Mestres da Pintura – FRA ANGELICO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O primeiro Renascimento florentino produz o maior intérprete de arte cristã de todos os tempos: […] um religioso dominicano que conhecia desde os mistérios da fé e que era chamado a pintar. (Timothy Verdon)

Ele rezava antes de pegar no pincel, jamais retocando suas obras, porque refletiam a vontade divina. Quando pintava os crucifixos ou o rosto sofredor de Jesus durante a Paixão, chorava de emoção devido a sua grande bondade e sensibilidade espiritual. Poderia ter sido rico, mas não se importava. Dizia que a verdadeira riqueza não era outra senão contentar-se com pouco. (Giorgio Vesari)

Sua obra é tanto mais comovente em virtude de sua humildade que é a de um grande artista que deliberadamente renunciou a qualquer exibição de modernidade. (E. H. Gombrich)

Seus afrescos e retábulos retratam homens para os quais esta vida terrena é antecâmara da celestial. Ele reproduz em suas pinturas pessoas imbuídas de uma luz, claridade e leveza inexistentes no cotidiano real. São figuras são dotadas de um fulgor vindo de dentro para fora e que iluminam todo o seu ser. Porque o espírito é claro, enquanto a matéria é opaca. A intenção do artista é exatamente representar essa irradiação do espírito. (Plínio Corrêa de Oliveira)

O pintor e miniaturista italiano, cujo nome de batismo era Guido di Pietro Mugello (1384 – 1455), é um dos mais importantes mestres surgidos entre o final do período Gótico.  Ainda muito jovem, abraçou a ordem dos dominicanos, passando a chamar-se Frei Giovanni Fiesole. Após anos de estudos filosóficos e teológicos, transformou-se num profundo conhecedor da doutrina cristã tomista (ligada a São Tomás de Aquino) e num ardoroso sacerdote de sólida piedade. Somente após sua morte é que foi apelidado de Fra Angelico (Irmão Angélico) e também de Beato Angelico pelos irmãos de ordem e pelo povo, tamanha era a sua fama de santidade.

Fra Angelico foi inicialmente miniaturista, mas em contato com a efervescência da arte em Florença, responsável por liderar toda a Europa Renascentista, começou a pintar nos seus momentos de descanso, após cumprimento de seus deveres religiosos. Aos poucos seu nome passou a figurar entre os grandes pintores da época, chegando a ser recomendado à família Médici como “um dos melhores mestres de Florença”. À reputação de religioso humilde e devoto juntou-se à de excelente pintor de arte sacra, cujas obras, segundo as pessoas da época, pareciam ser pintadas por anjos, tamanha era a paz e a quietude que delas emanavam.

Não se tem como certa as informações sobre a iniciação do beato na pintura. Lorenzo Monaco é apontado como um de seus mestres em iluminura. O aprendizado de tal técnica é visível no cuidado que ele tem com os detalhes em toda a sua obra. As grandes obras do dominicano na pintura começam a surgir entre 1420 e 1430. Ele acreditava que assim como o sopro do Espírito Santo dava vida às palavras de seus irmãos no púlpito, também haveria de manejar o seu pincel, ou seja, enquanto eles pregavam pela palavra, ele pregaria com sua pintura.

A pintura de Fra Angelico era essencialmente sacra e tinha como objetivo elevar o nome de Deus — motivo pelo qual jamais representou uma cena profana. Sua pintura essencialmente religiosa está dominada por um espírito contemplativo, pois ele concebia a pintura como uma espécie de oração. Suas obras eram destinadas à contemplação e à devoção. Embora fosse sobretudo um místico, ele intelectualizou a pintura, inserindo nela a preocupação com o espaço e com as leis da perspectiva e desenvolveu um estilo único, caracterizado por cores suaves, claras, formas elegantes e composições muito contrabalançadas. As tintas usadas pelo monge pintor eram de uma beleza incomparável. Produzidas por ele, apresentavam uma arrebatadora variedade cromática. O azul era a cor de sua predileção, sendo explorado em várias tonalidades, sobretudo o azul da Alemanha, o índigo e o azul ultramar. A matéria-prima era o lápis-lazúli.

Fra Angelico, assim como o pintor Masaccio, é um nome marcante do início da Renascença italiana e um dos grandes nomes da pintura religiosa de todos os tempos. Sua pintura traz consigo um caráter de catequese espiritual que visa mostrar a bondade infinita e a perfeição do Criador. Ele buscava representar a história sagrada com beleza, mas, sobretudo, com simplicidade. No dia 14 de novembro de 2006 foram encontrados mais dois painéis pintados por ele, numa modesta casa em Oxford, na Inglaterra. Estavam perdidos há mais de 200 anos. Segundo Hegel “Fra Angélico criou uma obra que nunca foi superada na profunda sinceridade de sua concepção).

