O SAMBA-CANÇÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O samba-canção é um gênero musical que surgiu nos anos 30, antecedendo a bossa-nova que surgiu nos anos 50. É originário do samba, baseado no Romantismo, e é também chamado de Samba Romântico. É um tipo mais lento, melancólico e romântico, orquestral e introspectivo do gênero. Apresenta marcação forte do samba pelo pandeiro e por boleros e baladas brasileiras, por meio de outros instrumentos rítmicos, inclusive o tambor. Pesquisas mostram que o samba-canção foi influenciado pelas baladas americanas e pelo bolero mexicano, caracterizando-se como o samba lento e melodioso do Brasil.

O samba-canção é comparado ao bolero pela exploração e exaltação que faz do amor-romântico, ou pelo sofrimento de um amor não realizado. Também foi chamado de “dor-de-cotovelo” ou “fossa”.  Interpretado por cantores com voz grave e performance teatral, como Dolores Duran, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto, Noel Rosa, Lindomar Castilho, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, entre outros.

O gênero varia do puramente lírico, com um vocabulário bastante culto e muito elaborado nas letras, ao trágico. Portanto, pode-se dividir o samba-canção em duas gerações de sucesso:

  1. Sua geração mais primitiva apresentava-se como uma mistura entre bolero lento e samba. Nessa época, o gênero era muito cantado e falado, dando mais ênfase ao sofrimento.

Apesar de o samba-canção ser um estilo definido, ele foi sofrendo outras influências ao longo do tempo. Uma de suas maiores contribuições foi a influência que exerceu na origem da bossa-nova. Tanto na forma quanto no estilo, as duas músicas são similares.

  1. A segunda geração do samba-canção é marcada pelas músicas românticas modernas, influenciada pela musicalidade de teclado eletrônico, que personaliza os sons de balada, samba bem calmo e, às vezes, bolero lento, geração também influenciada pela música sertaneja.

Depois de 1990, o samba-canção sai do sucesso e passa a sofrer com as novas tendências que vão surgindo. O romantismo na música brasileira começou a cair de moda e a dar lugar a outros gêneros de samba mais agitados e descontraídos como o pagode.

Apesar de sua qualidade musical ser superior a de outros estilos, o samba-canção perde para o pagode romântico, que se utiliza um pouco do gênero para dar o tom amoroso, e ao mesmo tempo mantém seu tom festivo e apelativo, mas sem muito compromisso com a elaboração das letras.

Mesmo que o tema amor-romance ainda exista na música nacional, o estilo suave muito elaborado e melodioso, como é o do samba-canção, não tem mais espaço na musicalidade brasileira, o que pode levar à extinção do gênero.

Nota: Dalva de Oliveira

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Mestres da Pintura – GIOTTO DI BONDONE

Autoria de Lu Dias Carvalho

Giotto tinha uma mente tão excelente que, entre todas as coisas que a mãe natureza criou sob o reino dos céus, não havia uma que ele não tivesse reproduzido com a sua pena e estilete, e cujo trabalho não se parecesse com a aparência da coisa, mas com a própria coisa. Assim, acontecia com frequência que o sentido da visão das pessoas falhava quando era confrontado com o seu trabalho, tomando por verdadeiro o que era apenas pintado. (Giovanni Baccaccio)

A humanidade da mensagem de Giotto, a grandeza de sua visão, a convicção de suas crenças e a confiança em seu talento exibidas na Capela Arena apontaram o caminho para o futuro da pintura ocidental. (David Gariff)

O pintor e arquiteto florentino Giotto di Bondone (1267 – 1337) é tido como um dos mais importantes precursores da pintura ocidental, sendo o primeiro pintor importante a desligar-se das convenções da arte bizantina, trazendo para a arte um novo sentido de realidade tridimensional. Conta a lenda que, ainda rapaz, foi descoberto por Cimabue, enquanto desenhava as ovelhas de seu pai. Não se sabe se tal fato é verdadeiro, mas se tem como certo a informação de que ele foi discípulo do mestre Cimabue, tendo trabalhado em sua oficina, ainda que de forma independente.

