O OFTALMOLOGISTA, A CRIANÇA E PAPAI NOEL
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Autoria do Dr. Ivan T. Large

noel

Os pensamentos cavalheirescos deste Dom Quixote são bruscamente interrompidos pela invasão barulhenta de um jovem bárbaro. Neste momento, a tranquilidade da minha sala de consultas está sendo ameaçada pelos olhos furibundos de um menino de quatro anos.

É o Bruno! Camisa aberta, ele expõe, sobre uma barriga proeminente, os restos de biscoitos da sua mais recente refeição, como um leão exibindo orgulhosamente sobre sua juba, os vestígios ensanguentados da sua última presa. Entra, arrastando a mãe como uma prisioneira submissa e resignada. Ocupa uma das cadeiras na frente da minha mesa, como se fosse o seu trono. Mas não fica sentado por muito tempo. E hora de tomar posse da minha sala. Conquistador vitorioso, vai de um canto ao outro, inventariando tudo que encontra no seu caminho, perguntando sem parar; “O que é isso? O que é isso?”

Entre uma interrupção e outra de nosso inquisidor, a mãe me explica que, desde que Bruno começou a frequentar o jardim de infância, reclama que não entende nada do que a professora (pobre professora!) escreve no quadro. É imperativa a realização de um exame oftalmológico minucioso. Mas, como explicar ao meu paciente que esse exame requer a sua colaboração, tão ocupado, que está neste exato momento, em revirar uma gaveta contendo, por acaso, alguns instrumentos de extrema delicadeza? Tentar acalmá-lo por argumentos lógicos seria pura ingenuidade.

Em vez de me aventurar pelas vias cartesianas, escolho os caminhos hedonísticos: preciso achar um jeito de canalizar esta energia transbordante e conduzi-la através das diversas etapas do exame, disfarçando-as em atividades lúdicas. Simples, não? Pego a minha vara mágica debaixo da minha mesa, pronuncio as palavras apropriadas ao encanto desejado. E pronto! A minha sala austera transforma-se num alegre parque de diversões. O exame em que, a fim de testar a visão de um olho de cada vez, eu preciso tampar o outro olho, vira uma engraçada brincadeira de pirata. Depois, Bruno segue alegremente com o olhar, um pequeno avião que eu faço voar na sua frente, descrevendo incríveis acrobacias. E lá se foi, numa boa, o exame dos movimentos oculares.

A minha lanterninha faz o papel de uma perigosa arma a raio laser, e o aparelho, munido de uma lâmpada, que eu coloco na minha cabeça para examinar o fundo do olho, é de fato o capacete de um poderoso herói de desenhos animados. Neste momento, Bruno está olhando dentro de um aparelho computadorizado, uma pequena casa vermelha no final de uma estrada. Esta casa tem o propósito de captar a atenção do examinando, a fim de manter o seu olhar fixo durante a realização do exame. A fim de aguçar o interesse dos mais jovens, eu costumo atribuir a possessão deste imóvel a diversos personagens como Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos ou a Bela Adormecida, dependendo do gosto literário do pequeno paciente, que fica esperando, apreensivo, a aparição do lobo mau ou da bruxa malvada, enquanto aproveito cinicamente para levar a termo o meu exame.

Como estamos na época do Natal, resolvo nomear a intenção do Bruno como sendo Papai Noel, proprietário da casa vermelha. A fim de ser bem convincente e sem medo do ridículo, imito, escondido atrás do aparelho, a risada característica do bom velhinho, O meu plano maquiavélico não poderia funcionar melhor, e posso constatar, pelo resultado, que já apareceu na tela, que o Bruno terá que usar óculos com grau elevado. Ainda dissimulado, decido então a imitar a suposta voz de Pai Noel.

– Meu pequeno Bruno, eu vou te trazer um par de óculos muito lindos para o Natal!

A oferta não parece agradar ao pequeno que, do outro lado do aparelho, começa a gritar furioso:

– Óculos, não! Óculos, não! O que eu quero é um trator!

Você tem razão, meu caro amigo, de reclamar com tanta veemência contra este Papai Noel enganador, contra este conto que não tem o final feliz esperado, e, que parece até querer imitar a vida real. Mesmo assim, eu te desejo um feliz Natal e espero que enxergues com olhos melhores, neste Ano Novo e nos numerosos outros que a vida te reserva, através destes óculos que eu te receito com todo o meu coração.

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