MINHA ESPOSA É BIPOLAR

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Autoria de Carlos Ricardo

Até o início do ano passado eu mal sabia o que era o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), muito menos que se trata de uma doença mental terrível com graves consequências tanto para a pessoa doente quanto para aqueles que a amam.

Sou casado há 23 anos e tenho três lindas filhas.  Minha esposa tem Transtorno Bipolar. Descobrimos a doença dela no início de 2019 de uma maneira muito complicada para toda a família. Descobri que minha esposa me traía com várias pessoas online e com alguns encontros furtivos com diferentes homens, pessoas sem sentido algum que em condições normais ela não consideraria interessantes quer fisicamente ou intelectualmente, inclusive flertando com alguns conhecidos.

Meu mundo caiu, fiquei desnorteado e sem entender porque minha mulher havia feito aquilo comigo. Descobri também que, embora esse comportamento ocorresse nos últimos meses antes de eu descobrir, desde 2015 episódios isolados ocorriam, com intervalos de meses, depois recaindo no mesmo tipo de comportamento. Como nada fazia sentido, nem pra ela mesma, fomos a dois psiquiatras que a diagnosticaram com o Transtorno Bipolar. Nos últimos anos, portanto, ela teve surtos maníacos que a faziam me trair.

Desde então fomos a vários e excelentes profissionais para entender a doença, além de lermos bastante sobre o assunto. Explicaram-me que tudo aquilo que ela havia feito não era fruto de sua simples vontade, não se tratava de falha de caráter ou “safadeza”, mas, sim, de um sintoma terrível de uma doença mental grave. Compreendi como o Transtorno Bipolar faz a pessoa oscilar entre a depressão, normalidade e mania. Compreendi que os sintomas principais do estado maníaco são abuso de álcool e drogas, humor elevado, fala e pensamento acelerados, comportamento impulsivo, agressividade, hipersexualidade e traição dos parceiros.

Na maior parte dos casos, como no da minha esposa, os estados maníacos duram semanas ou até meses e depois se alternam com estados depressivos e longos períodos de normalidade. Mas existem também casos de ciclagem rápida e estados mistos em que mania, depressão e normalidade se sucedem de um dia pro outro. A forma como os sintomas aparecem também variam de pessoa a pessoa. Em alguns bipolares a hipersexualidade, por exemplo, manifesta-se na prática sexual descontrolada com qualquer parceiro e no consumo abusivo de pornografia. Na minha esposa a hipersexualidade manifestava-se pelo flerte, a vaidade excessiva, o ego inflado, a vontade de ser desejada e não pelo ato sexual em si.

É importante entender que apenas com conversas, orações e promessas as crises maníacas bipolares não serão controladas, porque as coisas que o bipolar faz em crise fogem da vontade e do controle dele próprio, sendo causadas por desequilíbrios químicos cerebrais. A doença mental só pode ser controlada com medicação correta e, enquanto isso não acontecer, novas crises virão.

De tudo o que li e das conversas que tive com os profissionais, estou plenamente consciente de que só é possível manter a relação com uma pessoa bipolar, caso ela faça um pacto com seu parceiro de seguir corretamente o tratamento para o resto da vida, tomando a medicação e consultando-se com certa regularidade. Foi o que fiz com minha esposa. Caso contrário simplesmente não há como prosseguir no relacionamento. É importante também que o parceiro de um bipolar cuide de sua saúde mental e busque terapia sempre que necessário, porque não é fácil lidar com as consequências do que essa doença mental faz com a família e com as pessoas próximas. Eu busquei esse tratamento e foi muito importante pra mim.

Atualmente minha esposa está bem medicada e plenamente consciente de sua doença. Estamos muito bem, embora eu ainda tenha de lidar com os traumas decorrentes da história toda. Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de um dos cônjuges ter uma doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade. Eu decidi continuar, porque ela se comprometeu com o tratamento, porque a conheço como ninguém e sei que ela merece todo o meu respeito.

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, intitulada Garota no Espelho

34 comentaram em “MINHA ESPOSA É BIPOLAR

  1. Andre

    Pessoal, estou com medo depois de ler todos esses relatos.

