Velázquez – O AGUADEIRO DE SEVILHA

Autoria de Lu Dias Carvalho

               aguad   aguadeiro1

A composição intitulada O Aguadeiro de Sevilha é uma das obras mais importantes do pintor espanhol Diogo Velázquez que apresenta um velho aguadeiro das ruas de Sevilha. Foi dada de presente a seu padrinho Juan Fonseca de Figueroa — capelão real de Sevilha, homem dotado de grande erudição e autor de um tratado sobra pintura antiga — após seu retorno de Madri, onde fazia sua segunda viagem.

A composição acima é uma pintura de gênero — estilo criado pelos holandeses visando mostrar a habilidade que possuíam na pintura. O homem idoso e mal vestido, carregando um cântaro, oferece uma taça com água a um garoto bem arrumado. Seu rosto mostra-se cansado e cheio de rugas. Sua capa está esburacada. Embora esteja vestido com vestes esfrangalhadas, ele repassa uma grande respeitabilidade, sendo dignificado pela luz jogada sobre suas roupas e perfil.

A mão bem feita do aguadeiro repousa delicadamente sobre a bilha de barro. Entre ele e o garoto podemos ver outro homem com um copo de vidro à boca — bem na penumbra — tomando com ansiedade a sua água. Todos os personagens encontram-se bastante sérios nesta cena simples. Sobre o banco de madeira tosca vê-se a superfície vidrada do jarro de louça. O jogo de luz cai sobre o copo transparente que tanto o garoto quanto o aguadeiro seguram. No vaso grande e bojudo, onde gotas de águas deslizam, vê-se maravilhosamente os rastros da água que derramou.

As figuras humanas e os objetos que se localizam no lado esquerdo da tela recebem a luz, enquanto o lado oposto fica na meia sombra. A iluminação na composição parte do cântaro, passa pelo recipiente menor que se encontra sobre a mesa, atinge o pescoço e a face do garoto, passa pelo rosto do aguadeiro, atinge a manga branca de suas vestes e acaba na asa do mesmo cântaro e mão esquerda do ancião — descrevendo uma linha oval (ver ilustração menor). Tudo está pintado tão real que se tem a impressão de poder tocar qualquer um dos objetos.

Os tons castanho, cinza e esverdeado são predominantes na composição, onde tudo é harmoniosamente suave, tornando a pintura muito atraente, lembrando, de certa forma, as obras do genial Caravaggio com seu “naturalismo”, mas cheia de uma grande calma. A personagem principal da composição — o aguadeiro — é um vendedor de água originário da Córsega que se tornou muito conhecido nas ruas de Sevilha.

O figo que se encontra dentro do copo do garoto tinha por objetivo tornar a água mais fresca — como pensavam à época. Chamam a atenção a transparência do copo de vidro, assim como o brilho dos cântaros e as gotas de água a escorrer do jarro maior.

Ficha técnica:
Ano: 1620
Técnica: óleo sobre tela colado em madeira
Dimensões: 106 x 82 cm
Localização: The Wellington Museum, Londres, Grã-Bretanha

Fontes de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
Pintura na Espanha/ Cosac e Naify Edições
Velázquez/ Taschen
1000 obras-primas…/ Konemann

Views: 64

Velázquez – O PINTOR DOS PINTORES

Autoria de Lu Dias Carvalho   vel

Só para ver Velázquez já vale a pena a viagem [à Espanha[; é o pintor dos pintores. Ele não me assombra, me deixa maravilhado. (Edouard Manet)

Sua principal tarefa era a de pintar retratos do rei e dos membros da família real, poucos dos quais exibiam rostos atraentes  […]; mas Velázquez transformou esses retratos […] em algumas das pinturas mais fascinantes que o mundo já viu. (E.H. Gombrich)

Sevilha foi um ambiente muito propício para o futuro pintor, pois, além de ser a cidade mais rica e povoada da Espanha, era também um grande centro cultural, para onde convergiam as mais importantes correntes artísticas europeias. Ao se tornar aprendiz do pintor e escritor Francisco Pacheco, Velázquez,  sempre aberto às novas ideias oriundas do restante da Europa, apreendeu no ateliê do mestre o que para ali levavam pintores, poetas, músicos, filólogos e teólogos. Tudo isso aliado à sua sede de conhecimento e ambição de subir na escala social.