Nota: “A Descida da Cruz” (1430 -1440) — obra encomendada pela família Strozzi para a Santa Trinità em Florença. Foi iniciada pelo pintor Lorenzo Monaco que pintou os campos e completada por Fra Angelico. A composição de fundo identifica-o como um dos grandes pintores paisagistas do século XV. O painel é também uma obra chave dos primeiros tempos do Renascimento, por causa de sua construção espacial realista e formas arquiteturais simplificadas. A cor encontra nela o seu esplendor máximo.

Fontes de Pesquisa
Góticos e Renacentistas/ Abril Cultural
1000 Obras-prima da Pintura Europeia
Arautos do Evangelho/ O Pintor do Sobrenatural
A História da Arte/ E. H. Gombrich

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REFLETINDO COM O DALAI LAMA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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  • Só a ética e a bondade entre as pessoas podem resolver nossos maiores problemas, e não necessariamente as religiões são o caminho para essa conduta.
  • Sou budista, mas não devo ter apego ao budismo. Do contrário, não serei capaz de apreciar os valores do cristianismo, do islamismo ou do judaísmo, entre outras crenças.
  • Chegou o momento em que temos de pensar na humanidade, independentemente da fé, ou falta dela, de cada indivíduo. Nós, irmãos e irmãs humanos, temos de viver juntos neste mundo. Se este lugar for mais feliz e mais pacífico, cada um de nós, inclusive os animais, se beneficiará.
  • A compaixão no coração leva à força interior e à confiança. Uma mente compassiva é livre do medo e não tem lugar para a desconfiança e animosidade contra os outros. Pensar demais apenas em si só traz mais medo e inquietude.
  • Além da violência, enfrentamos dramas como o aquecimento global, crescimento da população mundial, aumento das diferenças entre ricos e pobres, corrupção. Esta última questão me preocupa. A corrupção é uma nova doença – o câncer mundial. Para lidar com ela, é preciso cultivar a autodisciplina.
  • O que precisamos hoje é difundir a ideia de uma ética secular. Por exemplo, se você for confiável, será mais feliz. Sua saúde melhorará e a comunidade e a sociedade também se beneficiarão. Temos de fazer isso por meio de nossa experiência comum de vida, alicerçada em descobertas científicas e naquilo que todos vivenciamos no dia a dia.
  • A paz mundial deve vir da paz interior. Portanto, precisamos educar as pessoas no cultivo da paz interior. Temos de ensinar a nossas crianças que a fonte da felicidade e da vida bem-sucedida é a paz dentro de nós, e não o dinheiro ou o poder. Podemos transmitir isso por meio da educação. Ela é universal.
  • O desejo que é contaminado por certas motivações pode ser mau. Mas o que tem como base o pensamento racional e a motivação honrada é aceitável. Todos nós queremos levar uma vida feliz. Para obtê-la, é errado explorar ou enganar pessoas. O desejo, em si, é neutro. É a motivação que faz um homem bom ou mau. Poderíamos dizer o mesmo da raiva. Aquela que nasce da compaixão ou da preocupação pelo bem-estar dos outros pode ser uma raiva positiva. Mas a que resulta de sentimentos negativos para com outras pessoas, essa é ruim. A natureza das emoções é interdependente. Em determinada circunstância, ela pode ser má. Mas a mesma emoção em outra situação pode ser boa.
  • Nos primeiros tempos da sociedade humana, a força física era a chave da liderança. Esse foi o começo da dominação masculina. Com o advento da educação, o abismo entre homens e mulheres diminuiu, quando não desapareceu. No mundo secular moderno, a educação é importante, mas não menos significativo é o cultivo da compaixão e da bondade amorosa. As mulheres são mais sensíveis que os homens ao sofrimento dos outros. Muitos cientistas comprovaram isso. Assim, para cultivar a compaixão na sociedade humana, as mulheres precisam ter papel mais ativo.

Fonte de pesquisa:
Fragmentos da entrevista dada pelo Dalai Lama ao jornalista Kowit Phadungruangkij/ revista National Geographic, maio de 2013.

