A ARTE ROMÂNICA (2ª parte)

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Autoria do Prof. Pierre Santos

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Embora a igreja românica já nos pareça melhor articulada em seus vários elementos, que nos dão realmente a impressão de comporem um todo harmônico, dão-nos também em seu conjunto a impressão de peso excessivo e esmagamento, confirmada pela solidez da floresta de colunas e pelos interiores sombrios, como veremos adiante. Todavia, a total predominância de cheios sobre vazados, na proliferação de suas paredes, deu verdadeira oportunidade a que se desenvolvesse nessas igrejas a arte mural, no mais das vezes na técnica do afresco, tendo sido empregado também o mosaico e, mais raramente, a tapeçaria e o mármore em variações tonais.

Subsidiárias e dependentes da arquitetura, a ela adaptadas, as artes da pintura e da escultura não tiveram como artes autônomas maiores desenvolvimentos no período. Apesar disso, deitarão mais tarde importantes influências sobre artes futuras, sendo para elas a base de seu desenvolvimento. Essas manifestações artísticas figurativas se faziam dentro dos mais rígidos princípios espiritualistas e simbólicos, muitas vezes submetendo as figuras a uma deformação, poder-se-ia dizer, primária, sendo às vezes intrigantes. Há, contudo, muitas obras figurativas de grande valor e notável expressividade realizadas pelo artista da época, principalmente na criação de animais imaginários, exóticas vegetações e, às vezes, frisos geométricos para destaque de pormenores arquitetônicos.

Uma vez equacionadas no princípio do século XI, após longo período de experimentações, as soluções da construção românica expandiram-se com rapidez pela Europa, agora pacificada, geográfica e politicamente já quase definida, principalmente Itália, França (então Gália), Alemanha, Inglaterra, Espanha e Portugal. Não obstante a unicidade das soluções construtivas em suas generalidades técnicas, o estilo, em cada região aonde chegava, adaptava-se às necessidades e às idéias próprias locais, apresentando de umas para outras substanciais diferenças de tratamento. Nessas diferenças, que muitas vezes eram profundas, os especialistas têm visto pluralidade de estilos subsidiários, como afluentes que formam um rio comum, tais as escolas de Borgonha, Provença, Auxerre, Auvergne, etc. Baseado nesta pluralidade de pormenores estilísticos, o arqueólogo francês M. de Gerville, no princípio do século XIX, propôs a denominação de Românico para designar o estilo, tendo em vista a afinidade de sua formação com a formação das chamadas línguas românicas, aquelas derivadas do latim castrense, o falado nos quartéis: italiano, francês, espanhol e português. A proposta fez sucesso, mormente em se considerando as influências de Roma pagã e cristã na origem do estilo.

Finalmente, é preciso destacar a grande e fundamental importância que as chamadas Ordens Religiosas passaram a ter durante o período românico, com seus mosteiros estrategicamente espalhados pela Europa, não só pela sustentação e difusão que deram ao estilo, mas também pela atuação religiosa, política, social e econômica dos monges seus componentes. Um fator aleatório muito contribuiu para isto: quando se aproximava o fim do primeiro milênio (então como agora… seria isto sempre um sintoma de fim de milênio?), correu a notícia de que o mundo iria acabar no ano 1.000. Em todas as partes, todas as religiões se desdobraram em preces, pedindo aos seus deuses que poupassem o mundo do descalabro. O Cristianismo não deixou por menos: multiplicou-se em súplicas e penitências, num misticismo nunca antes visto. E Deus atendeu ao pedido. A cristandade em agradecimento levou ao máximo o seu esforço construtivo, cobrindo a Europa de norte a sul com belas igrejas românicas, ao lado de muitas das quais iam se estabelecendo os mosteiros, e adquiriu com o tempo o hábito de organizar, periodicamente, grandes peregrinações, que constavam de extensa marcha coletiva por uma via que se iniciava no norte da França e descia até Santiago de Compostela, na Espanha, ao longo de cujo caminho igrejas e mosteiros iam sendo visitados.

Aqui entra a atuação das Ordens Religiosas: para receberem essas grandes multidões que chegavam, demoravam alguns dias para as suas preces e de novo partiam, sucedidas por outras, tiveram que aparelhar não só as abadias, mas, principalmente, os seus mosteiros e suas hospedarias, além de terem assumido o gerenciamento das romarias. Por tudo isto, é fácil imaginar agora a incrível ascensão das mesmas, em termos de importância representativa, no mundo de então e em todos os setores. Duas Ordens tiveram papel destacado nisso tudo: a de Cluny e a de Cister, ambas de origem borgonhesa, a primeira primando pela decoração luxuosa; a segunda, pela sobriedade e proporção de suas abadias e mosteiros. Mas todas cultivando uma arte que se tornou importante no contexto românico: a arte da iluminura de manuscritos, com tanto carinho feitos pelos monges escribas.

Centenas de templos, portanto, foram edificados durante aqueles dois séculos. Entre as igrejas e abadias mais representativas contam-se as seguintes: Saint-Front de Perigueux  /  Paray-le-Monial, em Saone et Loire  /  Abadia dos Homens e Abadia das Mulheres, em Caen  /  Abadia de Fontenay  /  Cluny  /  Cister  /  Saint-Trophime de Arles  /  Abadia de Montmajour  /  Notre Dame de Port, em Clermont  /  Notre Dame La Grande, em Poitiers  /  Saint-Sernin de Toulouse  /  Sainte-Foy de Conques  /  Santiago de Compostela  /  Saint-Pierre de Moissac  /  Igreja Madelena, de Vezelay  /  Saint-Gilles Du Gard  /  Duomo de Fiésole  /  Saint-Benoît sur Loire  /  Igreja de Issoire, em Puy de Dome  /  Maria Laach, na Renânia  /  Catedral de Bamberg – e centenas de outras.

Antes do fim do século XII, algumas igrejas começaram a introduzir em suas estruturas, mas de maneira bastante acanhada, alguns elementos que irão caracterizar de modo mais completo o estilo seguinte, como o cruzamento de arcos, mas só em naves laterais, muito raramente nas centrais, e o arco ogival em alguns detalhes, como o coroamento de portadas e janelas. Entretanto, ainda estava longe o momento em que se poderia tirar desses elementos todos os proveitos auferíveis.

Ilustrações
1.Catedral e Monastério de Santiago de Compostela, terminal da Via de Peregrinação
2.Catedral e Abadia de Jaca, na Via de Peregrinação.

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