Arquivo da categoria: Mestres da Pintura

Estudo dos grandes mestres mundiais da pintura, assim como de algumas obras dos mesmos.

Rafael – A TRANSFIGURAÇÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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E enquanto Ele orava, a aparência do seu rosto tornou-se outra e a sua roupa, branca, refulgente. Ele transfigurou-se diante deles e o seu rosto resplandeceu como o sol; e as suas roupas, porém, tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas, como a luz, como nenhum lavadeiro sobre a terra as pode tornar tão brancas.

Mestre, eu te trouxe meu filho que tem um espírito mudo. Quando ele o toma, atira-o pelo chão. E ele espuma, range os dentes e se contorce. Pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas não o conseguiram.

Nesta grande prancha de madeira o artista italiano Rafael Sanzio pintou dois episódios retirados dos Evangelhos de Mateus, Lucas e Marcos. O jovem pintor deixa a serenidade — tão presente em suas outras pinturas — para apresentar parte de um mundo terreno, extremamente conturbado e parte do mundo divino. Muitos veem na obra um caminho para o estilo Barroco.

O primeiro episódio — ocupa a parte mais alta da composição — retrata a transfiguração de Cristo no Monte Tabor, levitando entre a Terra e o Céu, acompanhado dos discípulos Pedro, Tiago Maior e João, para que O vissem com suas vestes brancas, banhado em luz, falando com Moisés e Elias, personagens do Antigo Testamento, revelando, assim, a sua essência divina. Os três apóstolos tapam os olhos diante da resplandecência da luz que emana do Cristo transfigurado.

O segundo episódio — ocupando a parte baixa da composição — retrata o milagre do menino possesso que foi levado à presença dos nove apóstolos por seus pais, para que esses o curassem. Mas eles nada puderam fazer sem a presença de Jesus Cristo que se encontrava no Monte Tabor, mas garantiram aos pais que, tão logo o Mestre descesse do monte, o garoto seria libertado do espírito opressor.  Dois dos apóstolos apontam os braços esquerdos para a cena da transfiguração, como se estivessem indicando o local onde o Mestre encontrava-se. Para alguns estudiosos o menino estava na verdade acometido por um ataque de epilepsia — doença que era vista como possessão demoníaca à época.

Na primeira cena, à direita e à esquerda do Cristo transfigurado, estão Elias e Moisés. Algumas fontes trazem como se fossem os santos Justos e Pastor — irmãos e protetores de Narbonne. No chão encontram-se três apóstolos que escondem o rosto — tamanho é o fulgor emanado de Cristo. Dois outros personagens que assistem à cena encontram-se ajoelhados em profundo êxtase.

Na apresentação do menino possesso que parece olhar diretamente para Jesus Cristo transfigurado, a cena divide-se em dois grupos, separados pela mulher de costas, trajando uma veste rosa e um manto azul, que indica o garoto aos apóstolos com as duas mãos e também direciona os olhos do observador para o menino e sua comitiva. À esquerda dela estão os apóstolos, gesticulando com um ar de grande preocupação.  À sua direita encontram-se o garoto, seus pais e as pessoas que os seguem.

A mãe do garoto traz um olhar de súplica, enquanto o pai mostra-se horrorizado com o que está acontecendo ao filho que tem os olhos revirados, a boca entreaberta, pernas e braços desgovernados e todo o corpo contorcido. O menino também representa o sofrimento da humanidade, enquanto espera pela misericórdia divina.

As duas cenas, embora distintas, são maravilhosamente combinadas na composição. O Monte Tabor é a separação entre o mundo divino e o terreno. Em meio à comitiva que acompanha o garoto e seus pais, um dos presentes estende os braços em direção ao Cristo transfigurado, como se fizesse, juntamente com o garoto e dois dos apóstolos, um elo entre os dois episódios da composição.

O pintor usa uma associação de luz e sombra. Rafael pinta a primeira cena com cores mais claras e resplandecentes, enquanto na segunda usa cores mais escuras e muita sombra. A Transfiguração é tida como uma das mais belas pinturas já criadas em todo o mundo. O cardeal Giulio de Médici foi quem encomendou esta obra ao pintor italiano Rafael Sanzio, com o objetivo de enviá-la para a Igreja de Narbonne, sua sede episcopal na França.

