PÉ PRA O QUÊ?

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 Autoria de Alfredo Domingos

pes

– pra refrescar, pé de vento;
– pra comer, pé de couve;
– pra proteger, pé de coelho;
– pra conversar, pé de ouvido;
– pra salientar, pé de mesa;
– pra entrar, pé direito;
– pra sair, pé no rabo;
– pra sambar, pé de malandro;
– pra saborear, pé de moleque;
– pra beber, pé de cana;
– pra amealhar, pé-de-meia;
– pra nadar, pé de pato;
– pra trabalhar, pé de boi;
– pra vagabundear, pé de chinelo
– pra costurar, pé de máquina;
– pra dançar, pé de valsa;
– pra correr, pé que te quero;
– pra viajar, pé na estrada;
– pra acelerar, pé de chumbo;
– pra rezar, pé de santo;
– pra musicar, pé de bode;
– pra sonhar, pé deitado;
– pra casar, pé de alferes; e
– pra amar, pé com pé.

 

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O BARATO SAI CARO

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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Belizário Gomes não abria a mão nem para dar bom dia. Era um pão duro de fazer inveja aos mais canguinhas. Num certo dia, o dito cujo resolveu ampliar sua casa para guardar os mantimentos produzidos no quintal, dos quais não doava nem uma palha de milho. Chamou todos os pedreiros da região para fazer um orçamento, mas não se ajeitou com nenhum deles. Alegava para cada um que o preço estava exorbitante e que não era dado a jogar dinheiro fora.

O resmelengo acabou chamando o irmão, Bené Gomes, para fazer o serviço. Sabia que qualquer gorjeta seria suficiente para ele, pois só andava na lona. Só havia um senão, Bené jamais havia botado a mão num cabo de colher de pedreiro, não tendo nenhuma noção do serviço. Quando a mulher alertou Belizário para o problema, alegando que poderia ter um grande prejuízo, ele respondeu de pronto:

– Se até  as abelhas, os cupins, as formigas, os castores e os joões-de-barro fazem a própria casa, quanto mais um homem forte e munido de cachimanha como Bené. Além do mais nos tempos de hoje está aí o mestre Google.

A casa foi subindo, adobe por adobe, sem amarração, sem prumo algum. Como Bené estava comendo e dormindo na residência do irmão sovina, queria que o serviço fosse o mais alongado possível, além do mais não conhecia nem mesmo o bê-á-bá daquela profissão. Os adobes eram grudados com umas pás de cimento, cuja massa era feita “tudo pro rumo”, conforme diziam as más línguas.

O tempo encalacrou lá para aquelas bandas, apresentando um mormaço pesado. Foi então que o céu azulou de chuva avisando que o temporal estava a caminho. Não se ouvia nem mesmo um latido de cachorro ou rebusnar de jumento ou o zumbir de um besouro. Parecia estar chegando o fim do mundo. Dona Zirinha pegou seus quatro bruguelos e foi dormir na casa da mãe, ali chegando exasperada:

– Eu não durmo naquela arapuca com os meus filhos nem que a vaca tussa. Se Belizário quer morrer, isso é problema dele, mas que morra sozinho.

Dizem que praga de mulher é a pior das sentenças. Lá pelo meio da noite só se ouviu o estrondo da construção de Belizário e de seu irmão Bené, ruindo conforme previra Zirinha e toda a população do lugar. Até mesmo os bichos sabiam do que ia acontecer, pois nem Valentia e Balacobaco, os dois cachorros, e o gato Borogodó ficaram na casa. Os dois irmãos foram retirados com vida, debaixo de montanhas de adobes. Ambos com cara de quem comeu e não gostou. Foram salvos por um triz. O primeiro quebrou as duas pernas e o segundo um braço, isso sem falar nas escoriações por todo o corpo.  E como dizia a esposa do avarento, o barato, muitas vezes, sai caro. E como sai!

