MINHA ESPOSA É BIPOLAR

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Autoria de Carlos Santana

Até o início do ano passado eu mal sabia o que era o Transtorno Bipolar, muito menos que se trata de uma doença mental terrível com graves consequências tanto para a pessoa doente quanto para aqueles que a amam.

Sou casado há 23 anos e tenho três lindas filhas.  Minha esposa tem Transtorno Bipolar. Descobrimos a doença dela no início de 2019 de uma maneira muito complicada para toda a família. Descobri que minha esposa me traía com várias pessoas online e com alguns encontros furtivos com diferentes homens, pessoas sem sentido algum que em condições normais ela não consideraria interessantes quer fisicamente ou intelectualmente, inclusive flertando com alguns conhecidos.

Meu mundo caiu, fiquei desnorteado e sem entender porque minha mulher havia feito aquilo comigo. Descobri também que, embora esse comportamento ocorresse nos últimos meses antes de eu descobrir, desde 2015 episódios isolados ocorriam, com intervalos de meses e depois recaindo no mesmo tipo de comportamento. Como nada fazia sentido, nem pra ela mesma, fomos a dois psiquiatras que a diagnosticaram com o Transtorno Bipolar. Nos últimos anos, portanto, ela teve surtos maníacos que a faziam me trair.

Desde então fomos a vários excelentes profissionais para entender a doença, além de lermos bastante sobre o assunto. Explicaram-me que tudo aquilo que ela havia feito não era fruto da simples vontade, não se tratava de falha de caráter ou “safadeza”, mas, sim, de um sintoma terrível de uma doença mental grave. Compreendi como o Transtorno Bipolar faz a pessoa oscilar entre a depressão, normalidade e mania. Compreendi que os sintomas principais do estado maníaco são abuso de álcool e drogas, humor elevado, fala e pensamento acelerados, comportamento impulsivo, agressividade, hipersexualidade e traição dos parceiros.

Na maior parte dos casos, como no da minha esposa, os estados maníacos duram semanas ou até meses e depois se alternam com estados depressivos e longos períodos de normalidade. Mas existem também casos de ciclagem rápida e estados mistos em que mania, depressão e normalidade se sucedem de um dia pro outro. A forma como os sintomas aparecem também variam de pessoa a pessoa. Em alguns bipolares a hipersexualidade, por exemplo, manifesta-se na prática sexual descontrolada com qualquer parceiro e no consumo abusivo de pornografia. Na minha esposa a hipersexualidade manifestava-se pelo flerte, a vaidade excessiva, o ego inflado, a vontade de ser desejada e não pelo ato sexual em si.

É importante entender que apenas com conversas, orações e promessas as crises maníacas bipolares não serão controladas, porque as coisas que o bipolar faz em crise fogem da vontade e do controle dele próprio, sendo causadas por desequilíbrios químicos cerebrais. A doença mental só pode ser controlada com medicação correta e, enquanto isso não acontecer, novas crises virão.

De tudo o que li e das conversas que tive com os profissionais, estou plenamente consciente de que só é possível manter a relação com uma pessoa bipolar caso ela faça um pacto com seu parceiro de seguir corretamente o tratamento para o resto da vida, tomando a medicação e consultando-se com certa regularidade. Foi o que fiz com minha esposa ou, caso contrário, simplesmente não há como prosseguir no relacionamento. É importante também que o parceiro de um bipolar cuide de sua saúde mental e busque terapia sempre que necessário, porque não é fácil lidar com as consequências do que a doença mental faz com a família e com as pessoas próximas. Eu busquei esse tratamento e foi muito importante pra mim.

Atualmente, minha esposa está bem medicada e plenamente consciente de sua doença. Estamos muito bem, embora eu ainda tenha de lidar com os traumas decorrentes da história toda. Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade. Eu decidi continuar porque ela se comprometeu com o tratamento, porque a conheço como ninguém e sei que ela merece todo o meu respeito.

