Mestres da Pintura – JAN STEEN

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor holandês Jan Steen (c.1625-1679) era filho de uma família católica rica. Seu pai era cervejeiro em Leiden.  Estudou com o mestre alemão Nicolaes Knüpfer (pintor de cenas históricas e figurativas) em Utrecht, com Adriaen van Ostade (especializado em retratar cenas bucólicas) em Harlem e com Jan van Goyen (famoso por suas paisagens) em Haia. Casou-se com Margaretha van Goyen, filha do último mestre, e com ela teve oito filhos. Com a morte de Margaretha, ele se casou com Maria van Egmont, com quem teve mais um filho. Fez parte da Guilda de São Lucas de Leiden

Jan Steen é tido como um dos mais importantes pintores holandeses do século XVII. Sua obra é vasta e variada, na qual estão inclusos trabalhos narrativos, alegóricos, paisagens — apesar de poucas — e retratos, também poucos. O seu gênero predileto eram as pinturas de gênero. É visto como um grande observador das cenas do cotidiano e o mais vivaz dentre os grandes pintores holandeses de interiores. A vida cotidiana foi um de seus principais temas.

Dono de um imenso legado, Jan Steen realizou cerca de 800 pinturas. Suas composições de cenas de gênero eram retiradas da vida popular: casamentos, batizados, bebedeiras, feiras, etc., sempre tratando as fraquezas humanas com grande humor. Muitas das cenas retratadas por ele eram tão animadas que pareciam desorganizadas. Usou membros de sua família como modelos e a si próprio, não demonstrando possuir nenhuma vaidade. Embora não tenha tido nenhum discípulo, seu trabalho foi fonte de inspiração para muitos artistas que o sucederam.

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Konemann
Obras-primas da pintura ocidental/ Taschen

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BIPOLARIDADE E DIVÓRCIO

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Autoria de Fernanda Soares

Meu ex-marido tem epilepsia (doença neurológica caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivas no cérebro que são recorrentes e geram as crises epiléticas que podem se manifestar com alterações da consciência ou eventos motores, sensitivos/sensoriais, autonômicos. Portanto, a epilepsia é uma doença neurológica, não mental). Ele não foi diagnosticado como bipolar, mas suas atitudes me levam a crer que ele tem, sim, este transtorno. Não quis ir ao psiquiatra. Afirma que não tem problema nenhum, que todas as suas ações são bem pensadas e planejadas, que não há nada de errado consigo (só com os outros).

Durante o namoro e noivado ele terminou comigo algumas vezes a pretexto de que não dávamos certo, que éramos diferentes, mas depois voltava atrás. Depois que nos casamos ele mudou bastante. Em toda briga pedia o divórcio e eu tinha que contornar a situação. Do nada ficava triste e se isolava, depois apresentava-se cheio de alegria e grandiosidade, fazendo vários planos.

A primeira vez em que saiu de casa foi porque não fiz algo que ele queria. Reclamou dizendo que nunca faço nada para ele, mas depois de uma semana voltamos. Em outra discussão que tivemos ele surtou e me xingou de todos os nomes possíveis, quebrou objetos dentro de casa, esmurrou parede, porta e queria ir embora de casa e eu, como sempre, tentando fazê-lo ficar. Sempre dizia que só estava comigo pela minha insistência, que estava apenas empurrando com a barriga a nossa relação, pois sabia que um dia iríamos terminar.

Durante um período ele começou a ficar distante e tivemos muitas brigas. Ele me pediu o divórcio. No dia seguinte já tinha saído de casa e na semana seguinte já havia colocado nosso apartamento à venda. Em menos de um mês ele o vendeu por um preço menor, mudou-se para um bairro mais distante, comprou um cachorro, trocou de carro, trocou de aparelho celular, comprou roupas novas, tênis novo, aparelhos eletrônicos para sua nova casa, mudou de local de trabalho e com a parte dele no apartamento comprou um lote. Disse que iria construir a casa dele, do jeito que sempre sonhou. Tudo isso em menos de um mês.