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NOITE ESTRELADA SOBRE RÓDANO / TERRAÇO… (Aula nº 89 E)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

   

Estou terrivelmente fascinado pelo problema de pintar cenas ou efeitos noturnos no local, ou melhor, à noite. Com frequência penso que a noite é mais rica e viva em cores do que o dia. (Van Gogh)

Nos últimos anos de sua vida o pintor holandês demonstrou um grande interesse pelos céus noturnos. Dizem que nutria grande interesse pela astronomia, sendo um leitor assíduo de uma revista com tal tema. Segundo algumas fontes, quanto mais ele questionava a relação entre o homem e o Cosmo, mais se interessava por tal ciência. Em uma de suas cartas ao irmão Theo, ele fala com grande entusiasmo sobre as cores e cintilações das estrelas e outros corpos celestes: No azul profundo as estrelas eram cintilantemente esverdeadas, amarelas, brancas, cor-de-rosa, de um brilhante mais vítreo do que em casa – mesmo em Paris: chame-se lhes opalas, esmeraldas, lápis lazuli, rubis, safiras. Certas estrelas são amarelo-limão, outras têm um rubor rosa, ou um verde ou azul ou um brilho que não se esquece. E, sem querer alargar-me neste assunto, torna-se suficientemente claro que colocar pequenos pontos brancos numa superfície azul-preta não basta. (Carta de Van Gogh a Theo em 19 de junho de 1888)

Nesta aula, ao findarmos nosso estudo sobre as obras de Van Gogh, às quais acabei dando um destaque maior, possivelmente pela empatia que nutro pelo artista, faremos o estudo de duas de suas pinturas: Noite Estrelada sobre Ródano (à esquerda) e Terraço do Café à Noite (à direita). Outras obras maravilhosas do artista encontram-se neste site.

A tela Noite Estrelada sobre Ródano foi pintada em Arles, sul da França, para onde Van Gogh mudou-se em busca de luz e cor, nove meses antes de internar-se num sanatório. Apesar da exuberância das cores azul e amarela, vistas na pintura, tudo se mostra calmo e esplendoroso com as luzes naturais, vindas das estrelas, e a luz dourada das casas refletindo-se no rio. As ondulações da água trazem um clima romântico. O impacto visual causado é imediato, estabelecendo uma magia entre a pintura e o observador.

Esta cena noturna baseou-se, segundo os pesquisadores, numa experiência comovente da escuridão sem fim, que Van Gogh descreve numa carta ao irmão: Uma vez fui dar um passeio pela praia deserta, à noite. Não foi alegre, nem triste – foi belo.  O Ródano (francês Rhône) é um importante rio europeu que tem sua nascente na Suíça e acaba seu curso na França, onde desagua no mar Mediterrâneo. É o rio francês mais caudaloso e o mais importante rio europeu a desaguar no Mediterrâneo.

A composição intitulada Terraço do Café à Noite é uma obra de Van Gogh. Retrata a Praça do Fórum em Arles. Trata-se de uma cena noturna pintada no local. O artista tinha fascinação pelas noites provençais, cheias de estrelas, como podemos ver em muitas de suas telas. Sobre esta obra o artista assim se expressou: Aqui está um quadro noturno, sem ter usado tinta preta, somente azuis, violetas e verdes maravilhosos.

O céu de Terraço do Café à Noite encontra-se todo pintado de azul e não de preto, salpicado de estrelas de diversos tamanhos, embora seja noite. As pinceladas deixadas pelo pintor estão bem visíveis, pois a superfície não é alisada, sendo possível acompanhar o rastro do pincel. Várias pessoas estão assentadas em frente ao café. O garçom está vestido com um avental branco em meio aos clientes. Algumas mesas e cadeiras encontram-se vazias na entrada do café. Outras estão espalhadas pela rua à espera dos fregueses.

Alguns transeuntes conversam parados na rua. Um cavalo, que parece puxar uma carruagem, surge no centro da composição em direção ao café. Tanto as pessoas que se encontram na rua, quanto o cavalo recebem o reflexo amarelado da lâmpada a gás dependurada no café. Van Gogh usou a perspectiva na metade inferior do quadro, atraindo o olhar do observador em direção ao café. A composição apresenta duas fontes de luz: a natural – vinda das estrelas – e a artificial – vinda do café. Essas fontes se fundem, trazendo à obra uma luminosidade toda especial.

