ELA SÓ FALAVA ABOBRINHAS

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Autoria de LuDiasBH abobrinha

Não é fácil passar uma noite acompanhando alguém que só fala abobrinhas. Ninguém merece tamanho desatino. E foi justamente uma dessas mentes de ameba que se sentou a meu lado, durante o jantar de sábado, num desses restaurantes que gente como eu só conhece em filmes, ou, quiçá, uma vez na vida.

Éramos cerca de uma dúzia de pessoas. Duas delas me eram vagamente conhecidas, as demais eu nunca vira em toda a minha vida. Nem ao menos tenho a certeza do porquê de ter sido convidada e desconheço mais ainda os motivos que me levaram até aquele ambiente pomposo. Homens e mulheres eram chicantes, sendo que as últimas ostentavam ouro e pedrarias, num contraste intrigante com a minha simples figura, que usava uma velha calça jeans, uma camisa de listras e uma sandália baixa. O que eu fui fazer ali? Será que estava variada do juízo?

Cada assento da mesa trazia o nome da pessoa, em dourado. E o meu estava lá. Assentamo-nos. A meu lado esquerdo, abancou-se um senhor de óculos, taciturno, totalmente desligado do mundo à sua volta, mas com um apetite voraz. Enquanto à minha direita estava uma senhora caricaturesca, uma matraca viva. A dita não mostrava nenhum interesse pelas iguarias servidas. Estava ali para falar e falar, sem nenhum interesse para com seu ouvinte.

Eurides Flores Pombal começou desfiando a sua árvore genealógica, folha por folha, onde, em cada galho, habitava uma “ilustríssima” personagem, responsável por ter feito isso e aquilo pelo país. Depois, pôs-se a palrar sobre seus giros pelo mundo, só lhe faltando conhecer o Olimpo. Parolou minutos a fio sobre suas cirurgias, feitas nos centros mais renomados do país. Tagarelou sobre artistas e seus amigos endinheirados.  E eu ali, mudinha da Silva de Jesus, com um sorrisinho amarelo, tentando levar a tortura numa boa. E pior, não conseguia comer nada, embora estivesse faminta.

Meu caro leitor, a nossa mente está sempre a nos pregar peças, ainda que queiramos passar por pessoas refinadas e coisa e tal. Só sei que, repentinamente, com toda aquela verborreia sem sentido, entrei em parafuso, e comecei a ver abobrinhas saindo, aos montões, da bocarra da madame. Elas iam caindo pela mesa, derrubando taças de cristal, travessas de porcelana e tudo que encontrassem pela frente, num caos infernal. Pensando que estava ficando abilolada, ou tendo até mesmo um ataque de Síndrome do Pânico, tapei os olhos com a barra da toalha de linho branco, bordada com fios de prata, derrubando o resto de coisas que ainda se encontrava de pé. As pessoas levantaram-se de seus assentos e começaram a gritar comigo.

Era uma noite relativamente fria, o que levou o meu marido, a descoberto, puxar a manta na qual eu me envolvia até a cabeça. Acordei! E, por coincidência, minha filha entrou no quarto, chegando de uma noitada, para me contar que comera uma abobrinha deliciosa, ao molho de não sei o quê. E que iria fazer para o almoço do domingo. Foi quando, descabelada, assentei-me na cama gritando:

– Abobrinha, não! Abobrinha, não! Abobrinha, não!

Antes de voltar a dormir, ainda ouvi minha filha falar com o pai que eu estava precisando aumentar a dosagem do oxalato de escitalopram. E, que na segunda-feira ela iria marcar uma consulta com o psiquiatra para mim. O que não faz um pesadelo!

E por falar em abobrinhas, a expressão “só fala abobrinhas”, muito conhecida em nossos dias, originou-se quando a nossa moeda ainda era o cruzeiro, e a nota de mil cruzeiros ganhou o apelido de abobrinha, pois a cédula tinha a cor do fruto da aboboreira. Com a inflação, ela foi perdendo progressivamente o seu valor de compra. Hoje, “falar abobrinhas” significa uma conversa sem sentido, sem crédito, papo furado…

Nota:  a imagem que ilustra o texto foi copiada de www.ascobom.org.br

2 comentários sobre “ELA SÓ FALAVA ABOBRINHAS

    1. LuDiasBH Autor do post

      Eucajus

      O que você está falando é verdade ou são apenas abobrinhas?… risos.
      Volte sempre, será um prazer contar com sua presença.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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