Arquivos da categoria: Saúde Mental

Fórum para debate sobre problemas de saúde mental, com textos alusivos ao tema.

ANSIEDADE X TEMPO DE CURA

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, intitulou um capítulo de seu livro “Ioga para Nervosos”* (década de 1960) com o nome de “A Coisa”. Naquela época, o Transtorno do Pânico ainda era pouco compreendido. Aqui ele nos  ensina como a ansiedade em busca da cura pode ser nefasta.

 É preciso tirar a ansiedade por curar-se depressa. A cura demasiado rápida, em muitos casos, é ilusória. O que realmente lhe convém é cada vez maior dose de satividade, de paz, de integração de si mesmo e maior penetração nos planos mais divinos de seu ser. A ansiedade pela cura é tão perniciosa como acreditar-se curado, quando se está apenas melhor. Faça tudo dentro de suas possibilidades, sem se sentir infeliz pelo que não vier a conseguir, sem se deprimir pelo que não puder fazer. Faça tudo com fé. Evite preocupações, principalmente com o tempo. Lembre-se de que seu distúrbio nervoso levou anos para instalar-se. Não se sinta desanimado por não ficar logo bom, nem surpreendido com as recaídas com as naturais dificuldades do caminho.

Se você fizer de sua cura um objetivo a ser atingido seja como for; se você se preocupar com o andamento de seu caso; se você ficar de olho pregado nos sintomas a fim de perceber se a taquicardia ou dor precordial está diminuindo; se você começar a medir a pulsação e a pressão, querendo saber se já está melhor; se você faz de seus sintomas psíquicos a coisa mais importante nesta vida, pode crer, você está retardando a cura e talvez a impedindo. Não faça assim. É claro que você tem o direito de saber-se melhor, inclusive, lucrará muito com a percepção das melhoras que, sem preocupação, for notando em si. Goze e aproveite a euforia serena resultante das melhoras que se vão manifestando, mas acautele-se contra a expectativa ansiosa. Essa só servirá para fortalecer aquilo de que você quer se libertar. Sabe por quê? Por causa da concentração mental que você estaria mantendo sobre o mal. A sua preocupação o está fazendo fixar-se na enfermidade. Preocupar-se com a cura, fatalmente resulta em preocupar-se com a doença. Em resumo: “Não arranque todos os dias a semente, procurando ver se a plantinha está nascendo”. (Yogananda)

As técnicas aqui ensinadas (livro “Yoga para Nervosos”) são de eficiência real. A grande recomendação é: paciência. Mantenha a esperança. Insista. Sem qualquer ansiedade, insista, sabendo que, quanto mais você for paciente, maior a probabilidade de êxito. Esqueça a cura para também se esquecer da doença. Não é possível demarcar com uma risca, onde termina a doença e onde a saúde começa, tal como também não é possível assinalar onde o físico acaba e começa o mental. Esqueça que deve ou necessita ou tem de ficar bom. Persistência. Esperança. Paciência. Suavidade.  Deixe as coisas acontecerem.

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: Caipira Declamando, obra de Anita Malfatti

TRANST. DO PÂNICO – COMO VENCER A CRISE

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, escritor de mais de 30 livros, ensina-nos, através de seu livro “Ioga para Nervosos”*, como vencer uma crise de ansiedade:

Quando se vir numa situação adversa, numa crise de qualquer espécie, nunca se meta a enfrentar as ondas do sofrimento com peito aberto e pé atrás. Relaxe. Negaceie. Deixe passar a onda e, se tiver habilidade suficiente, aproveite inclusive a força que o destruiria e faça como alguns banhistas – conserve-se na crista da onda, fazendo “jacaré”.

Em face de uma crise de neurose de angústia, sejam quais forem as manifestações, o que devemos fazer é:

  1. a) não lutar frontalmente contra os sintomas;
  2. b) não insistir no esforço ineficaz;
  3. c) não cair presa do medo decorrente da sensação de impotência.

Em resumo: não lutar! E não tenha medo!

Não lute. Não reaja. Não resista heroicamente contra a coisa (crise) ou contra qualquer assalto da desdita, quando sejam inevitáveis, incontroláveis e além de suas forças. Não resista. Faça como os raminhos tenros que se vergam com o peso da neve, deixando-a cair. Faça como os frágeis arbustos que o vendaval não consegue arrebentar.

