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SIMBOLISMO E ALEGORIA NA ARTE (Aula nº 36)

Autoria de LuDiasBH

                         

Todos os povos — em quaisquer que sejam os tempos — possuem uma simbologia específica, própria de sua cultura. Os símbolos não possuem significados inerentes, ou seja, em si mesmos. Eles precisam fazer parte da identidade social e cultural de um povo, num determinado tempo, pois seu significado também se modifica. A arte é um campo riquíssimo em simbologia. Tanto a Idade Média quanto o Renascimento contaram com um simbolismo bastante organizado, sendo que alguns de seus símbolos ainda fazem parte da cultura de nossos dias, a exemplo da abelha, vista como extremamente laboriosa, sendo usada para simbolizar o trabalho produtivo.

O simbolismo teve uma função muito importante numa época em que a grande maioria da população era analfabeta. A palavra “símbolo” deriva-se do grego antigo “symballein”, cujo significado é “unir, agregar, associar”, etc. Em tempos idos era costume, após o término de um contrato ou acordo, a quebra de um bloco de argila de modo que cada um dos participantes ficasse com um pedaço (symbola), sendo que a união de suas frações comporia a unidade. Assim teve início seu uso figurado que tanto pode representar algo, como ser indicativo de que alguma coisa está faltando para levar à conclusão ou à totalidade.

O símbolo na arte tem a função de repassar informações sobre uma ideia específica. Muitas vezes um mesmo símbolo pode ter vários significados. Uma árvore, por exemplo, dentro da simbologia cristã tanto pode ser uma referência à cruz onde Cristo foi imolado, como pode representar a “árvore da vida” que relaciona o mundo terreno com o espiritual. O relacionamento entre religião e simbolismo tem sido expresso em todos os tempos, a começar pela Pré-História com a “Vênus de Willendorf”. A arte funerária do antigo Egito tinha uma rica simbologia que retratava a preocupação com a vida após a morte. Na Idade Média a simbologia era usada sobretudo com a finalidade de repassar ensinamentos. E nos tempos de hoje, quando o homem traz consigo um olhar mais crítico sobre a visão simbólica das muitas vertentes de nosso mundo,  novas eras científicas ganham vida com uma simbologia própria.

Na arte cristã existia uma variada simbologia correlacionada com o espiritual e o terreno. Sua função didática permitiu que as tradições religiosas e espirituais fizessem uso do simbolismo para levar às pessoas o entendimento do divino. Os símbolos eram muitas vezes combinados de maneira a formar uma alegoria (expressão do pensamento ou da emoção, muito usada em literatura, pintura e escultura, através da qual se representa simbolicamente um objeto para significar outro), quando a ideia a ser exposta era mais complexa, como na representação da batalha entre o bem e o mal. A Bíblia traz muitos exemplos de alegoria usados para explicar verdades espirituais, como as parábolas de Jesus em que os personagens e os eventos representam uma verdade sobre o Reino de Deus ou sobre a vida cristã.

Como podemos perceber, ainda que fossem direcionados a uma população analfabeta, o simbolismo e a alegoria são meios que exigem a participação intelectual do observador, pois ele precisa ter conhecimento sobre o que se referem, não bastando apenas olhar para compreender seu verdadeiro sentido. É por isso que nos passam despercebidas muitas coisas nas pinturas dos mestres do passado, uma vez que não tempos a compreensão de toda a sua simbologia, como veremos no estudo de obras.

A Bíblia — livro sagrado dos cristãos — está repleta de simbolismo e de parábolas (narrativa alegórica que evoca, por meio de comparação, valores de ordem superior, encerra lições de vida e pode conter preceitos morais ou religiosos) religiosas. Cristo é representado como pelicano, cordeiro, pastor, etc. A obra pictórica conhecida como “Os Esponsais dos Arnolfini” — criada por Jan van Eyck em 1434 (século XV) — é riquíssima em simbolismo e alegoria, sendo essa pintura uma das mais famosas no que diz respeito à arte simbólica e alegórica cristã. Seu simbolismo religioso é tão complexo que até hoje não foi totalmente decifrado. Vejamos alguns exemplos de símbolos.