    Sou casado há 18 anos, tenho três filhos. Descobri recentemente que minha esposa havia enviado fotos para um grupo público do Telegram. Nessas fotos ela estava pelada e de quatro na nossa cama. Mesmo sem mostrar o rosto, eu a reconheci. Conversando com ela, expliquei-lhe sobre os grupos dessa rede social, que qualquer um poderia ver as imagens e vídeos compartilhados, mesmo sem fazer parte do grupo e dai mostrei as duas fotos dela. Na hora ela só disse “AFF” e agiu friamente, como se não desse muita importância, mas notei sua respiração ofegante e a senti mais próxima de mim depois disso, querendo conversar mais, mais carinhosa, enfim…

    Já a vi paquerando em algumas ocasiões e estou começando a ficar com medo depois de ler esses relatos todos. Detalhe, ela em nenhum momento admitiu que fosse ela nas fotos, inclusive, ficou com raiva de mim, dizendo que ela jamais faria isso comigo, que isso ia de encontro a tudo o que sempre falou sobre se deixar fotografar, sobre mulheres que enviam fotos peladas, esse tipo de coisa… Ela tem depressão, está sendo tratada, faz acompanhamento constante. O sexo no nosso casamento está escasso, temos poucos momentos de intimidade, mas não por falta de insistência minha, ela simplesmente não demonstra muito interesse.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      André

      Sei que é difícil, mas seria bom que você lesse todos os relatos para se inteirar melhor dos problemas vividos pelas pessoas bipolares. No seu comentário você diz que sua mulher tem depressão, é em razão do que ela vem fazendo que acha que é bipolar? Não houve um diagnóstico médico? Se não houve, que tal ir ao psiquiatra com ela e falar sobre o que vem ocorrendo? O tratamento para a bipolaridade não é o mesmo da depressão. E seria importante que ela recebesse o tratamento certo. Se possível, traga-nos mais informações.

      Abraços,

      Lu

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  2. Lineu

    Hélio

    Os depoimentos aqui são muito parecidos com a minha vida. Vinte e dois anos de casado, dois filhos e um casamento maravilhoso, porém em janeiro de 2020 descobri que minha esposa também me traía online e que estava se encontrando com um ex namorado, flertando com um desconhecido e que num desses flertes foi violentada por estar bêbada. Meu mundo desabou. Fiquei completamente sem rumo, mas não desisti, pois a conhecia há muitos anos… Descobri várias traições e flertes até que um acidente a levou à internação e 5 tentativas de suicídio. Após o retorno dela, 45 dias depois, o tratamento começou a fazer efeito. Hoje ainda tenho pesadelos e aquele sentimento ruim de medo do que possa ocorrer, mas ela tem seguido a risca o tratamento e voltou a ser a pessoa com quem estive junto ao longo de tantos anos. Como vê, muitos de nós carregamos grande sofrimento. Fique firme.

    Abraços

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  3. Rafael Seixas

    Oito anos de relação e 3 de casamento. Ela me deixou há 7 meses. Rompeu completamente o contato, me bloqueou em todos os canais possíveis. Eu não existo mais para ela. Apenas após o término descobri que ambos éramos bipolares (ela provavelmente boderlaine também). No meu caso, o polo mais ativo é a depressão, tipo hipomania. Sofri agressões verbais e físicas de todo o tipo. Uma vez levei dois socos no rosto, porque ela achava que eu havia ficado excitado com uma serie de TV. Esses episódios de traição digital também aconteceram. O que posso dizer? É a mulher da minha vida, mas seria melhor não ter me envolvido com ela. Estou adoecendo com esta situação.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Rafael Seixas

      Sei que não é fácil o relacionamento com uma pessoa bipolar, sem que ela aceite o tratamento. E quando marido e mulher compartilham o mesmo problema, fica quase impossível. Você não disse se ela faz o tratamento ou não. E você, está em tratamento?

      Amigo, a separação, ainda que dolorosa, foi a melhor solução, pois a relação de vocês poderia desaguar numa fatalidade, como tantas que acontecem mundo afora em razão da bipolaridade. Sem que você e ela sigam um tratamento médico ao pé da letra, não há como reatarem a relação. Seria como viver num inferno, ainda mais que ela parte para a agressão física. Daí para algo mais sério é um passo, ainda que ela seja a mulher de sua vida. A distância é boa para você e para ela. Busque ajuda para não cair em depressão e venha sempre conversar conosco, compartilhar os momentos mais difíceis de sua vida.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  4. Alex

    Carlos Ricardo

    Será que a pessoa bipolar em nenhum momento pensa o quanto a dor vai ser infringida ao esposo ou à esposa? E a sensação de culpa, será que existe? A vergonha é terrível pelo fato de as pessoas saberem que sua mulher (ou esposo) teve um caso ou casos com outras pessoas, a tristeza bate, e a duvida paira no ar: devo continuar?