Quando Rafael morreu repentinamente, a Transfiguração ainda estava em seu estúdio. O quadro foi levado à frente do féretro para homenageá-lo. Foi o bastante para que a obra se transformasse num símbolo de imortalidade do grande gênio que morrera tão jovem. Em razão desse acontecimento o papa resolveu colocar a última pintura de Rafael — uma sinopse de toda a sua obra — na Igreja de San Pietro em Roma e encomendou aos dois melhores alunos de Rafael — Giulio Romano e Giovani Francesco Penni — uma cópia da obra.

Dados técnicos:
Artista: Rafael
Data: 1518 -1520
Tipo: óleo sobre madeira
Dimensões: 410 x 279 cm
Localização: Pinacoteca Vaticana, Roma/ Itália

Fontes de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os Pintores mais Influentes do Mundo/ Girassol

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Rafael – O TRIUNFO DE GALATEIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Nada há de esquemático ou calculado na graça de Galateia. Ela habita um mundo mais brilhante de amor e beleza — o mundo dos clássicos, tal como era concebido. (Prof. E. H. Gombrich)

O prestígio de Rafael era tamanho que chegou a chefiar uma equipe de escultores, pintores e arquitetos, para que o ajudassem a executar o grande número de encomendas recebidas. O riquíssimo banqueiro Agostino Chigi foi um dos que puseram o jovem pintor a seu serviço, contratando-o para decorar sua suntuosa residência de verão — a Farnesina. É fato que ele necessitou da ajuda de sua equipe para fazer grande parte do trabalho, mas é dado como certo que o afresco O Triunfo de Galateia (ou Galatea) que apresenta a ninfa com seus alegres amigos foi pintado unicamente por ele. Composição rica e complexa e também muito admirada em todo o mundo.

Contam algumas fontes que Agostino Chigi teve um motivo especial para a escolha desta pintura mitológica. O fato é que se encontrava interessado em se casar com a filha do marquês de Mântua, Margherita Gonzaga que, como Galateia em relação a Polifemo, rejeitava-o. Ele esperava que tudo terminasse como algumas versões do mito que conta que a ninfa acabou aceitando o amor do ciclope. O tema mitológico da obra encomendada pelo banqueiro foi baseado num verso de um poema do florentino Angelo Poliziano que coincidentemente também havia inspirado Botticelli em sua belíssima obra intitulada “O Nascimento de Vênus”.

O poema de que falamos descreve a paixão que o disforme ciclope Polifemo sentia pela ninfa marinha Galateia. Na composição ela escarnece da canção de amor que ele canta em sua homenagem, enquanto foge sobre as ondas, acompanhada de um séquito festivo de outras ninfas e divindades marinhas, ao encontro de seu verdadeiro amor — Ácis. A imagem do gigante não aparece nesta obra, mas, sim, em outro lugar do salão decorado da residência do banqueiro.

No afresco vemos a ninfa Galateia de pé dentro de um carro feito de concha, puxado por uma parelha de golfinhos, abrindo caminho em meio às ondas, sendo que seu manto está esvoaçando para trás, cobrindo-lhe metade do corpo, deixando visível a pureza de seus contornos e a elegância de seus movimentos. Para compor seu rosto — segundo algumas informações — Rafael modificou ligeiramente um antigo retrato de Santa Catarina de Alexandria.

Três meninos — os pequenos Cupidos — armados de arco e flechas miram a jovem Galateia, tentando acordar o seu amor, enquanto duas divindades marinhas sopram búzios e dois casais entregam-se aos prazeres amorosos. Um tritão aprisiona sua ninfa em seus musculosos braços, enquanto um centauro carrega a sua amada nas costas. As formas anatômicas das figuras masculinas lembram as de Michelangelo. Galanteia e seu séquito (nereidas e tritões) são divindades do mar.

Embora muitos movimentos aconteçam em volta de Galateia, ela continua sendo a figura de maior destaque da pintura — o centro da composição. Assim como segura as rédeas de sua carruagem, tem também o controle de toda a situação. Tudo parece convergir para seu belo rosto que inspira delicadeza e inocência e que se localiza bem no centro da composição, o que dá à obra um grande equilíbrio. O tritão à sua esquerda assim como a ninfa à sua direita direcionam o braço em direção a ela, assim como as setas dos cupidos acima e as rédeas dos golfinhos. O arranjo das figuras na composição mostra a genialidade de Rafael.

