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François Gérard – MADAME RÉCAMIER

Autoria de LuDiasBH

O pintor italiano François Gérard (1770 – 1837) viveu em Roma até seus oito anos. Seu pai foi mordomo em várias casas ricas. Após o regresso de sua família a Paris, ele foi estudar com o pintor Jacques-Louis David, após completar 16 anos de idade, tornando-se seu aluno predileto. Ganhava a vida como retratista até que a Revolução Francesa fez com que buscasse a profissão de ilustrador, vindo a ilustrar trabalhos de Racine e de Virgílio. O artista, além de pintar retratos, era também formidável na criação de cenas históricas. Seus retratos eram tão bem elaborados, distantes do estilo clássico, que foi designado como pintor da corte do rei Luís XVIII.

A composição intitulada Madame Récamier é uma obra-prima do artista em que retrata Juliette Récamier, esposa de Jacques Récamier – um rico banqueiro quase 30 anos mais velho do que ela. O salão da família era um lugar que recebia os artistas e intelectuais opositores de Napoleão Bonaparte. Era muito influente nos círculos literários e políticos na metade do século XIX. Além disso, Juliette era uma mulher belíssima, admirada por muitos homens, sendo muito solicitada como modelo pelos pintores que trabalhavam com retratos.

François Gérard que levou em conta o romantismo do final do século XVIII, apresentou Juliette Récamier numa pose lânguida, sentada numa suntuosa poltrona “etrusca” com o corpo retorcido, voltado para o observador. Ela usa um vaporoso vestido longo branco – peculiar à época – que mal lhe cobre os pequenos seios e cujas ínfimas mangas descem-lhe pelos braços, deixando-a muito sedutora. Um enorme xale amarelo está aleatoriamente jogado sobre suas pernas. Seus finos pés estão descalços, um deles descansando sobre um banquinho. Atrás da retratada, uma cortina vermelha – funcionando como pano de fundo – repassa um tom rosado à sua pele. Ela sorri suavemente.

Para o fato de Madame Récamier ter contratado François Gérard para fazer um retrato seu, preterindo o de David (pintor neoclássico), existem muitas explicações:

  • Juliette não se sentiu satisfeita com o retrato encomendado ao pintor David, cuja representação achou fraca. Ela queria algo mais natural.
  • Juliette então solicitou a Gérard que à época era um dos mais famosos retratistas, para que lhe fizesse outro retrato.
  • David paralisou a criação da obra ao descobrir que François Gérard – seu aluno – tinha sido escolhido antes dele ,para pintar o retrato dela.
  • A busca por outro retratista por parte de Madame Récamier deveu-se à demora de David em terminar a obra contratada, o que a estava deixando impaciente.

O retrato encomendado a François Gérard foi um presente para o príncipe Augusto da Prússia, sobrinho de Frederico II, um dos admiradores de Juliette. Após a morte do príncipe, este retrato foi devolvido a Madame Récamier.  O interessante é que em razão de Juliette ter posado para Jacques-Louis David, reclinada num sofá – uma espécie de divã com cabeceira mais alta e delicadamente recurvada – é que esse tipo de mobiliário contemporâneo veio a receber o nome de “récamier”, presente hoje em muitas casas ricas.

Ficha técnica
Ano: 1802
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 225 x 145 cm
Localização: Museu Carnavalet, Paris, França

Fontes de pesquisa
Romantismo/ Editora Taschen
http://www.carnavalet.paris.fr/en/collections/portrait-de-juliette-recamier-1777-1849
https://en.wikipedia.org/wiki/Juliette_Récamier
https://www.wga.hu/html_m/g/gerard/4recamie.html

TRABALHO X ÓCIO

 Autoria de LuDiasBH

O ser humano ocupa-se em encontrar a felicidade, mas a sua maior felicidade está no fato de ele se ocupar (Alain Badiou)

 A ociosidade entristece. (São Tomás de Aquino)

Todos nós carregamos características específicas. Reconhecê-las e buscar um estilo de vida de acordo com a nossa natureza irá nos proporcionar mais felicidade. Não adianta remar contra a corrente, como diz um velho ditado, para ser aquilo que não se é. Quanto mais nos encontramos numa situação que nos é desfavorável, maior é o nosso estresse. Três verdades incontestáveis devem servir de parâmetro para direcionarmos a nossa vida com sabedoria, conforme estudos feitos pelo biofísico Steven Kent:

  1. Os sentimentos positivos são capazes de afugentar os sentimentos negativos.
  2. Não existe felicidade que dure eternamente, mas está em nossas mãos viver os momentos felizes com mais frequência e prolongar a alegria que eles nos dão.
  3. Não importa tanto o “que” vivemos e, sim, “como” vivemos os fatos.