    Responder
    1. Carlos

      Alex

      Sobre a sua primeira pergunta, enquanto as pessoas que tem TAB estão maníacas, elas não estão em plena consciência e não conseguem medir as consequências de seus atos, perdem a empatia e o senso de responsabilidade mesmo em relação às pessoas que mais amam. Elas fazem coisas que não fariam em sua normalidade. Pra ficar fácil de entender, você concorda que uma pessoa normalmente tímida pode fazer coisas completamente fora de seu normal se ficar bêbada e drogada numa balada? Sim? Pois multiplique o perigo dessa situação, quando se trata do cérebro bipolar. Ele alcança muitas vezes esse nível de euforia mesmo sem usar qualquer substância. O drama aqui é que uma pessoa tímida numa balada pode escolher beber e se drogar ou não. As pessoas que têm TAB não têm escolha. Elas nasceram com esse transtorno e terão de lidar com ele e suas consequências pro resto da vida. O mesmo vale pro quadro depressivo. Quando depressivos, os bipolares não conseguem se levantar da cama, e não é porque escolheram isso, mas porque simplesmente não conseguem.

      Sobre sua última pergunta, continuar ou não depende sempre do que é melhor para as pessoas envolvidas. O diagnóstico do TAB é uma explicação para os comportamentos irresponsáveis e inconsequentes, mas, uma vez diagnosticada, a pessoa passa a ter total responsabilidade por se comprometer com seu tratamento e com as pessoas ao seu redor.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Luís

      Seu comentário será transformado em texto e postado na parte principal do site. Aguarde!

      Responder
  5. Pedro Silva

    Viva, Carlos!

    Ao ler a sua história senti que fui eu que escrevi esse texto. Como é possível? Histórias super idênticas.

    Responder
  6. Marcelo

    Carlos

    Sua história e de outros aqui que li são muito parecidas com a minha.

    É muito difícil aceitar em um primeiro momento, mas depois você vai lembrando dos fatos e verificando que aquela não era sua esposa (beber, deixar a filha ser cuidada por babá, mentir para todos, imaginar coisas, ter relacionamento e comportamento que em momento normal não aconteceriam, sequer uma palavra com a pessoa em questão). Digo que a bipolaridade afeta muito a família, é muito difícil, mas realmente só compreendendo muito a doença e levando em conta a vontade de manter a família e logicamente ajudar a pessoa que está ao seu lado. para poder seguir.

    Foram alguns meses de muita luta, primeiro para entender o porquê da agressividade, das mentiras, da traição (sem sentido nenhum). Muito triste tudo. Nunca pensei que fosse acontecer tal situação comigo, até porque não conhecia essa doença. Ela negava estar doente, não queria tratamento, falava coisas sem nexo nenhum, mas graças a Deus depois de quase 02 meses de luta conseguimos. Ainda estamos nos primeiros passos, mas o comportamento já mudou muito.

    Tudo aqui que li, vejo algo do que aconteceu comigo e com minha família. Somente muito amor, compreensão e principalmente sabedoria para conseguir manter a família, pois não é fácil. Só Deus sabe o quanto sofri com as descobertas das mentiras.
    Carlos, havendo algum contato seu, gostaria muito de conversar mais sobre este assunto.

    Grato, Lu, por abrir este espaço.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Marcelo

      Como vê, são muitas as pessoas que passam ou já passaram por isso. Essa doença é doída porque afeta toda a família de um jeito muito cruel, principalmente quando não se tem qualquer conhecimento sobre ela. Só à medida que os familiares vão buscando informações é que vão compreendendo o porquê de tudo estar acontecendo. O doente não passa de uma vítima sendo manejada por seus desvios mentais. O pior é quando ele não aceita tratamento, causa maior das separações. Quando medicada diariamente, a vítima consegue lidar com o problema, deixando a família mais tranquila. É sempre bom saber que essa doença não tem cura. O doente precisa estar sempre medicado. Se sentir que a sua esposa não está respondendo mais ao tratamento, retorne ao médico, pois pode ser que o medicamento deixou de fazer efeito.