Na parte superior da composição, à esquerda do observador, encontra-se um cupido que traz suas flechas guardadas. Ele representa o amor platônico. Ao direcionar seu olhar para ele, a ninfa dos mares mostra a sua preferência pelo amor espiritual. O tritão mensageiro do mar está montado no seu cavalo marinho, soprando uma concha. Ambos olham na mesma direção e assemelham-se nas poses e cores às esculturas de mármore da arqueologia romana. À frente um tritão faz soar uma trompa. Parte de seu braço e da trompa já se encontram fora da composição. O céu mostra-se carregado e há a presença de muito vento, como indica o manto de Galateia e o da outra ninfa.

Na obra de Rafael Sanzio cada figura corresponde a uma outra figura e cada movimento dá origem a um contramovimento. Os pequenos Cupidos — deuses do amor — apresentam movimentos recíprocos, assim como o que nada rente à embarcação corresponde ao que se encontra no topo do quadro. O mesmo se dá com o grupo de divindades marinhas que circulam a ninfa. Há dois casais entregues a jogos amorosos, um à esquerda e outro à direita da ninfa. À frente de Galateia há uma divindade que toca búzios e outra atrás dela.

O carro de Galateia (feito de uma gigantesca concha)  é impelido da direita para a esquerda. Ao ouvir a cantoria de amor do gigante Polifemo, ela volta o rosto para a sua direita e sorri. Tudo converge para seu meigo rosto: as linhas do quadro, a começar das flechas dos Cupidos até as rédeas que ela mantém nas mãos, recurso esse que dá a sensação de um movimento contínuo em toda a obra, deixando-a totalmente equilibrada. As figuras são arranjadas maravilhosamente na composição. Não é à toa que Rafael tenha conseguido realizar aquilo que a geração mais antiga tentara obter: uma perfeita e harmoniosa composição de figuras movimentando-se livremente.

Ao longo dos tempos vários autores citaram em suas obras o amor de Galateia e Ácis e a paixão do ciclope Polifemo pela ninfa dos mares — autores clássicos como Homero, na Ilíada (séc VIII a.C.), Esíodo (séc. VIII a.C.), Teócrito (séc. III a.C.), Callímaco (séc. II a.C.), Propérzio (séc. I a.C.), Horácio (séc. I a.C.) e Virgílio, na Eneida (30 a.C.); também autores medievais como Dante Alighieri (1300), Berchorius (1340), Francesco Petrarca (1370) e Giovanni Boccaccio (1472).

Curiosidade sobre a Lenda de Galateia
Galateia — filha de Nereu e Dóris — é uma divindade marítima cujo nome significa a “donzela branca”, vivia nas costas da Sicília. Passava seu tempo brincando nas ondas do mar em uma carruagem puxada por golfinhos. Certo dia a jovem foi vista por Polifemo — um dos temíveis e monstruosos ciclopes, gigantes de um só olho, que habitavam aquela ilha. Ele acabou se apaixonando por ela. Por sua vez, a ninfa Galateia caía de amores pelo pastor Ácis — filho do deus Pã e de uma ninfa —, sendo seu amor plenamente correspondido.

Quando Galateia e Ácis repousavam junto ao mar, o ciclope Polifemo flagrou-os. Ácis tentou fugir, mas o ciclope esmagou-o com uma pesada rocha. Galateia reviveu seu amado, convertendo-o em um rio de águas límpidas, apelando para a mãe deste — uma ninfa dos rios. Em seguida lançou-se ao mar, indo viver nas ondas que tocam as areias com suas espumas brancas, sem jamais retornar à terra.

Ficha técnica:
Ano: 1512
Tipo: Afresco
Dimensões: 295 × 224 cm
Localização: Villa Farnesina/ Roma

Fonte de pesquisa:
O Livro da Arte/ Publifolha
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os Pintores mais Influentes do Mundo/ Girassol
Rafael/ Cosac e Naify

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Rafael – MADONA DE FOLIGNO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O painel Madona de Foligno, obra do pintor italiano renascentista Rafael Sanzio, mostra o aparecimento da Virgem Maria com seu filho Jesus, sustentados por uma esplendorosa nuvem de anjos alados, aos santos São João Batista, São Francisco, São Jerônimo e ao conde Sigismundo Conti, um humanista.