Em Roma Giotto recebeu um grande incentivo da escultura gótica francesa. É quando sua obra apontou para uma ruptura com a arte bidimensional da tradição bizantina. Ele se tornou responsável pela criação de uma nova linguagem formal da arte representativa dos acontecimentos sagrados, ao mostrar suas figuras vestidas em ação, dentro de paisagens ou salas. O pintor recriou em suas obras a ilusão de profundidade em superfícies planas, como se a história sagrada estivesse acontecendo diante dos olhos do observador. A pintura sagrada deixou de ser meramente ilustrativa para trazer a sensação de realidade. As cenas passaram a enfocar o aspecto humano.

À época, os frades em seus sermões persuadiam os cristãos a visualizar a história sagrada, sempre que lessem a Bíblia. E assim também fez Giotto em sua arte, ao tentar retratar a reação dos personagens pintados de acordo com a cena religiosa em que se encontravam inseridos, como se tratasse de um quadro vivo, ou seja, ele procurava contar histórias através de suas obras e, para isso, introduzia emoção nas cenas, dando vida própria aos personagens.

Na Idade Média, a arte italiana ainda se encontrava sob o domínio da influência bizantina, com suas figuras planas (bidimensionais) e inalteráveis que seguiam rígidos padrões. É Giotto quem começa a libertá-la de tais correntes, com suas figuras naturais, expressivas e humanas que iriam pavimentar os caminhos do Renascimento. O artista imprime na arte a preocupação com o humano.

Giotto é reconhecido como um grande mestre, responsável por liderar um verdadeiro ressurgimento das artes, sendo que a pintura ocidental moderna começou com ele. Ao se afastar da rigidez do estilo bizantino, ele trouxe grandes inovações que representaram profundas mudanças. Abandonou as fórmulas, os símbolos, as convenções e os padrões repetitivos da arte bizantina e voltou-se para a natureza.  Por ser muito famoso era convidado a trabalhar em várias cidades italianas. As suas obras propiciavam beleza e glória às cidades onde trabalhava. Foi o primeiro pintor a usar o azul ultramar na pintura europeia, cor obtida através da pedra chamada lápis-lazúli, nos seus altares,  também usada nas iluminuras de manuscritos italianos do século XIV. Essa pedra era usada, sete mil anos atrás, para ornamentar os túmulos dos soberanos sumérios de Ur e também no antigo Egito, com a finalidade de decorar os sarcófagos dos faraós.

É interessante saber que naquela época, de uma maneira geral, não havia a intenção de preservar o nome dos mestres para as gerações futuras, apesar de muitos deles serem bem conhecidos. As pessoas agiam assim como nós em relação a um bom pedreiro ou eletricista. E mesmos os artistas pouco ligavam para a notoriedade futura. Muitos deles sequer assinavam seus trabalhos, haja vista o número de obras de autores desconhecidos. Giotto era muito amado pelo povo de sua cidade, de modo que havia muito interesse sobre sua vida, tornando-o cada vez mais famoso. Neste aspecto, ele também inovou, pois a partir de então os grandes artistas passaram a ser vistos e admirados de uma nova maneira.

Uma das belas obras de Giotto é o afresco Traição de Cristo, pintado no interior da Capela Arena, em Pádua/ Itália, que mostra o encontro de Cristo com Judas, numa cena dramática e carregada de grande intensidade psicológica. Giotto serviu de inspiração para Masaccio, Piero dela Francesca, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Paul Cézanne, Diego Rivera e Fernando Botero. Em seu filme O Decameron (1971), Pier Paolo Pasolini, diretor italiano, assumiu o papel de Giotto ao recriar como um quadro vivo O Juízo Final do pintor que se encontra na Capela Arena.

Obs.: A ilustração é um possível retrato do artista.