Procurei conversar com ele depois de um mês, quando tentaríamos reatar a nossa relação, mas a princípio cada um ficaria em casas separadas. Porém, percebi que ele já tinha seguido a própria vida nesse pequeno tempo, feito suas mudanças radicais, tirado a aliança, mudado a rotina. E tudo isso não me incluía mais na sua nova vida. Disse-me que estava bem, como nunca tinha estado antes, que queria viver sozinho, que se sentia muito bem na sua nova vida.

A mãe dele morreu há uns quatro anos e senti que suas crises se intensificaram nesses últimos anos. Tivemos seis anos de relacionamento e ficamos casados durante dois anos. Falei para ele procurar tratamento, pois tudo indica que é bipolar. Disse-me que não tem problema nenhum, que é bem resolvido, decide as coisas da vida dele rápido, que está super feliz e cheio de projetos e planos.

Iremos assinar o divórcio semana que vem. Eu tenho quase certeza de que ele é bipolar, porém ninguém da família tem coragem de falar sobre o assunto com ele, pois é muito agressivo. Não quis nem fazer terapia comigo, já que estou saindo deste relacionamento à base de antidepressivos e fazendo terapia. Não tem sido fácil para mim.

Ilustração: Garota Chorando, 1964, Roy Lichtenstein

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A LIBERDADE GUIANDO O POVO (Aula nº 79 B)

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Autoria de Lu Dias Carvalho                                                       (Clique na ilustração para ampliá-la.)

Abordei um tema moderno: as barricadas. E se não lutei por meu país, pelo menos terei pintado por ele. (Delacroix)

Essas pessoas do povo possuem um grande propósito, o que lhes dá dignidade e ajuda e que desperta a dignidade adormecida dentro das suas almas. (Heinrich Heine)

A composição de Delacroix intitulada A Liberdade Guiando o Povo é uma de suas mais famosas obras e a mais conhecida imagem da Revolução de Julho de 1830 em Paris, que pôs fim à monarquia dos Bourbon. O rei Carlos X, na busca por restaurar a monarquia absoluta, acabou violando a Constituição francesa, fato que levou à insurreição sangrenta do povo francês, quando lutaram homens, mulheres, jovens e crianças. Presume-se que a barricada imortalizada pelo pintor seja retratada na praça de San Antonio – a atual praça da Bastilha. Assim como esta, muitas das pinturas do artista foram inspiradas por um acontecimento político.

O quadro que tem por base um triângulo equilátero, com a bandeira tricolor francesa a tremular no alto da pirâmide. Nele existe uma mistura de realidade e fantasia. O objetivo do pintor é demonstrar a capacidade que o povo francês tem de superar suas tragédias. A cena simboliza a derrubada das barricadas pelos rebeldes republicanos, atrás das quais lutaram pessoas de diferentes estratos sociais. O povo avança destemido em direção ao observador, caminhando em meio a mortos e feridos. Apesar do número relativamente pequeno de figuras representando o povo, as nuvens de pó e pólvora ao fundo, insinuando o contorno de armas, repassam a impressão de que há uma grande multidão sendo motivada pela figura da Liberdade.

No primeiro plano encontram-se, à direita, os corpos de dois soldados mortos e, à esquerda, o corpo seminu do revolucionário tombado, trazendo uma única meia nos pés. Dois dos corpos dominam quase que inteiramente o primeiro plano. O levante não levou apenas os trabalhadores e burgueses descontentes às ruas, mas também mendigos organizados e criminosos do submundo de Paris. Alguns estudiosos do quadro justificam que a presença do homem nu na composição indica que ele teve suas vestes roubadas.

Mais acima, à esquerda, empunhando armas, encontram-se: um operário com a camisa aberta, segurando um sabre e trazendo uma arma no cinto; um burguês com chapéu de copa, casaco e gravata borboleta, segurando com força um rifle de caça; um rapazote, abaixo dos dois, de arma em punho, que parece observar o morto à sua frente. Ao fundo, um chapéu de dois bicos indica a presença de um aluno politécnico.  Alguns estudiosos acham que o burguês tem como modelo o próprio pintor que queria reafirmar seu entusiasmo liberal.