      Marcelo, imagino a sua dor e a sua luta para compreender esse turbilhão de acontecimentos que surgiram em sua vida. Todo mundo fica assim, meio perdido, mas aos poucos vai compreendendo tudo. É preciso muito amor e generosidade para lidar com sua esposa. Lembre-se sempre de que ela é apenas uma vítima. Não carrega culpa nenhuma. Nunca quis fazer ninguém sofrer, apenas foi incapaz de superar o que lhe ia pelo cérebro. O medicamento irá ajudá-la.

      Continue em contato conosco. Não se sinta só. Estaremos todos de braços abertos para acolhê-lo.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  7. Jair

    Pessoal

    Fui casado por 25 anos e minha esposa foi diagnosticada com bipolaridade faz uns 2 anos.

    No começo do casamento ela me traiu, passou a conversar com homens pela Internet e depois de um tempo disse que queria mudar e investir no relacionamento. Nessa época, ela começou a entrar em depressão, a qual durou por volta de 6 anos.
    Depois que melhorou, passou a dizer que me amava, mas do nada ela passou a acreditar que tudo que lhe acontecia era eu quem armava para ela. Acreditava que eu queria prejudicá-la, mesmo eu provando que não. Nada adiantava. Isso foi piorando cada vez mais e em novembro acabou me expulsando de casa.

    Mesmo assim não desisto de ajudá-la. Tudo isso acabou me afetando muito. Meu filho me disse que já não vê brilho nos meus olhos e que só vê tristeza. Amo muito minha esposa e sofro por ela me odiar dessa maneira. Agora ela diz que está apaixonada por uma pessoa que não vê faz 20 anos e pela qual nunca sentiu nada. Apaixonou-se simplesmente porque citei o nome da irmã dessa pessoa.

    Hoje ela está internada, pois entrou num estágio de psicose avançado, está medicada e apresentando uma melhora, mas mesmo assim continua a me odiar. Acho que isso nunca vai passar, mas não faz mal, eu a amo e só quero que ela se recupere, isso independe de estar junto ou não, sempre que precisar estarei lá para ajudá-la.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Jair

      Não é fácil conviver com alguém com essa terrível doença que também maltrata aqueles que vivem ao lado do doente. A única saída é o uso do medicamento para manter a vítima num certo equilíbrio. A negação em aceitar o tratamento inviabiliza qualquer convívio, adoecendo todos da casa. A sua história é parecida com a de muitos que aqui vêm dar seus depoimentos, mostrando que ninguém se encontra só no trato com a bipolaridade.

      Seu comentário é tocante. Fiquei comovida ao ler:

      “Mesmo assim não desisto de ajudá-la. Tudo isso acabou me afetando muito. Meu filho me disse que já não vê brilho nos meus olhos e que só vê tristeza. Amo muito minha esposa e sofro por ela me odiar dessa maneira. Agora ela diz que está apaixonada por uma pessoa que não vê faz 20 anos e pela qual nunca sentiu nada. Apaixonou-se simplesmente porque citei o nome da irmã dessa pessoa.”

      Você é realmente uma pessoa muito especial, dotada de uma generosidade ímpar. Saiba que ela não o odeia. Tudo é fruto da doença. O bipolar, quando em surto, não responde por si, não é dono de suas ações. A mente já não mais obedece a seus comandos. O mundo que o rodeia não é mais o das pessoas à sua volta. É como se vivesse numa outra dimensão. Você poderá ver isso nos relatos apresentados aqui no blogue. Normalmente são as pessoas que mais interagem com o doente que ganham a sua aversão, pois são elas que cobram o tratamento, que chamam a atenção pelas coisas erradas, que pegam no pé. E, como crianças, os bipolares tendem a tomar raiva de quem lhes cobra muito (embora para o seu próprio bem). Ao contrário do que realmente é, acham que tais pessoas querem prejudicá-las – tudo fruto da mente adoecida.

      Jair, não leve ao pé da letra o que sua esposa diz. Ela não tem culpa por suas palavras inexatas. Não mais as comanda. É um joguete da doença. Lamento muito pelo que está acontecendo com ela, você, seu filho e família. Aproveito para deixar aqui a confirmação de quão maravilhoso ser humano é você:

      “….eu a amo e só quero que ela se recupere, isso independe de estar junto ou não, sempre que precisar estarei lá para ajudá-la.”

