O CIRCO PIOLIN E A TEMPESTADE

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 Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

O grande espaço vazio ao lado do Atalaia Hotel, minha casa, era o lugar em que eu e meu melhor e mais próximo amigo, o Mário,  um  pouco  maior  que  eu,  brincávamos.  Esse espaço, ocupado  por  um  grande  capinzal,  tinha  dois  grandes atrativos. Um deles era a proximidade possível com cavalos. Aí vinham colocadas a pastar as éguas de um português que, não por coincidência, chamava-se Manoel. Não por coincidência, o filho do “seu” Manoel, um molecão malcriado, chamava-se Joaquim. Era o Joaquim das éguas que administrava a colocação e retirada daqueles animais. Outra grande brincadeira, sempre com meu amigo Mário, filho de uma lavadeira das vizinhanças, era organizar grandes “trens”, constituídos  por filas  de  jacás  de  bambu,  que  aí  eram atirados vazios pelos fornecedores das verduras para o restaurante do hotel. Eu, meu amigo Mário, as éguas e o Joaquim das éguas éramos, senão  os  únicos,  os  mais assíduos  frequentadores  desse capinzal.

Num certo dia fomos surpreendidos pela presença de uma grande faixa que anunciava: “Aqui brevemente, CIRCO PIOLIN”. Foi a notícia que alvoroçou toda gente do bairro, especialmente a molecada. Piolin era já um famoso e original palhaço, chefe de uma grande família circense e que havia tomado parte na Semana de Arte Moderna. No dia seguinte ao aparecimento da faixa, em minhas andanças no capinzal entre as éguas do Joaquim, encontrei um objeto circular, pesado, com  capa  de  couro  e uma pequena manivela no centro. O que seria e de quem seria aquilo? Mostrando o objeto a meu pai descobri tratar-se de uma trena. Deveria ser da gente do circo. Meu pai aconselhou-me a guardar aquele objeto para devolvê-lo aos prováveis donos, as pessoas do circo. Poucos dias depois quando por lá apareceu no capinzal um grupo de pessoas, fui ver se era mesmo daquela gente o tal objeto.

No grupo havia um senhor bem mais velho que os demais. Dirigi-me a ele. Logo, que viu a trena em minhas mãos, sorriu e veio em minha direção. “Você achou a trena?”, questionou-me. Sem necessidade de qualquer outra pergunta, entreguei-lhe a trena. Depois de fazer-me elogios pelo encontro e devolução daquele importante instrumento de trabalho da equipe de instaladores do circo, ele me disse: “Você vai ganhar uma permanente do circo”. Tirou do bolso um cartão onde escreveu: “convidado permanente”. Assinou: Galdino Pinto. Era ele nada menos do que o patriarca  da  família  do  circo  e  pai  do  famoso  palhaço  Piolin, Alberto Pinto. Os dias seguintes foram de grande movimentação com a chegada de todo equipamento e início da montagem do circo. Acompanhei todo o trabalho da montagem. Já me tornara “intimo” naquele ambiente.

No dia marcado para a inauguração do circo, a banda, em uniforme de gala, tocava dobrados na ilha que havia no meio da rua Copacabana, na esquina do “Copa”. Eu teria entrada garantida, mas a inauguração era solene e à noite. Fui com meu pai para comprar as duas entradas adicionais. Logo seu Galdino me reconheceu e conversou com meu pai sobre o episódio da trena. A essa altura eu já havia acompanhado toda a montagem do circo e aí me sentia “em casa”. Enquanto conversávamos com seu Galdino, ele olhou para o alto da nova lona a ser inaugurada e comentou: “Esse vento está me preocupando.”. Enquanto fazia esse comentário, seu Galdino apontou para o alto da lona que começava a arfar.

Já com as entradas nas mãos, meu pai e eu voltamos para casa para os preparativos da “soirée”. As janelas de nosso apartamento, do lado do prédio, no primeiro andar, tinham  bem na frente a visão  total do circo  no terreno vizinho. Em poucos instantes, o vento “esquisito” se transformou num vendaval, que destroçou todo o circo, rasgando em muitos  pedaços  a  lona,  fazendo  voar  tábuas  que  bateram  de encontro ao nosso edifício. Em pouco tempo o circo ficou reduzido a escombros. Antes de fechar nossas janelas, pudemos acompanhar toda correria dos integrantes, familiares e empregados tentando salvar partes que esvoaçavam com a tempestade, deixando à mostra todo o interior e fundos do circo. Depois do vendaval desabou um imenso aguaceiro sobre o circo já destruído.

Na manhã seguinte, o espetáculo era de verdadeira desolação.  Outro drama se acrescentava à destruição. O palhaço “Camarão” de quem eu me tornara amigo, era sempre acompanhado de um macaquinho que lhe ficava sobre os ombros. Na noite do temporal, o bichinho, assustado, caiu do alto para dentro de um dos dois grandes postes tubulares de sustentação do circo. Levaram dias para que conseguissem resgatar o macacaquinho, usando cordas desde o alto para dentro do grande mastro de sustentação. Foram muitos dias de reparos até que tudo fosse remontado e uma nova lona fosse colocada  para a adiada estreia. Essa demora, para mim, foi altamente interessante. Acompanhei todo o trabalho e, como já me tornara íntimo, podia circular durante o dia, por entre os artistas, o equipamento e o treinamento. Fiquei conhecendo por dentro a vida do circo, especialmente tendo como cicerone o famoso palhaço “Camarão”, muito gentil e generoso comigo.

Nota: Extraído do livro “Corrupira”, ainda inédito, do autor.
Imagem copiada de Colégio Ecologia

2 comentários sobre “O CIRCO PIOLIN E A TEMPESTADE

  1. Maria Tereza Alaggio

    Prof. Caniato

    Infelizmente o circo mambembe, com toda a sua simplicidade,foi engolido pelo progresso e pela especulação imobiliária. Cadê terrenos vazios? Eu adorava assistir aquele espetáculo tão ingênuo, ria das trapalhadas do palhaço e das encenações “teatrais”. E os animais, o elefante, etc. A música,os sustos com as cenas mais perigosas, deslumbravam as crianças sem televisão, ainda. Hora da saudade, o seu lindo texto.

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  2. LuDiasBH Autor do post

    Prof. Caniato

    O senhor traz uma lembrança muito querida da história de nosso país: o Circo Piolin. Sua narração, brilhante como sempre, revive um momento mágico, apesar da tempestade, desse que foi um dos grandes meios de entretenimentos de crianças e adultos em nosso país. Histórias como essas não podem ficar no esquecimento. Resta-nos aplaudir o seu empenho em não permitir que fatos importantes da história de nosso país caiam no esquecimento. E que o “menino da trena” continue nos encantando com suas lembranças.

    Abraços,

    Lu

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