Reação frustrada, resistência destruída só servem para evidenciar nossa própria derrota e é isto que dá medo. Este, por sua vez, destrói a eficácia dos nossos esforços, pois cria tensões desastrosas… E assim, a vitória será sempre da coisa (crise), da adversidade, da inferioridade, do vício, de tudo quanto nos quer vencer, reter, escravizar, destruir. A estratégia do ahimsa (não reação) consegue não somente evitar o ataque a desencadear-se, como também suspendê-lo, se já iniciado. Como agir:

Deite-se. Não lute contra a crise! Não resista! Não tema! Largue-se! Fique imóvel! Reduza a zero seus movimentos. Pare. Diminua assim a necessidade de respirar. Não se esforce por mais ar. Fique quieto! Sereno! Deixe a crise tomar conta! Acalme-se! Nada de medo! Seu pavor é que o prejudica! Quieto! Comece a comandar o relaxamento de todo o seu corpo! Entregue-se a Deus Onipresente que vai agir, desde que você se confie a Ele. De olhos fechados afrouxe todo o corpo. Com o corpo frouxo, sem tensões, vai se reduzindo a necessidade de respirar. Veja como a calma vai se restaurando! Uma sensação de segurança e serenidade está substituindo o medo. Veja como é divina a vitória sem luta, sem ansiedade, sem reação, sem violência

Sempre que nova crise quiser tomar conta de você, lembre-se disto: não lute; não tema; entregue-se a Deus; relaxe, deixe que a coisa, por si mesma, descubra que já não tem domínio sobre você. Se o que você sente é taquicardia, no próximo assalto da coisa, sem alarmas, deixe o coração livremente dançar sua rumba. Sentado ou deitados, apenas relaxe. A coisa (crise), sem ser combatida, sem ser temida, acaba por sentir-se desmoralizada, deixando você em paz.

Muitos alunos meus têm obtido proveitosos resultados no controle de crises da “coisa” mediante se comportar como “testemunha silente”. Saem, mentalmente, da condição de pacientes e de envolvidos e se conduzem como se a taquicardia, ou ataque de asma, ou quaisquer sintomas, que antes os alarmavam, estivessem se processando em algo que não eles mesmos. Tomam consciência apenas do que se passa no corpo, sem se deixar cair presas do medo. As coisas desagradáveis que antes conseguiam deixá-los apavorados, eles agora conseguem “desmoralizar” ao se colocarem à distância, como se não fosse com eles. O interessante é que esta atitude tem efeito tranquilizante imediato, afrouxa a tensão e consequentemente, o mal-estar.

Leiam também o texto: TRANSTORNO DO PÂNICO – “A COISA”

*O livro “Yoga para Nervosos” encontra-se em PDF no Google.

Nota: Odalisca em Calças Vermelhas, obra de Matisse.

TRANSTORNO DO PÂNICO – “A COISA”

Autoria do Prof. Hermógenes

O Professor Hermógenes, um dos precursores da ioga no Brasil, intitulou um capítulo de seu livro “Ioga para Nervosos”* (década de 1960) com o nome de “A Coisa”. Naquela época, o Transtorno do Pânico ainda era pouco compreendido. O seu texto trata-se do assunto.

Seja o coração que dispara ou “dói” muito (dor precordial), respiração escassa e disritmada, seja crise asmática, náusea, hipertensão, insônia, crise hepática, tosse nervosa, membros paralisados, caos orgânico insuportável e inquietante, seja dor de cabeça, indisposição gastrointestinal, desânimo arrasador com vontade de sumir ou dormir até morrer, seja ataque de pranto ou ansiedade irracional, a verdade é que a pobre vítima cai presa de pânico infernal ao pressentir que mais uma vez vai ser assaltada pela coisa. E o terror se acentua à medida que constata encontrar-se novamente indefesa nas barras de algo de poder muito estranho, a dominá-la, a vencê-la, a desmoralizar-lhe os esforços.

