CONFISSÕES DE UMA MENTE DEPRESSIVA

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Autoria de LuDiasBH

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Os pensamentos escravizam-me e me fazem sofrer. Deito-me com eles, até que o sono chega, muitas vezes induzido, trazendo um pouco de alívio. Mas mal abro os olhos para o novo dia, lá estão os flageladores, como espiões a me aguardar. Grudam de novo em mim, como se fossem sanguessugas a me sorver qualquer laivo de compreensão dos fatos. Faço mil indagações sem encontrar respostas. Ao contrário, embrenho-me, cada vez mais, numa teia confusa de grudenta inquirição. Há uma incompletude e uma cegueira que não me permitem vislumbrar respostas. Mas eu as quero. Os acontecimentos se parecem com monstros que se avolumam, prestes a me engolir viva. Enfraqueço-me. Desespero-me. Revolto-me. Perco a noção de que toda vida inclui infortúnios e cicatrizes. Ainda assim não me dou por vencida.

Uma faísca de discernimento, repentinamente, toma forma em meio aos pensamentos amotinados. Então, sou capaz de perceber o tamanho do absurdo que abocanha a minha mente. Mas quanto despautério. A conscientização do despropósito torna-me feliz, pois eu me absolvo. Não mais procuro por respostas. Limito-me a rir, pois não se pode lutar contra o absurdo. Ele é assustadoramente inatingível, inepto, desprovido de consciência ou razão. É um nonsense absoluto. Solto as amarras dos pensamentos conflitantes e ávidos por respostas. E me liberto. Embora saiba que tais acontecimentos voltarão a se repetir. Mas não mais me importo. Um dia de cada vez já é o suficiente.

A conscientização da existência do absurdo devolveu-me a felicidade. Não penso como Camus, que a conscientização do despautério “surge da felicidade”. Ao contrário, a felicidade nasce ao se tomar consciência de que certos fatos são destrambelhos sem nexo ou plexo, não merecendo nenhuma relevância. Logo, não há de se cozinhar os miolos para obter respostas, pois elas inexistem. Ao compreender o descompasso da incongruência, eu faço a minha própria redenção.  Meus sentidos tornam-se mais despertos e minhas emoções mais apuradas. A razão, antes fugidia, retoma seu lugar de origem. Eu rio e até lamento por ter gasto tantos neurônios à toa.

Os pensamentos, antes atordoados, agora se voltam para a criação, em busca dos momentos perdidos, com a certeza de que mais cedo ou mais tarde, tudo na natureza se rende ao tempo. Sinto-me incrivelmente bem humorada. Um turbilhão de palavras aflora em minha mente, querendo ser expressas através do verso ou da prosa. É como se esta voragem assumisse a forma da esfinge grega e me dissesse: Decifra-me ou te devoro! Chega de inanição. Os meus dedos mal dão conta de acompanhar no teclado o parir das palavras pela minha mente desgovernada, mas liberta. E, junto com a sensação gostosa de novamente me sentir feliz e em paz, tomo emprestada as palavras atribuídas ao general e cônsul romano Júlio César, em 47 a.C, “Vim, vi, venci!” (Veni, vidi, vici). Só que com uma diferença: eu venci a mim mesma, ao conseguir me desviar do turbilhão prestes a me sugar . Até quando? Não me importa o tempo! Já me basta a luz que ora me ilumina.

Nota: Lady Macbeth Sonâmbula – obra do pintor suíço Johann Heinrich Füssli

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