempre ávida por ajudar. Segundo, por ter tanto carinho conosco ao responder cada uma das mensagens de maneira tão cordial e cuidadosa. Observe que eu estou te imitando respondendo a cada uma das mensagens aqui do meu texto, espero que você não se incomode, só quero demonstrar o mesmo cuidado, como você sempre teve por cada um de nós. E para finalizar, você ainda nos incentiva em diversas áreas de nossa vida, seja compartilhando os nossos textos (e eu estou me sentindo super importante, rs), seja nos procurando fora do blog e demonstrando sua preocupação. E graças a sua maneira de agir, nos sentimos à vontade e motivados, inclusive, a falar uns com os outros, mostrando apoio nas publicações do próximo, criando uma rede de amparo psicológico indescritível. Você, realmente, usa os meios digitais para o bem e faz toda a diferença. Isso é tão raro! O seu cuidado é de espantar… mas de admiração!

      Um beijo enorme contendo toda a minha gratidão,

      Lívia

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      1. LuDiasBH Autor do post

        Lívia

        Sinto-me plenamente gratificada neste meu trabalho que tem por finalidade levar um pouco de luz para todos nós com Transtornos Mentais, tanto ao levar textos informativos como ao receber relatos tão tocantes como o seu. Tais depoimentos passam credibilidade a este espaço, pois aqui as pessoas desnudam a própria alma, totalmente desprovidas de tabus e de julgamentos. A confiança de todos vocês muito me orgulha, pois mostra que o nosso trabalho é muito sério. Mais gratificada fico quando vejo a interação entre os que aqui chegam. Esta troca de informação é mágica, pois nos faz sentir que não nos encontramos sós. Um espaço sem interatividade não possui função alguma, não passando de uma mera vitrine de faz de conta.

        Amiguinha, a função de um blogueiro (ou blogueira) consciente é trabalhar para que haja interação entre os visitantes de seu espaço, não devendo apenas ele(a) demonstrar seu ponto de vista, mas incentivar ações recíprocas para tornar o grupo ainda mais rico e diversificado. E cabe exatamente ao dono do texto a responsabilidade de dirigir-se àqueles que ali deixaram, carinhosamente, um comentário. Muitos não fazem ideia do quanto esse tipo de carinho é importante (tanto deixar um comentário quanto vê-lo respondido). Os que comentam estão dizendo: “Eu me importo com você, por isso estou aqui!”. O que responde diz: “Obrigado(a) por seu carinho, pois você, ao me dedicar um pouquinho do seu tempo, tornou-me feliz, apesar de todos os meus contratempos!”.

        Gostaria de dizer, minha querida amiga, que o espaço dedicado aos Transtornos Mentais é feito, sobretudo, por todos vocês que aqui chegam e participam. Sem a presença dos que aqui vêm (a cada dia chegam mais e mais visitantes, daí a demora, muitas vezes nas respostas) este cantinho não teria sentido. Eu sou apenas a coordenadora deste grupo fantástico.

        Aproveito também para demonstrar a minha gratidão a todos os que me permitem postar seus textos (retirados dos comentários), comentam e interagem. Muito obrigada!

        Abraços,

        Lu

        Responder
  5. Fernando

    Prezada Lívia,

    sofro o mesmo que você. Apesar de ser algo triste, esses comentários me fortalecem, pois vejo que não sou apenas eu que vivo isso. Também optei por viver sozinho para não arrastar ninguém pra esse sofrimento. Sou o Fernando e tenho 55 anos, solteiro e morando sozinho. Fica mais difícil essa solidão, creio, mas acho que tenho a personalidade esquizóide.

    Desejo tudo de bom pra você!

    Responder
    1. Livia

      Caro Fernando,

      Eu não conhecia sobre personalidade esquizóide. Fui procurar a respeito. Bem, durante os primeiros anos do meu “isolamento afetivo”, eu realmente me sentia bem dessa forma. Não sentia necessidade de um parceiro de vida, nem de nenhum tipo de intimidade. E eu penso da seguinte forma: se é dessa forma que você se sente bem, não há nada de errado com isso. O que começou a me incomodar foi quando eu comecei a perceber que eu achava que não merecia alguém na minha vida. Ou melhor, que uma pessoa ao meu lado só teria sofrimento. E aí eu fui acreditando nesse fato ano após ano, e isso começou a me fazer muito mal. Não digo que sou infeliz sozinha. Eu me sinto bem com minha companhia (e das minhas duas cadelinhas). Pode até ser que eu fique sozinha a vida toda (farei 36 anos no sábado). O que eu quero tentar mudar é esse pensamento que criei que não sou merecedora de alguém, que só causaria sofrimento por causa da minha luta contra a depressão e a ansiedade. Pois eu acabo me diminuindo.

      Agradeço muito pelo seu comentário. E sim, como nos fortalecem essa divisão de pensamento e sentimentos. E da mesma forma, do fundo do coração, te desejo o que há de melhor nesse mundo!

      Um abraço carinhoso,

      Lívia

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