Francisco Pacheco não era conhecido como um exímio pintor, mas transmitiu ao aluno os fundamentos teóricos e práticos do desenho e da pintura, além de ser um grande adepto da liberdade artística, deixando Velázquez livre para escolher seu próprio estilo. De modo que o artista foi muito importante para a escola pictórica de Sevilha, tendo ali introduzido o realismo barroco, influenciando muitos pintores de sua geração.

Ao se tornar pintor de câmara do rei Filipe IV, Velázquez teve acesso às ricas coleções do palácio, onde se encontravam obras dos mais importantes pintores europeus das mais diversas épocas, e que muitas influências trouxeram-lhe. Ficou muito impressionado com o estilo do genial Caravaggio, que conhecera através de obras de imitadores.

Seguidor dos ensinamentos de seu mestre e sogro Francisco Pacheco, partidário da liberdade artística, Velázquez não queria ser um pintor que dependesse dos pedidos da Igreja e da nobreza, limitando seu talento à feitura de imagens religiosas e retratos que agradassem aos nobres. Interessava-lhe, sobretudo, apresentar a realidade como ela lhe aparentava.

À observação exata do natural, Velázquez adicionou a técnica do tenebrismo, em que são ressaltados os contrastes entre as partes escuras e as iluminadas, através de um único facho de luz, recurso usado por Caravaggio, para colocar em evidência as formas e volumes de suas figuras. Embora gostasse de pintar personagens populares, o artista não se deixava levar pelo elemento cômico ou ridículo, guiava-se por seus princípios éticos, destacando-lhes a individualidade e a dignidade, como é o caso do quadro acima, denominado Francisco Lezcano, o Menino de Vallecas. Ao retratar seus personagens, o pintor não apenas usava o corpo como modelo, mas também incluía a alma. Suas pinturas, quase sempre, denotam uma grande calma. Era também um excelente colorista.

Velázquez pintou poucas obras com temática religiosa, se levarmos em conta a sua prodigiosa produção. Em algumas delas, o pintor fez um quadro dentro de outro, ou seja, o divino convive com o terreno no mesmo quadro, quando ele, através de um quadro, espelho ou janela, joga a cena religiosa no fundo da composição principal, como vemos em Cristo na casa de Marta e Maria.

Seguindo a orientação do amigo Peter Paul Rubens,Veláquez partiu para Itália, onde visitou as cidades de Gênova, Milão, Veneza, Ferrara, Cento, Roma e Nápoles, visitando todos os lugares nos quais se encontravam obras de arte e desenhando-as.  Encantou-se com os pintores venezianos como Tintoretto, Ticiano e Verones, efetuando cópias de muitas de suas obras. No Vaticano, estudou e copiou obras de Rafael e Michelangelo. Em Napóles, conheceu o pintor barroco José de Ribera, o Españoleto. Na Itália, Velázquez também pintou algumas obras importantes como A Forja de Vulcano  e Jacó recebendo a Túnica de José. Ao retornar a Madri, abriu mão do tenebrismo para adotar uma pintura mais luminosa.

Por sua função no palácio, Velázquez devotou-se aos retratos, transformando-se em um dos mais consagrados retratistas de todos os tempos. Dentre os retratos da nobreza encontravam-se também cenas campestres e bufões, encarregados de alegrar a corte, de quem o pintor captava, sobretudo, a psicologia, coisa incomum à época e até considerada de mau gosto pelas normas das pinturas da corte. Nas cenas equestres e de caça, Veláquez notabilizou-se pela maestria com que pintava paisagens e o realismo com que compunha os cavalos, com os músculos flexionados.

Na corte, o artista ocupava-se quase que exclusivamente com a pintura de retratos e, praticamente das mesmas pessoas. Mas, mesmo assim, confeccionou obras belíssimas que enriqueceram a arte ocidental. Velázquez é tido como o pioneiro da pintura impressionista, por aprisionar ambientes, cores, movimentos e formas em um instante de fugidia iluminância. O artista foi um mestre ao lidar com a luz. Artistas posteriores a ele, tais como Francisco Goya, Édouard Manet, James Abbot e Picasso foram inspirados por sua obra.

O professor Ernest H. Gombrich assim define o estilo Diego Velázquez:

Não há nada suntuoso no estilo de Velázquez, nada que nos surpreenda à primeira vista. Mas quanto mais contemplamos seus quadros, maior é a admiração que sentimos por suas qualidades artísticas.