  • A primeira figura ilustrativa do texto (sempre olhando da esquerda para a direita) é conhecida como “triquetra” (ou triqueta), uma forma geométrica usada para expressar a Santíssima Trindade. Observem que se trata-se de três arcos entrelaçados. O símbolo inteiro é uma referência à unidade e à eternidade.
  • A segunda figura é conhecida como “lábaro” ou “cruz de Chi-Rho”, monograma composto por duas letras iniciais gregas da palavra Cristo: X (chi) e P (rho).
  • A terceira imagem trata-se de um dos símbolos secretos mais antigos de Cristo, encontrado nas catacumbas romanas. Tem por base um acróstico: as letras iniciais das palavras gregas para Jesus Cristo, o Filho de Deus e Salvador formam a palavra grega “ichthus” que significa “peixe”.
  • A quarta imagem representa uma pomba a emanar sete raios numa referência ao Espírito Santo com seus sete dons.
  • A última figura é um basilisco, símbolo medieval que representava o diabo, a luxúria e as doenças.

A Virgem Maria também é possuidora de uma vasta simbologia: o lírio, a rosa branca, a rosa vermelha, o sol, a lua e uma coroa com 12 estrelas, um jardim cercado, um portão fechado, um espelho, um manto azul, etc. O cão é um animal muito presente na pintura antiga, símbolo da fidelidade e da vigilância. A cereja na iconografia cristã possui a mesma simbologia da maçã, como fruta do paraíso.

Exercício
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as questões abaixo:
1. Como teve início o uso figurado do símbolo?
2. Qual é a função do símbolo na arte? Exemplifique.
3. Qual foi a origem do peixe na simbologia cristã?

Fontes de pesquisa

A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann
Signos e Símbolos/ Editora Escala

Lichtenstein – OLHA, MICKEY

Autoria de LuDiasBH

Ocorreu-me um dia fazer algo que parecia ser o mesmo que uma ilustração de quadrinhos sem empregar os então símbolos atuais da arte: a tinta grossa e fina, a linha caligráfica e tudo o que se tornara a marca registrada da pintura nos anos 1940 e 50. Eu faria marcas que lembrariam uma história em quadrinhos de verdade. (Lichtenstein)

 O pintor estadunidense Roy Lichtenstein (1923–1997) nasceu numa família de classe média alta. Seu contato informal com a pintura teve início em sua adolescência — em casa —, época em que também passou a demonstrar interesse pelo jazz, como mostram os muitos retratos, pintados por ele, de músicos tocando seus instrumentos. Seu contato formal com arte deu-se quando tinha 16 anos de idade, ao frequentar as aulas da Liga dos Estudantes de Arte sob a direção de Reginald Marsh. Seu objetivo era ser um artista. Foi depois para a School of Fine Arts da Ohio State University — uma das poucas instituições do país que possibilitavam a licenciatura em belas-artes. Ali recebeu influência de seu mestre Hoyt L. Sherman, dando início aos trabalhos expressionistas.

A cômica composição intitulada Olha, Mickey foi o primeiro trabalho do artista transposto diretamente de uma fonte de cultura popular — do livro infantil de 1960, Pato Donald: Achados e Perdidos. Foi sua primeira pintura a óleo feita em grande escala em que faz uso de figuras bem delimitadas, cores industriais e os famosos pontos Benday — aplicados nos olhos de Donald e na cara de Mickey, empregados na impressão comercial com a finalidade obter meios-tons. É também o primeiro uso de um balão de fala e quadrinhos como fonte. O desenho foi feito a lápis diretamente na tela e posteriormente pintado a óleo. Por ocasião da morte do artista esta obra foi considerada o seu trabalho inovador.