      Estamos aqui de braços abertos para acolhê-lo. Sempre que quiser, venha conversar conosco.

      Grande abraço,

      Lu

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  8. Franklin Pessoa

    Carlos

    Minha história é idêntica a sua! Venho lutando faz bastante tempo pelo meu casamento. tenho 3 filhos e minha esposa foi diagnosticada com transtorno bipolar, fez as mesmas coisas que a sua, já foi internada 3 vezes e na última estava de contato com um enfermeiro da clínica onde estava internada. Descobri diversos envolvimentos e sempre ele me pede uma nova chance. Passa um tempo tranquila e tudo volta a acontecer. Hoje ela faz tratamento e terapia, mas preciso ficar cobrando para tomar as medicações corretamente, preciso muito de ajuda!

    Responder
    1. Zoraide

      Franklin e Carlos

      Lendo os relatos de vocês, fica muito clara a importância dos cônjuges também procurarem auxílio na terapia e/ou em grupos de apoio.

      Eu fui casada com um bipolar por seis anos. Ele foi diagnosticado bem tarde e, além disso, só tomava as medicações e ia às consultas se eu insistisse muito. Para ele os médicos estavam errados no diagnóstico, nas medicações e assim por diante. Essa rotina de cuidar, vigiar, cobrar sempre é muito estressante, pois percebemos que o outro só segue as recomendações porque alguém está no pé. Eu adoeci muito com essa dinâmica, vi a pessoa que eu amava virar uma sombra pouco parecida com quem me casei e, por fim, preferi não continuar o relacionamento. Meu ex acabou largando o tratamento depois da separação e, para todos os efeitos, não há transtorno de humor, ele sempre foi assim, é o “jeito” dele.

      O que posso dizer a vocês é que se o doente não seguir o tratamento, não entender que a vida dele(a) depende disso, a convivência vai tirar as forças de quem ficar perto. Aqui no blogue, vocês têm espaço aberto para desabafar, buscar apoio. Não se sintam sozinhos.

      Um abraço,
      Zoraide

      Responder
      1. Franklin Pessoa

        Zoraide

        Realmente venho vivendo anos difíceis, mas enquanto tiver forças vou lutar pela minha família, não sei até quando, pois há dias em que tudo me dói muito e tenho vontade de desistir.

        Obrigado pelas palavras de apoio e compreensão!

        Responder
    2. Carlos

      Franklin

      É muito triste o que uma doença mental como o TAB causa à própria pessoa e a sua família. Quem sofre com o TAB luta cotidianamente para levar uma vida com qualidade. Não é fácil, é trabalhoso, é sofrido e só podemos lamentar que pessoas das quais gostamos tenham que passar por essa situação. Dito isto, eu te aconselharia, primeiramente, a cuidar de você mesmo. Não temos como ajudar os outros e oferecer apoio a nossos filhos e família se não estivermos bem física e mentalmente. Busque um bom terapeuta comportamental que possa te ajudar a entender a você mesmo e a doença da sua esposa. É muito importante que esteja em equilíbrio para suportar essa situação. Em segundo lugar, sabemos que alguém que sofre com TAB não pode ser simplesmente culpabilizado pelo que faz, quando está em depressão ou em mania. No entanto, uma vez realizado o diagnóstico e com a pessoa em estabilidade, ela se torna responsável por manter seriamente seu tratamento, única forma de impedir que outras crises aconteçam ou de, pelo menos, fazer com que elas venham de forma mais branda.

      Veja bem, uma vez diagnosticada, seguir o tratamento corretamente é um ato de responsabilidade da pessoa doente com ela mesma, mas também com as pessoas que ela feriu e magoou, enquanto estava desequilibrada. Não acredito ser justa a situação em que você tem que vigiar e cobrar da sua esposa o uso correto da medicação. Ela tem que assumir total responsabilidade por isso. No meu caso, se minha esposa não seguisse o tratamento corretamente, eu entenderia esse ato como uma traição ao que acordamos e um desrespeito a mim e às minhas filhas depois de tudo que passamos para apoiá-la.

      Por fim, gostaria de observar que espero que o enfermeiro mencionado por você tenha sido demitido da clínica, porque é inadmissível do ponto de vista ético e legal que um profissional de saúde queira tirar proveito de alguém em sofrimento mental.

      Se quiser conversar mais, volte aqui que eu responderei. A Lu, sempre muito gentilmente, nos cede esse espaço.

      Abraço e fique bem.

      Responder
      1. Franklin Pessoa

        Carlos

        Obrigado pela atenção e por dispor de tempo para tentar nos ajudar, realmente é uma situação muito difícil e delicada. Ela se queixa das medicações, pois ganhou peso no tratamento. Converso muito com ela, tento ser o mais compreensível possível, mas também sou firme nas cobranças, para que não venha a acontecer novamente, pois eu não vou conseguir suportar mais. Existem dias difíceis e tudo fica em minha cabeça martelando o tempo todo, mas vamos em frente com fé em Deus.

        Responder
  9. Cristiano Mateus

    Carlos

    Vi em você o retrato da vida que eu levava. Até na delegacia fui parar por ter segurado minha -ex esposa pra ela parar de quebrar a casa e de jogar coisas em cima de mim.

    É uma vida sofrida. Eu me separei. Tivemos um filho no início do relacionamento. Eu me desespero ao saber que mesmo amando o filho ela faz coisas absurdas com ele, como deixá-lo sozinho para beber na praça.

    Hoje tenho a guarda dele, mas vivo no fio da navalha, porque ela pode dizer que está bem. Mas como a conheço isso passa, ela vai desistir dos remédios e vai cair no surto novamente.

    Responder
    1. Carlos

      Ricardo

      Concordo com todos os comentários que foram feitos. Reforço a necessidade do tratamento para que seja possível você manter um relacionamento saudável, com os medicamentos tomados diariamente e o acompanhamento do psiquiatra. Minha esposa faz uso da medicação prescrita todos os dias e se consulta com a psiquiatra a cada 3 ou 4 meses, mas no início foram necessárias consultas mensais. Se você deseja apostar na relação, é muito importante acompanhar esse processo de perto, se informar, conversar e manter contato com o psiquiatra dela, saber dele o que pensa de seu prognóstico, conhecer os medicamentos e dosagens recomendadas.

      Não é que você terá que cuidar dela, como quem carrega uma cruz, longe disso. Mas se relacionar com alguém que tem uma doença crônica, qualquer doença crônica, mental ou não, exige um certo trabalho e envolvimento do parceiro. Com tratamento adequado é possível ter uma vida normal. Infelizmente, a maioria das pessoas com transtorno bipolar não aceitam o tratamento ou o interrompem quando se sentem bem, na ilusão de que estão curadas. Sem os medicamentos as crises e surtos são inevitáveis e a convivência se torna inviável.

      Boa sorte!

      Responder
  10. Zoraide

    Olá, Ricardo!

    Não é nada fácil decidir como agir nesses momentos. Como você disse, seu medo é acontecer tudo de novo. Tratamento da bipolaridade passa pela aceitação da doença e tratamento. Pra mim, a negação é o que há de pior. O cônjuge, a família, os amigos podem dar todo apoio e suporte necessário, porém se o portador do transtorno não se compromete por vontade própria, não dá certo.

    Eu passei por isso com meu -ex. Ele fazia o tratamento muito mais porque eu insistia, mas se colocava como vítima quando surtava e fomos nessa toada por três longos anos, até que eu decidi dar um basta. Quando existe o perigo à vida do doente e dos que estão em volta, chegou a hora de pensar quão disposto se está a prosseguir num relacionamento assim. Apelar para o sentimento que temos por eles é fato, porém a decisão é sua.

    Eu me separei do meu -ex em março, ele não aceitou e tomou atitudes perigosas para a vida dele e para a minha (ex:. viajar de avião em meio à pandemia no dia dos namorados para me fazer uma “surpresa”). Totalmente alterado, instável. E ele nunca foi violento ou impulsivo dessa forma.
    Como ela está com a família, permita-se passar um tempo sem ela e refletir. A paz e o sossego são importantíssimos para que você se fortaleça e tome a melhor decisão. Força!

    Responder
  11. Ricardo

    Amigos

    Em 2016 minha esposa surtou e foi diagnosticada com bipolaridade, mas não quis tomar remédios e me abandonou, foi embora morar com a família. Com o tempo a família conseguiu fazer com que ela se tratasse e, quando melhorou, ela me pediu pra voltar. Aceitei, mas que ela jamais deixasse de tomar os remédios.