Nota: Retrato Equestre do Príncipe Baltazar Carlos, Veláquez, 1634/1635

Ficha técnica:
Data: 1636 – 1644
Dimensões: 107 x 83 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Museu do Prado, Madri, Espanha

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
501 grandes artistas/ Sextante
Pintura na Espanha/ Jonathan Brown
Veláquez/ Tachen

Views: 13

Mestres da Pintura – DIEGO VELÁZQUEZ

Autoria de Lu Dias Carvalho

vel

Eu preferiria ser o primeiro pintor das coisas comuns do que o segundo de temas da arte elevada. (Velázquez)

Diego da Silva Velázquez (1599–1660) pintor espanhol, encontra-se no rol dos maiores pintores da história da arte. Seus pais, Juan Rodríquez da Silva e Jerónima Velázquez, ambos de Sevilha, faziam parte da pequena nobreza e gozavam de pequeno prestígio social e político. De modo que, ao descobrirem o talento do primogênito da família para o desenho, tudo fizeram para encaminhá-lo em sua vocação.

Aos dez anos de idade o menino foi estudar com o pintor Francisco Herrera, o Velho, mas ali ficou poucos meses, pois não se agradou do jeito do mestre. A seguir ele foi estudar com o renomado pintor Francisco Pacheco, de erudição humanista e em cujo ateliê reunia-se o grosso da intelectualidade, o que muito contribui para a sua formação. Aos dezoito anos de idade casou-se com Juana Pacheco, filha do mestre.

Diego Velázquez aos 22 anos de idade já era considerado o principal pintor de Sevilha e um dos mais proeminentes da Espanha, mas  sabia que, se ali permanecesse, teria que depender principalmente das encomendas da Igreja. Ele queria para si horizontes mais amplos. À época a sua arte ainda era vista como um trabalho de pouca importância. E, sob a influência do sogro, aos vinte e quatro anos foi admitido no cargo de pintor de câmara do rei Filipe IV, ocasião em que deixou sua cidade para morar em Madri.

Em Madri, Velázquez travou amizade com o famoso pintor francês Peter Paul Rubens que ali se encontrava em missão diplomática,  durante quase um ano, e que acabou incentivando-o a viajar para a Itália, alegando que a essência da boa pintura estava em Veneza. Seguindo a orientação do amigo que lhe dizia que era preciso analisar as pinturas venezianas in loco para se tornar um bom pintor, Velázquez conseguiu que o rei Filipe IV liberasse-o para a viagem. E, após se ausentar por um período de um ano e meio, Velázquez, a pedido do rei, retornou a Madri, onde exercia atividades artísticas e administrativas.

Velázquez fez uma segunda viagem à Itália com o objetivo de comprar obras para a coleção real, contratar artistas para ornamentar os palácios e realizar cobranças no vice-reinado de Nápoles. À época, famoso com o retrato do Papa Inocêncio X, acabou retratando outros personagens da cúria romana. Recebeu ali muitas honrarias pelo seu talento de pintor capaz de transmitir o caráter do personagem retratado. O artista era tão fiel em retratar, não apenas o passar dos anos no semblante da pessoa, como o que lhe ia pela alma, a ponto de o rei Felipe IV, que atravessava um período de crise econômica e social, relutar durante muito tempo em ser pintado por ele.

Diego Velázquez era um homem retraído e ambicioso, sempre em busca de honra e promoção social. Era movido, sobretudo, pelo desejo de fazer parte da nobreza. Portanto, o título de Cavaleiro da Ordem de Santiago coroou-lhe as ambições, embora tenha tido que provar que não possuía sangue impuro — que não era descendente de judeus, mas sim de nobres — o que era real, mas que não tinha comprovação. É claro que contou com a ajuda do rei.

Diego Velázquez morreu um ano após receber o título de Cavaleiro da Ordem. Seu corpo foi sepultado na igreja de San Juan Bautista, mas, como Napoleão destruiu a igreja em 1811, não se sabe mais onde se encontram os seus restos mortais. Cabe ressaltar que o pintor viveu na idade do ouro da pintura espanhola, pois o rei Filipe IV que nutria por ele grande afeição, era um grande amante da pintura

Nota:  Autorretrato do pintor

Fontes de pesquisa:
Grandes Mestres/ Editora Abril
História da Arte/ E.H. Gombrich

Views: 6

TAIGUARA (I) – O SONHO DE LIBERDADE

Autoria de Edward Chaddad

tai

Nosso povo sempre sonhou em ser livre.