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A BANDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Imaginem vocês que, um dia desses, entro em casa e encontro minha mulher, Lúcia, e a minha filhinha, Daniela, como os olhos marejados. Acabavam de ouvir A Banda, ou seja, a mais doce música da Terra. Dias depois, eu próprio ouvi a marchinha genial.  E a minha vontade foi de sair de casa, me sentar no meio-fio e começar a chorar. Com A Banda começa uma nova época da música popular no Brasil. (Nelson Gonçalves)

E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicar a vida da gente. (Carlos Drummond de Andrade)

A Banda, canção com letra e música de Chico Buarque de Hollanda, venceu o Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, em 1966, e logo se tornou uma coqueluche nacional, cantada pelos quatro cantos do país. Ainda hoje é um dos clássicos da MPB, tendo sido gravada por bandas de vários países, nas mais diferentes versões.

Na segunda eliminatória do festival, A Banda, de Chico Buarque, defendida por Nara Leão, ficou entre as quatro classificadas. Como Nara tivesse uma voz muito fraquinha, sendo pouco ouvida na primeira eliminatória, em razão da bandinha com tumba e bumbo que a acompanhava, foi sugerido a Chico que cantasse junto com ela, usando a  seguinte forma: ele cantaria a música toda, acompanhado pelo violão e Nara repetiria depois, acompanhada pela bandinha. Chico Buarque assim o fez, mesmo a contragosto, o que deu certo, aumentando o número daqueles que torciam pela canção. Até então, Chico Buarque era visto como um cantor de “músicas de protesto”. Para o festival, ele procurou fazer uma música mais leve, que fugisse a esse lugar comum.

Quando inscreveu A Banda no festival, Chico tinha apenas 20 anos de idade e muita timidez. A canção foi interpretada por ele e Nara Leão, ganhando o primeiro lugar, juntamente com a canção Disparada, cantada por Jair Rodrigues, de autoria de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Mas Chico foi o responsável para que Disparada dividisse com A Banda o primeiro lugar.  O júri havia dado a vitória à música de Chico Buarque, por sete votos a cinco, mas ao tomar conhecimento de que sua canção seria a finalista, Chico exigiu que as duas dividissem o prêmio, sob protesto do júri, dizendo que Disparada era melhor e, se assim não acontecesse, ele se recusaria a receber o prêmio. Contudo, ele jamais falou sobre isso. Quando lhe perguntam sobre o assunto, diz que Disparada ganhou por méritos próprios. O assunto só veio à tona através dos jurados, tempos depois.

A Banda conta a passagem  de uma banda musical pelas ruas de uma cidade interiorana, que com sua alegria vai mexendo com a gente sofrida e triste do lugar, fazendo com que todos deixem seus afazeres para lhe dar atenção, embevecidos. Ninguém fica imune à sua alegria. Até a lua deixa seu esconderijo para vê-la. Mas como tudo passa na vida, a banda também passou. A canção de Chico Buarque agradou tanto ao país, que até o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade ofereceu à canção e a seu autor uma crônica, em um dos jornais mais famosos da época.

Chico Buarque e Nara Leão, em razão do sucesso musical obtido com A Banda, ganharam um programa na tevê, chamado Pra Ver a Banda Passar. Segundo dizem, a dupla era tão tímida que o diretor da atração, Manoel Carlos, desabafou:

– Eles são os maiores desanimadores da televisão brasileira.

Foi depois do sucesso de A Banda, gravada em compacto simples, que Chico Buarque gravou seu primeiro LP – Chico Buarque de Hollanda, em dezembro de 1966, onde figura a canção que o projetou no cenário da MPB, que desde então nunca mais foi a mesma. Nara Leão também se tornou uma grande cantora, gravando, principalmente, bossa-nova.

O pintor Clóvis Graciano fez muitas pinturas inspirado pela canção A Banda, como a que ilustra o texto.

A Banda
Autor: Chico Buarque
Intérpretes: Nara Leão e Chico Buarque

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu

A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

 E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

Nota
Abaixo a letra da música e a canção

https://www.youtube.com/watch?v=wFPPawLq_5Q

Fonte de pesquisa:
Chico Buarque de Holanda/ Abril Coleções
Chico Buarque/ Wagner Homem
A era dos festivais/ Zuza Homem de Mello
Uma noite em 67/ Renato Terra e Ricardo Calil

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Velázquez – AS MENINAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Esta composição foi originalmente chamada de A Família de Filipe IV ou A Família Real, mas tornou-se conhecida em todo o mundo como As Meninas, termo que se refere às damas de honra da princesa Margarida, filha do rei Filipe IV e de sua segunda esposa Mariana da Áustria. Velázquez retrata uma cena cotidiana numa corte do século XVII, mas, embora possa parecer simples, as suas multíplices facetas fazem dela uma das mais ricas composições da história da arte. O quadro repete exatamente o ambiente onde o pintor encontrava-se inserido. Trata-se de uma pintura sobre pintura.