O café – em especial o toldo – apresenta inúmeros tons de amarelo que contrastam maravilhosamente com os diversos tons de azul. O verde também marca sua presença na tela. O vermelho está presente em pequena quantidade. Como o próprio artista registrou, embora se tratasse da noite, não existe a presença do preto.

Ficha técnica: (Noite Estrelada sobre Ródano)
Data: 1888
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 72,5 x 92 cm
Localização: Museu d`Orsay, Paris, França

Ficha técnica  (Terraço do Café à Noite)
Data: 1888
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 81 x 65,5 cm
Localização: Kröller – Müller Otterlo, Holanda

Curiosidades:
Àqueles que se sentiram emocionados com a história de Vincent van Gogh, sugiro as seguintes obras:

  • Sede de Viver – filme de Vincent Minelli
  • Sonhos – filme de Akira Kurosawa
  • Vincent e Theo – filme de Robert Altman
  • Van Gogh – filme de Maurice Pialat
  • Van Gogh/ Vida e Obra – Editora Taschen

Fontes de Pesquisa:
Van Gogh/ Editora Taschen
Tudo Sobre Arte/Editora Sextante
Van Gogh/Coleção Folha do Estado de São Paulo
Van Gogh/Abril Cultural

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VAI PENTEAR MACACOS!

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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O trânsito caótico de que têm sido vítimas as grandes cidades vem deixado os motoristas de cabelo em pé ou carecas no sentido literal. Parece que um tsunami passou pelas metrópoles brasileiras com força total.  Os engarrafamentos são monumentais e agressivos. Numa tentativa de sanar o problema, os responsáveis pelo trânsito tentam fazer pequenas e insossas mudanças que não levam a nada. Ruas que subiam e passam a descer e vice-versa. A mão inglesa está deitando e rolando, fazendo muitas coisas bobas por aí. É uma loucura generalizada.

Foi no meio dessa barafunda, dentro de um táxi mais parecido com uma lesma, tamanha era a lentidão do trânsito, que presenciei uma cena risível. Não é que certo cidadão, metido a biscoito de sebo no seu carro importado, deu uma fechada no táxi do meu amigo. Digo “amigo” porque depois de tanto tempo juntos, motorista e eu já tínhamos discorrido até mesmo sobre as pernas das centopeias. O motorista do “meu” táxi gritou para o infrator:

– Ei amigo, sua carteira está vencida!

– Vai pentear macacos! – respondeu o pernóstico, enquanto tentava passar entre dois carros a qualquer custo.

O meu novo amigo virou-se para mim e, sorrindo, complementou:

– Só se eu for ao zoológico, pois é o único lugar em Beagá, onde encontro macacos. O pente até que tenho, mas com este trânsito fica bem difícil ir ao zoo, a menos que o governador empreste-me seu helicóptero – complementou, sorrindo, o meu novo amigo, como se acontecido não tivesse sido com ele.

Confesso que não esperava por aquela explicação. Acabei caindo na gargalhada. Eu me deliciei com o humor daquele homem, já cansado, em meio ao desgoverno do trânsito, num dia de cão, certo de que rir é o melhor remédio. Parabéns, João Luís!

A expressão “pentear macacos” tem como origem a expressão portuguesa “Mau grado haja a quem asno penteia”. Não se adaptando à formalidade e à sonoridade do provérbio português, o brasileiro partiu para o popular, tornando a expressão mais simples e com um novo personagem. Alguns estudiosos da língua acham que o “pentear” português significava “escovar” os animais de carga, sendo o “asno” substituído posteriormente pelo “bugio” naquele país e por “macaco” no Brasil.

Tal expressão pode ser trocada por  “vai cuidar da tua vida”, “não amoles”, “cai fora”, “para de encher o saco”, “vai ver se eu estou na esquina”, “foda-se!” ou vai tomar naquele lugar. Uau!

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QUARTO EM ARLES e A CASA AMARELA (Aula nº 89 D)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

                                                               (Cliquem nas imagens para ampliá-las.)

