ÍNDIA – A FILOSOFIA HINDUÍSTA

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBH

DARMA

O hinduísmo possui uma visão filosófica sobre a existência do Universo bem distante daquela apregoada pelo cristianismo, que a relata de acordo com o seu livro Gênesis. Para os adeptos da religião hindu, o mundo vive em permanentes ciclos de evolução e dissolução, crescimento e decrescimento, assim como um organismo vegetal ou animal, sendo Brahma a força espiritual responsável por manter esse processo ininterrupto, numa eterna repetição.

Ao contrário do cristianismo, segundo o hinduísmo, o homem não ascende à natureza, mas apenas é uma parte dela, jamais seu dono. O que existe é a transmigração da alma, que passa de uma espécie a outra, de corpo a corpo, de vida a vida. De modo que ele nada mais é que um elo na cadeia da vida, e não especificamente um indivíduo. Amanhã poderá ser uma árvore, depois um elefante, ontem pode ter sido uma barata, etc. As espécies não são, na verdade, um divisor de águas, mas estados transitórios, uma vez que a vida é una.

Para o hinduísmo, uma vida corresponde apenas a uma das infinitas transmigrações da alma, sendo que toda forma é transitória, dentro de uma realidade única e contínua. As reencarnações nada mais são do que fases de uma vida individual, que podem levar a alma ao progresso ou à decadência, de acordo com a sintonia existente entre Darma e Carma. De modo que todo ser existente no Universo possui um fim determinado, pois obedece à lei da existência. Tal lei recebe o nome de Darma, enquanto a ação de fazer com que ela seja cumprida recebe o nome de Carma.

Samsara (ou Roda de Samsara) representa o ciclo contínuo de nascimento, morte e transmigração da alma, a que tudo está sujeito. E quanto mais um ser se afastar durante uma vida, da lei da existência, mais tempo permanecerá na Roda de Samsara. Para encurtar os ciclos de suas muitas existências é preciso que o homem busque a iluminação total, abrindo mão de qualquer tipo de apego. E isso se dá na busca pela harmonia entre Darma e Carma.

O hinduísmo argumenta que, sendo a alma imortal, ela não poderia ser definida em uma única existência. E assim como não temos memória de nossa infância, a alma também não se lembra das vidas anteriores. O lugar que cada homem ocupa hoje é o resultado de suas vidas passadas. Por isso, ou ele está cumprindo uma pena (como os dalits ou as sub-castas), ou desfrutando o prêmio da virtude vivida em alguma existência anterior (como as castas mais elevadas).

Na Lei do Carma (a lei da casualidade no mundo espiritual) nada fica sem efeito por menor que seja o bem ou o mal produzido. Essa é a mais reguladora de todas as leis, a mais justa, a mais sábia. Ela está acima dos deuses e dos homens e faz com que cada um renasça segundo o seu merecimento. Por isso, não há conversão ao hinduísmo. Pois a casta, onde se nasce, é determinante para a doutrina da religião. Nenhum deus (o hinduísmo possui mais de trezentos milhões de divindades) pode reverter a ação da Lei do Carma. A pobreza e a riqueza são resultantes de existências passadas. E assim deve viver o homem, até que cumpra a sua missão no ciclo de vidas.

Segundo alguns historiadores e economistas, a fé na Lei do Carma e na transmigração da alma é o maior obstáculo para suprimir o sistema de castas na Índia, embora a constituição do país já o tenha feito no papel. Mas, entre os escritos no pergaminho e a realidade está o pico inacessível do Himalaia. Comprovando o que disse o Dr. Ambedkara respeito da Constituição indiana:

Ela será apenas um pedaço de papel, enquanto não ficar inscrita no coração dos cidadãos.

E pior, os hindus ortodoxos tomam como um sacrilégio, perturbar o plano divino. De modo que as coisas têm que ser como são. E ponto final.

Enquanto não houve conversões ao cristianismo e ao islamismo, a Lei do Carma funcionou como um bálsamo, principalmente para os párias, que viviam dentro de uma passividade total. Todos aceitavam, sem chiar, o destino herdado, na esperança de voltar num patamar mais alto na próxima transmigração. O hinduísmo conseguia pacificar a tragédia humana, valorizando o sofrimento. Pois, se aceito com paciência, ele seria passageiro e conduziria a uma vida melhor. Caso contrário, voltaria a se repetir.

A mais nobre aspiração de um hindu é se ver livre da reencarnação, pois acredita que, quando isso acontece, o ego que revive em cada nascimento individual, foi vencido. Logo, a salvação não se dá através da fé ou das obras, como apregoa a maioria das religiões, mas pela crença de que o “eu” está morto. Por isso Gandhi disse:

– Eu não quero renascer!

De certa forma, o hinduísmo foi responsável pelo enfraquecimento e atraso da Índia por tanto tempo, ao amarrar grande parte de seu povo à onipotência dos brâmanes e a um sistema de castas, mantendo-o subjugado pela servidão, onde a esperança estava depositada apenas em outra vida, destruindo a coragem e a vontade de viver de seus fiéis. Os brâmanes confiavam na ignorância dos párias, como uma força capaz de preservar as divisões de castas. Tudo correu na mais absoluta tranquilidade, até que o Islã e o Cristianismo fizeram-se presentes no país.

A Índia atual vive tempos marcados pela revolta contra a injustiça e a pobreza extrema, quando passa a trilhar como gente grande os caminhos da tecnologia de ponta. Só para ilustrar a rapidez com que esse país adentra no mundo capitalista, deixo aqui a fala de um amigo estadunidense:

Quando ligo para o meu banco em Boston, sou atendido na Índia, por alguém com um inglês arrastado, muito difícil de ser compreendido.

 Como sobreviverão o Darma e o Carma dentro do capitalismo? Eis a questão!

Nota: imagem copiada de esoterismoyenergia.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *