TODA AÇÃO HUMANA MEXE COM O COSMO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos mostra como nossas reações interferem no Universo.

Os psicanalistas poderiam fazer graves acusações aos moralistas tradicionais, adeptos desta moral que Chauchard chama de “legalismo desencarnado”, cheia de “deve-se fazer” e “deve-se evitar”. Poderiam dizer: “Vocês moralistas estão crucificando os indivíduos que, imbuídos de restrições e deveres, partidos de um superego forjado pela religiosidade, pelos costumes, pelos conselhos dos pais, dos professores, dos mentores, entram em conflito interno com os impulsos naturais, ocasionando prejuízos à saúde. Será que não arranjam uma forma um pouco menos perigosa de cumprir o dever, de pautar-se pelo bem e evitar o mal?” (Hermógenes, em Sabedoria).

A moral que Chauchard e Teilhard reclamam e nisto têm a companhia dos psicanalistas é, posso dizer sem receio, a moral Yogui. “Por ter colocado seu eu ideal no eixo do Divino, o yoguin situa-se assim, naturalmente, no ponto de convergência do útil pessoal com a lei moral. É uma ética de um psicanalista e não de um moralista, de um observador e não de um juiz” (Choisy opus cit). Por ser natural, inteligente, libertadora e não frustradora, é que a moral yogui é considerada pela ilustre psicanalista Choisy “a que melhor convém aos discípulos de Freud”. A moral yogui começa com vivência e sabedoria filosófica, com o conhecimento do Universo, do indivíduo e desse em suas relações com o Universo, consigo e com Deus.

O fundamental não é a noção do bem e do mal. As ações que o yoguin evita são as que o afastam de seu sâdhana, isto é, de seu caminhar para a Meta ou Realização Espiritual. Sua natureza essencial de ser humano e chispa divina predestina-o ao Encontro redentor (Yoga). Quando ele vive em harmonia com as leis próprias de sua natureza, isto é, quando cumpre seu dharma, goza o bem, a saúde e a felicidade. Ao contrário, todos seus desvios (adharma) representam o mal, o sofrimento, a servidão e a doença. Se bem que haja tantos dharmas quantos os homens existentes, aí a relatividade da moral, há, no entanto, um dharma ou lei universal (bem absoluto) para todos os homens. Chama-se suddha dharma ou sanâtana dharma e é coerente com a natureza essencial e divina da espécie humana.

O grande neurofisiologista Chauchard, dentro de sua forma de falar, também se refere àquilo que o Yoga chama de suddhadharma que, como vimos, consiste em viver em harmonia com a Lei natural, com a natureza essencial do ser humano. Ele acha que “É falso pensar que cada um é livre para inventar a própria Moral, como se não houvesse valores comuns que dependem do fato de que sendo como somos, seres humanos, devemos conformar-nos à natureza humana”. A causa de adharma ou dos desvios do caminho para o Absoluto é o egoísmo, mantido pela ignorância, pela ilusão de que somos tão somente indivíduos separados uns dos outros, indiferentes aos outros, e buscando a felicidade mesmo à custa da dos outros. A isto a moral tradicional chamaria de pecado.

A palavra pecado não recebe custo na moral yogui. O pecador é apenas um ser interiorizado pela ignorância e pela doença. O que se opõe ao pecado não é a virtude, mas a saúde, a sabedoria ou a verdade. O castigo ao pecador é o retardo ou recuo em seu caminhar redentor para a realização espiritual. O pecador não é objeto de ressentimento, mas de comiseração e ajuda. E a melhor forma de ajudá-lo é primeiro compreendê-lo, depois lhe dar tratamento e afinal ensiná-lo a libertar-se do ahamkara (egoísmo). A libertação é cura. A cura é um processo de torná-lo mais santo e, portanto, mais são. A moral yogui cuida do bem. Mas não se preocupa com o mal ou com o diabo. É moral à base da compreensão que visa a restaurar a paz, a segurança psicológica do pecador, vale dizer – do sofredor.

Nenhum de nossos pensamentos, desejos e ações, por mais insignificantes que nos pareçam, deixa de mexer com o cosmo. A toda hora, sem que o saibamos, estamos rabiscando as páginas do livro da Vida Universal e por isto somos responsáveis. Toda expressão nossa de vida é karman (ação sobre o cosmo) e por ela responderemos. Os resultados são infalivelmente nossos. Nosso karman passado é a causa do que hoje somos, do que hoje sofremos ou gozamos. As consequências de nossas ações nos alcançam imediatamente ou depois, mas sempre nos alcançam e não há lugar que nos esconda ou proteja. Você pode me perdoar um mal que eu lhe tenha feito, mas “a natureza, jamais nos perdoa”, lembra John Kulmann. Esta é a inflexível lei do karma.

A ação imoral é aquela que nos faz sofrer. A ação moral é a que nos torna mais chegados à suprema bem-aventurança (Ananda), ao próprio Deus. O adharma (karman que nos prejudica) não se refere propriamente ao mal, no sentido comum do termo, mas à ação imprópria e desviada da Lei. Ferir, mentir, roubar, difamar, trair é tão funesto como beber água contaminada. Pelas mesmas razões, perdoar, ajudar, amar, servir, fazer pelos outros aquilo que queremos que nos façam é dharma (karman positivo) – doador de vida, bem-estar, alegria, paz, segurança, liberdade, amplitude, plenitude e divinização.

De tudo isto, podemos concluir que a moral Yogui é a mais terapêutica e, embora vetusta em sua origem, é de extraordinária atualidade, pois corresponde aos anseios da mais moderna psicologia profunda e da neurofisiologia mais rigorosamente científica. Ela não o condena pelas fraquezas, mas o ajuda a fortalecer-se; não o obriga a ser bom, quando suas condições não lhe permitem, mas o ajuda a tornar-se bom e, assim, livrar-se de suas limitações, responsáveis por seus tormentos.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: imagem copiada de icm teresina

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *