MINHA ESPOSA É BIPOLAR
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Autoria de Carlos Ricardo

Até o início do ano passado eu mal sabia o que era o Transtorno Bipolar, muito menos que se trata de uma doença mental terrível com graves consequências tanto para a pessoa doente quanto para aqueles que a amam.

Sou casado há 23 anos e tenho três lindas filhas.  Minha esposa tem Transtorno Bipolar. Descobrimos a doença dela no início de 2019 de uma maneira muito complicada para toda a família. Descobri que minha esposa me traía com várias pessoas online e com alguns encontros furtivos com diferentes homens, pessoas sem sentido algum que em condições normais ela não consideraria interessantes quer fisicamente ou intelectualmente, inclusive flertando com alguns conhecidos.

Meu mundo caiu, fiquei desnorteado e sem entender porque minha mulher havia feito aquilo comigo. Descobri também que, embora esse comportamento ocorresse nos últimos meses antes de eu descobrir, desde 2015 episódios isolados ocorriam, com intervalos de meses e depois recaindo no mesmo tipo de comportamento. Como nada fazia sentido, nem pra ela mesma, fomos a dois psiquiatras que a diagnosticaram com o Transtorno Bipolar. Nos últimos anos, portanto, ela teve surtos maníacos que a faziam me trair.

Desde então fomos a vários excelentes profissionais para entender a doença, além de lermos bastante sobre o assunto. Explicaram-me que tudo aquilo que ela havia feito não era fruto da simples vontade, não se tratava de falha de caráter ou “safadeza”, mas, sim, de um sintoma terrível de uma doença mental grave. Compreendi como o Transtorno Bipolar faz a pessoa oscilar entre a depressão, normalidade e mania. Compreendi que os sintomas principais do estado maníaco são abuso de álcool e drogas, humor elevado, fala e pensamento acelerados, comportamento impulsivo, agressividade, hipersexualidade e traição dos parceiros.

Na maior parte dos casos, como no da minha esposa, os estados maníacos duram semanas ou até meses e depois se alternam com estados depressivos e longos períodos de normalidade. Mas existem também casos de ciclagem rápida e estados mistos em que mania, depressão e normalidade se sucedem de um dia pro outro. A forma como os sintomas aparecem também variam de pessoa a pessoa. Em alguns bipolares a hipersexualidade, por exemplo, manifesta-se na prática sexual descontrolada com qualquer parceiro e no consumo abusivo de pornografia. Na minha esposa a hipersexualidade manifestava-se pelo flerte, a vaidade excessiva, o ego inflado, a vontade de ser desejada e não pelo ato sexual em si.

É importante entender que apenas com conversas, orações e promessas as crises maníacas bipolares não serão controladas, porque as coisas que o bipolar faz em crise fogem da vontade e do controle dele próprio, sendo causadas por desequilíbrios químicos cerebrais. A doença mental só pode ser controlada com medicação correta e, enquanto isso não acontecer, novas crises virão.

De tudo o que li e das conversas que tive com os profissionais, estou plenamente consciente de que só é possível manter a relação com uma pessoa bipolar caso ela faça um pacto com seu parceiro de seguir corretamente o tratamento para o resto da vida, tomando a medicação e consultando-se com certa regularidade. Foi o que fiz com minha esposa ou, caso contrário, simplesmente não há como prosseguir no relacionamento. É importante também que o parceiro de um bipolar cuide de sua saúde mental e busque terapia sempre que necessário, porque não é fácil lidar com as consequências do que a doença mental faz com a família e com as pessoas próximas. Eu busquei esse tratamento e foi muito importante pra mim.

Atualmente, minha esposa está bem medicada e plenamente consciente de sua doença. Estamos muito bem, embora eu ainda tenha de lidar com os traumas decorrentes da história toda. Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade. Eu decidi continuar porque ela se comprometeu com o tratamento, porque a conheço como ninguém e sei que ela merece todo o meu respeito.

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, intitulada Garota no Espelho

26 pensou em “MINHA ESPOSA É BIPOLAR

    1. LuDiasBH Autor do post

      Luís

      Seu comentário será transformado em texto e postado na parte principal do site. Aguarde!

      Responder
  1. Pedro Silva

    Viva, Carlos!

    Ao ler a sua história senti que fui eu que escrevi esse texto. Como é possível? Histórias super idênticas.

    Responder
  2. Marcelo

    Carlos

    Sua história e de outros aqui que li são muito parecidas com a minha.

    É muito difícil aceitar em um primeiro momento, mas depois você vai lembrando dos fatos e verificando que aquela não era sua esposa (beber, deixar a filha ser cuidada por babá, mentir para todos, imaginar coisas, ter relacionamento e comportamento que em momento normal não aconteceriam, sequer uma palavra com a pessoa em questão). Digo que a bipolaridade afeta muito a família, é muito difícil, mas realmente só compreendendo muito a doença e levando em conta a vontade de manter a família e logicamente ajudar a pessoa que está ao seu lado. para poder seguir.

    Foram alguns meses de muita luta, primeiro para entender o porquê da agressividade, das mentiras, da traição (sem sentido nenhum). Muito triste tudo. Nunca pensei que fosse acontecer tal situação comigo, até porque não conhecia essa doença. Ela negava estar doente, não queria tratamento, falava coisas sem nexo nenhum, mas graças a Deus depois de quase 02 meses de luta conseguimos. Ainda estamos nos primeiros passos, mas o comportamento já mudou muito.

    Tudo aqui que li, vejo algo do que aconteceu comigo e com minha família. Somente muito amor, compreensão e principalmente sabedoria para conseguir manter a família, pois não é fácil. Só Deus sabe o quanto sofri com as descobertas das mentiras.
    Carlos, havendo algum contato seu, gostaria muito de conversar mais sobre este assunto.

    Grato, Lu, por abrir este espaço.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Marcelo

      Como vê, são muitas as pessoas que passam ou já passaram por isso. Essa doença é doída porque afeta toda a família de um jeito muito cruel, principalmente quando não se tem qualquer conhecimento sobre ela. Só à medida que os familiares vão buscando informações é que vão compreendendo o porquê de tudo estar acontecendo. O doente não passa de uma vítima sendo manejada por seus desvios mentais. O pior é quando ele não aceita tratamento, causa maior das separações. Quando medicada diariamente, a vítima consegue lidar com o problema, deixando a família mais tranquila. É sempre bom saber que essa doença não tem cura. O doente precisa estar sempre medicado. Se sentir que a sua esposa não está respondendo mais ao tratamento, retorne ao médico, pois pode ser que o medicamento deixou de fazer efeito.

      Marcelo, imagino a sua dor e a sua luta para compreender esse turbilhão de acontecimentos que surgiram em sua vida. Todo mundo fica assim, meio perdido, mas aos poucos vai compreendendo tudo. É preciso muito amor e generosidade para lidar com sua esposa. Lembre-se sempre de que ela é apenas uma vítima. Não carrega culpa nenhuma. Nunca quis fazer ninguém sofrer, apenas foi incapaz de superar o que lhe ia pelo cérebro. O medicamento irá ajudá-la.

      Continue em contato conosco. Não se sinta só. Estaremos todos de braços abertos para acolhê-lo.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  3. Jair

    Pessoal

    Fui casado por 25 anos e minha esposa foi diagnosticada com bipolaridade faz uns 2 anos.

    No começo do casamento ela me traiu, passou a conversar com homens pela Internet e depois de um tempo disse que queria mudar e investir no relacionamento. Nessa época, ela começou a entrar em depressão, a qual durou por volta de 6 anos.
    Depois que melhorou, passou a dizer que me amava, mas do nada ela passou a acreditar que tudo que lhe acontecia era eu quem armava para ela. Acreditava que eu queria prejudicá-la, mesmo eu provando que não. Nada adiantava. Isso foi piorando cada vez mais e em novembro acabou me expulsando de casa.

    Mesmo assim não desisto de ajudá-la. Tudo isso acabou me afetando muito. Meu filho me disse que já não vê brilho nos meus olhos e que só vê tristeza. Amo muito minha esposa e sofro por ela me odiar dessa maneira. Agora ela diz que está apaixonada por uma pessoa que não vê faz 20 anos e pela qual nunca sentiu nada. Apaixonou-se simplesmente porque citei o nome da irmã dessa pessoa.

    Hoje ela está internada, pois entrou num estágio de psicose avançado, está medicada e apresentando uma melhora, mas mesmo assim continua a me odiar. Acho que isso nunca vai passar, mas não faz mal, eu a amo e só quero que ela se recupere, isso independe de estar junto ou não, sempre que precisar estarei lá para ajudá-la.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Jair

      Não é fácil conviver com alguém com essa terrível doença que também maltrata aqueles que vivem ao lado do doente. A única saída é o uso do medicamento para manter a vítima num certo equilíbrio. A negação em aceitar o tratamento inviabiliza qualquer convívio, adoecendo todos da casa. A sua história é parecida com a de muitos que aqui vêm dar seus depoimentos, mostrando que ninguém se encontra só no trato com a bipolaridade.

      Seu comentário é tocante. Fiquei comovida ao ler:

      “Mesmo assim não desisto de ajudá-la. Tudo isso acabou me afetando muito. Meu filho me disse que já não vê brilho nos meus olhos e que só vê tristeza. Amo muito minha esposa e sofro por ela me odiar dessa maneira. Agora ela diz que está apaixonada por uma pessoa que não vê faz 20 anos e pela qual nunca sentiu nada. Apaixonou-se simplesmente porque citei o nome da irmã dessa pessoa.”

      Você é realmente uma pessoa muito especial, dotada de uma generosidade ímpar. Saiba que ela não o odeia. Tudo é fruto da doença. O bipolar, quando em surto, não responde por si, não é dono de suas ações. A mente já não mais obedece a seus comandos. O mundo que o rodeia não é mais o das pessoas à sua volta. É como se vivesse numa outra dimensão. Você poderá ver isso nos relatos apresentados aqui no blogue. Normalmente são as pessoas que mais interagem com o doente que ganham a sua aversão, pois são elas que cobram o tratamento, que chamam a atenção pelas coisas erradas, que pegam no pé. E, como crianças, os bipolares tendem a tomar raiva de quem lhes cobra muito (embora para o seu próprio bem). Ao contrário do que realmente é, acham que tais pessoas querem prejudicá-las – tudo fruto da mente adoecida.

      Jair, não leve ao pé da letra o que sua esposa diz. Ela não tem culpa por suas palavras inexatas. Não mais as comanda. É um joguete da doença. Lamento muito pelo que está acontecendo com ela, você, seu filho e família. Aproveito para deixar aqui a confirmação de quão maravilhoso ser humano é você:

      “….eu a amo e só quero que ela se recupere, isso independe de estar junto ou não, sempre que precisar estarei lá para ajudá-la.”

      Estamos aqui de braços abertos para acolhê-lo. Sempre que quiser, venha conversar conosco.

      Grande abraço,

      Lu

      Responder
  4. Franklin Pessoa

    Carlos

    Minha história é idêntica a sua! Venho lutando faz bastante tempo pelo meu casamento. tenho 3 filhos e minha esposa foi diagnosticada com transtorno bipolar, fez as mesmas coisas que a sua, já foi internada 3 vezes e na última estava de contato com um enfermeiro da clínica onde estava internada. Descobri diversos envolvimentos e sempre ele me pede uma nova chance. Passa um tempo tranquila e tudo volta a acontecer. Hoje ela faz tratamento e terapia, mas preciso ficar cobrando para tomar as medicações corretamente, preciso muito de ajuda!

    Responder
    1. Zoraide

      Franklin e Carlos

      Lendo os relatos de vocês, fica muito clara a importância dos cônjuges também procurarem auxílio na terapia e/ou em grupos de apoio.

      Eu fui casada com um bipolar por seis anos. Ele foi diagnosticado bem tarde e, além disso, só tomava as medicações e ia às consultas se eu insistisse muito. Para ele os médicos estavam errados no diagnóstico, nas medicações e assim por diante. Essa rotina de cuidar, vigiar, cobrar sempre é muito estressante, pois percebemos que o outro só segue as recomendações porque alguém está no pé. Eu adoeci muito com essa dinâmica, vi a pessoa que eu amava virar uma sombra pouco parecida com quem me casei e, por fim, preferi não continuar o relacionamento. Meu ex acabou largando o tratamento depois da separação e, para todos os efeitos, não há transtorno de humor, ele sempre foi assim, é o “jeito” dele.

      O que posso dizer a vocês é que se o doente não seguir o tratamento, não entender que a vida dele(a) depende disso, a convivência vai tirar as forças de quem ficar perto. Aqui no blogue, vocês têm espaço aberto para desabafar, buscar apoio. Não se sintam sozinhos.

      Um abraço,
      Zoraide

      Responder
      1. Franklin Pessoa

        Zoraide

        Realmente venho vivendo anos difíceis, mas enquanto tiver forças vou lutar pela minha família, não sei até quando, pois há dias em que tudo me dói muito e tenho vontade de desistir.

        Obrigado pelas palavras de apoio e compreensão!

        Responder
    2. Carlos

      Franklin

      É muito triste o que uma doença mental como o TAB causa à própria pessoa e a sua família. Quem sofre com o TAB luta cotidianamente para levar uma vida com qualidade. Não é fácil, é trabalhoso, é sofrido e só podemos lamentar que pessoas das quais gostamos tenham que passar por essa situação. Dito isto, eu te aconselharia, primeiramente, a cuidar de você mesmo. Não temos como ajudar os outros e oferecer apoio a nossos filhos e família se não estivermos bem física e mentalmente. Busque um bom terapeuta comportamental que possa te ajudar a entender a você mesmo e a doença da sua esposa. É muito importante que esteja em equilíbrio para suportar essa situação. Em segundo lugar, sabemos que alguém que sofre com TAB não pode ser simplesmente culpabilizado pelo que faz, quando está em depressão ou em mania. No entanto, uma vez realizado o diagnóstico e com a pessoa em estabilidade, ela se torna responsável por manter seriamente seu tratamento, única forma de impedir que outras crises aconteçam ou de, pelo menos, fazer com que elas venham de forma mais branda.

      Veja bem, uma vez diagnosticada, seguir o tratamento corretamente é um ato de responsabilidade da pessoa doente com ela mesma, mas também com as pessoas que ela feriu e magoou, enquanto estava desequilibrada. Não acredito ser justa a situação em que você tem que vigiar e cobrar da sua esposa o uso correto da medicação. Ela tem que assumir total responsabilidade por isso. No meu caso, se minha esposa não seguisse o tratamento corretamente, eu entenderia esse ato como uma traição ao que acordamos e um desrespeito a mim e às minhas filhas depois de tudo que passamos para apoiá-la.

      Por fim, gostaria de observar que espero que o enfermeiro mencionado por você tenha sido demitido da clínica, porque é inadmissível do ponto de vista ético e legal que um profissional de saúde queira tirar proveito de alguém em sofrimento mental.

      Se quiser conversar mais, volte aqui que eu responderei. A Lu, sempre muito gentilmente, nos cede esse espaço.

      Abraço e fique bem.

      Responder
      1. Franklin Pessoa

        Carlos

        Obrigado pela atenção e por dispor de tempo para tentar nos ajudar, realmente é uma situação muito difícil e delicada. Ela se queixa das medicações, pois ganhou peso no tratamento. Converso muito com ela, tento ser o mais compreensível possível, mas também sou firme nas cobranças, para que não venha a acontecer novamente, pois eu não vou conseguir suportar mais. Existem dias difíceis e tudo fica em minha cabeça martelando o tempo todo, mas vamos em frente com fé em Deus.

        Responder
  5. Cristiano Mateus

    Carlos

    Vi em você o retrato da vida que eu levava. Até na delegacia fui parar por ter segurado minha -ex esposa pra ela parar de quebrar a casa e de jogar coisas em cima de mim.

    É uma vida sofrida. Eu me separei. Tivemos um filho no início do relacionamento. Eu me desespero ao saber que mesmo amando o filho ela faz coisas absurdas com ele, como deixá-lo sozinho para beber na praça.

    Hoje tenho a guarda dele, mas vivo no fio da navalha, porque ela pode dizer que está bem. Mas como a conheço isso passa, ela vai desistir dos remédios e vai cair no surto novamente.

    Responder
    1. Carlos

      Ricardo

      Concordo com todos os comentários que foram feitos. Reforço a necessidade do tratamento para que seja possível você manter um relacionamento saudável, com os medicamentos tomados diariamente e o acompanhamento do psiquiatra. Minha esposa faz uso da medicação prescrita todos os dias e se consulta com a psiquiatra a cada 3 ou 4 meses, mas no início foram necessárias consultas mensais. Se você deseja apostar na relação, é muito importante acompanhar esse processo de perto, se informar, conversar e manter contato com o psiquiatra dela, saber dele o que pensa de seu prognóstico, conhecer os medicamentos e dosagens recomendadas.

      Não é que você terá que cuidar dela, como quem carrega uma cruz, longe disso. Mas se relacionar com alguém que tem uma doença crônica, qualquer doença crônica, mental ou não, exige um certo trabalho e envolvimento do parceiro. Com tratamento adequado é possível ter uma vida normal. Infelizmente, a maioria das pessoas com transtorno bipolar não aceitam o tratamento ou o interrompem quando se sentem bem, na ilusão de que estão curadas. Sem os medicamentos as crises e surtos são inevitáveis e a convivência se torna inviável.

      Boa sorte!

      Responder
  6. Zoraide

    Olá, Ricardo!

    Não é nada fácil decidir como agir nesses momentos. Como você disse, seu medo é acontecer tudo de novo. Tratamento da bipolaridade passa pela aceitação da doença e tratamento. Pra mim, a negação é o que há de pior. O cônjuge, a família, os amigos podem dar todo apoio e suporte necessário, porém se o portador do transtorno não se compromete por vontade própria, não dá certo.

    Eu passei por isso com meu -ex. Ele fazia o tratamento muito mais porque eu insistia, mas se colocava como vítima quando surtava e fomos nessa toada por três longos anos, até que eu decidi dar um basta. Quando existe o perigo à vida do doente e dos que estão em volta, chegou a hora de pensar quão disposto se está a prosseguir num relacionamento assim. Apelar para o sentimento que temos por eles é fato, porém a decisão é sua.

    Eu me separei do meu -ex em março, ele não aceitou e tomou atitudes perigosas para a vida dele e para a minha (ex:. viajar de avião em meio à pandemia no dia dos namorados para me fazer uma “surpresa”). Totalmente alterado, instável. E ele nunca foi violento ou impulsivo dessa forma.
    Como ela está com a família, permita-se passar um tempo sem ela e refletir. A paz e o sossego são importantíssimos para que você se fortaleça e tome a melhor decisão. Força!

    Responder
  7. Ricardo

    Amigos

    Em 2016 minha esposa surtou e foi diagnosticada com bipolaridade, mas não quis tomar remédios e me abandonou, foi embora morar com a família. Com o tempo a família conseguiu fazer com que ela se tratasse e, quando melhorou, ela me pediu pra voltar. Aceitei, mas que ela jamais deixasse de tomar os remédios.

    Ela passou três anos se tratando e levávamos a vida quase que normal. Infelizmente em maio de 2020 ela surtou de novo; descobri que havia deixado de tomar os medicamentos. Fez a mesma coisa que antes, foi embora. Sempre que isso acontece ela põe na cabeça que eu vou fazer mal a ela, por isso me deixa. Agora está se tratando novamente e já está melhor. Já pediu pra voltar novamente, estou conversando com ela, falando que ainda é muito recente, que precisa de mais tempo de tratamento.

    Em todas as vezes que isso aconteceu, ela me agrediu e ainda chamou a polícia. Estou com muito medo de voltar com ela, apesar de amá-la, sei que se voltaremos vou ficar sempre com um pé atrás. Sinceramente, não sei o que fazer. Alguém aqui pode me dar algumas palavras a respeito? Sei que é difícil opinar, mas as opiniões serão bem-vindas.

    Obrigado!

    Responder
    1. LuDiasBH

      Ricardo

      Seja bem-vindo a este cantinho. Sinta-se em família.

      Amiguinho, conforme mostram os depoimentos aqui, não é fácil conviver com uma pessoa portadora de bipolaridade em razão de seus altos e baixos. Muitas vezes o companheiro (ou companheira) necessita de um acompanhamento psicoterápico para aguentar a barra.

      Não sei se sabe, mas os medicamentos relativos ao tratamento da saúde mental acabam se acostumando com o organismo do paciente, sendo necessário aumentar a dosagem ou mudar para outro, daí a necessidade de voltar ao psiquiatra de tempos em tempos (pelo menos anualmente). Porém, no caso de sua esposa, vejo que ela abandonou o tratamento. Este tipo de ocorrência é costumeiro e preocupante tanto em relação ao doente como para quem com ele convive. Dá para imaginar a turbulência pela qual está passando.

      Você está correto ao aguardar mais tempo para que venham a ficar juntos, se assim o decidir. Só faça isso quando tiver certeza de que a saúde dela está equilibrada. É bom também estar preparado para que isso venha a ocorrer novamente, pois diz respeito à doença dela e não há como fazer previsões. As crises ocasionadas pelas doenças mentais são previsíveis quando dizem respeito à falta de medicação, mas são imprevisíveis quando a dosagem está baixa ou o medicamento não mais faz efeito. Esse pé atrás você sempre terá, a menos que fique responsável (ou alguém da família) por dar os medicamentos necessários na mão dela diariamente. Assim terá a certeza de que está a tomá-los, pois nos períodos de euforia a pessoa acha que já está curada.

      Quanto a retomarem a vida juntos, você terá que avaliar tudo. Se na divisão os pontos positivos forem superiores, vá em frente, mas, se os negativos superarem, seria melhor para os dois manterem-se afastados. Pense bem, antes de tomar uma decisão, principalmente se tiverem filhos.

      Venha sempre aqui conversar conosco e contar como andam as coisas. Não se sinta só!

      Abraços,

      Lu

      Responder
    2. Ana Maria

      Olá, Ricardo!

      Há 7 anos passei por uma situação muito parecida com a tua, apesar de não ter sido diagnosticado, meu -ex namorado tinha sintomas muito semelhantes ao da bipolaridade e durante a nossa relação ele teve duas crises. Na segunda e mais séria crise, ele decidiu terminar a relação, quando começou a melhorar, pediu para voltar. Eu não aceitei, por mais que o meu coração quisesse dizer que sim. Foi extremamente doloroso quando eu percebi que estava adoecendo também e que eventualmente ele iria ter outras crises. No meu caso, o tempo e o auto cuidado foram cruciais para perceber que tomei a melhor decisão.

      Apesar de amarmos muito outra pessoa, não podemos esquecer de nos amar e de que a nossa saúde (física e mental) é o nosso maior bem.
      Pelo que percebi, ainda é um momento muito delicado para você tomar alguma decisão concreta. Então, eu acho que está certíssimo em pedir para esperar um tempo e ver como será a resposta dela ao tratamento. Esperar, ter paciência e cuidar da nossa saúde emocional em relação ao momento que estamos passando é algo fundamental.

      Seja qual for a tua decisão, desejo boa sorte e que você seja feliz.

      Um abraço!

      Responder
  8. Ivone

    Carlos

    É um alívio conversar com quem entende o que passamos, mas a primeira condição que coloquei foi o divórcio, caso ele não se tratasse. Ele não é um bipolar de longos ciclos. Alterna o comportamento várias vezes ao longo do dia. Repete as mesmas palavras duras que ouviu do seu pai na infância para nossa filha. Ela sofre muito. E mãe não admite ver filho sofrendo. Não temos compatibilidade com nada, gostos totalmente diferentes. Outro dia me peguei imaginando como seria daqui a alguns anos, quando minha filha for estudar, sair de casa, casar… ficando só eu e ele, juro entrei em pânico. Quando olho pra ele sinto raiva de mim por ter tentando tanto durante 20 anos. Eu não vivi.

    Obrigada!

    Responder
  9. Moacyr Autor do post

    Carlos

    Não foi fácil a barra pela qual passou. Tenho um amigo cuja mulher tem bipolaridade, mas segue rigorosamente o tratamento. Parabéns por relatar com honestidade seu problema, ajudando outras pessoas com suas palavras sábias.

    Moacyr

    Responder
  10. Ivone Autor do post

    Carlos

    Triste por ver tantas pessoas passando por este problema e ao mesmo tempo feliz por encontrá-las. Vivo o mesmo dilema da bipolaridade com o meu marido com o qual sou casada há 20 anos.

    No início do tratamento foi uma maravilha, até parentes notavam a diferença no seu comportamento, mais calmo, centrado, outra pessoa. Mas logo depois de uns 08 meses, ele sentiu a libido diminuir e logo abandonou o tratamento, apesar de eu insistir muito, não consegui convencê-lo. Diz que não é doido e que não precisa de remédio algum. Depois de anos voltou a beber e fumar escondido. É muito agressivo com as palavras e nos abandona (temos uma filha adolescente)por coisas sem valor. Ele nos xinga e nos culpa por tudo que faz de errado.

    Uffa! Está difícil, porque prefere ficar sozinho, é antissocial e com isso me isola, enquanto casal, de amigos, igreja, família. Não estou mais aguentando. Essas pessoas são muito egoístas. Eu me sinto sozinha, mesmo casada.

    Responder
    1. Carlos

      Ivone

      Obrigado pelo comentário e lamento que esteja passando por essa situação. Olha, é fundamental que seu marido retome o tratamento. Possíveis efeitos colaterais da medicação, como queda da libido, devem ser discutidos com o psiquiatra para que ele encontre alternativas, mas jamais se deve suspendê-la por conta própria. Esse egoísmo e agressividade são sintomas da doença que a medicação pode controlar e não características da personalidade dele. Nas crises maníacas minha esposa também ficava egoísta a ponto de colocar as próprias filhas em situações constrangedoras, logo as filhas que ela tanto ama e para as quais doou sua juventude em cuidados. Como disse, a adesão ao tratamento é condição para nosso relacionamento continuar e minha esposa está muito consciente disso. Acredito que você deva colocar essa condição também para seu marido e talvez pedir a ajuda da família dele para isto. Sinceramente, não acredito que seja possível manter um relacionamento saudável com um bipolar que não se trata.

      Boa sorte e tudo de bom pra você.

      Responder
  11. LuDiasBH Autor do post

    Carlos

    Sei que não é fácil a vida com uma pessoa bipolar, mas seu texto nos mostra um misto de compreensão, ternura e humanidade. É impossível esquecer suas palavras:

    “Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade.”

    Parabéns! Seu comentário servirá de exemplo para muitas pessoas, principalmente para os homens.

    Abraços,

    Lu

    Responder
    1. Carlos

      Lu

      Muito obrigado por poder contar minha história aqui. Os textos relatando experiências com o Transtorno Bipolar têm sido muito importantes pra nós, saiba disso.

      Abraço!

      Responder

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