Fontes de Pesquisa
Os pintores mais influentes…/ Editora Girassol
História da Arte/ E.H. Gombrich
Tudo sobre a Arte/ Editora Sextante
1000 obras primas…/ Könemann
Gótico/ Taschen
História da arte ocidental/ Editora Rideel
Eu fui Vermeer/ Frank Wynne

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CHICO XAVIER E A ÁGUA DA PAZ

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Uma passagem interessante sobre a vida de Chico Xavier é aquela em que ele fala sobre o remédio ensinado por sua mãe em uma das visões recebidas. Sua vida estava tumultuada, trabalhava excessivamente, escrevia mais ainda, ajudava as pessoas e, mesmo assim, era maltratado pela zombaria de muitos. Não acreditar na sua doutrina era um direito, mas escarnecer de seu trabalho era uma maldade orquestrada, com a finalidade de transformá-lo em motivo de chacota e descrédito.

Foi num dia de extrema tristeza para o médium que sua mãe, Maria João de Deus, apareceu e deu ao filho o seguinte conselho:

Meu filho, para curar essas inquietações, você deve usar a água da paz.

Depois de procurar em várias farmácias, inclusive na capital, Chico nada encontrou. Contou para a mãe o seu insucesso em encontrar o remédio e, numa aparição, ela lhe disse que poderia encontrá-lo dentro de casa. Bastava que enchesse a boca com um pouco de água e a conservasse ali, quando alguém lhe fizesse alguma provocação. Deveria conservá-la na boca, banhando a língua, enquanto persistisse a vontade de responder ao provocador. E assim, passou Chico a fazer uso do remédio receitado pela mãe em vários momentos de sua vida. É bom que não confundamos a aplicação da água da paz com omissão, pois, a história do médium mostra-nos que, apesar de sua docilidade, ele sempre foi franco nas suas verdades.

Muitas vezes, nos relacionamentos humanos, as pessoas se engalfinham em discussões áridas, sem sentido algum, que apenas servem para deixá-las aborrecidas. Ultrapassam os limites do bom senso, a ponto de perderem o auto respeito, caindo na armadilha dos provocadores, sempre na espreita para fazer o mal.

A água da paz representa a regulação cuidadosa de nossa maneira de ser na convivência com os outros, sem aceitar as imposições de outras vontades às nossas e, tampouco, subordinar os outros à nossa maneira de pensar e agir. Pois, tanto um adulto presunçoso, quanto um adulto reprimido acabarão trazendo muitos danos a si mesmos e aos que o rodeiam.

A água da paz não significa a remoção de obstáculos pessoais encontrados em nosso caminho e, que são responsáveis por nosso crescimento, mas a maneira equilibrada com que devemos enfrentá-los. É a submissão de nossas emoções de rédeas soltas ao equilíbrio e à razão que deve nortear a nossa vida, de modo a abrandar o sofrimento comum a todos os seres viventes.

Os maiores problemas enfrentados por um indivíduo residem na avaliação que faz de si mesmo. Na maioria dos casos, o ego excessivamente inflado é o responsável por atitudes impensadas e arrependimentos tardios. É a superestima que tem por si, que lhe acarreta a maioria dos aborrecimentos. Por que fez isso comigo? Eu não mereço isso! Não sabem quem sou eu! Não sabem com quem estão falando! De modo que acaba partindo para uma revanche desnecessária e tormentosa.  A água da paz é a tolerância, a virtude liberal por excelência. Eu respeito os outros, porque também quero ser respeitado. Mesmo aquelas pessoas que não merecem o meu apreço, eu as deixo em paz e as ignoro, sem a necessidade de lhes desejar ou fazer mal.

É preciso que compreendamos que nem todas as pessoas estão na mesma escala de evolução. E nada se ganha com discussões inúteis e infrutíferas. Melhor seria aproveitar o tempo com algo que beneficie a si e o mundo. Assim, como a água da paz, a tolerância não significa omissão, pois tudo possui os seus limites que, uma vez ultrapassados, precisam ser penalizados. E quais são os limites? – perguntará o leitor. Os limites são transpostos, quando há danos ou prejuízos à vida de outrem. Quando fazemos a terceiros aquilo que não queremos que seja feito a nós. De resto, mantenha a boca cheia de água e deixe que o outro mostre o que lhe vai pelo coração: amor ou ódio.