Existe uma conhecida expressão que reza “nem tanto à terra e nem tanto ao mar”, o que, trocando em miúdos, significa equilíbrio, viver com moderação, sem exagerar para mais ou para menos. Tanto uma vida de ociosidade quanto uma de competitividade extremada são nocivas ao ser humano. Causa pena o existir de pessoas muito ricas que se sentem incapazes de se satisfazer com o que possuem. Querem mais e mais, ainda que jamais terão tempo para usufruir de toda a sua riqueza. Por outro lado, tristeza maior nos causa ver um sem conta de pessoas em busca de emprego – muitas delas jogadas nas calçadas tanto das grandes cidades como das pequenas ? cujo único alento, ao fugir de suas desgraças, é entregar-se ao álcool e a outras drogas que lhes são acessíveis.  

O ser humano não foi criado para ficar inerte, observando a vida passar, tanto é que o cérebro, ao produzir a dopamina, instiga-o a permanecer ativo, a fazer parte do mundo como agente e não como observador. O ócio só faz bem quando é para carregar as baterias (férias) depois de um longo e intenso período de trabalho. Pesquisas mostram que a atividade traz bem-estar, seja ela qual for, desde arrumar a casa a engajar-se num projeto social, como nos prova o grande físico teórico alemão, Albert Einstein, responsável por desenvolver a teoria da relatividade geral (um dos pilares da física moderna ao lado da mecânica quântica) que gostava de rachar lenha em suas horas vagas.

Trocando em miúdos, a atividade é inerente ao ser humano, mas o corpo também precisa de descanso. A falta de moderação no trabalho ou o excessivo ócio fogem ao equilíbrio, trazendo sérias consequências. Portanto, nem tanto à terra e nem tanto ao mar.

 Nota: ilustração – Ceifeiros, obra de Pieter Bruegel, o Velho

Fonte de pesquisa:
A Fórmula da Felicidade – Stefan Klein – Editora Sextante

Overbeck – ITÁLIA E GERMÂNIA

Autoria de LuDiasBH

O pintor alemão Johann Friedrich Overbeck (1789 – 1869) nasceu numa família muito rica. Iniciou seus estudos artísticos com Jean Peroux, vindo mais tarde a frequentar a Academia de Viena, sendo um dos responsáveis pela criação da Guilda de São Lucas dessa cidade. Viveu em Roma juntamente com outros pintores alemães que residiam no Mosteiro de Santo Isidoro, onde produziam uma arte nacionalista, mas com temática religiosa. Esse grupo recebeu o nome de “Os Nazarenos” em razão de seus cabelos longos, sendo Overbeck reconhecido como seu líder. É também considerado o fundador da Arte Romântica Alemã.

A composição intitulada Itália e Germânia é uma obra do artista. As duas jovens mulheres, voltadas uma para a outra, numa postura de grande amizade, personificam a arte do Renascimento italiano e a velha tradição de pintura germânica. A jovem de cabelos escuros, rodeados por uma coroa de louros, à esquerda, é Itália, enquanto a da direita é Germânia com seus cabelos loiros trançados, adornados com uma grinalda de murta. A vestimenta de Germânia reporta à época de Albrecht Dürer, uma referência ao gênero nórdico, e a de Itália lembra as madonas de Perugino e Rafael Sanzio.

Os “Nazarenos” almejavam unir as características da pintura italiana e alemã da antiga Idade Média e do Renascimento, chegando até Rafael Sanzio. É interessante observar o modo como o artista criou a paisagem de fundo, indicando a união de duas nacionalidades, além de as duas figuras encontrarem-se de mãos dadas, expressando grande amizade e confiança. A da esquerda é uma paisagem italiana e à direita são vistas as ruelas de uma cidade alemã.