A coisa está desgraçando a vida de muita gente, destruindo um número sempre crescente de seres humanos. É raro aquele que não é seu escravo e vítima sua. A clientela dos psiquiatras, psicólogos e psicanalistas aumenta assustadoramente. A crescente procura dos psicotrópicos está alarmando as autoridades. Nem os próprios psiquiatras nem as autoridades sanitárias de todo o mundo se sentem seguras contra a devastação que a coisa anda fazendo. A corrida aos barbitúricos ataráxicos, tranquilizantes, antidepressivos é um sinal de que a coisa está se tornando a maior ameaça à humanidade. As trágicas fileiras de escravos das drogas se espicham a perder de vista pelos vales desta humanidade cada vez menos humana e sempre mais psicodélica, vazia, enfastiada, inconsequente e mesmificada no sofrimento neurótico e psíquico.

Mas… o que é a coisa? Não fui eu quem a batizou assim. São alunos meus, em suas queixas, que lhe dão este nome genérico.

– “Quando a coisa me derruba, não sou mais ninguém…”
– “Eu estou bem, professor, mas, de repente, me dá uma coisa, que…”
– “Ah se eu pudesse vencer esta coisa, que está me destruindo!…”
– “Se eu me livrasse desta coisa, seria outro homem…”
– “… é uma coisa horrível que eu sinto, que nem sei dizer…”

Coisa é o apelido dos sofrimentos e desconfortos psicossomáticos, isto é, envolvendo corpo e mente, com perturbações fisiológicas localizadas ou generalizadas, que, todo-poderosas e obsedantes, o paciente não sabe como começaram nem como terminam. Sabe somente – e com que intensidade – tratar-se de uma experiência apavorante a vencê-lo inexoravelmente. A vítima não sabe definir, e por isto, apelida de: a coisa.

São componentes do quadro, a impotência do assalto e o consequente pânico. Aos primeiros e tênues prenúncios de um assalto, sobrevém o pavor e, a vítima, tentando defender-se, instintivamente enrijece os músculos, faz-se tensa, põe-se em guarda. À medida, porém, que vê se agravarem os sintomas e, portanto, a falência de suas defesas, naturalmente vai ficando cada vez mais apavorada. O pavor determina automaticamente maior tensão pseudodefensiva. Por sua vez, a contração do corpo facilita o êxito do ataque da coisa. Eis o sinistro círculo vicioso a avassalar a vítima; a tensão facilita e acentua os sintomas que, por sua vez, agravam o medo e este degenera em pânico.

Em cada pessoa, a coisa se desenvolve segundo um esquema particular, envolvendo, desde os níveis corticais do cérebro até os vegetativos do sistema nervoso. Em cada paciente se desencadeia um circuito particular. À medida que este se repete, se afirma, se consolida, se torna mais facilitado e mais ganha ser, isto é, mais se torna uma coisa. Tal circuito se desenvolve segundo a linha de “minoris resistentia”, como dizem os psiquiatras e especialistas em psicossomática.

Quando eu disse que a coisa vai ganhando ser, fui preciso. Ela ganha existência e cada vez mais afirma esta existência. E isto à custa das derrotas da vítima, como também em obediência a uma lei universal, segundo a qual, tudo que existe afirma e defende sua existência. A potência da coisa é alimentada cada vez que derruba sua vítima.

A vítima conhece seu circuito particular. E antes do assalto, sabe como vai acontecer e sabe que vai ser infalivelmente vencida. O circuito é predito pelo doente. Ao sentir as ainda suaves, longínquas e discretas ameaças, com a mais funda e eficaz convicção, diz para si mesmo: “Já sei. Lá vem a coisa! Agora estou frito. Já sei. Meu coração vai querer sair pela boca. Estou liquidado!”. Esta autossugestão e mais a tensão gerada pelo medo são eficientíssimas ajudas dadas à coisa pelo próprio doente. São elementos indispensáveis ao êxito do ataque. Que ironia! – é a própria vítima que assim possibilita e agrava seus sofrimentos.

Se os sofrimentos têm origens em conflitos, como explicam os psicólogos ou se são choques entre respostas orgânicas opostas, como querem os fisiologistas, isto é, se a coisa é criada pela mente ou pelo corpo, isso tem importância relativa, pelo menos para quem sofre seus ataques. O importante é aprender como vencer o dramático círculo vicioso.