A mulher no centro com os seios nus, usando na cabeça um barrete jacobino (barrete vermelho usado na França ao tempo da primeira república), carregando as três cores da bandeira francesa e uma baioneta, simboliza a Liberdade e a França. Em tamanho bem superior ao dos demais personagens, ela se posiciona como o bem maior do povo daquele país. A bandeira, erguida por seu braço direito, simboliza a pátria francesa e o rifle a necessidade de lutar para preservar a liberdade da pátria. A cabeça voltada para trás convoca o povo a segui-la. Sua postura, assim como suas vestes, denota movimento. Seu passo é largo e decidido, significando que os rebeldes não possuíam líder, mas tinham apenas a Liberdade para guiá-los. Ela está personificada na composição como uma deusa da Antiguidade.

À frente da Liberdade, um jovem mal vestido que mais se parece com um menino, carrega duas pistolas. Ele representa a juventude francesa. O trabalhador, ajoelhado aos pés da Liberdade, traz nas roupas as mesmas cores da bandeira. Ao fundo, à esquerda, é possível ver uma bandeira, já aos farrapos, tremulando. À direita, também em segundo plano, ainda é possível ver uma parte da catedral de Nostradamus com a bandeira francesa em meio à fumaça pardacenta que vai se espalhando e o clarão dos tiros.

As cores predominantes na composição são o branco, o vermelho e o azul – cores da bandeira do país. O vermelho da bandeira está pintado sobre uma parte do céu azul, o que torna o tom ainda mais vibrante. Delacroix demonstra sua destreza no domínio do claro-escuro na obra.

A pintura denominada A Liberdade Guiando o Povo incluía-se entre os mais de 40 quadros expostos no Salão parisiense que tinham por tema “os dias de glória”, ou seja, a vitória dos rebeldes.  Esta composição foi muito aclamada pela crítica e pelo público, levando Delacroix a ganhar a Cruz da Legião de Honra.

Curiosidades:

  • Os artistas românticos estavam exigindo liberdade na arte, na vida cotidiana e na política. No entanto, poucos foram para às barricadas em 28 de julho de 1830. A maioria deles ficou em casa, sob os mais diversos pretextos. Jornalistas liberais também escreveram proclamações incendiárias contra a arbitrariedade do Estado, na segurança de seus escritórios, mas eles não eram homens de ação, apenas de palavras. No entanto, os jovens românticos ouviram os artistas e os jornalistas e estavam entusiasmados e dispostos a lutar e a morrer. Dos 1.800 rebeldes mortos, a maioria era de jovens. O escritor romântico Victor Hugo ergueu-lhes um monumento em seu romance Os Miseráveis, 1862. Talvez o escritor tenha se inspirado no quadro de Delacroix – uma tela de força arrebatadora e de claro compromisso político – que se tornou uma obra fundamental do romantismo francês. (Taschen)
  • Presume-se que a postura da Liberdade (mulher) tenha servido de inspiração para o escultor francês Frédéric-Auguste Bartholdi, ao desenhar a Estátua da Liberdade, um presente da França para os Estados Unidos – nos anos de 1880.

Ficha técnica
Ano: 1830
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 260 x 325 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fontes de pesquisa
Delacroix/ Coleção Folha
Delacroix/ Abril Coleções
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
Los secretos de las obras de arte/ Taschen

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Mestres da Pintura – HANS HOLBEIN, O MOÇO

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O desenhista de xilogravuras, vidraçarias e peças de joalheria e pintor renascentista Hans Holbein, o Moço (c.1497-1543), era alemão, tendo nascido em Augsburbo. Aprendeu sua arte com o pai, Hans Holbein, o Velho (reconhecido artista dentro da tradição flamenga, sobretudo por seus retratos), com quem estudou pintura desde pequeno. Em 1515 foi para Basileia/Suíça, onde conheceu vários eruditos, inclusive o humanista Erasmo de Roterdão. Trabalhou ali como ilustrador de livros, criando xilogravuras para portadas e uma série de esboços a tinta para a famosa obra “Elogio da Loucura” de Erasmo Roterdão, sendo posteriormente aceito na Guilda dos Pintores. Recebeu muitos contratos de pinturas murais, retábulos, retratos e iluminuras.