O Hino à Proclamação da República que havia sido feito, na verdade, para ser o Hino Nacional, mostrava, com toda ênfase, em versos fortes, este sentimento que habitava o seio de nossa Nação: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós…”. Todavia, mesmo depois da proclamação da República, tivemos pouco tempo de democracia, tênue e frágil, tempo do coronelismo, da elite agroexportadora, época em que o povo votava a descoberto, vigiado, e as mulheres nem tinham este direito. Na primeira República, também chamada de República da Oligarquia, imperava o liberalismo, que fragilizava o Estado e concedia total liberdade social, econômica e política ao setor privado, esmagando o trabalhador.

A libertação dos escravos deu abrigo à escravidão do trabalhador, sem legislação que o protegesse, restando sem horário de trabalho, sem férias, sem descanso semanal, sem o mínimo de remuneração para sobrevivência própria e de sua família. Sem nada, sem garantia alguma, sem futuro!

A chamada primeira República teve vida efêmera e, com a crise de 1929, trouxe-nos o Estado Novo brasileiro, introduzindo a ditadura de Getúlio, como reação ao declínio do liberalismo no mundo e ao avanço do comunismo. Para tanto, basicamente Getúlio promoveu mudanças sociais, máxime com introdução das leis trabalhistas. Porém, também legou-nos a censura, a ausência e agressão à liberdade diante um poder ditatorial.

Com o fim da 2ª Guerra Mundial, a queda de Hitler e a derrubada de quase todos os Estados Novos, o período ditatorial no Brasil finalizou, oportunizando a convocação de uma Assembleia Constituinte, que resultou na Constituição Federal de 1946, uma das mais bem elaboradas em todos os tempos, que marca o início da 2ª República, a verdadeira alvorada de um Estado democrático, onde o povo governa e a liberdade é o dogma que se devia respeitar. Naquele momento, com mais fervor, o País passou a acreditar que, com a democracia, íamo-nos tornar livres, fazendo valer a vontade coletiva, dentro da legalidade.

Porém, a trégua demorou pouco e, logo, em 1964, com a ditadura militar, o sonho novamente se desmoronou e passamos por 21 anos de trevas, em que o ir e vir só era possível para alienados ou ignorantes, também aos cidadãos fragilizados e impotentes diante do reino da vontade de poucos. Voltamos neste período negro da história de nossa República a sentir o gosto amargo do silêncio, sob as penas da lei do suserano, até a Nova República, em 1985.

Neste período – regime militar – (1964/1985), aqueles que se atreviam a protestar, a contrariar o poder ditatorial, clamando pela democracia, eram presos, inclusive muitos deles torturados. Houve mortes e desaparecidos. Outros se autoexilaram ou fugiram para países que lhes deram abrigo e proteção. Entre eles, políticos, jornalistas, cientistas, professores, estudantes, liberais, artistas e soldados de nossa Pátria.

Taiguara Chalar da Silva, nascido no Uruguai, filho de músico, o maestro Ubirajara Silva, mas que, aos quatro anos de idade, veio residir no Brasil, tornou-se um brasileiro por vontade e escolha própria, um ser humano que amou demais o Brasil e a liberdade. Na década de 60, estudava Direito, quando desistiu da futura profissão para se dedicar exclusivamente à música, tornando-se um artista extraordinário. Taiguara não foi somente um cantor. Era também um grande músico, um pianista e compositor maravilhoso. Ele chegava ao sublime quando, no piano, cantava e tocava as músicas que compôs, onde desfrutava a liberdade que ela, a música, proporciona ao ser humano.

“In veritas”, falar sobre a música é descrever a liberdade. Nela não há limites para a imaginação, para a criação, para o revelar do que mais intimamente vai no interior, no coração do compositor, seja nas notas musicas, seja nas letras que descrevem o desejo mais forte de liberdade! Por isso, Taiguara foi o artista mais censurado pela ditadura. Mais de cem músicas de sua lavra foram contidas na sua divulgação.

Pressionado pelos donos do Poder, embora considerado um dos símbolos da resistência à censura, Taiguara não teve outra saída que não se autoexilar, buscando segurança até que o pesadelo passasse, até que as trevas se dissipassem, até, como ele cantou, o amanhecer, com os raios brilhantes do sol, anunciando a liberdade, viesse.

Para ilustrar este primeiro texto sobre Taiguara Chalar da Silva, um dos mais importantes compositores de nossa música, escolhi a sua composição que mais reflete o seu sonhar pela liberdade. E não só a música, mas a letra desta música tem um significado maravilhoso, escondido no seu coração.

Que as Crianças Cantem Livres

O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé.
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é.

Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal

Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer…

Nota:

Há um vídeo, no Youtube, onde Taiguara interpreta esta música e, além de mostrar um pouco de seu drama, revela-se um ser humano altamente sensível e que nos emociona intensamente ainda hoje. Cliquem no link abaixo para ouvirem a música:

http://www.youtube.com/watch?v=wrWSACrF7hE

Views: 22

PERGAMINHO, SALTÉRIOS E MONGES COPISTAS

Autoria do Prof. Pierre Santos

 pp6      pp5

O pergaminho substituiu o papiro no qual se registraram os primeiros códices, porque era mais duradouro. Sua designação deriva do nome de Pérgamo, cidade da Ásia Menor, onde foi melhorada a invenção do pergaminho, que logo se difundiu pelo mundo.

Nos saltérios eram também registrados cânticos do Novo e do Antigo Testamento, Ladainhas de Todos os Santos e Ladainhas gerais, músicas devocionais de reza coletiva, etc. Os monges copistas foram se especializando cada vez mais, a ponto de criarem, para valorização dos textos, riquíssimas iluminuras ornamentais e ilustrativas, a saber, que todas as páginas passaram a ser iluminadas até com sofisticação, havendo desenhos que atingiram o nível de sublimes obras de arte. Quando incluso numa bíblia, o saltério ocupava sempre a parte central, significando o momento de descanso, relaxamento e enlevo, tal a sutileza dos salmos, em face do caráter sisudo do texto bíblico.

O cântico dos salmos na Idade Média era acompanhado pelos sons dolentes e gentis tirados das cordas beliscadas ou batidas por um plectro de um instrumento musical homólogo, do qual o saltério (o livro) tirou o seu nome. Por conseguinte, o saltério (do grego: pali = psalterion) é um instrumento musical de madeira de forma triangular ou trapezoidal, tocado na horizontal (portanto apoiado num móvel), que serve de caixa de ressonância para os sons, em cuja madeira são fixadas várias cordas por cavilhas (também do grego: sali = psalmós, que significa cordas em grego), podendo ser beliscadas pelos dedos ou tocadas pelo plectro, espécie de varinha de marfim, com que se tangem as cordas dos instrumentos, sendo o saltério da ordem da harpa, da cítara, da lira e do violino. Os salmos desta forma cantados e acompanhados pelo instrumento estão na origem da missa cantada.

O saltério não era um instrumento fácil de ser manuseado, pois, por ser um tanto quanto primitivo em face da harpa, por exemplo, exigia do instrumentista um virtuosismo bem maior do que os outros instrumentos, para que o acompanhamento chegasse ao nível da música entoada. Assim, o tocador tinha o tempo todo que reinventar a música, tirando os sons com o plectro e, com a ponta dos dedos, abafando ou alteando a sonoridade, conforme a entonação do coro.

Havia saltérios em que as cavilhas eram dispostas em forma de arco, ou seja, de forma abaulada, e as cordas nelas fixadas tinham de ser tocadas, ou seja, tangidas por um arco do tipo daquele com que se toca violino. Os saltérios deste tipo, quando mais longos, permitiam que dois arcos fossem usados ao mesmo tempo, um na parte inferior e outro na superior. Claro que os sons assim emitidos eram diferentes: os da parte inferior saiam mais baixos e os da superior, mais altos; disto resultava uma espécie de dueto, em que um fazia a primeira pauta e o outro a segunda, como num dueto cantado, em que uma pessoa fazia a primeira voz e a outra a segunda. Os saltérios de cavilhas presas no mesmo nível eram mais comuns.

Fecho os olhos e fico imaginando o quanto a união entre vozes em coro e sons tirados do instrumento, seja com o plectro, seja com os dedos, devia resultar em algo divino e embevecedor, a reboar espaço afora.

Ilustrações
 1.Livro em pergaminho e em rolo, medieval.
2. Saltério medieval de 21 cordas, séc. X.

Views: 29

A OFICINA DE CONSERTAR GENTE

Autoria de Lu Dias Carvalhoboneco1

A vida lá fora segue como de costume. Coisa alguma parou a sua atividade. Tampouco a natureza fez uma pausa no seu trabalho diário. As ruas estão apinhadas de gente, nas idas e vindas diárias. O sol caminha exuberante por um céu azul com pouquíssimas nuvens brancas. As flores desabrocham nos quintais e jardins. As árvores baloiçam felizes ao sabor de uma brisa que vem e vai, de acordo com sua vontade. As pessoas confabulam, sorriem, compram, comem, embora algumas andem apressadamente, como se tivessem muito ainda a fazer. Outras caminham em passos lentos, parando aqui e acolá, sem nenhum compromisso com o tempo. Será que existe outra vida afora esta? Será que em algum lugar da cidade habita o sofrimento? Sim, pois a vida sempre mostra a sua duplicidade.