Ficha técnica
Ano: 1828
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 94,4 x 104,7 cm
Localização: Neue Pinakothek, Munique, Alemanha

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Ed. Könemann
Romantismo/ Editora Taschen

FRITURAS – O PONTO DE FUMAÇA

Autoria do Dr. Telmo Diniz

opodefu

Sempre que vamos fazer alguma fritura, geralmente temos dúvidas sobre qual seria o melhor óleo para usarmos na cozinha. Para tanto, primeiramente, devemos ter noção do que chamamos de “ponto de fumaça”, ou seja, quando você aquece um determinado óleo ou gordura e vê aquela fumacinha aparecendo. Em princípio, parece que isso não é tão importante. Entretanto, o texto de hoje irá mostrar que ficar longe desta fumacinha fará bem a sua saúde.

Antes de falar do ponto de fumaça, é importante esclarecer que nosso organismo necessita das gorduras para o metabolismo como um todo. Elas são as responsáveis em absorver a vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K); são importantes para a estrutura de uma série de hormônios esteroidais e contém também as chamadas “boas gorduras”, conhecidas pelos ômegas 3, 6 e 9.

Um aspecto importante das gorduras é a sua habilidade em esquentar a uma temperatura relativamente alta sem ferver. É isso o que vai fazer o alimento dourar e cozinhar (ou fritar) mais rapidamente. No entanto, se aquecida a uma temperatura maior do que pode suportar, ela irá queimar. Este é o alerta para o cozinheiro – o ponto de fumaça. Nesse ponto, o alimento irá absorver grande quantidade de gordura e, aliado à degradação sofrida pelo óleo, irá trazer prejuízos a nossa saúde, afetando também o sabor do mesmo (ficará com gosto de queimado). Várias das substâncias liberadas (os aldeídos, a acroleína, os peróxidos, etc.) durante este processo são altamente carcinogênicas.

Para proceder com as frituras, o critério de escolha do óleo deve ser o ponto de fumaça, que deve ser alto. Quanto mais alto o ponto de fumaça, menor a degradação do óleo durante o processo de fritura. A temperatura ideal para a fritura por imersão é de no máximo 180°, e a maioria dos óleos vegetais tem ponto de fumaça mais alto que isso. Na grande parte dos domicílios, não possuímos o termômetro para acompanhar as frituras. Portanto, olho no ponto de fumaça.

O óleo de soja, por ter um ponto de fumaça mais alto (240ºC) e o custo acessível, é a escolha de primeira opção para o dia a dia. O óleo de algodão e amendoim, por terem sabor bem particular e custo elevado, não é uma boa opção para a maioria das pessoas. O azeite de oliva também não é boa indicação para as frituras, pois tem um ponto de fumaça baixo (170ºC), sendo mais bem indicado para a finalização de pratos e tempero de saladas. Pelo mesmo motivo, margarina e manteiga não são indicadas para frituras, pois têm o ponto de fumaça mais baixo (190ºC).

Para finalizar, algumas dicas: quanto maior a temperatura e o tempo de aquecimento do óleo, mais prejudicial para a saúde. Então, um tempo de fritura rápido sem ponto de fumaça é o ideal. Caso não possa medir a temperatura durante o processo, fique de olho na fumacinha. Não reutilize o óleo de fritura e também não jogue no ralo da pia. Vá reservando em um recipiente plástico e, quando estiver cheio, leve a um ponto de coleta específico em seu bairro. Caso não tenha um, está na hora certa de pedir a seu candidato a prefeito ou a vereador políticas específicas para uma coleta seletiva.

Nota: Velha Fritando Ovos, obra de Diego Velázquez, 1618

Fra Angelico – A COROAÇÃO DA VIRGEM II

Autoria de LuDiasBH

 Fra Angelico (1384–1455) é um dos mais importantes mestres entre o final do período Gótico e o chamado Proto-Renascimento. Ele foi inicialmente miniaturista, mas em contato com a efervescência da arte em Florença, responsável por liderar toda a Europa Renascentista, começou a pintar nos seus momentos de descanso, após cumprimento de seus deveres religiosos. Aos poucos seu nome passou a figurar entre os grandes pintores da época, chegando a ser recomendado à família Médici como “um dos melhores de Florença”. À reputação de religioso humilde e devoto juntou-se a de excelente pintor de arte sacra, cujas obras, segundo as pessoas de seu tempo, pareciam ser pintadas por anjos, tamanha era a paz e a quietude que transmitiam.

A composição intitulada Coroação da Virgem é uma obra-prima do pintor e miniaturista italiano. O artista que realizou várias obras com este tema representa a Virgem Maria sendo coroada por seu Filho como Rainha do Céu. Mãe e Filho encontram-se sob uma magnífica cobertura sustentada por colunas, assentada sobre vários degraus de mármore, rodeados por anjos musicistas. Atrás dos anjos e nos patamares inferiores estão os santos, acompanhando a coroação.  Alguns são vistos de costas para o observador.

