O CORCUNDISMO

Autoria de Lu Dias Carvalho

corcunda

Segundo o Dicionário Corcundativo, o termo significava: palavra moda; homem que afeito e satisfeito com a carga do despotismo, se curva como o dromedário para recebê-la; e trazendo esculpido no dorso o indelével ferrete do servilismo, tem contraído o hábito de não mais erguer a cabeça, recheada das estonteadas ideias de um sórdida cobiça. (Lúcia Maria Bastos Neves)

Mais do que qualquer outro, o termo corcunda (carcunda) apresentou maior relação de identidade com o despotismo. Foi uma forma que conheceu ampla divulgação no vocabulário político de 1820 a 1823, servindo para referir-se de maneira acintosa a todos que estavam a serviço do ideário do Antigo Regime, favoráveis ao absolutismo, e à permanência do Brasil sob o jugo português.

Acima, uma caricatura corcunda e bizarra, de autoria anônima, criticando os anticonstitucionalistas, também conhecidos como corcundas. Eles se opunham à Constituição Liberal. Presume-se que esta caricatura tenha sido feita entre 1821 a 1823. Abaixo vinha o versinho:

Eis a que fiel retrato/Dos amigos da traição/Dos rebeldes que não querem/Liberal Constituição.
Localização Arquivo Público do Estado de São Paulo

Fonte de pesquisa
História da Caricatura Brasileira / Luciano Magno

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BEBÊS GORILAS NO ZOO DE BH

Autoria de Antônio Messias Costa

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Não adianta ligar antes para marcar encontro, pois essa família nem sempre está pronta para receber o visitante em sua confortável sala de estar, com janelas de vidro e muito verde. Ainda mais agora com crianças recém-nascidas, motivo de maior atenção das duas mamães e do zeloso, e às vezes autoritário papai. Esse grupo familiar é composto por um belo e vigoroso senhor de costas prateadas, denominado Leon, e de suas senhoras, Imbi e Lou Lou, carregando cada uma o seu pimpolho. O grupo é morador do Jardim Zoológico de Belo Horizonte, onde a qualidade da residência faz jus à importância da família, oriunda da Europa, mas de raízes africanas. Esses gorilas são os únicos exemplares encontrados no Brasil, e os dois filhotes são os primeiros nascimentos ocorridos na América do Sul .

Ainda com saudades de Idi Amin, conhecido carinhosamente como Idi, fui visitar a citada família de gorilas. Foi um chá de espera, compartilhado com outros visitantes, e também uma oportunidade de perceber o comportamento do “homo sapiens” diante do respeito à vontade dos notórios símios, de aparecer ou não para os presentes. Mas, para alegria de todos nós, a família surgiu no tapete verde do confortável recinto. Primeiro veio Leon, chamado carinhosamente de “Grandão” pela bióloga Cyntia, íntima da família e também sua porta-voz, principalmente em relação aos visitantes estrangeiros. A seguir, vieram as duas senhoras, mas junto com elas uma encrenca, pois Imbi havia se apoderado do filhote da amiga Lou Lou.

Qual seria o motivo do egoísmo de Imbi, ao querer os dois filhotes para si, se ambos compartilham o mesmo espaço? Acontece que a maternidade é um comportamento instintivo, que no mundo natural dos mamíferos reafirma-se com diferentes gradações nas variadas espécies, aliada a outros fatores como o maior ou menor número de filhotes, a participação apenas da mãe nos cuidados, ou do casal, ou ainda do grupo.

No caso dos gorilas, os maiores e mais fortes dos primatas, raramente nasce mais de um filhote por vez, que na fase inicial de vida é cuidado apenas pela mãe e, no decorrer do seu crescimento, recebe o apoio da família, particularmente das fêmeas. Mas o pimpolho vence barreiras até mesmo em relação ao poderoso chefe do grupo, que gentilmente aceita suas travessuras. O gesto de Imbi, ao se apoderar da cria de sua colega de recinto e correr com os dois filhotes nos braços, certifica que, assim como acontece entre os humanos, as diferenças comportamentais dentro de uma mesma espécie são enormes entre os indivíduos que a compõem, principalmente ao se levar em conta seu desenvolvimento neurológico.

No caso dos primatas antropomórficos (orangotango, gorila e chimpanzé), o comportamento natural aproxima-se muito do humano, também propenso a alterações neuro-hormonais, que podem alterar o padrão comportamental de cada um, como no caso de Imbi. Evidentemente que, apesar da transitória atitude maternal egoística, o comportamento observado sugere que a fêmea é uma boa mãe, e também acaba por quebrar a rotina da família de gorilas ali presente, tornando a vida no ambiente mais motivadora.