Fonte de pesquisa:
As Vidas de Chico Xavier/ Marcel Souto Maior/ Editora Planeta do Brasil Ltda.

(*) Imagem copiada de rodrigolampert.blogspot.com

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Giorgione Barbarelli – A TEMPESTADE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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                                         (Sempre clique nas gravuras para ampliá-las até 3 vezes.)

É um quadro que mostra um profundo senso de mistério. Uma pequena ponte nas águas escuras, perto de uma cidade, explode em tons brilhantes sob um céu ameaçador, cujas nuvens são divididas pelo brilho de um relâmpago. Nenhum traço de mal-estar nos personagens e no seu isolamento. Eles vivem suas próprias emoções no seio da natureza, apesar dos sinais. (Alvarez Lopera)

Giorgione — tido como o fundador da pintura veneziana — gostava de usar as paisagens situadas nos arredores de Veneza como cenário para seus quadros clássicos e religiosos.  A Tempestade é o seu quadro mais famoso e uma das pinturas mais aclamadas da arte ocidental. Foi descrito por volta de 1530 como Paisagem em Tela com Tempestade, Cigana e Soldado. Sua importância  dá-se, sobretudo, porque na época a paisagem só entrava como complemento numa obra e esta pintura é basicamente uma paisagem. Não se conhece o significado que, por acaso, a obra possa encerrar, como supõem alguns. Foi encomendada pelo nobre Gabriel Vendramin.

A Tempestade trata-se de uma composição de pequenas dimensões, apresentando um local poético com suas cores fortes e tristonhas em que o pintor veneziano usa a cor e a luz para dar unidade à pintura. Os tons de azul no fundo trazem uma sensação delicada de profundidade, enquanto cores mais quentes apresentam-se no primeiro plano. Giorgione usa a técnica do “sfumato”, já utilizada por Leonardo da Vinci, mas não se sabe se ele já conhecia o trabalho do artista. O mais genial nesta composição é que ele desloca a ação da esfera humana para o reino da natureza.

A composição mostra uma cidade desértica com uma cegonha branca no telhado de uma das casas — talvez simplesmente observando a tempestade que virá — sem nenhuma simbologia. Contudo, para alguns, ela tem um significado — simboliza a castidade, a pureza e a vigilância para o cristianismo. Embora a tempestade avizinhe-se, os dois personagens permanecem tranquilos, agem como se nada estivesse prestes a acontecer.

Em primeiro plano estão um homem e uma mulher que amamenta sua criança. O homem — bastante jovem — segura um cajado de peregrino. Quem seria ele e o que estaria fazendo ali? Antes de pintar a figura do homem, Giorgione teria pintado uma mulher banhando-se, conforme comprovam exames de raios X. Por que teria mudado de ideia? Dois pilares quebrados encontram-se atrás do jovem. O que representariam? A mulher está quase que totalmente despida. Um pano branco cinge-lhe os ombros e parte das costas. Ela se senta sobre parte dele.  Suas pernas estão separadas e ela inclina o corpo para frente. Seu bebê não se encontra em seu colo, mas à sua direita.

Uma cobra rasteja no chão em direção à mulher. Alguns estudiosos de arte acreditam que a mulher da composição seja uma referência a Eva,  e a criança seria seu filho Caim.  Assim como a mulher o homem também usa branco  na camisa, debaixo do gibão desabotoado, de modo que o olhar do observador vagueia de uma para a outra figura, passando pelo homem, pela mulher com a criança, pelo rio e dirige-se para o fundo da composição em direção às nuvens pesadas, onde um relâmpago corta o céu e clareia a cidade desértica, deixando no ar certa tensão. O artista capta o exato momento em que o relâmpago ilumina as nuvens.