A cena acontece em uma das salas do palácio real e leva o observador a deduzir que o artista estava pintando Filipe IV e sua esposa Mariana, quando a princesinha Margarida precipitou-se para dentro do seu ateliê, acompanhada de suas damas de honra — María Agustina e Isabel Velasco. Assim, a pintura na grande tela à frente do pintor, apoiada num imenso cavalete, é a que se vê no espelho: o casal real. Contudo, a tela que o artista pinta não pode ser vista pelo observador, pois ele a vê de costas. A resposta está no espelho, como supõe a maioria dos estudiosos de arte.

A infanta — ocupando o centro da composição — parece olhar para seus pais, fazendo uma pequena mesura, sem se interessar pela presença das duas damas de honra que a ladeiam. Embora seja a menor das personagens, de pé com seu vestido rodado, percebe-se claramente que é a figura mais importante da composição. Uma fonte de luz destaca a princesa de cinco anos de idade que se encontra no centro da tela. Sua expressão sugere que ela está consciente da posição que ocupa no grupo. Velázquez usou borrifos de tinta branca pura para realçar o reflexo da luz nos seus cabelos dourados e no magnífico vestido, transformando-a no ponto focal da pintura.

Mesmo não aparecendo na cena principal da composição, o rei e a rainha têm a imagem refletida no espelho do fundo, sob um cortinado vermelho, recolhido. O casal está meio obscurecido pela falta de claridade no local. O espelho está envolto numa moldura escura e também reflete a iluminação usada pelo pintor. Presume-se que eles estejam onde o observador se encontra.

Diego Velázquez — vestido como um cavaleiro sisudo e elegante — faz um autorretrato, ao se apresentar no lado escuro, à direita da infanta, com uma paleta na mão esquerda e um pincel na direita — símbolos de sua função na corte —, tendo à sua frente um enorme quadro recostado a um cavalete e de costas para o observador. Ele reclina para trás para melhor observar seu trabalho. Usa pincéis compridos, pois os detalhes de sua obra só entram em foco de certa distância. A cruz da Ordem de Santiago está no seu colete, na parte do peito. Ela foi ali pintada três anos após a finalização da pintura, quando ele foi sagrado Cavaleiro da Ordem. Não se sabe se foi o artista ou outra pessoa a mando do rei que a pintou.

María Agustina está ajoelhada e estende uma bandeja de prata, com uma pequenina jarra de cerâmica vermelha, provavelmente água fresca e perfumada, à princesa, enquanto Isabel Velasco faz uma pequena inclinação para homenagear Margarida, ou talvez uma saudação ao casal real. Mari-Bárbola — anã alemã — muito bem vestida, encontra-se à direita de Isabel Velasco que olha para frente.

O rosto alinhando horizontalmente com o da princesa e o elegante vestido escuro só fazem aumentar a beleza da infanta. A seu lado encontra-se Nicolás Pertusato — anão italiano — com o pezinho sobre a traseira do cachorro que parece tirar uma soneca. A sua postura sonolenta é indicativa de que ali se encontra há bastante tempo. Ao colocar o pezinho sobre o flanco do animal, o anão traz para a obra um ar de espontaneidade. Um pouco atrás, a freira Marcela de Ulloa — responsável pelas damas — parece conversar com um homem hirto,  o guarda-costas que parece ter sua atenção direcionada aos reis. Outras análises dizem se tratar de um sacerdote.

O teto representa uma grande área escura que lembra o estilo barroco. Os suportes não possuem candelabros, mas direcionam o olhar para o fundo da sala, sendo que um deles aponta para o espelho com a imagem dos reis. Na parede lateral, à direita, é usado um jogo de luz e sombras, com o objetivo de ampliar a ilusão de profundidade do espaço, onde se desenrola a cena. Embora a luz diurna entre por uma das janelas desta parede, existem também outras fontes de luz a modelar as sombras.