    Ela passou três anos se tratando e levávamos a vida quase que normal. Infelizmente em maio de 2020 ela surtou de novo; descobri que havia deixado de tomar os medicamentos. Fez a mesma coisa que antes, foi embora. Sempre que isso acontece ela põe na cabeça que eu vou fazer mal a ela, por isso me deixa. Agora está se tratando novamente e já está melhor. Já pediu pra voltar novamente, estou conversando com ela, falando que ainda é muito recente, que precisa de mais tempo de tratamento.

    Em todas as vezes que isso aconteceu, ela me agrediu e ainda chamou a polícia. Estou com muito medo de voltar com ela, apesar de amá-la, sei que se voltaremos vou ficar sempre com um pé atrás. Sinceramente, não sei o que fazer. Alguém aqui pode me dar algumas palavras a respeito? Sei que é difícil opinar, mas as opiniões serão bem-vindas.

    Obrigado!

    Responder
    1. LuDiasBH

      Ricardo

      Seja bem-vindo a este cantinho. Sinta-se em família.

      Amiguinho, conforme mostram os depoimentos aqui, não é fácil conviver com uma pessoa portadora de bipolaridade em razão de seus altos e baixos. Muitas vezes o companheiro (ou companheira) necessita de um acompanhamento psicoterápico para aguentar a barra.

      Não sei se sabe, mas os medicamentos relativos ao tratamento da saúde mental acabam se acostumando com o organismo do paciente, sendo necessário aumentar a dosagem ou mudar para outro, daí a necessidade de voltar ao psiquiatra de tempos em tempos (pelo menos anualmente). Porém, no caso de sua esposa, vejo que ela abandonou o tratamento. Este tipo de ocorrência é costumeiro e preocupante tanto em relação ao doente como para quem com ele convive. Dá para imaginar a turbulência pela qual está passando.

      Você está correto ao aguardar mais tempo para que venham a ficar juntos, se assim o decidir. Só faça isso quando tiver certeza de que a saúde dela está equilibrada. É bom também estar preparado para que isso venha a ocorrer novamente, pois diz respeito à doença dela e não há como fazer previsões. As crises ocasionadas pelas doenças mentais são previsíveis quando dizem respeito à falta de medicação, mas são imprevisíveis quando a dosagem está baixa ou o medicamento não mais faz efeito. Esse pé atrás você sempre terá, a menos que fique responsável (ou alguém da família) por dar os medicamentos necessários na mão dela diariamente. Assim terá a certeza de que está a tomá-los, pois nos períodos de euforia a pessoa acha que já está curada.

      Quanto a retomarem a vida juntos, você terá que avaliar tudo. Se na divisão os pontos positivos forem superiores, vá em frente, mas, se os negativos superarem, seria melhor para os dois manterem-se afastados. Pense bem, antes de tomar uma decisão, principalmente se tiverem filhos.

      Venha sempre aqui conversar conosco e contar como andam as coisas. Não se sinta só!

      Abraços,

      Lu

      Responder
    2. Ana Maria

      Olá, Ricardo!

      Há 7 anos passei por uma situação muito parecida com a tua, apesar de não ter sido diagnosticado, meu -ex namorado tinha sintomas muito semelhantes ao da bipolaridade e durante a nossa relação ele teve duas crises. Na segunda e mais séria crise, ele decidiu terminar a relação, quando começou a melhorar, pediu para voltar. Eu não aceitei, por mais que o meu coração quisesse dizer que sim. Foi extremamente doloroso quando eu percebi que estava adoecendo também e que eventualmente ele iria ter outras crises. No meu caso, o tempo e o auto cuidado foram cruciais para perceber que tomei a melhor decisão.

      Apesar de amarmos muito outra pessoa, não podemos esquecer de nos amar e de que a nossa saúde (física e mental) é o nosso maior bem.
      Pelo que percebi, ainda é um momento muito delicado para você tomar alguma decisão concreta. Então, eu acho que está certíssimo em pedir para esperar um tempo e ver como será a resposta dela ao tratamento. Esperar, ter paciência e cuidar da nossa saúde emocional em relação ao momento que estamos passando é algo fundamental.

      Seja qual for a tua decisão, desejo boa sorte e que você seja feliz.

      Um abraço!