A pintura apresenta as figuras do Pato Donald e do Mickey — duas personagens conhecidas de histórias em quadrinhos. Os dois personagens encontram-se numa pescaria sobre um píer. O Pato Donald, com a vara de pesca levantada acima de sua cabeça, traz os olhos fixos na água, imaginando ter pescado um grande peixe — como mostra o balão presente na obra — quando na verdade seu anzol encontra-se preso na ponta de seu casaco. Seus grandes olhos e o bico abrem-se denotando surpresa e emoção. Mickey Mouse, mostrando-se encabulado com a tolice de seu amigo, coloca a mão enluvada na boca para esconder o riso. O texto diz: “Olhe Mickey, eu fisguei um grande”.

Alguns críticos viam os trabalhos de Lichtenstein — como Olha, Mickey — como falsificação, contudo, o artista não copia a imagem tal e qual se encontra na história em quadrinhos. Aqui, por exemplo, modificou-a a fim de transformá-la numa imagem mais unificada. Retirou as figuras de fundo, girou a doca a fim de que Donald olhasse para o lado, redesenhou o espaço, mudou a posição do corpo e da vara de pescar de Donald, eliminou os sinais de estresse e esforço e organizou as cores em faixas de amarelo e azul e simplifica os recursos dos personagens. Ainda que estilisticamente imite a mídia impressa (contornos pretos e fortes, cores primárias e os pontos de tinta do processo de impressão de Benday), ele inverte o visual transposto, enchendo-o de humor negro, mostrando uma imagem cômica da imagem clichê, vinda de um ícone popular.

Ficha técnica
Ano: 1961
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 121,9 x 175,3 cm
Localização: Coleção do artista

Fontes de pesquisa
Lichtenstein/ Editora Taschen
https://pt.wikipedia.org/wiki/Look_Mickey
https://www.nga.gov/collection/highlights/lichtenstein-look-mickey.html

PAGANISMO, CRISTIANISMO E HUMANISMO (Aula nº 35)

Autoria de LuDiasBH

O distanciamento dos fatos faz com que imaginemos que a harmonização entre o paganismo e o cristianismo ocorreu pacificamente. Não foi bem assim, principalmente nos séculos XII e XV, quando houve a necessidade de conciliar a civilização clássica com a cristã. Lembremo-nos de que os escritores gregos e romanos da Idade Antiga eram pagãos (nome dado à época a todos os romanos que se mantinham fiéis às suas antigas crenças, não se convertendo ao cristianismo), enquanto a Idade Média primou pela religiosidade, sendo que qualquer fenômeno recebia uma interpretação cristã. Era normal, portanto, que muitos relatos desses escritores clássicos acabassem colidindo com os ensinamentos da Igreja.

Só para termos uma ideia desse embate ideológico, o poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), na segunda metade do século XIV, condenou todos os escritores clássicos a padecer no Inferno em sua famosa obra intitulada “Divina Comédia”, simplesmente por não terem sido batizados no cristianismo, mesmo que esses indivíduos tenham vivido “antes do tempo da cristandade”, o que nos parece uma posição bizarra por partir de um intelectual.

A colisão “cristianismo” versus “paganismo” chegou a aflorar tanto que, durante certo tempo, até mesmo a filosofia aristotélica foi banida da Universidade de Paris em razão das associações pagãs do filósofo que viveu na Antiguidade — antes de o cristianismo existir. E o mais paradoxal nessa trama é que o imortal Aristóteles só passou para a posteridade, chegando até nossos dias, em razão do auxílio que deram às suas obras os frades dominicanos Alberto Magno (c. 1206-1280) e São Tomás de Aquino (1225-1274) — um dos doutores da Igreja Cristã — que deram às suas ideias uma roupagem cristã.

Durante o Renascimento italiano a grande maioria de eruditos e artistas fizeram uso da civilização clássica, mas sob o prisma da fé cristã, o que nos mostra a capacidade que o ser humano possui de adequar os fatos de acordo com a sua vontade ou visão de mundo, o que torna a nossa compreensão do passado — ou até mesmo do presente — quase sempre comprometida. Ainda que o Renascimento italiano carregasse o comprometimento de cristianizar as tradições clássicas, alguns poucos eruditos ficaram tão tocados pela literatura pagã a ponto de recusar o cristianismo. Apenas para efeito de citação, podemos ver a mesclagem entre os temas e as técnicas clássicas com a iconografia cristã em obras como “Os Esponsais dos Arnolfini” (1434), obra de Jan van Eyck e “A Primavera” (c. 1418), obra de Sandro Botticelli (Iremos estudá-las.)