É possível detectar a influência do estilo Gótico em suas primeiras pinturas, porém o contato com a arte italiana, para onde viajou em 1518, e descobriu as obras de pintores renascentistas, como Andrea Mantegna e Leonardo da Vinci, fez com que aos poucos optasse por criações mais claras e simples. O impacto dos pintores italianos renascentistas sobre a arte de Holbein pode ser visto no modelado e na composição de um de seus primeiros retratos, “Erasmo de Roterdão” (1523), na sua famosa obra intitulada “O Cristo Morto no Túmulo” (entre 1520 a1522) e no retábulo “A Virgem e o Menino com a Família do Burgomestre Mayer” (1526). Nota-se em tais obras a riqueza cromática vista nas composições dos mestres do norte da Itália. O artista agrega às suas obras religiosas grande riqueza de detalhes, cores e dignidade.

Hans Holbein, o Moço, com dificuldades para se sustentar como pintor na Suíça em razão da Reforma Protestante, viajou pela primeira vez para Londres por volta de 1527, mas somente veio a instalar-se naquela cidade em torno de 1532, ali fazendo diferentes trabalhos. A partir de 1536 consagrou-se exclusivamente ao retratismo, trabalhando especialmente com encomendas de retratos de nobres da corte inglesa e dos mercadores da Liga Hansiática. O retrato do estadista Thomas Cromwell abriu as portas para que se tornasse famoso, sendo escolhido em 1536 como pintor da corte de rei Henrique VIII. O artista morreu em Londres em 1543 vitimado pela epidemia de peste.

Embora tenha também pintado murais, retábulos e iluminuras, Holbein tinha predileção pelo retratismo, sendo exímio nos pormenores de sua obra. O artista é tido como um dos maiores expoentes do retratismo de seu tempo. Chama a atenção em seus retratos, assim como em outras pinturas, o distanciamento frio com que se coloca como pintor, assim como a precisão dos detalhes. São obras famosas do artista: Cristo no Túmulo (1521/1522), Os Embaixadores (1533), O Comerciante Georg Gisze (1532), entre outras.

Obs.: A pintura O Cristo Morto no Túmulo exerceu forte influência sobre o escritor russo Fiódor Dostoyevski, autor de “Os Irmãos Karamázov” e “Crime e Castigo”, vindo a inspirá-lo na criação de seu famoso romance “O Idiota”.

Fontes de pesquisa
Obras-primas da pintura europeia/ Konemann
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/os-embaixadores-hans-
http://josemarbiografias.blogspot.com/2006/06/hans-holbein-o-jovem.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Holbein,_o_Jovem

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A JANGADA DA MEDUSA (Aula nº 79 A)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

                                                  (Clique na imagem para ampliá-la.)

 A pintura atinge e atrai todos os olhos. (Le Journal de Paris).

Nem a poesia nem a pintura conseguirão um dia transmitir o horror e a angústia dos homens na jangada. (Théodore Géricault)

A composição A Jangada da Medusa, também conhecida como A Balsa da Medusa, é uma obra-prima do sensível pintor francês Théodore Géricault (1791-1824), um dos mais famosos artistas do estilo romântico em seu início, na França. Foi inspirada num fato real que diz respeito à fragata Medusa que em 1816 soçobrou na costa da África Ocidental, quando se dirigia ao Senegal. Levava cerca de 400 passageiros a bordo, mas os botes salva-vidas só podiam resgatar 250. Assim, 150 pessoas foram jogadas numa jangada feita às pressas. Dessas, apenas 10 sobreviveram depois de 13 dias perdidas no mar. Vitimados pela fome e sede, dizimaram-se uns aos outros. O fato tornou-se um acontecimento escandaloso, cuja responsabilidade caiu sobre o comandante, um homem arrogante, protegido pelo regime Bourbon.

