A Rev. dos Bichos (8) – A EDUCAÇÃO E O PODER

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Autoria de LuDiasBH

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Dentre os comitês criados na Granja dos Animais estava o que se encarregava de ensinar os bichos a ler e a escrever que, por sinal, seguia com muito sucesso para alguns. Podemos assim definir o sucesso ou o fracasso dos mesmos:

Os porcos, que já liam e escreviam muito bem, ocupavam o topo da pirâmide do saber. E, quanto mais dominavam a leitura, mais conhecimentos e mais poder agregavam a si. Eram olhados pelos outros animais com muita admiração e com visível respeito, de modo que tudo que faziam jamais era questionado, ao contrário, eram prontamente obedecidos.

Os cachorros, por sua vez, após aprenderem a ler modicamente, não mais se interessaram pelo aprendizado, bastando-lhes apenas dominar a leitura dos Sete Mandamentos. Para que ficar quebrando a cabeça com coisas desnecessárias – inquiriam eles – se já existiam os porcos que sabiam de tudo? Bastava-lhes apenas ler os mandamentos dos bichos para repassá-los a outros. O resto ficava por conta dos inteligentes suínos, seus camaradas intelectuais, que somente trabalhavam para o bem de todos, sem pensar em si.

Bejamim, embora soubesse ler tão bem quanto os porcos, não se importava com isso e, portanto, não exercitava a sua faculdade. Talvez isso se devesse à idade, uma vez que era o animal mais velho da granja. Todos sabem que a idade traz para alguns certo desencanto com a vida, um não saber o porquê de se fazer isso ou aquilo, enquanto outros tornam-se ainda mais ávidos pelo poder, como se fosse uma forma de se apegar à existência que escapa-lhes pelos dedos. O mesmo paradoxo humano também se encontrava em meio aos bichos da granja.

Quitéria, embora tivesse aprendido todo o alfabeto, sentia dificuldade em unir as letras na formação de palavras. A coitadinha passava as horas de repouso matutando, mas não lograva êxito na empreitada. Parecia ter um parafuso a menos na cachola. Teria sido o excesso de trabalho e a má alimentação de quando o senhor Jones era seu amo responsáveis por tal dificuldade? Ninguém mais do que ela e Sansão trabalhara naquela granja, sem falar nos muitos potrinhos que botara no mundo.

Sansão, mesmo muito esforçado, tinha sérias limitações em relação ao aprendizado intelectual, como se tivesse nascido para o trabalho pesado. Quando aprendia umas letras, esquecia-se das outras. Nunca fora capaz de memorizar o alfabeto todo. Mesmo assim, nos dias de lazer, passava horas a fio desenhando na areia, com a pata direita, as letras, apagando-as e recomeçando…

Maricota era capaz de ler melhor do que os cachorros. Lia, inclusive, à noite, pedaços de jornal encontrados no lixo, para os animais.

Mimosa era um caso à parte no seu desinteresse pelo saber. Após aprender as seis letras que compunham seu nome, deu por encerrada a sua aprendizagem. Ela o escrevia e o enfeitava com pedrinhas, flores e galhos, e ficava andando à volta, admirando-o. Mas o que esperar dos seres fúteis que só pensam em si como se fosse o centro do universo? Neste caso, não se trata de jogar pérolas aos porcos, porque esses eram os mais letrados da granja, mas de jogar pérolas à futilidade e à ignorância.

Alguns dos animais da granja não conseguiram aprender a ler, tais como galinhas, patos, ovelhas, entre outros. E pior, nem mesmo eram capazes de decorar os Sete Mandamentos que resumiam a filosofia da Animalismo. Problema de suma gravidade. Alguma coisa teria que ser feita.

Bola de Neve, preocupado com o fato de que alguns bichos não tivessem memorizado os Sete Mandamentos, achou por bem condensá-los em apenas um: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim.”. Ele só não contava com a contestação das aves, pois sentiam que se encaixavam nas “duas pernas”.

A capacidade de dar o dito por não dito, ou de iludir os mais ingênuos, é um dos predicados de certos intelectuais. A capacidade de aceitação dos ingênuos e ignorantes possui a mesma dimensão dos primeiros. Assim, o não dito passa a ser o dito e tudo fica como Dantes no quartel de Abrantes. Dessa forma, Bola de Neve bolou uma explicação para acalmar o ânimo das aves:

– A asa de uma ave, camaradas, é um órgão de propulsão e não de manipulação. Deveria ser olhada mais como uma perna. O que distingue o Homem é a mão, o instrumento que perpetra toda a maldade.

Como não compreendessem muito bom a explanação do letrado Bola de Neve, e nem tivessem argumentos para se contraporem, as aves e os animais mais humildes e desprovidos de saber, tomaram como verdade absoluta as palavras do nobre colega.

Bola de Neve e Napoleão continuaram trocando farpas em relação à educação dos bichos. Enquanto o primeiro achava que adultos e jovens tinham direito ao saber, o segundo alegava que somente os jovens careciam de ser educados, pois papagaio velho não aprende a falar.

Nesse ínterim, Lulu e Ferrabrás pariram nove robustos cachorrinhos que foram imediatamente para as mãos de Napoleão, sob o argumento de que receberiam uma educação especial. Foram confinados num sótão, sendo esquecidos pelos demais bichos. O que viria a acontecer com eles ainda é uma incógnita.

 Fonte de pesquisa:
A Revolução dos Bichos/ George Orwell

(*) Imagem copiada de cinefilosconvergentes.blogspot.com

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