Lembre-se de que, diante das ameaças de uma crise, das coisas que ocorrem contra você e a favor do adversário: a) autossugestão negativa, isto é, a predição dos sintomas e da vitória do ataque; b) o medo; e c) a consequente tensão, com que você procura defender-se. Aprenda a evitá-las. Tais coisas são concomitantes. E são sinérgicas, isto é, reforçam-se mutuamente.

Comece por evitar a atitude de combate. Em outras palavras: evite a tensão que se alastra pelo corpo. É ela que liga todos os elementos do circuito. Relaxando, você conseguirá evitar o tal circuito, pois não oferece passagem. A habilidade de relaxar é uma aquisição preciosa a ser feita. Você precisará aprender a manejar algumas técnicas. Você terá que realizar algumas transformações em seu viver. Precisa aprender a vencer, mas sem lutar. Isto não lhe parece estranho?! Claro! Falar de vencer sem reagir contra, sem armar-se, sem lutar é muito esquisito principalmente num mundo onde o esforço pela vitória é geralmente tido como indispensável.

Se a coisa tem dominado você é porque você lhe tem oposto resistência e a enfrenta cheio de tensão. Você tem oferecido luta. Disto ela se aproveita para derrubá-lo, firmar e defender sua existência. Qualquer luta engendra reação. Se você agride e enfrenta a coisa, ela sai ganhando. Se você a teme, como vimos, ela também vence. Com ahimsa (não reação) você poderá vencê-la. Você terá de fazer o que fez Mahatma Gandhi com a Grã-Bretanha: não violência.

Leiam: TRANSTORNO DO PÂNICO – “A COISA”

*Esse livro é encontrado em PDF no Google.

Nota: O Grito, obra de Edvard Munch

TRANSTORNO BORDERLINE

Autoria do Dr. Telmo Diniz

Uma pessoa que tem um medo intenso de ficar sozinha; uma tendência em assumir riscos sem pensar nas consequências; que provoca automutilação ou tem pensamentos suicidas frequentes e tem sentimentos paranoicos, acreditando em coisas que não existem e se sentem perseguidas o tempo todo pelos outros pode ser portadora do chamado Transtorno Borderline (TB) de personalidade.

As pessoas a sua volta a veem como desagradável, exagerada e agressiva, entretanto, ela é vítima de um distúrbio psiquiátrico. É uma pessoa “limítrofe” ou “fronteiriça” por apresentar sintomas que se situam entre as neuroses e as psicoses. É um mal que atinge quase 2% da população adulta, respondendo por 10% dos pacientes psiquiátricos ambulatoriais e que é responsável por nada menos do que 20% das internações psiquiátricas. Cerca de 10% dos portadores deste transtorno de personalidade concretizam o suicídio. Por isso, necessitam de uma ajuda rápida.

O Transtorno Borderline está inserido em uma categoria da psiquiatria que inclui os esquizoides, os paranoicos e os antissociais. É uma enfermidade relacionada à própria constituição da pessoa, ou seja, é seu “jeito de ser” – como se fosse uma assinatura pessoal pela qual ela passa a ser conhecida. Entre as características básicas de um paciente com TB está a dificuldade de controlar impulsos e emoções. Como resultado disso, ele desenvolve relacionamentos extremamente tumultuados. É uma doença das relações. O paciente tem uma relação muito conturbada com as pessoas no geral, seja na esfera familiar, amorosa ou profissional. Os problemas de convivência são uma constante na vida dos portadores desse transtorno.

Várias pessoas com Transtorno Borderline ficam sem diagnóstico e, portanto, sem tratamento. Isso leva um grande sofrimento ao indivíduo e aos seus familiares. Então, quais seriam as principais características de transtorno? Como podemos enxergar alguém portador do TB?

  • geralmente elas têm grande medo de ficar sozinhas;
  • as relações interpessoais são intensas;
  • são extremamente impulsivas, têm gastos extremados, sexualidade promíscua, abuso de drogas, direção irresponsável e crises de anorexia ou bulimia;
  • de igual forma elas se automutilam com frequência e fazem repetidas vezes ameaças de suicídio associado a sentimentos crônicos de um vazio inexplicável;
  • apresentam constantes crises de raiva, gerando explosões – o que leva a brigas públicas com agressões físicas e verbais;
  • por fim, é muito comum a ideia de delírios de perseguição.