Géricault fez inúmeros desenhos e esboços a fim de captar melhor aquilo que queria externar. Escolheu para pintar o momento em que os sobreviventes do naufrágio avistam ao longe o pequeno navio mercante Argus, responsável por salvá-los. Para criar sua obra de tom heroico, contatou dois sobreviventes (o médico Savigny e o cartógrafo Corréad) da tragédia, além de ler o livro escrito por ambos. Fez uma maquete de uma jangada em tamanho real a fim de melhor representá-la, dispondo figuras de cera sobre ela. Fez esboços de feridos, moribundos e cadáveres na tentativa de ser fiel à realidade. O artista chegou a visitar um hospital para compreender melhor os detalhes anatômicos humanos, levando uma cabeça cortada e membros do corpo, colhidos num necrotério, para seu atelier. Também fez uso de modelos vivos. A obra tornou-se tão real que é possível ao observador imaginar-se entrando na jangada que ocupa o primeiro plano da tela. A parte dedicada ao mar ganhou pouco destaque.

A obra – pintada quando o artista tinha apenas 27 anos – apresenta um grupo desesperado de pessoas sobre uma jangada feita dos escombros (tábuas, cordas, partes do mastro, etc.) da fragata Medusa, à deriva no mar, em meio a ondas bravias, aguardando socorro. Muitos dos náufragos já se encontram mortos. Apesar da tristeza e do desespero reinante é possível captar o intenso alívio e a emoção do pequeno grupo, à direita, à vista de socorro, o que imbui a obra de grande dramaticidade. O grupo forma uma pirâmide menor. Vale lembrar que os sobreviventes já se encontravam quase mortos e enlouquecidos, mas ainda assim foram pintados como jovens fortes e musculosos.

Corpos sem vida espalham-se por toda a jangada. Um deles em primeiro plano tem a cabeça na água. À esquerda, um pai com um pano vermelho nas costas lamenta a morte do filho, segurando seu corpo nu sobre a perna esquerda, sem mostrar interesse algum pela possibilidade de resgate. Atrás dele, mais ao fundo, um homem segura a cabeça com as mãos, lamentado a própria sorte. O restante dos sobreviventes traz os olhos voltados para a embarcação, ainda minúscula, ao longe, num ato de desespero e esperança, pois eles poderiam não ser vistos. Um homem sobre um caixote tenta levantar o mais alto possível a bandeira, sendo seguro por outro. Abaixo, recostado a um barril, outro homem ergue um pano branco. Outro se volta para trás, para anunciar aos companheiros o que acabara de ver, apontando para o horizonte distante.

À direita um vagalhão em forma de pirâmide ameaça a jangada, contrapondo-se à vela. A natureza mostra sua força através da vela inflada pelo vento e pelos movimentos tempestuosos do mar. Ainda assim, raios de luz entrecortam as nuvens, como se trouxessem um vestígio de esperança. A presença de um machado com sangue na cena, em primeiro plano, é uma referência ao canibalismo relatado pelos sobreviventes. A presença de uma figura em silhueta com o braço em perspectiva eleva os olhos do observador da parte baixa da embarcação para o topo dramático formado pelo pequeno grupo que tenta chamar a atenção do Argus.

O artista usou duas pirâmides para fazer sua obra. A primeira é formada pelas cordas que seguram a vela. A segunda é feita pelas figuras humanas, tendo na bandeira o ápice. Ela traz na sua base os doentes e agonizantes até chegar ao grupo que aguarda o resgate, ou seja, vai da agonia à esperança.  Uma melancólica e dramática paleta de cores, em que predominam os tons de carne está presentes nos corpos pálidos postados nas mais diferentes posições. Através do claro-escuro do estilo Caravaggio, eles recebem um destaque pungente. Tons quentes contrastam com o azul escuro do oceano em fúria, debaixo de um céu de nuvens revoltas, mas bem mais claro. O tom escuro da pintura parece fortalecer a desdita tenebrosa das vítimas. Uma infinidade de influências de artistas anteriores é vista na obra.

Há no conjunto desta obra, considerada um clássico do Movimento Romântico, movida por uma brutal e intensa paixão, muitos movimentos complexos e gesticulação. Sua estrutura é piramidal e tem no mastro o seu ápice. Antes de criá-la, o artista fez cerca de cinquenta estudos. A inclusão de um negro segurando a bandeira vermelha e branca serviu de elemento polarizador, ao trazer para a discussão o movimento abolicionista defendido pelo artista. Géricault criou esta pintura com o objetivo de repassar uma mensagem ao povo. Ainda sob o calor do terrível acontecimento, ela se tornou logo famosa, ganhando aplausos da crítica e do público. Foi mostrada no Salão de 1819, com o título “Cena de um Naufrágio”, sendo mal recebida. O júri não lhe concedeu nenhuma láurea. Em razão do boicote a seu trabalho, o artista foi a seguir para a Inglaterra, a convite, onde permaneceu dois anos. Só foi vendida após a morte prematura do artista, quando tinha 32 anos, ao amigo Dedreux-Dorcy.