Esta pintura havia sido encomendada pelo conde Conti para ser doada à Igreja de Santa Maria, de Aracoeli, e se destinava ao altar principal, onde permaneceu por muitos anos. Após a morte do conde, seus herdeiros pediram para que a obra fosse transferida para Foligno, cidade natal de Sigismundo Conti. Mas, após o Tratado de Toledo, o painel foi confiscado pelos franceses, levado para Paris e ali permaneceu até 1815. Depois de ficar certo período em restauração, foi devolvido, em 1816, aos Museus do Vaticano.

É sabido que houve a queda de um meteorito em Foligno, e, que esse deixou incólume a casa do conde. Por isso, existe a possibilidade de que a encomenda da composição tenha origem numa promessa feita, sendo a casa ao fundo da paisagem uma lembrança do acontecimento. Existe também a hipótese de que o meio círculo, que atinge a paisagem, na parte inferior da pintura, refira-se ao cometa da peste ou a um tiro de canhão desferido contra Júlio II, de quem o conde era secretário, que não sofreu nada.

A Virgem com seu Menino encontra-se em meio a uma revoada de querubins azuis. Atrás dela  vê-se um enorme disco solar. Imagina-se que esse se origina de uma passagem do Apocalipse de João (XII, I) ou da Lenda Dourada, de Jacopo da Voragine, em que Sibila narra a Augusto sua visão: “Um círculo de ouro apareceu ao redor do sol e, no meio dele, uma bela senhora com um bebê no colo.”.  Abaixo da Madona, no centro da obra, em meio a neblinas e colinas esverdeadas, a casa do conde encontra-se coroada por um arco-íris.

São Jerônimo, padroeiro dos estudiosos, encontra-se na parte inferior à direita, intercedendo junto à Virgem pelo conde Sigismundo Conti, que se encontra de joelhos e de perfil, com um enorme manto vermelho, em pose de oração, e já bem envelhecido. À esquerda da Virgem está São João Batista, vestido com peles de animais, indicando a Virgem e o Menino ao observador. Ajoelhado diante dele se encontra São Francisco. Abaixo, centralizado na composição, um anjo carrega nas mãos uma tábula sem nenhuma inscrição. Especula-se que a escrita não foi executada em razão da morte do conde.

A paisagem ao fundo é intensamente pictórica e poética. Próximo à rica edificação são vistas algumas figuras humanas, um cavalo e ovelhas pastando em meio à relva verde. A hábil composição, assim como a diferenciação entre os dois planos, celeste e terreno, transformou a obra num marco ocidental. A parte que representa o plano celeste apresenta uma cor mais brilhante e grande modulação.

Os pintores que trabalhavam com a arte figurativa tinham uma enorme preocupação em construir uma composição equilibrada. E Rafael foi perito no manejo de suas figuras. Os personagens da pintura Madona de Foligno encontram-se simetricamente dispostos em volta de um eixo central, conforme o esquema compositivo acima. A simetria era vista pelas artes antigas como uma das qualidades da beleza.

Ficha técnica
Ano: 1511
Tipo: Óleo sobre madeira transferido para tela
Dimensões: 320 cm × 194 cm (130 × 76 na na)
Localização: Pinacoteca Vaticana, Cidade do Vaticano/ Itália

Fontes de pesquisa:
O Livro da Arte/ Publifolha
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
Tudo sobre Arte/ Sextante
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette
A Arte em Detalhe/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os Pintores mais Influentes do Mundo/ Girassol

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Rafael – AS FACULDADES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Assim que chegou a Roma, Rafael recebeu do papa Júlio II a incumbência de decorar as salas do Vaticano. Ao entregar para um jovem artista de vinte e cinco anos, sem experiência em pintura de grandes proporções ou afrescos, a decoração da Sala de Assinatura, o papa mostrou-se bastante corajoso. Ao lado, Michelangelo pintava o teto da Capela Sistina.