O Transtorno Borderline é uma doença de difícil diagnóstico e tratamento. Por isso, deve ser avaliada e acompanhada por profissionais da área de saúde mental. O tratamento contempla, geralmente, a combinação de médico psiquiatra com psicoterapia comportamental. A medicação ajuda a controlar alguns dos sintomas, diminuindo a impulsividade e a agressividade. Entretanto, necessita, em paralelo, de uma abordagem psicoterápica do tipo comportamental. São tratamentos de longo prazo, mas que, se seguidos corretamente pelo paciente e com apoio da família, tem bons resultados.

Nota: obra de Pablo Picasso

TRANSTORNOS MENTAIS E RELIGIÃO

Autoria de LuDiasBH

Se pensarmos no homem primitivo, esse vai construir a casualidade das doenças diretamente ligada às divindades: sejam deuses ou demônios. Achavam que as doenças ocorriam como forma de punição, tanto que ofereciam oferendas para acalmar a “ira” dos deuses. (Dr. Pérsio Ribeiro Gomes de Deus)

 O psiquiatra e mestre em Ciências das Religiões, Dr. Pérsio Ribeiro Gomes de Deus, especializado nas relações entre religiosidade e saúde, chama a atenção para o fato de que “antes de a psiquiatria ter reconhecido os estados da bipolaridade, por exemplo, podemos encontrar inúmeros relatos desta forma de doença, como a que está escrita na Bíblia com respeito ao Rei Saul de Israel que alternava períodos de extrema depressão e períodos de euforia, inclusive com ideias paranoides. Davi, o salmista, era chamado para, com sua música, acalmar os períodos de tristeza do rei Saul”.

Não ficou totalmente no passado a ideia de que a doença, principalmente as mentais, era um castigo dos deuses. Até hoje é possível deparar com pessoas mal informadas que ainda pensam assim, pois tal visão exerceu influência sobre todo o pensamento judaico cristão, sendo propagada com intensidade. A própria Bíblia, na parte referente aos Salmos de Davi, reforça a ligação entre pecado e doença, como afirma o salmo 31: “compadece-te de mim, Senhor, porque me sinto atribulado; de tristeza os meus olhos se consomem, e a minha alma e o meu corpo. Gasta-se a minha vida na tristeza e os meus anos em gemidos, debilita-se minha força, por causa dos meu pecado”.

A ligação entre pecado e doença, principalmente as de origem mental, somente veio a amainar depois do Renascimento, quando foram redescobertos os ensinamentos de Hipócrates, referentes a cerca de 400 anos a.C., período em que esse mestre grego já empregava termos como “mania” e “melancolia”, ao descrever fases de alterações de comportamento. Os estudiosos da época começaram a perceber que a doença poderia não ser de procedência espiritual como imaginavam. Foi a partir desse momento que nasceram as bases do desenvolvimento da medicina atual para o bem da humanidade.

O avanço da Ciência no estudo dos transtornos mentais foi tornando a ligação entre pecado e doença cada vez mais obsoleta. Infelizmente, ainda em pleno século XXI, é possível encontrar religiões que persistem em reafirmar tal ligação, no intuito de prender seus fieis pelo temor, principalmente de olho no “dízimo”. Há inclusive dirigentes religiosos que impedem até mesmo o uso de medicamentos e de tratamentos psicoterápicos sob a alegação de que “quem cura é a fé em Deus”. Quem quiser ter uma amostragem de tal atemorização e falta de conhecimento (ou até maldade mesmo) basta assistir a certos programas religiosos pela televisão ou pelo rádio. Trata-se de um caso de polícia que deveria ser coibido com rigor, pois tais comportamentos atingem principalmente as pessoas mais humildes. Em vez de ajudá-las a minorar o sofrimento ocasionado pelo transtorno mental, algumas religiões agigantam-no sem dó ou piedade, no intuito de gerar lucros com a miséria do outro.