A pintura, vista antes como um panfleto contra o governo, foi mudando aos poucos o seu enfoque diante do realismo e da comoção produzida, pois os fatos que se escondem por trás dela são ainda mais cruéis. A crítica política ficou em segundo plano, e o sofrimento humano, ou seja, a vida humana abandonada à própria sorte, passou a ocupar o primeiro lugar. Embora se trate de uma das primeiras pinturas do Movimento Romântico, com sua obra Géricault vislumbrou a chegada do Realismo, assim como o uso da mídia como uma ferramenta política.

Obs.: Esta pintura vem se degradando com o tempo, já tendo perdido muitas partes dos detalhes originais. O próprio pigmento (betume) utilizado pela artista tem contribuído para isso, sem possibilidade de restauração.

Ficha técnica
Ano: 1818
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 491 x 716 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Arte em Detalhes/ Robert Cumming
http://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/raft-medusa
http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2013/08/a-jangada-da-medusa
http://www.artble.com/artists/theodore_gericault/paintings/the_raft_of_the_medusa

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Mestres da Pintura – TINTORETTO

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor italiano Tintoretto (1518-1594), cujo nome de registro era Jacopo Robusti, nasceu e morreu na cidade de Veneza. O nome “Tintoretto” está ligado à profissão de de tintureiro de seu pai (tintore em italiano). Recebeu o apelido de “O Furioso” em razão da energia com que pintava e de seu dramático uso da perspectiva e dos efeitos da luz. Não se sabe ao certo quais foram os seus mestres, embora os nomes de Ticiano, Andrea Schiavone e Paris Bordone sejam muitas vezes citados. Cita-se, inclusive que, notando o seu dom artístico, seu pai enviou-o ao estúdio de Ticiano, ficando ele ali poucos dias em razão do gênio difícil do mestre.

No ano de 1539, aos 21 anos de idade, Tintoretto foi oficialmente registrado como pintor independente de Veneza, tendo seu próprio estúdio e passando a viver por conta própria. Era uma época em que aconteciam muitas mudanças na arte em Veneza. O estilo maneirista foi ganhando vida, assim como o conhecimento sobre a obra de Michelangelo. Tintoretto gostava sobretudo dos temas religiosos. Suas obras eram cheias de dramaticidade, como se vê em sua famosa tela intitulada São Marcos Libertando um Escravo, que apresenta cores brilhantes e textura densa em que apresenta um estilo ardente e original, vindo a figurar-se entre os grandes nomes da arte veneziana. Ao estudar seu estilo, presume-se que tenha estudado em Roma. O pintor é tido como um dos melhores retratistas de seu tempo, sendo também o mais importante nome do Maneirismo veneziano.

Tintoretto gostava de pintar milagres cristão, tendo decorado paredes inteiras em Veneza com representações dramáticas de episódios bíblicos. Ao apresentar anjos e santos em sua obra, Tintoretto normalmente os coloca flutuando. Foram pouquíssimas as cenas eróticas da mitologia pagã pintadas por ele.

O artista casou-se aos 32 anos com Faustina dei Vescovi, com quem teve filhos, sendo que dois deles também se tornaram pintores. Segundo o escritor Giorgio Vasari, “Tintoretto vivia distante das futilidades, em vista do volume de trabalho e das preocupações a que estava sujeito para desenvolver e aprimorar o seu estilo. (…) Dificilmente permitia a entrada de criados no estúdio, nem mesmo os amigos”. Ainda assim, foi amigo de Paolo Veronese, Jacopo Bassano e do escultor Alessandro Vittoria.

Fontes de pesquisa:
1000 obras-primas da pintura europeia/ Editora Konemann
Los secretos de las obras de arte/ Editora Taschen

 

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