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Autoria de Lu Dias Carvalho
Se o tempo é o senhor da razão, como se diz popularmente, é bom saber que ele às vezes passa a perna na humanidade. Esquece-se tal sábio senhor que ninguém é Matusalém – personagem bíblico que dizem ter vivido 969 anos. Se dificilmente a grande maioria dos pobres humanos, não passam dos míseros 100 anos, como irá se lembrar de coisas do arco da velha? Para que o meu leitor não ache que estou a enfiar pum na linha, eu enxoto a cobra e mostro o rastro, mostrando-lhe mudanças que ocorreram com os ditos populares através dos anos:
1.“Batatinha, quando nasce, esparrama-se pelo chão…”.
Minha mãe declamava esses versinhos para mim, assim que comecei a dar os primeiros passos. Eu me levantava e abaixava, pegando as supostas batatinhas. E do mesmo jeito eu os ensinei a todas as criancinhas com quem brinquei (e continuo brincando). Mas que mundo atroz, não mais querem que a batatinha esparrame-se pelo chão, mas que apenas espalhe suas ramas. Um menininho me disse que dói a língua dizer: “Batatinha quando nasce, espalha as ramas pelo chão…”.
2.“Hoje é domingo, pé de cachimbo!”.
Confesso que desde menininha achei meio estranho esse tipo de árvore que dava cachimbo. Com o tempo, passei a imaginar que o pé do cachimbo fosse o tubo, aquela parte ligada ao fornilho, e através da qual se aspira o fumo. Meu avô sempre pedia aos netos para não pegarem na parte onde ficava o fumo, pois podiam queimar a mão, mas somente no pé do cachimbo. Eis que, já adulta, descubro que o correto seria falar: “Hoje é domingo, pede cachimbo!”, ou seja, no dia de descanso as pessoas podiam fumar tranquilamente. Certamente não tinham conhecimento dos males nefastos causados.
- “Esse menino não para quieto, parece que tem bicho carpinteiro!”
Maneco sempre foi o mais desassossegado dos meus priminhos. Minha pobre tia Dudu não tinha um minuto de sossego. O menino era levado à breca. A todo momento ela bradava a expressão acima. E eu, na minha santa ingenuidade, achava que se referia ao bicho parecido com o cupim, que assolava os incautos carpinteiros no trato com a madeira. Mas já nos primeiros anos de estudo da língua portuguesa disseram-me que o correto seria dizer: “Esse menino não para quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro!”. Assim, não existe o tal bicho carpinteiro.
4. “Cor de burro quando foge”.
Dias desses ganhei uma blusa com uma cor para lá de estrambótica, mas, como a cavalo dado não se olha os dentes, vesti-a uma vez, para que o doador visse, e deixei-a a dormitar no fundo da gaveta. Ao ser indagada sobre a cor da dita, veio-me à boca a expressão acima. E é claro que ninguém teve a menor noção de qual seria a sua tonalidade, ficando o dito por não dito. Mas não é que agora acabaram com essa cor fantasmal! O correto é dizer: “Corro do burro, quando foge!”.
- “Quem tem boca vai a Roma!”.
Eis aqui um dito que dá ao buscador uma grande dose de estímulo, quando procura obter uma informação. É até mais seguro do que o GPS, pois a instrução obtida é através do olho no olho. Já fui impulsionada por esse dizer vezes sem conta e jamais me dei mal. Mas, se algum inconformado achar que tudo deve ser “ipsis litteris”, mesmo que nunca tenha botado os pés na capital italiana, e seja chegado a vaias, que diga: “Quem tem boca, vaia Roma!”.
- “Cuspido e escarrado”
Sempre achei nojenta essa comparação. Se o fato de lançar saliva, onde quer que seja, já demonstra falta de educação, imagine expelir catarro. Nunca me aprouve comparar duas pessoas usando tais palavras, que para mim não passavam de um dito chulo, um xingamento mesmo. Já fiquei até mesmo sem falar com uma comadre de minha mãe, quando essa assim me comparou à minha querida prima Zazá. Nós não merecíamos tal afronta, pois éramos menininhas muito gentis. Mas vale a pena ser: “Esculpido em Carrara!” que tem tudo a ver com arte.
- “Quem não tem cão, caça com gato!”.
Em minha casa sempre houve, pelo menos, dois gatinhos. Meu pai nutria um grande amor pelos bichanos, amor esse que também herdei. Embora sempre reprovasse o fato de ele e seus amigos caçarem, tirando a vida dos animaizinhos indefensos, ficava mais furiosa ainda quando mencionava tal ditado (abomino caçadores). A verdade é que o tal ditado significa, na verdade, “Quem não tem cão, caça como gato!”.
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