O primeiro gorilinha a nascer foi Sawidi, em agosto/2014, filho de Lou Lou e Leon. O nome foi escolhido pelas pessoas por meio de votação na internet. Na língua tupi-guarani Sawidi significa “amado, querido, desejado”. O segundo a nascer, em setembro do mesmo ano, ainda não teve o nome escolhido. É filho de Imbi e Leon. Os dois pequenos são irmãos por parte de pai.

O Zoo-BH e todo o seu staff está de parabéns, primeiramente pela dignidade com que cuidou do gorila Idi Amin, que veio a óbito em 2012, aos 38 anos de idade, após uma longa vida e, em segundo lugar, pela coragem em assumir a responsabilidade e o desafio de cuidar dos dois novos símios, pois afinal de contas são as grandes estrelas do zoo, recebidas com muito carinho por todos.

Denúncia: na África, essa espécie, nossa coirmã, sofre terrível ameaça, em razão da desumana caça clandestina, numa atitude que envergonha a todos nós humanos.

Nota: fotos do autor

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ALEIJADINHO – TRIBUTO À ARTE E À VIDA

Autoria de Luiz Cruz

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No dia 30 de novembro de 2014, na Capela do Divino Espírito Santo, em São João del Rei/MG, foi encerrada a 37ª Semana do Aleijadinho – Celebração dos 200 anos da sua morte. A programação especial teve início no dia 1º, em Ouro Preto, a antiga Vila Rica, onde nasceu Antônio Francisco Lisboa, em 1737 e onde faleceu, em 1814. O Mestre trabalhou nessa localidade vários anos e lá executou sua obra prima arquitetônica: a Capela de São Francisco de Assis.

A Semana do Aleijadinho foi criada em 1968, quando foi implantado o Museu do Aleijadinho, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Ouro Preto. Durante toda sua vida, o Mestre esteve ligado a essa paróquia, onde foi batizado e sepultado, em cova de Nossa Senhora da Boa Morte. Aleijadinho morou na antiga Rua de Trás, em casa de esquina, ao lado da matriz. Seu pai, o mestre carpinteiro português Manuel Francisco Lisboa, também foi ligado a essa igreja, lá se casou com Antônia Maria de São Pedro. Quando faleceu, foi enterrado no interior do templo, conforme o costume daquela época.

Ao longo do mês de novembro, aconteceram diversos eventos que celebraram a morte do Mestre Aleijadinho, os dois mais significativos foram o IX Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte, realizado em Belo Horizonte, na Escola de Arquitetura da UFMG, no período de 3 a 5, quando especialistas brasileiros e portugueses tiveram oportunidade de apresentar seus trabalhos envolvendo o meio ambiente sócio-cultural-econômico em que Aleijadinho viveu e produziu; o segundo foi realizado em Tiradentes, no período de 26 a 28, a UFMG, através do Campus Cultural Tiradentes e da DAC – Diretoria de Ação Cultural, realizou o Colóquio Aleijadinho o artista e sua época, com a participação de especialistas que propiciaram rica reflexão envolvendo o Mestre e sua contemporaneidade.

Muito foi pesquisado e debatido acerca da vida e da obra de Aleijadinho, mas, como se trata de um dos maiores escultores de todos os tempos, e por estarmos diante de significativo mito, ainda há aspectos a se desvelar, se é que algum dia se esgotará, pois a cada pesquisa, a cada novo olhar, haverá novidades. Por isso, nos dois principais eventos, ambos realizados pela UFMG, envolveram desde os maiores pesquisadores, como Ivo Porto de Menezes (que há sessenta anos pesquisa o tema Aleijadinho) e Myriam Ribeiro de Oliveira, e novos pesquisadores, como Alexandre Ferreira Mascarenhas e Marcos Tognon, dentre outros. Arquitetos, historiadores, etnógrafos, antropólogos, filósofos, especialistas das letras e outros ainda podem debruçar sobre o tema, cada pesquisa pode contribuir para melhor compreensão da vida, da obra e da época em que viveu Aleijadinho.