A Sala de Assinatura era usada como biblioteca. Ali, o papa Júlio II assinava os decretos da corte eclesiástica. Ele queria representar nas paredes quatro temas: a teologia, a filosofia, o direito e a poesia – faculdades das universidades medievais. Rafael executou com excelência tais ramos do conhecimento. Cada faculdade foi retratada numa pintura, com exceção do direito que foi em duas (imagens representadas acima):

  1. A Disputa do Sacramento (representando a teologia)
  2. A Escola de Atenas (representando a filosofia)
  3. Parnaso (representando a poesia)
  4. Gregório IX Aprova os Decretos (representando o direito canônico)
  5.  (representando o direito civil)

Fontes de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante

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Rafael – O CASAMENTO DA VIRGEM

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Esta pintura de Rafael é também conhecida como As Núpcias da Virgem. Trata-se de seu primeiro quadro datado e assinado (ver no topo do templo): Raphael Urbinas MDIIII), como se somente após a sua conclusão, ele passasse a reconhecer o seu talento como pintor. Rafael estava à época com 21 anos. É possível notar a influência de Pietro Perugino, mestre de Rafael.  No que se refere às composições arquitetônicas e as figuras, percebemos a influência de Piero della Francesca e Donato Bramante.

O templo, em segundo plano, que tem por base um polígono, leva ao estilo de Bramante. O edifício é responsável por dominar e estruturar a composição, como também pela organização do grupo  principal de figuras, em primeiro plano, e das demais.

A obra de Rafael Sanzio representa o casamento de Maria e José em seu momento mais importante: a entrega do anel que sela o compromisso da união. O Renascimento foi pródigo em retratar cenas cristãs, como forma de ensinamento, a um povo que não sabia ler e nem escrever. O sacerdote, que ministra o ofício religioso, encontra-se ladeado por dois grupos: as mulheres que acompanham a noiva (Maria), à sua direita, e os homens que acompanham o noivo (José), à sua esquerda. Ele se inclina levemente em direção ao noivo. Os convidados aparentam ser bem jovens e mostram-se expressivos em suas posições.

Todos os homens trazem consigo um bastão, mas um deles, em primeiro plano, quebra o seu com o joelho direito, como se estivesse descontente por não ter sido o escolhido. Observem que somente o bastão de José, apoiado em seu ombro, traz uma flor na ponta, ou seja, foi dele o único bastão a florescer. Esse foi o sinal indicativo de que fora José o escolhido para ser o pai do Salvador.

A Virgem Maria está trajando um vestido vermelho com um manto azul, cores que, segundo a tradição católica, possuem uma simbologia própria. O azul representa a pureza e a divindade, enquanto o vermelho representa o sangue que Jesus derramou para salvar a humanidade. O manto de José é dourado e representa a sua grandeza, ao ser escolhido como pai de Jesus. Alguns veem seis dedos em seu pé esquerdo (ver a gravura em tamanho maior). Estar descalço simboliza a sua humildade.

Atrás do grupo simétrico, que se encontra em primeiro plano, existe um amplo espaço com a predominância de uma imensa cúpula – trata-se de um imponente templo, com uma arquitetura esplêndida. Se medirmos o tamanho das figuras em primeiro plano, veremos que possuem o mesmo tamanho do templo. A perspectiva faz com que as figuras, entre o templo e o primeiro grupo, pareçam bem menores, diminuindo proporcionalmente à medida que se distanciam do primeiro plano, o que dá ao observador a impressão real de distância. Espaço e figuras integram-se harmoniosamente na composição, num equilíbrio perfeito.

O majestoso templo é o centro radial da composição. Há também uma preocupação com a simetria. O templo encontra-se no meio da composição, ao fundo, e as figuras próximas a ele estão distribuídas pelos dois lados. É constituído pelo pórtico, arcos e cúpula, degraus e por um  prolongado pavimento. O mesmo ritmo circular da composição repete-se em relação aos convidados. O anel, que o noivo José está a ponto de colocar no dedo de Maria, é o eixo central da composição, responsável por dividir a composição, incluindo o templo em duas frações simétricas. Predominam no colorido da composição o dourado-escuro, com toques de marfim, o azul-esverdeado, o castanho-escuro e o vermelho.

O quadro é bem parecido com “Esponsais da Virgem” (imagem menor) de seu mestre Perugino, que também traz uma praça lajeada e com fundo arquitetônico, e também com a obra “Cristo Dando as Chaves a São Pedro”, cerca de 20 anos antes. Fica evidente a influência do velho mestre na perspectiva e na relação proporcional entre as figuras líricas e a arquitetura. Contudo, é possível notar que a composição de Rafael é muito mais harmônica e suas figuras são mais delicadas e alegres. Giorgio Vesare assim se expressa, ao comparar o aluno com o mestre: “… se identifica expressamente o talento de Rafael para ir com fineza, tornando-se mais sutil e ultrapassando o estilo do mestre”.

Este painel foi encomendado para ornamentar a capela de São José, igreja de São Francisco das Minorias, em Città di Castello, pela família Alberini. Contudo, a cidade viu-se obrigada a doá-lo para o General Lichi, ofocial do exército de Napoleão, em 1798. Esse, por sua vez, vendeu-o ao milanês Sannazzari, que o doou ao principal hospital de Milão, em 1804. A Academia de Belas-Artes tomou posse dele dois anos mais tarde, expondo-o em Brera.

Dados técnicos:
Ano: 1504
Tipo: óleo sobre painel
Dimensões: 170 x 117 cm
Localização: Pinacoteca de Brera, Milão/ Itália

Fontes de Pesquisa:
O Livro da Arte/ Publifolha
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette
A Arte em Detalhe/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Rafael/ Cosac e Naify
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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Rafael – MADONA SISTINA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Madona Sistina é mais uma das obras encomendadas a Rafael pelo papa Júlio II, que queria doá-la à Igreja de São Sisto, de Piacenza. É também uma das mais famosas de suas madonas. Ela se parece por demais humana, descalça e sem a tradicional auréola que acompanha a Virgem e os Santos tradicionalmente.

Na composição, a Virgem com o Menino nos braços conversa com Santa Bárbara (reconhecível pela torre à direita dela, da qual vemos uma pequena parte) e São Sisto sobre uma grande nuvem, tendo às costas uma nuvem azulada formada com as cabecinhas de vários querubins, agora menos elaborados do que os apresentados em a Madona de Foligno.

São Sisto, que foi papa no século III e mártir, coloca-se como intermediário entre os fiéis e a Virgem.  Pelo gestual de sua mão direita, tem-se a impressão de que ele está pedindo à Madona que olhe pelos fiéis.  Observando com acuidade essa mesma mão do santo, percebe-se que ela tem seis dedos e não cinco. Teria Sisto tal anomalia, ou foi um erro de Rafael, ou representa uma simbologia especial?

Por sua vez, Santa Bárbara (santa cristã tida como virgem e mártir, sendo invocada como a protetora contra os relâmpagos e tempestades) dirige seu olhar para baixo, dando a entender que ali se encontram os fiéis, que se imagina estar abaixo da balaustrada, num plano inferior.

A Virgem carrega o filho como num gesto de entrega, como se pressagiasse a sua doação para salvar a humanidade. Ela traz uma expressão triste e preocupada, e tanto o seu olhar como o do Menino parecem perdidos, fitando algo distante. Pela posição de seus pés e pelas dobras de sua veste tem-se a impressão de que ela está em movimento, descendo das nuvens.

São Sisto é o único a apresentar uma auréola. Sua tríplice coroa encontra-se no topo do parapeito que parece delimitar o espaço divino do terreno.

Na parte central inferior, dois anjinhos alados assistem descontraidamente a conversação entre a Virgem e os santos, como se estivessem apoiados numa balaustrada. Esses dois sapequinhas tornaram-se extremamente populares. São replicados e vendidos em pequenos quadros que ornamentam, principalmente, quartos de crianças. Estão entre as imagens mais reproduzidas em todo o mundo. Observem que ao serem desmembrados da composição, eles parecem olhar para o céu.

Uma suntuosa cortina verde abre-se para os lados, por detrás da Virgem. É possível ver a corda que sustenta as duas partes.

A obra é de uma simplicidade tocante. É também uma das pinturas mais admiradas e estudadas por filósofos e poetas.

Ficha técnica
Ano: 1513-1514
Tipo: Óleo sobre tela
Dimensões: 265 cm × 196 cm
Localização: Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden, Alemanha

Fontes de pesquisa:
O Livro da Arte/ Publifolha
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette
Grandes Mestres/ Abril Coleções

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