A ENTREVISTA: UMA VOLTA AO PASSADO

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Autoria do Dr. Ivan T. Large

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Sentada à minha frente, uma moça, de mais ou menos vinte anos, está me fazendo um relato detalhado da sua formação profissional e da sua experiência adquirida em trabalhos anteriores. Desta vez não é uma paciente, mas uma candidata ao cargo de secretaria, quem estou entrevistando.

Olhando para ela, eu volto no tempo e me vejo vinte anos mais jovem, sentado no seu lugar, em frente do todo poderoso diretor de um dos maiores hospitais de olhos dos Estados Unidos, onde eu estava fazendo um estágio, na esperança de ser admitido como residente.

Alguns minutos antes, eu havia cruzado com ele, por acaso, no corredor do hospital, quando ele me chamou para uma reunião. Andei até o seu escritório, onde eu pensava ter com ele uma conversa apenas informal. Não sabia que, nesse momento, eu estava me dirigindo para uma das entrevistas mais importantes da minha carreira.

Na mesa da sua sala havia um livro aberto, provavelmente um romance. Fiquei surpreso pelo fato de não se tratar de um livro de oftalmologia, e tentei descobrir o nome da obra. Ele notou a minha curiosidade e me perguntou se eu já havia lido aquele livro que era um “best-seller” da época. Respondi com ingenuidade que não me sobrava muito tempo para dedicar à leitura de livros que não tratassem especificamente de oftalmologia.

Acabava de fechar, sem saber, uma porta. Ele me fez outras perguntas muito genéricas e das quais eu não me lembro, com exceção de uma:

– Você é casado?

Não – respondi, e acrescentei, não sei por que – graças a Deus!

A porta que eu havia fechado agora a havia trancado definitivamente, e jogado a sua chave no lixo. A entrevista terminou com a sua promessa de me chamar quando aparecesse uma vaga disponível. Quantas noites, enquanto aguardava desesperadamente ser chamado, passei sem poder dormir, na solidão do meu quarto, revivendo esse episódio vergonhoso da minha vida.

Precisava eu ter transmitido ao meu interlocutor que, naquele momento preciso, estava com meu destino em suas mãos? A impressão triste e, acima de tudo, falsa de que ele tinha na sua frente um rapaz arrogante, sem nenhum interesse para a leitura e sem o menor respeito para com o casamento? E, consequentemente, com a família, que é a base da vida e representa a mais importante instituição da nossa sociedade?

A fim de fugir dessa sensação constrangedora, “abandono” a cadeira de entrevistado, onde a minha mente estava “sentada”, deixando-a para minha futura secretária, que está terminando de me convencer que ela é, sem nenhuma dúvida, a pessoa mais qualificada para me auxiliar,

Como ela, eu poderia ter tentado passar ao diretor do hospital uma imagem um pouco aperfeiçoada da minha personalidade. Poderia ter explicado, por exemplo, que o meu estado de solteiro não fazia de mim uma ameaça à sociedade, e não era motivado pelo fato de ser inimigo do casamento, mas sim pelo fato de não ter encontrado ainda minha alma gêmea. Poderia também ter esclarecido que não me dedicava à leitura por falta de interesse, mas sim de tempo, tão empenhado que estava no momento em “escrever” um capítulo muito importante da minha vida, cujo final feliz ou não, dependia da sua decisão de me dar uma oportunidade.

Enquanto analiso os diversos argumentos que eu poderia ter apresentado em meu favor, o meu olhar cai sobre o retrato de uma menina sorridente de oito anos. É a minha filha que, a cada dia, traz-me mais felicidade, e aquela entrevista faz-me concluir que, no final, a minha entrevista não poderia ter sido melhor.

Nota: ilustração do autor

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