A composição intitulada A Tempestade, banhada por uma suave luz dourada, é vista como uma das mais lindas obras de arte. Existe nela um todo harmonioso, onde tudo se funde, resultado da combinação da luz e do ar. Giorgione abre mão das linhas dos contornos para trabalhar com as transições da cor. Até então a paisagem servia apenas de fundo para os personagens, mas aqui ela é o tema da pintura, preenchendo a maior parte da tela. Vê-se que o interesse do artista estava voltado para a natureza, onde tudo se funde. A paisagem já não é mais vista como mera decoração. Suas cores modificam-se como efeito da tormenta prestes a chegar.

Não existe extremo cuidado no desenho das figuras e a composição apresenta-se um pouco rudimentar, mas na explosão de luz e ar que o tornam incomum, numa harmonia jamais vista até então. É a luz sobrenatural da tempestade que se torna o foco principal da composição. É a natureza tornando-se a personagem principal, quando até então fora apenas coadjuvante. Ela é o tema da obra, preenchendo a maior parte da tela.

Segundo E. H. Gombrich, “Giorgione não desenhou coisas para depois dispô-las no espaço, mas pensou realmente na natureza — a terra, as árvores, a luz, o ar, as nuvens e os seres humanos com suas cidades e pontes – como um todo indivisível”. E continua: De certo modo, isso foi um avanço quase tão grande para um novo domínio da arte de pintar quanto a invenção da perspectiva o fora antes”.

Esta obra é tida como uma das últimas do grande artista e uma das obras mais sensacionais criadas na arte. Foi uma realização revolucionária para o seu tempo. Seria ela inspirada num autor clássico? À época, os artistas venezianos mostravam-se encantados com os poetas gregos e tudo que eles simbolizavam. O interessante é descobrir que, ao incluir modificações tonais em razão das mudanças na atmosfera, Georgione prenuncia o Impressionismo.

Curiosidade
Sfumato — trata-se da habilidade de suavizar ou borrar as extremidades das formas para evitar um contorno definido, ou seja, são contornos suaves que escondem a transição entre as cores.

Ficha técnica
Data: c. 1508
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 82 x 73 cm
Localização: Galleria dell’ Academia, Veneza

Fontes de Pesquisa:
A história da arte/ E.H. Gombrich
Arte em detalhes/ Publifolha
Tudo sobre arte/ Sextante
Giorgionni Barbarelli/ Abril Cultural

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Mestres da Pintura – GIORGIONE BARBARELLI

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A idade de ouro do humanismo italiano possui em Veneza, com Giorgione, um realizador de suprema poesia pictórica. (Antonio Morassi)

Giorgione Barbarelli da Castelfranco (c.1478?–1510) era um pintor italiano de retábulo e obras sacras, também conhecido por Zorzon. Quase nada se sabe a respeito de sua vida, embora suas poucas obras conhecidas tenham exercido grande influência sobre a arte dos séculos XVI e XVII.  Segundo o pintor e historiador italiano Giorgio Vasari, ele veio de uma família muito humilde. Ainda novo partiu para Veneza, onde foi aprendiz no ateliê de Giovanni Bellini — pintor famoso no uso da cor e da luz. Frequentou a alta sociedade daquela cidade, onde conviveu com os valores do helenismo. É tido como fundador da pintura veneziana, tendo influenciado muitos artistas, dentre eles Sebastiano del Piombo e Ticiano. Era um artista de grande inclinação poética, cujos temas não se sujeitavam ao gosto dos mecenas da época, mas à sua própria escolha.

Giorgione foi o primeiro a pintar paisagens com figuras e nus reclinados.  Às suas formas suaves de paisagens, ele uniu as figuras numa relação íntima e familiar.  Sua influência foi considerável para as futuras gerações de artistas que têm se preocupado com a cor, forma, harmonia e sentimento. O artista dava à paisagem uma importância especial. Ela era a parte mais importante de sua composição, agregando-se às figuras humanas, vistas como elementos da natureza.  Distanciando-se de uma pintura essencialmente religiosa, sua obra está imbuída pelo amor à natureza e pela beleza do corpo humano. É tido como o primeiro pintor a:

  • acrescentar figuras nas suas paisagens;
  •  abrir mão da finalidade devocional, alegórica ou históricas em suas obras;
  •  usar as cores com a intensidade, o que se tornou típico da escola veneziana;
  • e um dos primeiros a usar a técnica do sfumato e do chiaroscuro, o  uso de tons de cor para evidenciar a perspectiva e a luz, um dos motivos de sua fama.