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, intitulada Garota no Espelho

13 comentários em “MINHA ESPOSA É BIPOLAR

  1. Cristiano Mateus

    Ricardo

    Vi em você o retrato da vida que eu levava. Até na delegacia fui parar por ter segurado minha -ex esposa pra ela parar de quebrar a casa e de jogar coisas em cima de mim.

    É uma vida sofrida. Eu me separei. Tivemos um filho no início do relacionamento. Eu me desespero ao saber que mesmo amando o filho ela faz coisas absurdas com ele, como deixá-lo sozinho para beber na praça.

    Hoje tenho a guarda dele, mas vivo no fio da navalha, porque ela pode dizer que está bem. Mas como a conheço isso passa, ela vai desistir dos remédios e vai cair no surto novamente.

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    1. Carlos

      Ricardo

      Concordo com todos os comentários que foram feitos. Reforço a necessidade do tratamento para que seja possível você manter um relacionamento saudável, com os medicamentos tomados diariamente e o acompanhamento do psiquiatra. Minha esposa faz uso da medicação prescrita todos os dias e se consulta com a psiquiatra a cada 3 ou 4 meses, mas no início foram necessárias consultas mensais. Se você deseja apostar na relação, é muito importante acompanhar esse processo de perto, se informar, conversar e manter contato com o psiquiatra dela, saber dele o que pensa de seu prognóstico, conhecer os medicamentos e dosagens recomendadas.

      Não é que você terá que cuidar dela, como quem carrega uma cruz, longe disso. Mas se relacionar com alguém que tem uma doença crônica, qualquer doença crônica, mental ou não, exige um certo trabalho e envolvimento do parceiro. Com tratamento adequado é possível ter uma vida normal. Infelizmente, a maioria das pessoas com transtorno bipolar não aceitam o tratamento ou o interrompem quando se sentem bem, na ilusão de que estão curadas. Sem os medicamentos as crises e surtos são inevitáveis e a convivência se torna inviável.

      Boa sorte!

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  2. Zoraide

    Olá, Ricardo!

    Não é nada fácil decidir como agir nesses momentos. Como você disse, seu medo é acontecer tudo de novo. Tratamento da bipolaridade passa pela aceitação da doença e tratamento. Pra mim, a negação é o que há de pior. O cônjuge, a família, os amigos podem dar todo apoio e suporte necessário, porém se o portador do transtorno não se compromete por vontade própria, não dá certo.

    Eu passei por isso com meu -ex. Ele fazia o tratamento muito mais porque eu insistia, mas se colocava como vítima quando surtava e fomos nessa toada por três longos anos, até que eu decidi dar um basta. Quando existe o perigo à vida do doente e dos que estão em volta, chegou a hora de pensar quão disposto se está a prosseguir num relacionamento assim. Apelar para o sentimento que temos por eles é fato, porém a decisão é sua.

    Eu me separei do meu -ex em março, ele não aceitou e tomou atitudes perigosas para a vida dele e para a minha (ex:. viajar de avião em meio à pandemia no dia dos namorados para me fazer uma “surpresa”). Totalmente alterado, instável. E ele nunca foi violento ou impulsivo dessa forma.
    Como ela está com a família, permita-se passar um tempo sem ela e refletir. A paz e o sossego são importantíssimos para que você se fortaleça e tome a melhor decisão. Força!

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  3. Ricardo

    Amigos

    Em 2016 minha esposa surtou e foi diagnosticada com bipolaridade, mas não quis tomar remédios e me abandonou, foi embora morar com a família. Com o tempo a família conseguiu fazer com que ela se tratasse e, quando melhorou, ela me pediu pra voltar. Aceitei, mas que ela jamais deixasse de tomar os remédios.

    Ela passou três anos se tratando e levávamos a vida quase que normal. Infelizmente em maio de 2020 ela surtou de novo; descobri que havia deixado de tomar os medicamentos. Fez a mesma coisa que antes, foi embora. Sempre que isso acontece ela põe na cabeça que eu vou fazer mal a ela, por isso me deixa. Agora está se tratando novamente e já está melhor. Já pediu pra voltar novamente, estou conversando com ela, falando que ainda é muito recente, que precisa de mais tempo de tratamento.

    Em todas as vezes que isso aconteceu, ela me agrediu e ainda chamou a polícia. Estou com muito medo de voltar com ela, apesar de amá-la, sei que se voltaremos vou ficar sempre com um pé atrás. Sinceramente, não sei o que fazer. Alguém aqui pode me dar algumas palavras a respeito? Sei que é difícil opinar, mas as opiniões serão bem-vindas.

    Obrigado!

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    1. LuDiasBH

      Ricardo

      Seja bem-vindo a este cantinho. Sinta-se em família.

      Amiguinho, conforme mostram os depoimentos aqui, não é fácil conviver com uma pessoa portadora de bipolaridade em razão de seus altos e baixos. Muitas vezes o companheiro (ou companheira) necessita de um acompanhamento psicoterápico para aguentar a barra.

      Não sei se sabe, mas os medicamentos relativos ao tratamento da saúde mental acabam se acostumando com o organismo do paciente, sendo necessário aumentar a dosagem ou mudar para outro, daí a necessidade de voltar ao psiquiatra de tempos em tempos (pelo menos anualmente). Porém, no caso de sua esposa, vejo que ela abandonou o tratamento. Este tipo de ocorrência é costumeiro e preocupante tanto em relação ao doente como para quem com ele convive. Dá para imaginar a turbulência pela qual está passando.

      Você está correto ao aguardar mais tempo para que venham a ficar juntos, se assim o decidir. Só faça isso quando tiver certeza de que a saúde dela está equilibrada. É bom também estar preparado para que isso venha a ocorrer novamente, pois diz respeito à doença dela e não há como fazer previsões. As crises ocasionadas pelas doenças mentais são previsíveis quando dizem respeito à falta de medicação, mas são imprevisíveis quando a dosagem está baixa ou o medicamento não mais faz efeito. Esse pé atrás você sempre terá, a menos que fique responsável (ou alguém da família) por dar os medicamentos necessários na mão dela diariamente. Assim terá a certeza de que está a tomá-los, pois nos períodos de euforia a pessoa acha que já está curada.

      Quanto a retomarem a vida juntos, você terá que avaliar tudo. Se na divisão os pontos positivos forem superiores, vá em frente, mas, se os negativos superarem, seria melhor para os dois manterem-se afastados. Pense bem, antes de tomar uma decisão, principalmente se tiverem filhos.

      Venha sempre aqui conversar conosco e contar como andam as coisas. Não se sinta só!

      Abraços,

      Lu

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    2. Ana Maria

      Olá, Ricardo!

      Há 7 anos passei por uma situação muito parecida com a tua, apesar de não ter sido diagnosticado, meu -ex namorado tinha sintomas muito semelhantes ao da bipolaridade e durante a nossa relação ele teve duas crises. Na segunda e mais séria crise, ele decidiu terminar a relação, quando começou a melhorar, pediu para voltar. Eu não aceitei, por mais que o meu coração quisesse dizer que sim. Foi extremamente doloroso quando eu percebi que estava adoecendo também e que eventualmente ele iria ter outras crises. No meu caso, o tempo e o auto cuidado foram cruciais para perceber que tomei a melhor decisão.

      Apesar de amarmos muito outra pessoa, não podemos esquecer de nos amar e de que a nossa saúde (física e mental) é o nosso maior bem.
      Pelo que percebi, ainda é um momento muito delicado para você tomar alguma decisão concreta. Então, eu acho que está certíssimo em pedir para esperar um tempo e ver como será a resposta dela ao tratamento. Esperar, ter paciência e cuidar da nossa saúde emocional em relação ao momento que estamos passando é algo fundamental.

      Seja qual for a tua decisão, desejo boa sorte e que você seja feliz.

      Um abraço!

      Responder
  4. Ivone

    Carlos

    É um alívio conversar com quem entende o que passamos, mas a primeira condição que coloquei foi o divórcio, caso ele não se tratasse. Ele não é um bipolar de longos ciclos. Alterna o comportamento várias vezes ao longo do dia. Repete as mesmas palavras duras que ouviu do seu pai na infância para nossa filha. Ela sofre muito. E mãe não admite ver filho sofrendo. Não temos compatibilidade com nada, gostos totalmente diferentes. Outro dia me peguei imaginando como seria daqui a alguns anos, quando minha filha for estudar, sair de casa, casar… ficando só eu e ele, juro entrei em pânico. Quando olho pra ele sinto raiva de mim por ter tentando tanto durante 20 anos. Eu não vivi.

    Obrigada!

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  5. Moacyr Autor do post

    Carlos

    Não foi fácil a barra pela qual passou. Tenho um amigo cuja mulher tem bipolaridade, mas segue rigorosamente o tratamento. Parabéns por relatar com honestidade seu problema, ajudando outras pessoas com suas palavras sábias.

    Moacyr

    Responder
  6. Ivone Autor do post

    Carlos

    Triste por ver tantas pessoas passando por este problema e ao mesmo tempo feliz por encontrá-las.

    Vivo o mesmo dilema da bipolaridade com o meu marido com o qual sou casada há 20 anos.

    No início do tratamento foi uma maravilha, até parentes notavam a diferença no seu comportamento, mais calmo, centrado, outra pessoa. Mas logo depois de uns 08 meses, ele sentiu a libido diminuir e logo abandonou o tratamento, apesar de eu insistir muito, não consegui convencê-lo. Diz que não é doido e que não precisa de remédio algum. Depois de anos voltou a beber e fumar escondido. É muito agressivo com as palavras e nos abandona (temos uma filha adolescente)por coisas sem valor. Ele nos xinga e nos culpa por tudo que faz de errado.

    Uffa! Está difícil, porque prefere ficar sozinho, é antissocial e com isso me isola, enquanto casal, de amigos, igreja, família. Não estou mais aguentando. Essas pessoas são muito egoístas. Eu me sinto sozinha, mesmo casada.

    Responder
    1. Carlos

      Ivone

      Obrigado pelo comentário e lamento que esteja passando por essa situação. Olha, é fundamental que seu marido retome o tratamento. Possíveis efeitos colaterais da medicação, como queda da libido, devem ser discutidos com o psiquiatra para que ele encontre alternativas, mas jamais se deve suspendê-la por conta própria. Esse egoísmo e agressividade são sintomas da doença que a medicação pode controlar e não características da personalidade dele. Nas crises maníacas minha esposa também ficava egoísta a ponto de colocar as próprias filhas em situações constrangedoras, logo as filhas que ela tanto ama e para as quais doou sua juventude em cuidados. Como disse, a adesão ao tratamento é condição para nosso relacionamento continuar e minha esposa está muito consciente disso. Acredito que você deva colocar essa condição também para seu marido e talvez pedir a ajuda da família dele para isto. Sinceramente, não acredito que seja possível manter um relacionamento saudável com um bipolar que não se trata.

      Boa sorte e tudo de bom pra você.

      Responder
  7. LuDiasBH Autor do post

    Carlos

    Sei que não é fácil a vida com uma pessoa bipolar, mas seu texto nos mostra um misto de compreensão, ternura e humanidade. É impossível esquecer suas palavras:

    “Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade.”

    Parabéns! Seu comentário servirá de exemplo para muitas pessoas, principalmente para os homens.

    Abraços,

    Lu

    Responder
    1. Carlos

      Lu

      Muito obrigado por poder contar minha história aqui. Os textos relatando experiências com o Transtorno Bipolar têm sido muito importantes pra nós, saiba disso.

      Abraço!

      Responder

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