A 37ª Semana Aleijadinho promoveu diversos eventos culturais, não só em Ouro Preto, mas também em Belo Horizonte, Mariana, Congonhas, São João del Rei e Tiradentes, levando às cidades momentos culturais com concertos, lançamentos de livros, palestras e exibição de documentário. Não haveria melhor local para encerrar a programação cultural dessa semana do que a Capela do Divino Espírito Santo, da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar de São João Del Rei. Um belíssimo templo rococó, decorado pelo artista Joaquim José da Natividade (c.1775-1840), que foi resgatado das ruínas e restaurado primorosamente por Carlos Magno Araujo. E aqui é interessante lembrar a fala do pesquisador João Antônio de Paula, lembrando que, para a existência de Aleijadinho foi necessário acontecer um ambiente cultural vasto, rico, complexo e com a atuação de centenas de artistas talentosos e um deles, sem dúvida, foi Joaquim José da Natividade. No Colóquio Aleijadinho o artista e sua época, o historiador Magno Mello, em sua conferência, citou Natividade diversas vezes, por sua importância e criatividade.

No encerramento do colóquio, numa parceria entre os organizadores e a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, foi lançado um selo especial, registrando os 200 anos da morte do Mestre Aleijadinho. O selo traz a imagem da Matriz de Santo Antônio de Tiradentes, o último projeto arquitetônico do Mestre Aleijadinho, de 1810 (imagem acima).

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O MARIMBONDO

Autoria de Lu Dias Carvalho

Corc.

Após a descoberta do Brasil, em 1500, Portugal proibiu terminantemente que fossem impressos livros ou qualquer outra obra na sua colônia. Tal proibição durou os 300 anos em que nosso país foi colônia portuguesa. Em razão disso, o Brasil ficou atrasado em relação ao desenho humorístico e à imprensa. Somente com a vinda da família real portuguesa para a colônia, fugindo de Napoleão Bonaparte, é que apareceram as primeiras oficinas gráficas.

Em 24 de julho de 1822, em Recife/PE, Manoel Paulo Quintela dava início à redação de O Marimbondo. Nesse periódico, na primeira página, aparecia um bizarro corcunda, equilibrado numa perna só, a lutar contra um enxame de marimbondos. Tratava-se de uma charge de autoria desconhecida, em que o corcunda representava os portugueses e os marimbondos os brasileiros.

A charge, tida como o marco inicial da caricatura no Brasil, representava a insatisfação da gente brasileira, ansiosa por ver os portugueses pelas costas. Nesse mesmo ano deu-se a independência do Brasil.

O corcunda era uma figura comum nos primeiros desenhos caricaturais, sempre anônimos, relacionando-se o termo “corcunda” com o despotismo, ou seja, com aqueles que apoiaram a permanência do Brasil sob o domínio de Portugal.

Fonte de pesquisa
História da Caricatura Brasileira / Luciano Magno

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Irmãos Limbourg – AS MUITO RICAS HORAS…

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Acima, vemos uma das composições do calendário As Muito Ricas Horas do Duque de Berry, cujo objetivo era mostrar os transcursos do ano. Trata-se de uma obra dos três irmãos Limbourg (Paul, Hermann e Jean), que trabalhavam para o duque de Berry. Esta miniatura retrata uma cena pacata do cotidiano dos camponeses franceses, relativa à Idade Média, quando a sociedade era dividida em nobreza, clero e campesinato.

O mês apresentado é o de fevereiro, quando é inverno na Europa. A neve densa estende-se por toda a paisagem. Em primeiro plano, apresenta-se parte de uma casa de fazenda, onde mora o gerente do senhor feudal. Três figuras estão sentadas em busca do calor de uma lareira. Enquanto a mulher de azul, provavelmente pertencente a uma classe mais elevada, levanta o vestido apenas o necessário, as outras duas figuras (um homem e uma mulher) revelam os órgãos genitais, coisa comum à época. A mulher de azul observa um gatinho branco. Há no ambiente uma cama de casal e algumas roupas dependuradas.

Um homem, vestindo uma túnica rude, tange um burro com sua carga de madeira, em direção à vila e a uma igreja, que aparecem mais ao fundo, sob um céu acinzentado. Ele leva um saco à cabeça para se proteger do frio e do vento. Na idade medieval, as regras em vigor proibiam que os camponeses usassem pele de animais, produto de uso exclusivo dos burgueses e aristocratas. Atrás do camponês, um segundo personagem corta uma árvore. No chão estão vários feixes de lenha.

