DOAÇÃO E TRANSPLANTE DE FÍGADO

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Autoria de LuDiasBH

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Em todo o mundo, inúmeras pessoas encontram-se na fila para um transplante de fígado, mas poucos sabem o modo como se dá o transplante de tal órgão. Pesquisando, tive acesso a uma entrevista do conhecido médico Dr. Dráuzio Varela com o Dr. Telesforo Bacchela (Professor de cirurgia, presidente da Comissão de Transplantes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro do conselho da ABTO.), que me pareceu muito esclarecedora. Vou postar as partes mais interessantes, que julgo necessárias para o conhecimento do leitor. Porém, seria bom que tomassem conhecimento de todo o artigo, cujo endereço eletrônico encontra-se ao final deste texto.

Mas o que é o fígado? O fígado é uma glândula constituída por milhões de células – os hepatócitos –, localizada no lado direito do abdômen, que produz substâncias essenciais para o equilíbrio do organismo.

Se o fígado possui uma capacidade extraordinária de recuperação, por que adoece? Certas doenças provocam insuficiência hepática aguda ou crônica grave que podem levar ao óbito. Nesses casos, o único recurso terapêutico é a substituição do fígado doente por um fígado sadio retirado de um doador compatível com morte cerebral ou de um doador vivo que aceite doar parte de seu órgão para ser transplantado.

Onde foi realizado o primeiro transplante de fígado na América Latina e qual é a taxa de sobrevidas nos casos de transplantes? O primeiro transplante de fígado foi realizado com sucesso no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1968. A taxa de sobrevida nesses casos, que era de 30% nos anos 1970, passou a 90% no final da década de 1980.

Drauzio – Em linhas gerais, tecnicamente como é feito o transplante de fígado?
Telesforo Bacchella Existem duas modalidades principais de transplante de fígado:
1º caso – usando o fígado de um doador em morte encefálica ou parte do fígado de um doador vivo. Depois de obter a autorização da família para utilizar o órgão, uma equipe especializada retira o fígado, que é preservado em soluções especiais a quatro graus centígrados e transportado para o hospital onde será transplantado no receptor doente indicado pela Secretaria de Saúde. A colocação envolve suturas nas principais vias sanguíneas que passam pelo fígado (veia cava, veia porta e artéria hepática) e o restabelecimento do fluxo da bile, que é produzida no fígado e lançada no intestino.

2º caso – No transplante intervivos (entre pessoas vivas), idealizado para atender receptores pediátricos por causa da escassez de órgãos nessa faixa de idade, o doador é um adulto do qual é retirada parte do lobo esquerdo ou do lobo direito do fígado. Apesar de mais complexa e envolver risco para o doador, como essa técnica cirúrgica mostrou-se bem indicada e bem aceita nas crianças, acabou sendo utilizada também em pacientes adultos, uma vez que a falta de órgãos para transplante não ocorre apenas na infância.

Drauzio – Qual é a duração dessas cirurgias?
Telesforo Bacchella O transplante de fígado de cadáver, que pressupõe apenas a cirurgia do receptor, em média, leva de 6 a 8 horas, mas pode chegar a dez, doze horas, às vezes. Atualmente, essa técnica está bem padronizada e controlada, e é raro os receptores necessitarem de muito sangue. Já o transplante intervivos é um procedimento mais demorado. Leva de 10 a 12 horas porque, além da hepatectomia (retirada de parte do fígado do doador vivo, e do fígado doente do receptor) e da colocação do fígado sadio no lugar do fígado doente, a técnica envolve a utilização de microcirurgia, tendo em vista que os vasos sanguíneos são muito finos.

Drauzio – É a mesma equipe profissional que realiza a cirurgia do começo ao fim?
Telesforo Bacchella – Existem centros em que a mesma equipe realiza as duas cirurgias: a do doador e a do receptor. No Hospital das Clínicas, uma equipe faz a cirurgia no doador e só depois de verificar que, do ponto de vista anatômico, o fígado é viável, outro grupo de profissionais inicia a cirurgia no receptor. O objetivo em buscar certa sincronia nos dois procedimentos é reduzir o tempo da operação.