 Uma luz amarela de enxofre pálido, limão dourado pálido. Que belo é o amarelo! (Van Gogh)

“A minha casa aqui é pintada por fora de amarelo manteiga e tem persianas em verde forte; fica rodeada de sol, numa praça, onde também há um parque verde com plátanos, aloendros, acácias. Por dentro é pintada de branco e o chão é de azulejos vermelhos. E por cima o céu de azul luminoso. Lá dentro posso, com efeito, viver e respirar e pensar e pintar”. (Van Gogh)

O Quarto em Arles (1888) é uma das pinturas mais conhecidas de Vincent van Gogh. A primeira versão foi feita apenas duas semanas depois de o artista terminar a obra A Casa Amarela, que retrata o local onde ele morou em Arles, e onde pensava instalar a sua tão sonhada comunidade dos artistas. O quarto fazia parte da “casa amarela”, nome com que a nomeou, tamanha era a sua paixão pela cor amarela.

O pintor holandês fez três versões da pintura referente ao seu próprio quarto e, segundo ele, a obra tinha o objetivo de trazer uma sensação de repouso e descanso, conforme escreveu a seu querido irmão Theo:

Desta vez é simplesmente um dormitório; só que a cor deve predominar aqui, transmitindo, com a sua simplificação, um estilo maior às coisas, para sugerir o repouso ou o sono. Em resumo, a presença do quadro deve acalmar a cabeça, ou melhor, a imaginação. As paredes são de um violeta pálido. O chão é de quadros vermelhos. A madeira da cama e das cadeiras é de um amarelo de manteiga fresca; o lençol e os travesseiros, limão verde muito claro. A colcha é vermelha escarlate. O lavatório, alaranjado; a cuba, azul. As portas são lilases. E isso é tudo – nada mais neste quarto com as persianas fechadas. O quadrado dos móveis deve insistir na expressão de repouso inquebrantável. Os retratos na parede, um espelho, uma garrafa e algumas roupas. A moldura – como não há branco no quadro – será branca.

Sobre a mesa vista na pintura encontram-se uma bacia com um jarro em seu interior, uma garrafa, um copo, um prato com sabão e um par de frascos e de escovas. O chão está pintado em variações da cor vermelha e verde e as pinceladas parecem simular faixas de madeira. O quadro que se encontra à cabeceira da cama é a reprodução da paisagem de Árvore Balançando ao Vento. Na outra parede existe um autorretrato do artista.

O dormitório de Van Gogh é de uma simplicidade extrema, possuindo apenas as coisas que lhe são necessárias. Contudo, não passa a sensação da tranquilidade tão desejada por ele. Ao contrário, destacam-se a solidão e a pobreza material em que vivia. O enquadramento e a disposição dos móveis e objetos no quarto deixam claro que ele não se encontrava muito lúcido na ocasião. Também é incomum duas cadeiras no quarto, o que evidencia o seu desejo por companhia.

Quando Van Gogh pintou Quarto em Arles, ele se via impossibilitado de trabalhar ao ar livre, porque era a época do vento mistral (vento violento, frio e seco, que sopra no N. da região sudeste da França) que trazia muitas lufadas de ar frio. Além disto, ele se encontrava com a vista muito fraca. Recentemente esta obra foi restaurada, pois, segundo informações do Van Gogh Museum`s, as cores da pintura esmaeceram-se com o tempo. O mais interessante é que a sua restauração pode ser acompanhada através de um blog hospedado no site do museu em Amsterdam.

Van Gogh morou em Arles durante 15 meses, sendo esse um dos seus períodos mais ricos em produtividade, assim como um dos mais lamentáveis, pois foi ali que ele cortou a própria orelha. Em Arles, nos dias de hoje, é possível ter uma ideia de como era o seu quarto, ao visitar o Le Chambre de Vincent, onde existe uma réplica em tamanho real e bem fiel à época.

A Casa Amarela (1888), uma das pinturas noturnas de Van Gogh, retrata a casa em que ele morou em Arles. Embora as outras casas estejam também pintadas com a cor amarela, a casa em questão é a de janelas verdes. A cor amarela da fachada foi de escolha do próprio artista.