É na literatura “humanista” (palavra que apareceu pela primeira vez no século XVI) que a união entre as crenças do Renascimento e as cristãs tornam-se mais nítidas. Ainda que o termo “humanismo” seja fruto de finais do século XVIII ou do XIX, é importante empregá-lo para estudarmos certas características do pensamento e do saber do Renascimento. À época, aquele que fazia um curso em humanidade (studia humanitis) era chamado de “humanista”. De seus estudos faziam parte: gramática e retórica, mas dentro dessa grade estavam inseridas: literatura, poesia, história e a habilidade de comunicar-se com a mais absoluta clareza e persuasão. Apesar do título, não havia um programa “humanista” no sentido estrito da palavra, mas o estudo da grade citada teve grande importância ao romper com o currículo tradicional das universidades que até então se resumia ao estudo de lógica e de métodos repetitivos, a fim de que os alunos apreendessem as fórmulas intelectuais de memória, ou seja, na decoreba.

Outro ponto importante do estudo das “humanidades” foi o de destacar mais os valores seculares do que os transcendentais, dando maior ênfase ao concreto do que ao abstrato. Ao invés do estudo de metafísica e da teologia, o humanista buscava compreender a si mesmo e a melhorar como indivíduo. Contudo, era crença comum na Idade Média que o homem encontrava-se totalmente sob a influência da graça de Deus — conforme ensinava a Igreja Cristã — e sem essa bondade não passaria de um bicho. O “humanista” por sua vez, cria que homem era capaz de melhorar a si mesmo graças a uma educação e a uma preparação eficazes. Em razão desse pensamento, a Igreja sentiu-se em perigo pelo fato de não se fazer uma referência aos seus ensinamentos.

O humanismo, que historicamente falando tratou-se de um movimento intelectual da Europa renascentista, com base na cultura greco-romana e em sua valorização do conhecimento do homem e suas perspectivas, também teve um papel importante ao buscar fazer versões corretas dos textos clássicos. Grande parte do trabalho dos humanistas dizia respeito a uma bem elaborada edição das obras latinas e gregas.

 Exercício
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as questões abaixo:

1. Por que houve um embate entre o classicismo e o cristianismo?
2. Quem foi Dante Alighieri e o que fez em relação ao paganismo?
3. Em que ponto a visão humanista diferia da cristã?

Ilustração: Santo Agostinho Ensinando em Roma, (1464), obra de Benozzo Gozzoli.

Fontes de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann

Lichtenstein – WHAAM!

Autoria de LuDiasBH

                             

Uma intenção menor das minhas pinturas de guerra é mostrar a agressividade militar sob uma exposição absurda. A minha opinião pessoal é que muita da nossa política internacional tem sido inacreditavelmente aterradora, mas este não é o tema do meu trabalho e eu não quero tirar dividendos desta posição popular. A minha obra diz mais respeito à nossa definição estadunidense das imagens e da comunicação visual. (Roy Lichtenstein)

Eu me lembro de me preocupar com a idéia de fazer duas pinturas quase separadas, com pouco indício de composição, cada uma tendo caráter estilístico ligeiramente separado. É claro que há conexão humorística de um painel atirando no outro. (Roy Lichtenstein)

O pintor estadunidense Roy Lichtenstein (1923–1997) nasceu numa família de classe média alta. Seu contato informal com a pintura teve início em sua adolescência — em casa —, época em que também passou a demonstrar interesse pelo jazz, como mostram os muitos retratos pintados por ele de músicos tocando seus instrumentos. Seu contato formal com arte deu-se quando tinha 16 anos de idade, ao frequentar as aulas da Liga dos Estudantes de Arte sob a direção de Reginald Marsh. Seu objetivo era ser um artista. Foi depois para a School of Fine Arts da Ohio State University — uma das poucas instituições do país que possibilitavam a licenciatura em belas-artes. Ali recebeu influência de seu mestre Hoyt L. Sherman, dando início aos trabalhos expressionistas.

A composição intitulada Whaam é uma gigantesca obra em díptico de Roy Lichtenstein e uma das pinturas mais representativas do movimento da Pop Art, sendo vista como um dos trabalhos mais importantes e mais conhecidos do artista estadunidense. A primeira parte do díptico (painel esquerdo) apresenta um avião de combate disparando um foguete num avião inimigo, enquanto a segunda parte (painel direito) mostra o foguete atingindo o alvo e explodindo-o em chamas vermelhas que tomam conta de todo a tela. O rastro de fumaça deixado pelo míssil transforma-se numa linha horizontal. Os dois painéis — visivelmente ligados espacial e temporalmente — podem ser explicados como “ação” e “consequência”. A onomatopeia WHAAM! reforça o sentido de cartoon, assim como a legenda com letras pretas presente um uma caixa amarela no alto do painel esquerdo.

Frase escrita na legenda: “I pressed the fire control… And ahead of me rockets blazed through the sky…” (Eu apertei o controle de fogo… E à minha frente foguetes brilharam pelo céu …).

A fonte primária desta obra foi um painel de uma revista em quadrinhos de guerra de 1962 (foto menor). O artista, contudo, concebeu a imagem buscando vários painéis de quadrinho, modificando a relação entre os elementos gráficos e narrativos. Lichtenstein substituiu o ataque e o alvo por outros tipos de aeronaves e também eliminou o balão do discurso em que o piloto exclamava: “O inimigo se tornou uma estrela flamejante!”. O título da composição é uma onomatopeia que além de fazer parte da ação também diz respeito ao impacto do projétil no painel direito. Lichtenstein fez uma série de pinturas sobre a guerra, sendo esta uma delas.

Ficha técnica
Ano: 1963
Técnica: Tinta acrílica e tinta a óleo sobre tela
Dimensões: 172,7 x 406,4 cm
Localização: Galeria Tate, Londres, Grã-Bretanha

Fontes de pesquisa
Lichtenstein/ Editora Taschen
https://en.m.wikipedia.org/wiki/Whaam!
https://www.tate.org.uk/art/artworks/lichtenstein-whaam-t00897

ITÁLIA – FAMÍLIAS GOVERNANTES (Aula nº 34)

Autoria de LuDiasBH

   

Importantes famílias partilhavam o domínio das terras italianas, uma vez que a Itália do Renascimento era composta por um grupo de cidades-estados independentes e belicosos entre si, dominados por ricas e poderosas famílias como os Mentefeltro em Urbino, os Gonzaga em Mântua, os Sforza (em substituição aos Visconti) em Milão e os Medici em Florença (onde havia uma grande fonte de mecenato, inclusive os mercadores financeiros que, para garantir sua salvação, investiam em obras devocionais).  A corte papal governava Roma e diversas famílias principescas reinavam sobre territórios controlados pelo sacro imperador romano e pelo papa. A Itália, portanto, no limiar do Renascimento era uma colcha de retalhos, composta por pequenas cidades/estados independentes.

Muitas dessas famílias granjearam riquezas e ascendência política através do comércio e do sistema bancário, da indústria, do aluguel de seus exércitos e por ter um papa como patriarca (caso dos Bórgias ou Borjas em Roma). Os chefes dessas famílias buscavam alianças estratégicas, usando dois artifícios: o compartilhamento dos exércitos e os casamentos arranjados. Não espanta, portanto, que no final do século XV grande parte dessas prestigiosas famílias estivessem unidas por parentescos e dependências políticas e econômicas, pois é assim que funcionava o mundo da riqueza, do poder e da política. Vejamos algumas dessas famílias:

Frederico de Montefeltro — duque de Urbino — recebeu uma educação clássica, tendo desenvolvido um grande amor pelas artes. Tinha fama de justo e diplomático. Fez uso de seu próprio dinheiro para baixar impostos, socorrer os pobres, criar escolas e hospitais e armazenar reservas de trigo para os tempos difíceis. Possuía grande paixão pelos livros, tendo criado a biblioteca mais completa conhecida até então. Empregou copistas e miniaturistas. Possuía obras clássicas em grego, latim e hebraico, uma belíssima edição da “Divina Comédia” e uma Bíblia encadernada em brocado de ouro. Seu legado cultural foi assumido por seu filho Guidobaldo de Montefeltro e sua esposa Elisabetta Gonzaga — pertencente à família Gonzaga de Mântua. O casal reuniu em tornou de si um grande círculo de intelectuais e artistas.

Os Bórgia (ou Borja) foram uma família nobre hispano-italiana que gozava das graças do papa. Rodrigo Bórgia era tido como “um homem com uma inteligência capaz de tudo”. Era sobrinho do papa Calisto III que fez com que ele se ordenasse aos 25 anos, sendo eleito papa aos 36 anos. Era um exímio homem de Estado, mas sem levar em conta os princípios cristãos que lhe serviram apenas de trampolim para a fama. Durante seu papado reconstruiu a Universidade de Roma. Chegou a nomear mais de 30 parentes para cargos públicos no Vaticano. De uma feita colocou sua filha Lucrécia Bórgia no seu lugar, quando de uma visita a Roma. Ao fazer uso dos engenhos militares projetados por Leonardo da Vinci, acabou apoderando-se de uma parte significativa da Itália central.  Seu filho César Bórgia, líder impiedoso, colocou-se à frente das tropas do pai, tendo executado aqueles que resistiam a ele, muitas vezes recorrendo à traição. Foi capaz de ocupar Urbino, depois de Guidobaldo de Montefeltro — duque da cidade — ter lhe emprestado a artilharia. Foi uma pessoa insensata e odiada. Serviu inclusive de inspiração para a obra de Nicolau Maquiavel intitulada “O Príncipe”. 

A família Este ou Casa d’Este era o ramo italiano de uma importante dinastia europeia de príncipes. Governava a cidade-estado de Ferrara, sendo uma das cortes mais agradáveis e prósperas do Renascimento. Nicolau III foi responsável por seu maior crescimento. Ele abaixou os impostos, facilitou o comércio e fundou uma escola respeitadíssima. Em 1438 (século XV) foi o anfitrião de um concílio de eruditos e prelados que tinha por finalidade aproximar as alas oriental e ocidental da Igreja Católica. Teve 30 filhos, sendo que desses, três sucederam-no no trono. Leonello era o mais velho e o mais culto. Dominava o grego, o latim, a filosofia e o direito e era intensamente dedicado ao humanismo e às artes. Criou bibliotecas públicas e designou fundos à universidade que era visitada por estudiosos de toda a Europa. Desprezava a riqueza em si mesma e amava a cultura.

Leonello foi sucedido por seu irmão Borso que era totalmente o oposto dele. Prezava a fama e a vulgaridade. Ercole I de Ferrara foi o último dos filhos de Nicolau III a subir no trono. Tratava-se de um homem devoto, amante da música sacra. Foi um mecenas das artes. Triplicou o tamanho da cidade de Ferrara, transformando-a na cidade mais moderna da Europa. Foi casado com Leonora Aragão, uma mulher bem preparada e admirada por seus súditos, tendo sido considerada por muitos como uma administradora mais talentosa do que o marido.

A família Gonzaga governou Mântua durante 400 anos. Possuía uma corte harmoniosa e grande astúcia militar. Tornou-se famosa por possuir um relicário que se acreditava conter gotas do sangue de Jesus Cristo. Fundou uma escola que foi dirigida por Vittorino de Feltre (um humanista, religioso, pedagogo e professor da Universidade de Pádua). O currículo dessa escola estava voltado para as famílias nobres, ali constando desde a educação artística e artes militares até matemática, passando pela pintura, música e religião. A chamada “escola dos príncipes” recebia inúmeros pedidos para o ingresso de jovens de outras cidades e de outras partes da Europa.