      Responder
    3. José

      Ricardo

      Ela parece ter uma família compressiva e que cuida dela. Não volte a esse relacionamento. Mesmo que você seja masoquista.
      Essa variação vai continuar ocorrendo. Com sorte e com um bom tratamento deve acontecer mais raramente, mas você vai acabar sofrendo. Acredite, não vale à pena… Ela está amparada pela família. Desligue-se de qualquer contato, a menos que já tenham filhos. Procure conhecer outras pessoas. Você vai acabar achando alguém que te faça feliz.

      Responder
  12. Ivone

    Carlos

    É um alívio conversar com quem entende o que passamos, mas a primeira condição que coloquei foi o divórcio, caso ele não se tratasse. Ele não é um bipolar de longos ciclos. Alterna o comportamento várias vezes ao longo do dia. Repete as mesmas palavras duras que ouviu do seu pai na infância para nossa filha. Ela sofre muito. E mãe não admite ver filho sofrendo. Não temos compatibilidade com nada, gostos totalmente diferentes. Outro dia me peguei imaginando como seria daqui a alguns anos, quando minha filha for estudar, sair de casa, casar… ficando só eu e ele, juro entrei em pânico. Quando olho pra ele sinto raiva de mim por ter tentando tanto durante 20 anos. Eu não vivi.

    Obrigada!

    Responder
  13. Moacyr Autor do post

    Carlos

    Não foi fácil a barra pela qual passou. Tenho um amigo cuja mulher tem bipolaridade, mas segue rigorosamente o tratamento. Parabéns por relatar com honestidade seu problema, ajudando outras pessoas com suas palavras sábias.

    Moacyr

    Responder
  14. Ivone Autor do post

    Carlos

    Triste por ver tantas pessoas passando por este problema e ao mesmo tempo feliz por encontrá-las. Vivo o mesmo dilema da bipolaridade com o meu marido com o qual sou casada há 20 anos.

    No início do tratamento foi uma maravilha, até parentes notavam a diferença no seu comportamento, mais calmo, centrado, outra pessoa. Mas logo depois de uns 08 meses, ele sentiu a libido diminuir e logo abandonou o tratamento, apesar de eu insistir muito, não consegui convencê-lo. Diz que não é doido e que não precisa de remédio algum. Depois de anos voltou a beber e fumar escondido. É muito agressivo com as palavras e nos abandona (temos uma filha adolescente)por coisas sem valor. Ele nos xinga e nos culpa por tudo que faz de errado.

    Uffa! Está difícil, porque prefere ficar sozinho, é antissocial e com isso me isola, enquanto casal, de amigos, igreja, família. Não estou mais aguentando. Essas pessoas são muito egoístas. Eu me sinto sozinha, mesmo casada.

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    1. Carlos

      Ivone

      Obrigado pelo comentário e lamento que esteja passando por essa situação. Olha, é fundamental que seu marido retome o tratamento. Possíveis efeitos colaterais da medicação, como queda da libido, devem ser discutidos com o psiquiatra para que ele encontre alternativas, mas jamais se deve suspendê-la por conta própria. Esse egoísmo e agressividade são sintomas da doença que a medicação pode controlar e não características da personalidade dele. Nas crises maníacas minha esposa também ficava egoísta a ponto de colocar as próprias filhas em situações constrangedoras, logo as filhas que ela tanto ama e para as quais doou sua juventude em cuidados. Como disse, a adesão ao tratamento é condição para nosso relacionamento continuar e minha esposa está muito consciente disso. Acredito que você deva colocar essa condição também para seu marido e talvez pedir a ajuda da família dele para isto. Sinceramente, não acredito que seja possível manter um relacionamento saudável com um bipolar que não se trata.

      Boa sorte e tudo de bom pra você.

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  15. LuDiasBH Autor do post

    Carlos

    Sei que não é fácil a vida com uma pessoa bipolar, mas seu texto nos mostra um misto de compreensão, ternura e humanidade. É impossível esquecer suas palavras:

    “Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade.”

    Parabéns! Seu comentário servirá de exemplo para muitas pessoas, principalmente para os homens.

    Abraços,

    Lu

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    1. Carlos

      Lu

      Muito obrigado por poder contar minha história aqui. Os textos relatando experiências com o Transtorno Bipolar têm sido muito importantes pra nós, saiba disso.

      Abraço!

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