BENDITO SEJA NOSSO CORPO FÍSICO

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Autoria de LuDiasBH

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É difícil entender a preocupação das religiões em sua condenação à carne (o corpo, a matéria em oposição ao espírito, à alma), pouco se reportando ao espírito. O que não deixa de ser um paradoxo, uma vez que a carne denota transitoriedade e o espírito eternidade, segundo a visão religiosa de quase todas as culturas. Se toda carne perece, ao habitar este planeta minúsculo por um tempo passageiro, por que os chamados pecados mortais estão voltados mais para a carne? Não é o espírito que é eterno? E não é ele que comanda o corpo? Por que, então, não trabalhá-lo melhor, jogando toda a carga de responsabilidade sobre ele? O trato com a carne deveria ser apenas um capítulo da preocupação com o espírito.

Quer queiramos ou não, a nossa existência, para ser completa, precisa conhecer os deleites da carne (a natureza física do homem em oposição à moral), uma vez que nascemos geneticamente preparados para isso. Nem mesmo o mundo animal despreza o contato carnal. É preciso ser hipócrita para subestimar a delicadeza, o som e o prazer da carne. E, para os moralistas de plantão, que fique bem entendido, que não comungo com a exploração ou abuso do corpo humano, ou seja, com a sua transformação em mercadoria. Mas louvo sim, os corpos que nos envolvem e nos enriquecem num contato permanente de amor, carinho e prazer.

A maioria das religiões desmerece o corpo físico, como se dele pudéssemos nos privar, vivendo apenas com o espírito. Isso acontece, mesmo quando apregoam que o corpo humano é feito à imagem e semelhança do Criador, a quem devotam a vida. Pesquisas mostram que o descaso para com o próprio corpo denota baixa autoestima, pois carecemos do corpo carnal para existirmos. Logo, ele é primordial para cada um de nós. Se assim não fosse, bom seria que jogássemos um véu roxo sobre a medicina. A nossa carne é frágil, preciosa e importante para a nossa existência na Terra. Todo carinho e cuidado com ela vêm de bom grado. Temos que amar e cuidar do corpo, nosso mais belo instrumento existencial. É a nossa “casca”, responsável pelo peso e pela marca das alegrias e tristezas que carregamos durante a vida.

A existência da morte serve para nos acordar quanto à importância de nosso corpo carnal, em vida. E a ele devemos devotar todo o nosso amor. Sempre me pareceu triste uma convivência forçada, onde os corpos não se encontram. Onde eles perderam a voz, e o espírito encontra-se mofado numa caixa sem vida. O contato espiritual e mental com o outro é muito mais forte quando há sintonia de pele, empatia carnal que não significa apenas “sexo”, mas também quando um sente prazer na presença e no contato com o outro.

A carne é tão importante, a ponto de algumas religiões terem como dogma a encarnação ou a reencarnação. Contudo, certas Igrejas tratam-na como se fosse a coisa mais suja do mundo. De modo que certos religiosos melhor fariam, se meditassem sobre a expressão “a Palavra se fez carne” ou “o Verbo se fez carne”, em vez de blasfemarem contra o corpo humano, esta dádiva maravilhosa e tão necessária para nos manter vivos. Muitas culturas têm sido envenenadas contra o corpo carnal, principalmente o da mulher. E isso de longas datas. É deste desequilíbrio que nasce o exibicionismo sexual e a indústria pornográfica, pois tudo o que é proibido traz também a sua cota de curiosidade, encontrando fácil penetração na mente humana.

A vida dos índios, que ainda não se aculturaram, é imensamente rica, pois não carrega o peso do “pecado da carne”, já embutido em nós, ainda pequeninos, pelas religiões, que tinham e têm como objetivo o controle da vida humana. O homem controlando o homem. O homem controlando os bens do homem, através de ameaças contra o “pecado da carne”. E como isso dá dinheiro! O maior dos mandamentos cristãos é: “Ame o próximo como a si mesmo”. Logo, se o nosso próximo é feito de carne que respira e transpira como a nossa própria, não há como torná-la satânica. O corpo carnal não pode ser tratado como réu de todos os deslizes da espécie humana. Este desvio estúpido  somente favorece os vendilhões dos templos.

Nota: ilustração mostrando Vênus e Adônis, obra de Ticiano

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