A mulher acompanha o marido no PA de uma Oficina de consertar gente. Muitas são as pessoas necessitando de restauração e poucas são as vagas. A primazia é daquelas que podem pagar pela reforma, sem depender de plano algum, embora os donos da Oficina de Gente sempre neguem isso, falando que todos são iguais. Mas todos sabem que não é bem assim, pois os donos de tais oficinas e seus operários não querem mais receber dos chamados Planos de Conserto. Dizem que eles pagam uma miséria e que não justificam o tempo com os reparos feitos, no que concordo plenamente com eles, pois, o trabalho dos mestres e de seus auxiliares precisa ser feito com maestria e muito amor. Eles lidam com uma matéria-prima delicadíssima: o corpo humano. Contudo, os bonecos humanos, que durante anos a fio vêm pagando um Plano de Conserto, abrindo mão de muitos prazeres da vida, não têm culpa alguma. É o sistema que permite que tais planos tenham compromisso apenas com o lucro pecuniário, sem nenhuma preocupação com a qualidade da restauração de seus assegurados, pagando uma mixaria às Oficinas de Conserto que se veem enraivecidas com o descaso. Leis rígidas deveriam penalizá-los, para que seus assegurados não viessem a pagar o pato. Num país que tem a ética por bandeira, a saúde jamais estará a serviço do capital doentio que abocanha tudo com sua boca desmedida e mandíbulas ferozes, de modo que os artífices e os ajudantes de tão preciosa restauração trabalham com prazer e dedicação plena.

A mulher e seu homem encontram-se ainda no PA, aguardando a bendita vaga que não aparece. Ali, os bonecos humanos não têm direito à alimentação e tampouco ao banho, mesmo que a espera dure uma semana, pois, segundo o parecer da Oficina de Conserto, ainda não se encontram legalmente internados. O que não deixa de ser uma cruel ironia, pois o banho é muito necessário aos doentes, muitos deles com as roupas íntimas molhadas pela dor excessiva, e a comida deveria ser balanceada para eles, dentro dos critérios de cada caso. O soro desce dolentemente pela veia do marido. No compartimento ao lado, cercado por uma cortina azul, dona Suely, com fortes dores nos pulmões e falta de ar, também espera por vaga. Em mais dois leitos a situação é a mesma. Lá fora, no corredor, um grande número de bonecos aguarda por consultas, alguns deles serão indicados para a internação. Pobres bonecos humanos!

Gemidos agudos varam a noite. Irmã e filha adolescente rodeiam o leito da mulher com rosto de cera e olhos profundos, perdidos na vastidão de seu sofrimento. Somente a injeção de morfina dá um alento para a dor que a consome em vida. Uma jovem e bonita mulher, Cida, entrou no PA aos gritos. Um quisto no ovário dobrava-a em duas. Medicada, dormiu como um anjo. Recebeu boas novas: poderia voltar para casa. Nos outros leitos, dois bonecos já desgastados pelo tempo dormem profundamente sob o efeito de remédios. Também são liberados. Mal saem, outros ocupam seus lugares, num vai e vem sem fim. O marido só faz dormir, aguardando tranquilamente o desenrolar de seu caso. Vez ou outra solta um suspiro profundo, nascido do mais íntimo de seu ser. Sua paciência e tranquilidade acalmam o coração aflito da mulher, ansiosa para que tudo se resolva logo. Mas há tantos bonecos humanos precisando de conserto, em casos tão desesperadores, e são tão poucas as prateleiras onde poderão ficar, que as palavras de ordem são “esperar… e … esperar”.

A mulher refugia-se em seus pensamentos, como uma forma de minimizar sua dor, ao ver tanto sofrimento naquela Oficina de Conserto. Ela se condói com a fragilidade e impotência dos bonecos humanos. Apresentam-se em todas as idades, tipos físicos e classes sociais. Ali, todos se igualam no infortúnio e na busca pela restauração da saúde. Ela conclui em seu coração:

– O ser humano não é nada! Absolutamente nada! Todo o espírito de superioridade que carrega ao longo da vida é vão e inglório. Quem sabe seja essa uma verdadeira lição de vida!?

Nota: Imagem copiada de www.viaeptv.com

Views: 18