As obras de Giorgione são cheias de mistérios em relação à sua temática. No máximo cinco pinturas podem ser atribuídas a ele, sem que levante qualquer sombra de dúvida. Mas, embora poucas, elas foram suficientes para darem-lhe fama de talentoso pintor. Sua obra era pequena, mas de altíssima qualidade. Suas composições eram sempre originais. Ao contrário de muitos pintores da época, ele dava grande importância às cenas em segundo plano, colocando paisagens nelas, o que foi mais tarde imitado por  outros artistas venezianos.  E, seguindo os ensinamentos do mestre Bellini, Giorgione obteve resultados revolucionários no trato da cor e da luz na sua pintura.

Giorgione morreu aos trinta e dois anos, vitimado pela peste que assolava Veneza na época do verão, tendo sua carreira de pintor durado apenas quinze anos. Fala-se também que morreu em razão de uma doença venérea resultante de sua vida boêmia. Presume-se, pelas poucas obras que deixou que se tivesse vivido mais tempo seria um dos grandes nomes da pintura ocidental, assim como foi seu amigo Ticiano, com quem trabalhou em muitos projetos. Depois dele a pintura era muito mais do que a soma de desenho e colorido. Infelizmente ele morreu muito jovem para colher os louros de sua breve passagem pela arte.

Nota: Autorretrato do pintor

Fontes de pesquisa:
A arte em detalhes/ Publifolha
Giorgione/ Abril Cultural
Isto é arte/ Sextante
501 artistas/ Sextante
A história da arte/ E.H.Gombrich
http://web-archives.mansfield.edu/~art/papyrus1_kate_boyle.htm

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DALVA DE OLIVEIRA – A VOZ DE OURO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Embora seus pais, Alice do Espírito Santo e Mário Antônio de Oliveira, esperassem a chegada de um menino, foi a menina Vicentina de Paula Oliveira quem chegou à cidade de Rio Claro/SP, em 5 de maio de 1917. Após a chegada de Vicentina de Paula, vieram mais três filhos para o casal: as três meninas: Nair, Margarida e Lila, e um menino que morreu ainda criança.

Filha de um pai músico, nas horas vagas, a garota Vicentina sempre o acompanhava nas serenatas. A família levava uma vida muito simples, até que, aos oito anos de idade, a futura cantora perdeu o pai. Sua mãe ficou com quatro filhos para serem criados. Dona Alice, com responsabilidade dobrada, optou por se mudar para S. Paulo para criar os filhos. Lá, foi trabalhar como governanta e colocou suas três filhas em um internato de irmãs de caridade, onde Vicentina teve aulas de piano, órgão e canto. A futura artista ficou três anos no internato, tendo que abandonar o lugar, em razão de uma infecção nos olhos.

A saída de Vicentina do internato levou a mãe a perder o emprego, pois, os patrões não aceitaram que ela levasse a filha para o trabalho. Mas, para a felicidade das duas, dona Alice arranjou emprego de copeira em um hotel, onde a filha podia ajudá-la. Primeiro, como arrumadeira, depois como babá e ajudante de cozinha em restaurantes. A seguir, conseguiu um emprego como faxineira em uma escola de dança, onde havia um piano. A música parecia perseguir a menina Vicentina.

Dalva iniciou sua carreira em São Paulo. Depois, que terminava o serviço de faxina do salão de danças em que trabalhava, costumava cantar algumas músicas, tentando tirar melodias ao piano. Certo dia, foi ouvida pelo maestro pianista que a convidou para cantar numa trupe  que correu várias cidades de São Paulo, até chegar a Belo Horizonte (MG). Sua participação acontecia nos intervalos dos espetáculos, quando era anunciada como “A menina prodígio da voz de ouro”.