À direita, uma torre cilíndrica é uma moradia de pombos, pois essas aves eram criadas, principalmente, para que o esterco fosse usado como fertilizante, sendo preferido ao do porco e ao da ovelha. Na parte inferior central, nove pombos estão comendo. Num cercado próximo, encontram-se muitas ovelhas. Ao lado, há vários barris e feixes de lenha. Um homem, que parece se dirigir ao grupo, com a cabeça coberta por um pano branco, está próximo ao pombal.

Próximas ao muro de vime, sobre cavaletes, estão quatro colmeias, só que se encontram vazias, pois no inverno, elas eram colocadas acima do fogo, de modo que as abelhas morressem asfixiadas com a fumaça, o mel derretesse e a cera fosse recuperada. Quando chegava a primavera, novos enxames eram buscados na floresta.

Naquela época, a estação invernal era uma ameaça para a população, que se via vítima da neve e do frio intenso e do perigo que representavam os lobos, ao deixarem a floresta, famintos, para roubarem o gado. Além disso, a madeira tornava-se difícil de ser encontrada. Muitas vezes, a geada matava as plantações, levando os camponeses à fome e,  muito fracos, tornavam-se vítimas de epidemias. Eles também se viam reféns de hordas de soldados que se espalhavam por todo o país, cometendo as piores atrocidades.

Os calendários, um dos principais documentos históricos sobre a vida dos camponeses na Idade Média, tinham como objetivo mostrar as passagens do ano, por isso, os campesinos são representados, ainda que secundariamente, para mostrar as atividades que eram realizadas por eles. E foi dessa forma, marginalmente, que puderam entrar na pintura europeia, afeita apenas aos ricos e poderosos.

Ficha técnica
Ano: 1416
Dimensões: 15,4 x 13,6 cm
Técnica: miniatura
Localização: Museu Conde de Chantilly, no norte da França

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DOENÇA DE ALZHEIMER E DEMÊNCIA

Autoria do Dr. Telmo Diniz

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Os sistemas de saúde terão que fazer frente ao desafio que representa o envelhecimento da população, advertiu a Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma série de estudos publicados este mês na revista médica The Lancet. Em 2020, pela primeira vez na história, o número de pessoas com 60 anos ou mais no mundo superará o de crianças com menos de 5 anos.

A pirâmide etária está se invertendo. Uma em cada sete pessoas será idosa em 2020. E em 2050, a população acima dos 60 anos será de 2 bilhões de pessoas (uma em cada cinco) contra os 841 milhões atuais, revela o estudo. É um crescimento vertiginoso. As pessoas estão vivendo mais e, consequentemente, os problemas de saúde crônicos também ocorrem com maior prevalência, como a Doença de Alzheimer, por exemplo.

A demência tem um impacto avassalador não só para a pessoa, mas também na vida social e emocional em cada uma das famílias e seus cuidadores. Quem convive com um idoso com Doença de Alzheimer sabe do que estou falando. A falta de compreensão e conscientização sobre a doença resulta, em última instância, em prejuízo para o adequado cuidado ao idoso.

Pensando nisso, algumas dicas para quem está cuidando de idosos (e para a família) com demência parecem oportunas. Existem estratégias que podem ser utilizadas pelo cuidador para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, e estabelecer um ambiente seguro e de confiança:

• Escrever rotinas das tarefas diárias, como horários para acordar, almoçar, tomar banho, medicamentos, dentre outros, estão na ordem do dia.
• O estímulo intelectual e os exercícios supervisionados são igualmente importantes.
• O cuidador (e a família) deve estar preparado para lidar com as diversas alterações cognitivas que fazem parte do quadro, incluindo os esquecimentos para fatos recentes, alterações de reconhecimento, dificuldade de fixação e de percepção, dificuldades na capacidade de julgamento, confusão mental e alterações de comportamento com irritabilidade, insônia, agitação, ansiedade, agressividades etc.

Portanto, o cuidador (e a família) deve estar pronto para se relacionar com alguém, que está progressivamente perdendo a memória, com muita paciência. Ouvir várias vezes “que dia é hoje”, falar de forma simples, utilizar bilhetes e colocar os objetos pessoais sempre no mesmo lugar são pontos importantes. Da mesma forma, deve utilizar calendários grandes, relógio com localização estratégica e quadro de horários. O cuidador deve ser o ponto de apoio e para as lembranças do idoso. São técnicas que ajudam bastante, porém, o essencial não pode estar “invisível aos olhos”: carinho, paciência e atenção por parte dos que rodeiam os idosos.

Nota: Idosa com um rosário, obra de Paul Cézanne

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