Historiando Paulinho da Viola – ARGUMENTO
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Autoria de LuDiasBH

O velho artista fora chamado para compor o samba de sua escola para o Carnaval que viria. Passava noites e noites na companhia de um bule de café, esmerando-se na busca pela melodia certa, que se acasalasse com cada um dos instrumentos de percussão da bateria. Era preciso muito aperfeiçoamento para buscar a nota 10 na bateria e no samba-enredo. Vezes sem conta viu o sol raiar, entretido com a letra e as notas de seu samba que haveria de ser imortal, cantado não apenas pela escola, mas por todos na arquibancada. Poderia ser o último de sua vida que fora toda dedicada ao samba que tão belamente retratava seu país.

O compositor encontrava-se em êxtase, se não encontrara a perfeição absoluta, pois essa não existe, pelo menos chegara perto. Na quadra de ensaio da escola foi rodeado por sua direção, músicos e passistas. Todos se silenciaram para ouvi-lo. Foi grande a ovação. Contudo, um dos jovens compositores, figura importante da agremiação, pôs-se a mostrar muitos senões. Queria que mudasse isso e aquilo por estapafúrdias razões. Vencido, o velho compositor argumentou: “Tá legal/ Tá legal, eu aceito o argumento/ Mas não me altere o samba tanto assim/ Olha que a rapaziada está sentindo a falta/ De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim”.

Não satisfeito, o jovem e pedante compositor continuou propondo mudanças na composição. Alegava que o samba atualmente estava mais moderno, não precisava mais ser sincopado ou ter compasso binário. Que era preciso deixar de lado ideias preconcebidas e ter coragem para mudar. Magoado, o velho compositor voltou a argumentar: “Sem preconceito ou mania do passado/ Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar/ Faça como um velho marinheiro/ Que durante o nevoeiro/ Leva o barco devagar”.

A velha guarda tomou o lado do compositor, ciente da grandiosidade de sua arte. Nenhuma mudança foi aceita. E, para a glória de toda a agremiação, foi nota 10 na bateria e no samba-enredo, que, cantado em uníssono por sambistas e pelo povo, tornou-se imortal, ajudando a escola a ser campeã naquele ano. Dois meses depois, o morro desceu levando o corpo do velho compositor. Sobre o caixão, a bandeira de sua amada escola.

Obs.: Clique no link abaixo para ouvir:
ARGUMENTO

Nota: Carnaval nos Arcos, obra de Heitor dos Prazeres.

8 pensou em “Historiando Paulinho da Viola – ARGUMENTO

  1. Lourival Augusto

    Embora o Paulinho da Viola, elegante e educado como é, nunca tenha confirmado, muita gente do samba e próximos de Benito di Paula, opinam que o samba “Argumento” foi endereçado para o autor de “Retalhos de Cetim”. Seria uma polêmica ótima para a música brasileira que não teve continuidade, pois a resposta de Benito di Paula não foi elegante.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Lourival

      O Paulinho da Viola é sinônimo de um ser humano na extensão máxima da palavra: gentil, humano, inteligente, coerente, um artista nato. Não sabia desse caso. Os bastidores da música trazem muitos sambas “velados”. Se houve tal querela, não resta dúvida de que o perdedor foi Benito di Paula.

      Amiguinho, agradeço muitíssimo seu comentário e visita. Será sempre um prazer recebê-lo. Volte sempre.

      Abraços,

      Lu

      Responder
      1. Lourival Augusto

        Com certeza, Lu.

        Polêmicas são sempre complicadas. Vemos isso agora com a nossa realidade social e política. No samba não seria diferente. Quando o grande Noel Rosa respondeu, em forma de samba, ao também grande Wilson Batista, gerando algumas pérolas da nossa canção popular, como por exemplo: “Lenço no pescoço”, “Mocinho da Vila” (Wilson Batista); “Rapaz folgado”, “Feitiço da Vila” “Palpite infeliz” (Noel Rosa), entre outras, o “golpe baixo” do Wilson Batista na polêmica fez o Noel Rosa encerrar as suas réplicas, mas ficaram sambas antológicos de ambos.

        Abraços

        Responder
        1. LuDiasBH Autor do post

          Lourival

          O que você nos leva a perceber é que por trás do samba – verdadeira obra-prima de nossa cultura – quase sempre há uma polêmica oculta. E a gente que ouve, sem ter conhecimento de como se processou a composição, não faz a mínima ideia. Vejo que você é um erudito no assunto, portanto, fica o convite para que, quando quiser, escreva textos para o nosso blogue, trazendo essa realidade tão distante de nós. A realidade social e política de nossos dias não poderia ser pior. A gente chega a sentir vergonha de ser brasileiro. Haja bizarrice! Haja ignorância! Haja negacionismo. Haja terraplanismo…

          Você é um brilhante escritor. Seja sempre bem-vindo!

          Abraços,

          Lu

  2. Mirian Mendonça

    Lu
    Quem é “um dos jovens compositores” que provocou o Paulinho da Viola e questionou a composição desse grande artista? É alguém muito corajoso… não fica claro no texto, que achei muito bom, mas deixou algumas lacunas, como: Quem é o autor da composição? sabemos que é o Paulinho da Viola, apesar de não ser citado no texto… e o sambista, ou o componente da escola de samba, que o questionou? Ele foi importante, neste contexto, porque gerou uma polêmica, e fez o público presente reforçar a composição original, e se tornou um evento a ser retratado neste texto, muito interessante, mas faltaram informações que aguçam a curiosidade… estou realmente curiosa… conte-nos mais sobre isso.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mirian Mendonça

      Primeiro quero dizer o quanto me torna feliz a sua presença neste espaço. Muito obrigada! Será sempre um prazer recebê-la.

      Amiguinha, esta história é ficcional. Eu a criei para dar vida a esta obra-prima de nosso maravilhoso Paulinho da Viola. Também fiz isso com outros letristas e compositores. Vou lhe enviar o link desta minha categoria.

      Que bom saber que ficou tão verossímil!

      Grande abraço,

      Lu

      Responder

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