Em Belo Horizonte, aconselharam-na a fazer um teste na Rádio Mineira, no qual foi aprovada. Com a dissolução do Circo Damasco, ela e a mãe voltaram a São Paulo. O maestro aconselhou sua mãe a ir para o Rio de Janeiro, onde a menina teria mais chances. Lá, empregou-se como costureira numa fábrica de chinelos, onde um dos proprietários, Milton Guita, (conhecido como Milonguita) era diretor da Rádio Ipanema (atual Mauá). Nessa mesma época, Vicentina foi trabalhar no teatro com Jayme Costa, fazendo pontas em operetas no Teatro Glória, trabalhando ao lado de grandes artistas como Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Ema D`Ávila, entre outros.

No mesmo período Vicentina trabalhou na Cancela, em São Cristóvão, num teatro regional, onde apresentava números imitando a atriz Dorothy Lamour, período em que conheceu Herivelto Martins, que tinha como parceiro Nilo Chagas, formando a Dupla Preto e Branco. Dalva (nome artístico sugerido pela mãe) começou a trabalhar com a dupla. Logo depois, Herivelto foi contratado para trabalhar no Teatro Fênix e pediu-lhe que viesse cantar com ele e Nilo, formando então um trio. Foi quando começaram a namorar. No início, o trio chamava-se Dalva de Oliveira e a Dupla Preto e Branco, mudando, depois, para Trio de Ouro.

Herivelto e Dalva foram contratados pela Rádio Mayrink Veiga e gravaram o primeiro disco em 1937, onde se encontravam as músicas Itaguaí e Ceci e Peri. Na época em que gravaram o disco, Dalva esperava seu primeiro filho. O público torcia para que, se viesse um menino, ele fosse chamado de Pery e, se viesse uma menina, ela fosse chamada de Ceci. Dalva acabou atendendo a seu público.

Na época do Trio de Ouro, os sambas Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo) e Ave-Maria no Morro (Herivelto Martins) foram os grandes sucessos de Dalva de Oliveira, que também acabou imortalizando outros sucessos como: Tico-tico no Fubá, Aquarela do Brasil, Bem-te-vi, Atrevido e Na Baixa do Sapateiro, dentre outros.

Alguns críticos diziam que Dalva estilizava os sambas e choros, num ritmo bem próximo ao mambo ou a outros ritmos latinos. Mas seu elepê com Roberto Inglês foi visto como difusor da MPB no mundo. Ela também participou de alguns filmes, como Maria da Praia, de Paulo Wanderley; Milagre de Amor e Tudo Azul, ambos de Moacir Fenelon.

Fatos marcantes na última década de vida de Dalva de Oliveira

1934 – Vai com a família morar no Rio de Janeiro.
1937 – Casa-se com Herivelto Martins, com quem teve dois filhos: Pery e Ubiratã.
1963 – Separa-se de Tito Clemente e se casa com Manuel Nuno.
1965 – Sofre grave acidente automobilístico e é obrigada a abandonar a carreira por alguns anos.
1970 – Retoma a carreira, lançando um dos seus grandes sucessos (e também último):
Bandeira Branca, marcha-rancho.
1971 – Apresenta-se no Teatro Tereza Raquel no Rio de Janeiro e em vários programas de televisão e shows.
1972 – Falece vítima de hemorragia no esôfago.

Dalva de Oliveira foi uma das grandes estrelas dos anos 40 e 50. Dona de uma poderosa voz, cuja extensão ia do contralto ao soprano. O maestro Gambardella, apesar de achar que ela possuía potencial para tornar-se uma cantora lírica, aconselhou-a a se manter como cantora popular. Ele sabia que uma moça pobre dificilmente poderia seguir uma carreira que, além de exigir muitos recursos, ainda não tinha muito futuro no Brasil. Por isso, sugeriu que ela utilizasse sua voz para o canto popular.

Fonte de pesquisa: http://www.tvalenha.jex.com.br/nas+ondas+do+radio

(*) Imagem copiada de www.elianebonotto.com

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