Fichas técnicas
Obra: O Quarto em Arles
Data: 1889
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 57,5 x 74 cm
Localização: Museu d`Orsay, Paris, França

Obra: A Casa Amarela
Data: 1888
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 72 x 91,5 cm
Localização: Rijksmuseum Van Gogh, Amsterdã, Holanda

Fontes de pesquisa:
Mestres da Pintura/ Editora Abril
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Van Gogh/ Editora Taschen

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BIPOLARIDADE – O SOFRIMENTO É INEVITÁVEL

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Autoria de José Antônio

Até pouco tempo atrás o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), também conhecido como Transtorno Bipolar do Humor (TBH), era chamado Psicose Maníaco Depressiva (PMD). Caracteriza-se pela variação extrema do humor entre uma fase maníaca ou hipomaníaca e uma fase de depressão.

Lendo os comentários neste site, vejo o quanto a relação dentro de um diagnóstico de TAB é sofrida. Sofre quem tem o diagnóstico, por não aceitar a condição que não escolheu, mas esse irá acompanhar sua história e será utilizado como motivos para isso e para aquilo nas relações, nas decisões, nas atitudes. Sofre quem está por perto, num relacionamento, ao ver essa autofagia que escolhe o silêncio, que distancia quem quer ajudar e que, por vezes, descarta o outro (ainda que inconscientemente).

Eu me relacionei com uma pessoa com TAB por alguns anos. Ouvi diagnósticos, ouvi cenários, ouvi resistências de usar medicamento e senti, por muitas vezes, o efeito dessas decisões. Em um momento eu estava inserido na realidade de sonhos e em outro afastado pelo silêncio ensurdecedor do afastamento que despreza, que anula, que deixa você baratinado e perdido entre tentar ajudar e respeitar as decisões daquele que se tranca.

Passei a fazer cálculos dos dias bons e dos dias ruins. Os meses e anos mostraram coisas sinistras. Meses de afastamento, meses de brigas, meses de indiferença. Alguns momentos de normalidade. Planos? Futuro? Sem chances! Tudo muda num estalo de dedos. A viagem discutida, a curtição desejada, o dia X ou Y, as datas vão sendo manchadas pelas crises, pela indiferença e pelo distanciamento. Em cada queda um vazio, em cada vazio a vontade de ver diferença, e quando essa proximidade ocorria, o medo do próximo dia, do próximo descarte, da forma intensa e descartável que a crise define quem está ao lado de um(a) bipolar é algo que você terá que conviver. O fim parece o natural. Quem está perto sofre também, e se não houver essa clareza, irá sofrer bem mais.

É preciso cuidar de si primeiro, para depois cuidar de quem precisa de ajuda. Não subestime que o risco é alto, que o sentimento é confrontado e que as desilusões sentimentais são inevitáveis nessa relação. Se tem algo que me marcou muito nessa relação, foi tomar conhecimento da falta de responsabilidade afetiva de quem é bipolar. Se isso é sano ou insano, nem os médicos e psicólogos convergem nas hipóteses. A certeza é que o sofrimento é inevitável. E sofrer amando, afastar-se gostando e ver o descarte flertando com você a cada dia é um desafio imenso.

Minha solidariedade aos que a vida rotulou como bipolares. Se desafiem, conversem, expliquem aos seus parceiros que irão se afastar, irão se calar, irão viver a fase necessária da patologia, mas tentem, nesses gatilhos, enxergar aqueles que estão com vocês, e entendam que eles sofrem com vocês, e se você não tiver esse tato, sofrerão ainda mais.

Minha solidariedade aos que estão perto de alguém bipolar. Ame, se importe, entenda, mas cuide de si primeiro, para ter estrutura e ajudar o outro. Se reinventem e incentivem o maior ponto de equilíbrio que for possível. A vida é um sopro, a intensidade de momentos felizes normalmente é muito mais breve que a recuperação das feridas abertas nos relacionamentos.

Luz e paz!

Ilustração: Amor e Dor, 1895, obra de Edvard Munch

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