Drauzio – O pós-operatório dos transplantes de fígado é muito complicado?
Telesforo Bacchella Tudo depende das condições do receptor antes do transplante e da qualidade do órgão transplantado. Se o receptor se encontra em condições clínicas favoráveis, sob o ponto de vista nutricional e da doença hepática de base, suporta melhor a cirurgia. Se o órgão veio de um doador considerado ideal, a recuperação do doente é rápida. No primeiro dia depois do transplante, ele fica na UTI e já, no dia seguinte, começa a alimentar-se. Se o fígado veio de um doador não ideal, se a cirurgia foi mais complexa porque o doente já havia sido operado anteriormente e apresentava aderências de tecidos ou doença hepática em estágio mais avançado, por exemplo, as complicações são mais frequentes. Quanto ao funcionamento do órgão transplantado, o tempo independe do tipo de transplante (de cadáver ou intervivos). No entanto, quanto maior for a demora em o órgão transplantado começar a funcionar, mais prolongado será o período de internação na UTI e mais arrastada a recuperação.

Drauzio – Em que casos, o transplante de fígado deve ser indicado?
Telesforo Bacchella A principal indicação em criança é um defeito anatômico congênito chamado atresia das vias biliares. Nesse caso, como o canal da bile não se desenvolve, ela fica represada no fígado, que evolui para cirrose. Quando não se consegue corrigir esse defeito por outros meios, o jeito é fazer o transplante. Também são candidatas ao transplante de fígado as crianças com defeitos metabólicos, isto é, com doenças congênitas hereditárias que determinam alterações metabólicas graves. Noventa por cento dos candidatos adultos ao transplante hepático são cirróticos. Desses 90%, metade tem cirrose porque foi infectada pelo vírus da hepatite C. Nos outros, a causa da cirrose pode ser o vírus da hepatite B, o álcool, o vírus da hepatite C associado ao álcool,  o vírus da hepatite B mais hepatite Delta, hepatites autoimunes, cirrose biliar primária, colangite esclerosante e cirrose biliar secundária.

Drauzio – Que riscos correm os doadores vivos que se propõem doar parte do fígado para transplante?
Telesforo Bacchella Como dissemos, o transplante intervivos foi idealizado inicialmente para os receptores pediátricos, por causa da escassez de doadores nos primeiros anos de vida. O grau de complexidade dessa cirurgia varia bastante. Ela pode ser relativamente simples e de pouco risco para o doador adulto, quando se utiliza um pequeno segmento – o segmento lateral esquerdo – de seu fígado para transplantá-lo em crianças menores. No entanto, a cirurgia torna-se muito mais complexa, se for necessário transplantar todo o lobo esquerdo ou todo lobo direito do fígado do doador adulto, porque o receptor tem tamanho maior. Atualmente, o transplante intervivos faz parte da rotina no tratamento das doenças hepáticas. Os riscos existem para o doador adulto, e vão desde complicações simples, como infecção da ferida cirúrgica e demora em voltar ao trabalho, até o óbito.

Drauzio – O doador tem de ser histologicamente compatível com o receptor? Isso obriga que seja escolhido entre os familiares da pessoa doente?
Telesforo Bacchella Diferente dos transplantes de rim que exigem compatibilidade maior por HLA ou por prova cruzada, o transplante de fígado requer apenas a compatibilidade ABO do tipo sanguíneo, porque ele é um órgão de maior tolerância imunológica, ou seja, que se adapta mais facilmente ao novo receptor, apesar da agressão imunológica a que está exposto. Exceção feita aos irmãos univitelinos, isto é, aos gêmeos idênticos, está provado que não faz diferença o doador ser um parente próximo ou distante ou um cadáver.

Drauzio –Nos transplantes de fígado, como fazer o organismo aceitar esse corpo estranho e harmonizar esse convívio?
Telesforo Bacchella Essa é uma questão-chave na tecnologia dos transplantes. Convém lembrar que a rejeição é uma das reações imunológicas que nos mantêm vivos. Nosso organismo é diariamente atacado por vírus, bactérias e fungos. Através do sistema imunológico, ele reconhece esses microrganismos como agressores e os elimina. Com o órgão transplantado, comporta-se da mesma forma. Como com o novo órgão entra no organismo do receptor uma carga enorme de proteína e de antígenos, seu sistema de defesa não sabe se aquilo é um vírus ou uma bactéria e começa a desenvolver clones celulares e anticorpos específicos para destruir o corpo estranho. Felizmente, a ciência progrediu muito e foram descobertas substâncias capazes de “enganar” o sistema imunológico a fim de que o órgão do doador seja tolerado pelo organismo do receptor. Embora o maior medo do transplantado seja a rejeição, o risco de perda do órgão por esse motivo é de 1%, portanto, muito baixo.

Atenção: a entrevista completa pode ser encontrada em
http://drauziovarella.com.br/clinica-geral/transplante-de-figado/

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