Alguns dos santos podem ser reconhecidos em razão de seus atributos, como Santa Catarina de Alexandria que traz a roda de seu martírio diante de si; Santa Maria Madalena com o frasco de unguento; Santa Inês com o cordeiro; e São Nicolau de Bari com mitra de bispo e báculo (sua capa, voltada para o observador, traz imagens da Paixão de Cristo), dentre outros.

Fra Angelico contou nesta pintura com a ajuda de seus assistentes, principalmente no lado direito. As cores da obra, que tem a predominância do azul, dão-lhe grande luminosidade. Os azulejos do piso são pintados, levando em conta a perspectiva geométrica. Um límpido céu azul claro serve de fundo. Abaixo da pintura maior encontra-se uma plataforma (preddela) com cenas que retratam os milagres de São Domingos, sendo que na parte central foi pintada a ressurreição de Cristo.

Nota: São conhecidos dois quadros da “Coroação da Virgem” pintados por Fra Angelico. O outro (anterior a este) encontra-se na Galeria Uffizi em Florença/Itália. Esta obra foi levada para a França em consequência dos saques das Guerras Napoleônicas e ali permanece sob a alegação de que seu tamanho dificulta o transporte para a Itália.

Ficha técnica
Ano: c. 1430/35
Técnica: têmpera sobre madeira
Dimensões: 209 x 206 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Ed. Könemann
Renascimento/ Editora Taschen
khristianos.blogspot.com

NÓS QUEREMOS MAIS E MAIS!

Autoria de LuDiasBH

O ser humano foi programado para querer tudo. É por isso que nunca se mostra satisfeito com o que tem. Mal consegue realizar um desejo, outro maior se põe a caminho. Seus circuitos cerebrais foram programados para funcionar assim. O neurologista Wolfram Schultz realizou uma pesquisa com macacos que mostra que esses animais não são muito diferentes dos humanos no que diz respeito aos desejos. A princípio ele os recompensava com maçãs, mas seus neurônios, que antes percebiam essa fruta como uma iguaria, passaram a não mostrar nenhum sinal de contentamento. Os macacos passaram a querer passas, ou seja, eles queriam algo mais. O que prova que os desejos, uma vez realizados, passam a não mais dar prazer até mesmo aos bichos.

Se os símios não mais se sentiam contentes com as maçãs, imaginem o que acontece com o ser humano vivendo num mundo de infinitas tentações em que o dinheiro pode comprar praticamente tudo. Nunca se teve tanta facilidade para se resvalar para os excessos como nos dias de hoje nas sociedades mais ricas. Esta é a razão do aumento da obesidade mórbida em países ricos como os Estados Unidos, onde mais de 50% de sua população encontra-se bem acima do peso. Os chamados “fast-foods”, antes pedidos em tamanho médio, agora são comprados em tamanho gigante. O organismo dos obesos não mais se contenta com porções menores, acostumados que está às grandes. Embora passageiro, somente o excesso de alimento ocasiona prazer aos obesos, como podemos ver em programas como “Quilos Mortais” que mostram todo o drama da obesidade mórbida.

Sabedores de que fomos programados para obter mais e mais – ainda que a alegria promovida por um desejo realizado logo se dissipa – mais difícil se torna a vida das pessoas sem emprego ou com um mínimo de poder de compra. A mídia, principalmente a televisão, excita os desejos, lançando nos lares um sem conta de propaganda de produtos, na maioria das vezes sem utilidade ou nocivos à saúde, mas que despertam a vontade de obtê-los nos espectadores . Quanto menor for a capacidade de racionalizar da pessoa, mais se verá consumida pelo desejo de comprar mais e mais, sem levar em conta o fato de necessitar ou não daquele produto.

Quer dizer então que o ser humano é um escravo de seus desejos? Isso vai depender de como ele se comporta diante de tais impulsos. O biofísico Stefan Klein explica: “Não estamos atados aos desejos, basta adotarmos uma atitude um pouco mais crítica em relação ao nosso circuito de expectativa que é controlado pela dopamina. Ao contrário dos macacos, somos capazes disso. O desejo nem sempre conduz ao prazer. Desejar e gostar são duas coisas diferentes”.

Nota: imagem copiada de https://pixabay.com/pt/vectors/carrinho-de-compras-