Ao fundo vê-se uma porta aberta que dá para um aposento, uma escada e outra porta. José Nieto Velázquez (possivelmente parente do pintor) — camareiro da rainha — encontra-se nos degraus, emoldurado pelo marco da porta. Ele aponta para o retrato do rei e da rainha no espelho, para que não passem despercebidos. Uma forte luz origina-se do local. No alto da parede, onde se encontra o espelho, estão duas cópias dos quadros: Minerva e Aracne de Rubens, e Apolo e Pan de Jacob Jordaens, feitas pelo genro de Velázquez, Juan Bautista del Mazo.

A luz está assim distribuída na composição: forte na porta aberta e no espelho, indicando que os reis estavam clareados, enquanto posavam para o artista; intensa no primeiro plano e disseminada no fundo. As figuras da composição estão muito bem equilibradas: as três meninas equilibram-se com os dois anões e o cão no primeiro plano; Velázquez, de pé à esquerda, contrapõe-se ao guarda-costas e à freira, à direita, no plano médio; o reflexo do casal real no espelho equilibra-se com o camareiro à porta.

Por ter captado o instante exato em que tudo parece estar em ação é que a obra de Velázquez é tida como pioneira do impressionismo. Suas cores são discretas, com escassez delas na parte superior, com destaque para o branco, cinza e negro das vestimentas que trazem minúcias em vermelho. Ao apresentar os anões e o belo cão, Velázquez aproxima-se do impressionismo também. Não existe unanimidade em relação a quem (ou o quê) estava sendo retratado pelo artista. Uma das suposições é que se tratava do casal real, mas também poderia ser o retrato da princesa, embora ela se encontre atrás do pintor. O certo é que a composição é bastante intrigante.

Curiosidades:

  • A Infanta Margarida era chamada por seu pai de “minha alegria”. Aos 15 anos de idade ela se casou com seu tio Leopoldo I, imperador. Morreu aos 21 anos, deixando 4 filhos.
  • Velázquez conhecia a obra Os Esponsais dos Arnolfini que traz uma pintura no espelho.
  • O ponto de fuga da composição está na porta aberta ao fundo.
  • Os soberanos não são mostrados diretamente, ao contrário do pintor que parecia gozar de grande privilégio na corte, como prova o seu olhar altivo dirigido ao observador.
  • Segunda uma lenda, após a morte do pintor, o próprio rei pintou em vermelho a cruz da Ordem de Santiago no peito do pintor no quadro.
  • Questionamentos sobre a obra: O que Velázquez pinta na tela à sua frente? Onde estaria ele, para poder pintar a cena e a si próprio? Onde estão o rei e a rainha na sala, para terem o reflexo no espelho?
  • Os quadros identificáveis na parede são: “Apolo e Pan” da escola de Rubens, e cópia de um Jardaens, de Mazo, ambos no Museu do Prado.
  • Pintores que fizeram uma leitura pessoal da obra ou nela se inspiraram: Francisco Goya, Edgar Degas, Édouard Manet, Max Liebermann, Franz von Stuck, Salvador Dalí, Richard Hamilton, Pablo Picasso, etc.

Ficha técnica:
Ano: 1660
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 212 x 147 cm
Localização: Museu do Prado, Madri, Espanha

 Fontes de pesquisa:
Barroco/ Taschen
Tudo sobre arte/ Sextante
Grandes mestres/ Abril Coleções
Grandes pinturas/ Publifolha
Arte em detalhes/ Publifolha
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura…/ Konemann
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha

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AS BALSEIRAS DO RIO AMAZONAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Na década de 1940, quando a madeira passou a ser a principal força econômica de algumas áreas, o hábito das ribeirinhas de sair em canoas para pedir aos passageiros de barcos de grande porte algum presente intensificou o complexo mundo das trocas de mercadorias por relações afetivas. As teias e os sentidos desses comportamentos não são facilmente identificáveis. (Agenor Sarraf Pacheco)

 Os cargueiros cruzam diariamente a bacia amazônica, e alguns de seus tripulantes aproveitam para trocar óleo diesel por dinheiro e alimentos com os ribeirinhos. Nas trocas também pode entrar o contato íntimo com as mulheres, moradoras das margens dos rios.

Não é fácil a vida dos ribeirinhos, que vivem praticamente da venda de açaí, mas, quando chega a estação das chuvas, no final do ano, período que eles chamam de inverno, as palmeiras cessam de produzir o fruto tão necessário à vida daquela gente. É a época em que muitos se dedicam ao comércio ilícito de óleo diesel, tão necessário para alimentar os geradores e produzir eletricidade, numa região tão esquecida pelos governantes deste país, principalmente os responsáveis pelo destino de cada Estado, onde vivem os ribeirinhos.