Nota: A Crucificação, obra do artista espanhol Pablo Picasso.

Fonte de pesquisa
Grandes Temas do Conhecimento – Psicologia/ Mythos Editora

COMO TRATAR O TRANSTORNO BIPOLAR

Autoria de LuDiasBH

Seja em pacientes com transtorno bipolar ou com outros quadros menos graves, os aspectos subjetivos da negação tem como uma das características o pavor do encontro com a experiência psíquica da diferença. (Júlio César Waiz)

O Transtorno Bipolar, uma das doenças mentais que afetam cerca de 4% da população mundial, segundo dados da Associação Brasileira de Tratamento Bipolar (ABTB), é também conhecido como Transtorno Afetivo Bipolar ou ainda como Transtorno Bipolar de Humor. Trata-se de uma doença crônica e, portanto, seu tratamento farmacológico deve ser contínuo. Devem ser usados, principalmente, medicamentos que estabilizem o humor, anticonvulsionantes e, em casos graves, antipsicóticos.

Em razão do estigma que, infelizmente, os transtornos mentais ainda acarretam numa sociedade ainda pouco informada, é comum que a pessoa acometida pela bipolaridade, assim como sua família, negue ou esconda a existência do problema, o que só vem a agravá-lo, pois quanto mais cedo for contido, menos estragos fará ao portador e à família. O estado de negação, quando o doente (ou as pessoas ao redor) finge estar tudo bem, em razão do medo do confronto com o diagnóstico, ou seja, do encontro com a experiência psíquica da diferença, tem sido um problema sério no que diz respeito ao tratamento.

Os familiares de um portador de tal transtorno devem oferecer o máximo de informações ao médico especialista a fim de ajudá-lo obter um diagnóstico preciso, pois é sem dúvida um dos mais complexos, a menos que o indivíduo encontre-se em crise maníaca de grande intensidade. Quando o quadro é confundido com depressão e é receitado ao paciente um antidepressivo apenas, o polo maníaco pode vir à tona ou acirrar ainda mais a depressão (uma das fases do transtorno). Caso isso aconteça, o doente deve ser levado imediatamente ao médico para a troca de medicação.

 Assim como acontece com as pessoas vitimadas por outros transtornos mentais, a maioria dos portadores do Transtorno Bipolar deixa o tratamento farmacológico logo que se veem livres das crises, tendo o humor estabilizado. E é exatamente aí que mora o perigo, pois ao interromper a medicação, novas crises costumam surgir, levando o doente a entrar numa atordoante e sofrida roda-viva. A luz que jazia no fim do túnel, oferecendo melhor qualidade de vida, é novamente apagada, pois a função dos medicamentos é estabilizar o organismo do paciente pelo maior período de tempo possível, evitando as crises e oferecendo-lhe uma vida melhor.

As psicoterapias também são indicadas para os portadores do Transtorno Bipolar, mas devem sempre estar agregadas ao tratamento medicamentoso. Elas devem oferecer suporte emocional, incentivar o tratamento alopático e possibilitar o autoconhecimento aos pacientes, fator importante para ajudá-los a superar situações que possam levar a novas crises. É fundamental que a família também seja conscientizada quanto ao impacto negativo de tal transtorno na vida do doente, de modo a ajudá-lo no tratamento, a fim de que obtenha melhor qualidade de vida em todos os campos (vida afetiva, profissional e em outros contextos sociais).

O doente e seus familiares devem estar atentos em relação ao diagnóstico, pois há muitos erros por parte dos especialistas. Não é qualquer alteração de humor que pode ser diagnosticada como bipolaridade, obrigando o suposto doente a tomar uma carga de medicamentos desnecessariamente. Todas as pessoas apresentam alterações de humor, ainda mais no mundo corrido e competitivo de hoje em que a hierarquia de valores virou pelo avesso. A escolha de um bom profissional faz toda a diferença, assim como as informações precisas da família. Se ainda houver dúvidas quanto ao diagnóstico, deve-se buscar uma segunda ou terceira avaliação.

 Nota: Faces, obra de Pablo Picasso

Fonte de pesquisa
Grandes Temas do Conhecimento – Psicologia/ Mythos Editora