Ludovico Gonzaga — filho mais velho do marquês de Mântua — foi um grande mecenas. Encomendou ao arquiteto Léon Battista Alberti o projeto e construção das igrejas de San Sebastiano e Sant’Andrea. Foi responsável por trazer para Mântua o famoso pintor Andrea Mantegna. A esposa de seu neto Francisco II Gonzaga — Isabel do Leste — também compartilhava grande paixão pelas artes, tendo colecionado livros raros. Ela se inclui entre os primeiros mecenas das artes que compraram obras levando em conta o autor e não a obra em si. Embora não fosse da linhagem dos Gonzaga, ela talvez tenha sido a mais importante figura dessa família no século XV, usando sua inteligência na defesa de seu lar adotivo.

O duque Filippo Maria Visconti — governante de Milão — morreu sem deixar herdeiro, extinguindo, portanto, sua linhagem. O jovem general mercenário Francisco Sforza, casado com uma filha ilegítima do duque, tomou o poder e passou a governar Milão. Tratava-se de um homem muito inteligente. Além de ampliar a atividade industrial e comercial, escavou uma rede de canais com o objetivo de aguar extensas zonas de terras cultiváveis. Foi responsável pela construção do Grande Hospital e por acabar as obras da Catedral de Milão. Fez com que a cidade se transformasse na primeira potência militar do norte da Itália.

O filho mais velho de Francisco Sforza — Galeazzo Sforza — sucedeu-o, mas em razão de sua crueldade e tirania acabou sendo assassinado. Como o herdeiro era ainda muito criança, Ludovico Sforza, o outro filho, assumiu o poder. Foi apelidado de “o Mouro” em razão de sua pele escura. Ele deu mais prosperidade a Milão. Casou-se aos 39 anos com Beatriz do Leste e teve inúmeras amantes. Sua esposa era extremamente vaidosa e perdulária. Encomendou, após casar-se, 84 vestidos de cetim bordados a ouro e incrustações de pedras preciosas. Também encomendou a Leonardo da Vinci a construção de brinquedos mecânicos e quebra-cabeças matemáticos para divertir a corte. Aos 22 anos de idade deu à luz um menino que nasceu morto e ela faleceu logo depois. Ludovico, sentindo-se corroído pela culpa e responsável pela fatalidade, caiu em depressão, jamais se recuperando. A França, pouco tempo depois, invadiu a Itália e apossou-se de Milão. O Mouro morreu numa masmorra francesa em 1508.

A pintura que ilustra o texto mostra Ludovico Sforza e sua esposa Beatriz — ajoelhados um de frente para o outro — apresentando seus dois filhos jovens diante do altar da Virgem e seu Menino. A mulher na ilustração à direita, com um arminho, é Cecília Galeranni — poeta, mecenas das artes e uma das amantes do duque (ver link abaixo).

Exercício:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as duas questões abaixo e acessar o link:

1. Cite o nome de famílias que governaram cidades italianas durante o Renascimento.
2. Qual dessas famílias você considera a mais importante e por quê?
3. Da Vinci – DAMA COM ARMINHO

Ilustração: 1. Sforzesca, obra de Master of Pala Sforzesca, Itália (ativo em 1490-1520 in Lombardy) /  2. A Dama com Arminho, obra de Da Vinci.

Fonte de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Arte e vida na Itália Renascentista / Coleção Folio

RENASCIMENTO – ITÁLIA DO NORTE (Aula nº 33)

Autoria de LuDiasBH

                                                                          (Clique no mapa para ampliá-lo.)