As balseiras são as mulheres que navegam pelos rios da bacia amazônica, em seus rústicos barcos, vendendo açaí, camarão, tapioca e refrigerantes para os cargueiros. Elas ancoram suas canoas próximas aos cargueiros e sobem neles. Muitas delas deixam as embarcações com uma semente plantada no ventre, e nas mãos trazem insignificantes presentes. Essa relação não é vista como prostituição, mas como necessária ou tolerável, como se fizesse parte da vida silenciosa daquelas mulheres no seu universo tão solitário e cheio de necessidades. O fato é visto com tanta naturalidade que, em certas famílias, é possível encontrar três gerações de mulheres vivendo desse trabalho.

A “Lenda do Boto” é conhecida em toda a região amazônica. Ela narra que o boto deixa o rio para seduzir as jovens e, após engravidá-las, volta para as águas de onde saiu. Os filhos gerados passam a ser os filhos do boto. Os homens que vêm nos navios cargueiros, assim como o boto, exercem certa magia nas mulheres ribeirinhas, as balseiras, que sonham com uma vida diferente da que levam ali. Elas querem que um “príncipe encantado” leve-as para longe, onde possam ter uma vida sem tanto sofrimento. E os filhos gerados através deles, passam, de certa forma, a ser também filhos do boto ou filhos do rio, uma vez que a maioria deles jamais conhecerá o pai.

É principalmente a esperança de uma vida melhor que leva as balseiras a buscarem um relacionamento amoroso nos cargueiros de linha. Com o tempo, os tripulantes vão se tornando conhecidos, de modo que cada mulher sabe qual é o seu homem. Enquanto ele estiver na área onde ela vive, terá que se manter fiel. Existem também aqueles, que passam por ali esporadicamente, portanto, não há cobranças de fidelidade nas relações amorosas.

É nesse vai e vem pelos rios da bacia amazônica, que crianças nascem, sem conhecer o próprio pai, sendo muitas delas de uma mesma mãe, mas de pais diferentes. Tomara Deus que um dia as coisas mudem, e que essa realidade tão penosa venha a se tornar apenas uma lenda. A lenda das balseiras da Região Norte brasileira.

Fonte de pesquisa:
Revista National Geographic/ Novembro de 2012

Nota: Imagem copiada de viajeaqui.abril.com.br

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Velázquez – A FORJA DE VULCANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição A Forja de Vulcano foi pintada enquanto Diego Velázquez encontrava-se na Itália, durante a primeira vez que esteve naquele país. Trata-se de um tema mitológico que representa o exato momento em que Apolo, deus da juventude e da luz, fala a Vulcano, deus do fogo, sobre a infidelidade de sua mulher, Vênus, deusa da beleza e do amor, que está a traí-lo com Marte, deus da guerra. Ao receber a notícia da infidelidade de sua esposa, Vulcano fica tão chocado, que chama para si a atenção dos ciclopes, seus companheiros de trabalho, que interrompem o que estavam fazendo.

O pintor colocou no rosto de cada personagem uma reação divergente. Vulcano mostra-se espantado e irado, ao receber uma notícia de tamanho impacto emocional, enquanto seus quatro ajudantes mostram surpresa e sobressalto diante de tão perturbadora informação. O deus Apolo, de pé na entrada da oficina de ferreiro, está iluminado, enquanto a forja está na sombra.  Os corpos estão na vertical, e vários objetos encontram-se entre eles. O jogo de olhares traz tensão à cena.

Nesta composição, do início de sua maturidade, Velázquez usa tons mais fortes do que os usados nas composições anteriores, como o vermelho-alaranjado da túnica de Apolo, a chama da forja e o metal vermelho incandescente, que Vulcano trabalha sobre a bigorna. As figuras exibem corpos escultóricos de pele iluminada, com tonalidades diferentes. A pintura possui eixo central, com ramificações oblíquas e deslocamentos multidirecionais.

O pintor transformou um tema mitológico numa cena real, em que Vulcano é um ferreiro comum, trabalhando na sua forja, e os ciclopes são seus aprendizes ou funcionários. Apolo apresenta-se como deus, com sua aureola brilhante  e sua coroa de louros. É ao mesmo tempo o deus da poesia e o símbolo do Sol. Ele é a luz que ilumina Vulcano, para que tome conhecimento da traição de sua mulher, Vênus.

Ficha técnica:
Ano: 1630
Dimensões: 223 x 290 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Museu do Prado, Madri, Espanha

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
Velázquez/ Taschen
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
Pinturas da Espanha/ Jonathan Brown

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