YOGATERAPIA X PSICANÁLISE

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Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escreveu mais de 30 livros sobre a saúde física e mental.  Neste texto retirado de seu livro “Yoga para Nervosos”*, ele nos fala sobre o tratamento yogaterápico.  

A psicanálise tem por objeto de estudo a mente enferma. O Yoga estuda e considera o homem integral, isto é, o homem potencialidade do Divino, germe e promessa da Alma Universal, expressão do Absoluto em via de aperfeiçoamento e atualização. Para o psicanalista ortodoxo, o inconsciente é um depósito de experiências dolorosas, um porão de escória reprimida pela convivência com a sociedade que a não aceita.

O Yoga considera o inconsciente apenas uma zona da mente aonde o consciente não chega, não sendo fatalmente de má qualidade, formado exclusivamente de negatividades recalcadas. O inconsciente tem em si também luzes, tendências, impressões, energias boas, potencialidade infinita e qualidades divinas. Sendo uma psicologia do inconsciente, o Yoga explica a vida consciente, em parte, como consequência do inconsciente. Todas nossas experiências, fatal e fielmente, são gravadas numa espécie de “fita de gravação”, através de ininterrupta introjeção (meter lá para dentro). O que introjetamos ou gravamos nos plásticos abismos do inconsciente são: vâsanas (tendências, inclinações, impulsos, motivações) e samskaras (impressões, representações, imagens, juízos…).

Lá do fundo, este conteúdo comanda nosso comportamento dito voluntário e consciente; comanda o que somos, queremos, sentimos, dizemos, fazemos e pensamos. Conforme as introjeções que fizemos no curso da vida, tal será nosso destino. Quem introjeta espinho, consequentemente será espetado. Estas noções de vâsanas e samskaras dão uma explicação psicanalítica à conhecida lei do karma. Assim esclarecidos, deveríamos, por interesse profilático, selecionar as impressões e tendências que introjetamos, com o mesmo critério com que um dietista escolheria sua refeição num cardápio, visando a que, nos dias de porvir, possam elas (as escolhidas) operar em proveito da saúde e não contra ela; em direção à liberdade e não à servidão; em prol da felicidade e não em seu prejuízo.

A indiscriminada, inconsciente e indisciplinada introjeção de vâsanas e samskaras polui, adoece, corrompe, perturba, vicia, infelicita a mente. O yoguin, sabendo disto, procura acautelar-se. Evita fisicamente as que pode e mentalmente aquelas que fisicamente são lhe impostas pelo ambiente. Seu cuidado não é apenas na área da higiene mental, mas também na fase da cura. Neste particular,  consiste a cura? Em depurar, liberar, aclarar, aprimorar o mental. A psicoterapia comum visa a restituir à mente enferma e sofredora as condições caracterizadas como normais. O Yoga ajuda a atingir tais resultados, mas vai mais além. Seu objetivo final é dar à mente: pureza (suddha), transcendência (budhi) e redenção total (mukti).

No texto anterior estávamos vendo Yoga como uma forma de psicanálise, no entanto chegou o ponto em que vamos concluir que é exatamente a antítese da psicanálise, isto é, uma psicossíntese. Psicanálise, ao pé da letra, quer dizer análise divisão, separação do todo em partes, da alma (psique). Yoga, em sua conceituação essencial e ao mesmo tempo etimológica, é exatamente a antítese disto. Yoga vem da raiz sânscrita yuj, que quer dizer juntar, unir, reunir, unificar… Yoga une. Análise separa. Como doutrina e técnica psicológica, seria literalmente uma psicossíntese. Unificar a alma despedaçada é Yoga. Dar unidade e coerência à mente onde reina conflito é Yoga. É Yoga harmonizar os antagonismos psíquicos. É Yoga dar coerência à vida mental. Se a mente está doente é porque vive como “uma casa dividida contra si mesma”.

A Yogaterapia consiste em restaurar a paz interna. Se em seu estado comum a mente é fraca é porque a dispersão a domina, dispersão que a esparrama estagnada como pântano ou a exaure em fluir multidirecional. Yoga atua no sentido de dar-lhe a concentração necessária, consequentemente gerando poder, segurança, penetração, equanimidade, coerência, harmonia e bem-estar. Como psicossíntese, Yoga reduz a fluidez e a dispersão. Em resumo, o Yoga é uma psicoterapia porque socorre o neurótico e o livra dos sofrimentos desde que:

  • harmoniza conflitos;
  • limpa o inconsciente de vâsanas e samskaras nocivos, substituindo-os, através de introjeções positivas, condizentes com a libertação e a realização espiritual;
  •  unifica a vida mental, mediante harmonizar os vários níveis e as expressões da personalidade;
  • acrescenta satva à mente rajásica, e rajas, à tamásica, isto é, dá sabedoria e tranquilidade ao excitado e ânimo ao astênico;
  • orienta a mente para os rumos do Divino;
  • reduz o egoísmo, o apego, o medo e a concupiscência;
  • liberta de velhos e dominantes condicionamentos.

Para o Prof. Oskar R. Schlag, Yoga é muito mais do que a psicanálise como caminho redentor. Em conferência, em 1952, opinava: “Yoga é algo essencialmente prático para chegar-se a um fim (objetivo)”. Que fim é este? A libertação. Libertação de quê? A libertação de uma situação que Freud denominou “o encargo incômodo da nossa civilização”.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: imagem copiada de nanak gobind

2 comentários sobre “YOGATERAPIA X PSICANÁLISE

  1. Lucas

    Lu,
    estou oficialmente de volta ao blog. Estou curioso sobre esse Prof. Hermógenes, ele é psiquiatra, psicólogo? Professor de que? Tudo que escreve é tão interessante.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Lucas

      O Prof. Hermógenes foi uma pessoa brilhante (não mais se encontra entre nós). Ele foi militar e dedicou-se muito ao estudo da Yoga. Ao acessar o seu livro terá todas as informações sobre ele. Irá gostar muito.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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