Antes de entrarmos na história da arte renascentista propriamente dita, faz-se necessário conhecermos um pouco mais sobre como se encontrava a Itália nos séculos XIV e XV (os chamados séculos da anarquia feudal), politicamente dividida entre várias famílias. Do século XIII em diante, as cidades do norte da Itália encontravam-se constantemente envolvidas em conflitos entre si (revoluções populares, briga de facções, golpes de Estado e até mesmo invasão de governantes estrangeiros), o que gerava grande instabilidade. O que acontecia no resto da Europa não era diferente do que vigorava na Itália, a exemplo da Guerra dos Cem anos entre Inglaterra e França.

Apesar de tanta turbulência, a Itália do Norte diferenciava do restante da Europa em três pontos importantes: 1. as ruínas romanas  durante os séculos XIV e XV foram responsáveis pelo estudo da Antiguidade; 2. era uma das regiões mais ricas da Itália, onde se situavam as cidades de Gênova e Veneza (controlavam a maior parte do comércio do Mediterrâneo), enquanto Florença (a cidade mais rica do norte italiano) e Milão foram importantes centros de fabricação e de distribuição, possuindo uma significante classe média e um nível de educação maior; 3. essa parte da Itália estava dividida em cidades-estados — diferindo do restante da Europa —, sendo que seus habitantes comungavam os mesmos elementos de orgulho cívico e de identidade — características fundamentais para o surgimento do Renascimento na península italiana.

As inovações no limiar do Renascimento passaram a ser compreendidas pela sociedade. Os eruditos e os artistas da Itália do Norte eram cada vez mais prestigiados, trabalhando para as pessoas mais importantes das cidades que cresciam velozmente com a saída da nobreza do campo. A temática sobre arte e literatura abrangia um público cada vez maior, sendo usada para louvar as dinastias e as façanhas militares.

A máxima de Aristóteles de que “quem não é um cidadão não é um homem, uma vez que o homem é por natureza um ser cívico”, propagou com força entre as cidades italianas. Mais uma vez podemos notar como o desenvolvimento de uma cultura cívica com consciência própria é benéfica a um povo em qualquer que seja o tempo, a exemplo da Itália do Norte, responsável por infundir a concepção de renovação clássica — uma das partes mais interessantes e ricas da história da humanidade, conhecida como Renascimento. Tal estímulo deve ser, sem dúvida alguma,  um dever de todo político que preza o crescimento cultural, econômico e social de seu país.

Enquanto isso acontecia na Itália, a Europa ao norte dos Alpes encontrava-se sob a tutela de governantes territoriais e de uma nobreza rural inculta, envolvida apenas com a “caça, mulheres e banquetes”, desprovida dos valores cívicos que alçavam a Itália a um novo patamar. Entretanto, tornava-se mais fácil para que as ideias renascentistas alcançassem os reinados principescos e aristocráticos da França, da Inglaterra e do norte da Europa, tanto pela passagem de invasores estrangeiros usando a Itália quer pelo desenvolvimento das técnicas de impressão que apressaram a propagação do Renascimento no norte dos Alpes.  O Renascimento italiano, ao atravessar os Alpes, fundiu-se com tendências culturais mais antigas da pintura francesa e da flamenga.

A história do Renascimento fora da Itália está mesclada por grandes mudanças no campo político e religioso da Europa no século XVI. Enquanto na Idade Média a religião católica era responsável pela unificação da Europa, a Reforma de Martinho Lutero (1483-1546), iniciada no século XVI na Alemanha, foi responsável por dividi-la, jogando por terra o ideal de uma república cristã unida. E, como a arte é consequência dos acontecimentos de um determinado tempo, o Renascimento não ficou imune às mudanças. Embora se tratasse de um movimento cultural europeu, tomando o continente como um todo, o Renascimento foi moldado de acordo com as circunstâncias e condições particulares de cada um dos países por onde se irradiou. Assim, não existiu uma uniformidade cultural, mas uma diversidade de movimentos.

Exercício:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder às questões abaixo:

1. Como era a Itália no limiar do Renascimento?
2. Qual foi a importância da Itália do Norte?
3. Como foi o Renascimento na Europa ao norte dos Alpes?

Fonte de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann
Arte e vida na Itália Renascentista / Coleção Folio