A VIUVEZ EM CERTAS CULTURAS

Autoria de LuDiasBH

aviuva

A perda de bens é um dia perdido, a perda de um marido é uma vida arruinada. (Prov. birmanês)

 À porta da viúva fabricam-se muitos escândalos. (Prov. Chinês)

 A viuvez foi sempre uma triste companheira da mulher ao longo da história, muito menos pela falta que faz o falecido e muito mais pelo modo como a viúva é tratada por certas culturas. Nessas, a morte da mulher é vista com a mais absoluta normalidade, mas se quem parte é o homem, os fatos tomam outro caráter. Os provérbios, choramingando a falta do varão e citando as cruezas vividas pela pobre viúva, não são poucos. Alguns chegam a ser bastante desrespeitosos, para não dizer cruéis: “Quando o marido morre, a mulher fica três anos de luto; mas, quando ela morre, ninguém a recordará por mais cem dias”, provérbio chinês; “A morte da mulher é a renovação do casamento”, provérbio árabe dizendo que o marido terá novas núpcias; “Dor por mulher morta dura até a porta”, provérbio espanhol; “A morte da mulher e a saúde do gado ajudam o homem a prosperar”, provérbio italiano.

É sabido que, em certas culturas, a mulher era obrigada a cometer o sati, ou seja, imolar-se na mesma pira funerária do esposo. Isso ainda costuma existir em certos vilarejos indianos, por exemplo. Sem falar na “viúva branca”, que é aquela que se enviuvou sem ter conhecido o esposo sexualmente, porque era criança à época do casamento, muitas vezes ainda morando com os pais. Mesmo a infeliz “viúva branca” era obrigada a cumprir o mesmo rigor das demais. Além disso, em certas sociedades, a viúva carrega um fardo doloroso, pois, além de ser vista como um peso para a família é também olhada como sexualmente perigosa. A família do marido morto usa de todas as artimanhas para tomar as propriedades deixadas por esse, sem assumir a responsabilidade de sustentar sua viúva, que, muitas vezes, é queimada (com se se tratasse de um acidente) para que possam roubar seus dotes, pois os casamentos são arrumados com base em motivos financeiros.

Em certas culturas, ao perder o marido, a viúva é vista com desprezo, como se dele dependessem o seu status e integridade, como bem explica um provérbio da cultura Mali: “O baobá caiu, agora as cabras sobem em cima dele”, e o provérbio chinês reza: “Uma viúva é um barco sem leme”, uma vez que perdeu seu comandante. Um provérbio espanhol indica o que fazer com uma viúva charmosa: “Viúva bonita deve ser casada, enterrada ou colocada num convento”. E se ela não tem um filho varão, o problema é mais sério, como indaga um provérbio chinês: “Em quem se apoiará a desgraçada?”. Mas, se ela tiver sorte, poderá ser “herdada” pelo irmão do marido. O “levirato” ou “levirado” é uma prática encontrada no Antigo Testamento, entre os hebreus, em que o irmão do marido morto casava-se com a viúva, cuidando dela e dos filhos, em nome do falecido.

Não resta dúvida de que as sociedades, que aceitaram o divórcio, contribuíram muito para que a viúva passasse a ser vista com outros olhos, tendo o direito de casar-se de novo. Ainda assim, alguns provérbios alardeiam sobre o perigo de casar-se com viúva: “Não te cases com uma viúva, a menos que o primeiro marido tenha sido enforcado”, provérbio inglês; “Quem se casa com viúva tem que suportar algumas mortes”, provérbio mexicano; “Flertaste com viúva, não sabes que ela matou o marido?”, provérbio bassari; “As viúvas são fantasmas dos homens mortos”, provérbio brasileiro; “Mula adestrada por outro sempre guarda alguns vícios”, provérbio espanhol; “Não te cases com uma viúva, a cada briga recordará o defunto”, provérbio bamum. E assim é dedilhado o rosário das viúvas.

Ilustração: Mulher Chorando, obra de Picasso

Fontes de pesquisa:
Nunca se case com uma mulher de pés grandes/ Mineke Schipper
Livro dos provérbios, ditados, ditos populares e anexins/ Ciça Alves Pinto
Provérbios e ditos populares/ Pe. Paschoal Rangel

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