Historiando Ataulfo Alves/Mário Lago – AI QUE SAUDADE…
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Autoria de LuDiasBH

Amélia morria de amores por seu homem. Viviam juntos há cerca de um ano. Levantava-se ainda no raiar do dia para esquentar água para ele se banhar, engomava sua camisa da cor da cal, e não o deixava se esquecer da brilhantina Glostora nos cabelos pretos como a asa da graúna. E um sem conta de vezes correu atrás dele para pingar-lhe no pescoço umas gotas de Lancaster. Sentia orgulho ao saber que seu macho era o mais garboso dentre os colegas. Seu coração ficava atufado de vaidade, por ser uma mulher tão devotada, sem exigir nada para si.

Antônio José, ao chegar ao serviço, todo luxento e cheiroso, atraía cada vez mais a atenção das moças da fábrica. E não demorou muito para que a filha do patrão caísse de amores por ele. E tempo menor ainda foi o que levou o casal ao cartório. E assim ficou Amélia, esquecida na história, com o vidro de Lancaster pelo meio e o de brilhantina Glostora, com um restinho no fundo, na cantoneira de seu minúsculo quarto. De resto, só ficou a saudade!

Floripes, a nova mulher, não dava tréguas para Antônio José. Queria tudo do bom e do melhor, pouco lhe importando as condições do marido, que se estafava de tanto trabalhar. Não mais aguentando o tranco, o não tão coitado abriu o verbo com a esposa: “Eu nunca vi fazer tanta exigência/ Nem fazer o que você me faz/ Você não sabe o que é consciência/ Não vê que eu sou um pobre rapaz/ Você só pensa em luxo e riqueza/ Tudo o que você vê, você quer”.

Aos amigos do peito, Antônio José choramingava as saudades que sentia da antiga companheira, lembrando-se de como era feliz: “Ai meu Deus, que saudade da Amélia/ Aquilo sim é que era mulher/ Às vezes passava fome ao meu lado/ E achava bonito não ter o que comer/ E quando me via contrariado, dizia:/ Meu filho, o que se há de fazer/ Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia que era a mulher de verdade”.

Um francês chegou à cidade e encantou-se com o jeito carinhoso de Amélia. Cortejou-a durante dois meses, foi-se embora, mas retornou. Levou-a consigo no seu velho Ford vermelho para a capital paulista. Terminados os negócios do gringo, o casal atravessou o Atlântico e foi morar em Paris, onde Amélia tornou-se Madame Amélie Chermont.

Obs.: clique no link para ouvir:
AI QUE SAUDADES DA AMÉLIA

Nota: Mulher Pendurando Roupa no Varal, obra de Heitor dos Prazeres.

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