RAFAEL SOB A ÓTICA DE PIERRE SANTOS (II)

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Autoria do Prof. Pierre Santos

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O fascínio mais veemente desta pintura, Virgem de Foligno, sobre nossa atenção é exercido exatamente através da composição. Em cima, a Virgem Maria com o Menino Jesus, não no colo, mas encostado (literalmente) no lado esquerdo do tronco da mãe, sustentado pelo braço dela, ambos rodeados por uma nuvem de anjinhos. Em baixo, São João Batista (que aqui, por uma espécie de licença poética, já aparece adulto, embora fosse da mesma idade de Cristo), São Francisco, um Querubim, o Comendador Segismundo Conti e São Jerônimo. No fundo, uma vista da cidade de Foligno, exatamente como era ao tempo, focalizada num dia especial como um domingo, quando alguns habitantes, tendo assistido à missa na igreja, que aparece aí bem à frente da cidade (à qual este quadro era destinado), sai passeando pela periferia, a fim de aproveitar o dia de folga e o estio do momento (pois antes havia certamente chovido), abençoado por um belo arco-íris, que se estende pelo céu – e tudo isto muito bem definido por causa da clareza composicional, que tanto nos fascina, com base em impecável geometria.

Para começar, isolou o conjunto sagrado dentro de um triângulo de vértice bem alto, como dentro de uma redoma. Do meio da glabela da Virgem (glabela é esse espaço que existe entre as sobrancelhas do ser humano) parte uma linha fictícia, que passa pelo dedão do pé direito dela, pelo punho de São Francisco e vai morrer na ponta saliente da batina deste Santo. A linha do outro lado parte do mesmo ponto, passa pela parte de trás da perna esquerda do Menino Jesus, pelo meio da mão esquerda de Conti e vai morrer na ponta da parte mais escura das dobras da túnica vermelha deste. A linha de base é a que se estende deste último ponto descrito da dobra da túnica até à dobra saliente do hábito de Francisco. Pronto: está ressalvado o sacro ou aqueles que jamais estiveram tentados a pecar – a Virgem Maria, o Menino Jesus e o Querubim.

Para incluir os outros quatro figurantes na composição – São João Batista, São Francisco, Segismundo Conti e São Jerônimo, sabendo-se que os três santos, antes de o serem, eram homens comuns e o outro personagem que aí aparece sempre foi um homem comum – Rafael simplesmente empurrou o triângulo descrito para as laterais, forçando-o a transformar-se num pentágono. Do mesmo ponto de que parte o triângulo, parte também o pentágono. Seu lado direito com relação à Virgem (esquerdo para quem está de frente para o quadro) passa pela ponta aparentemente casual da saliência do manto de Maria, que se destaca em ângulo contra o sol laranja e vai até um ponto situado atrás da axila direita de Batista; descendo daí, passa pelo indicador de Francisco a vai até o centro da última flor quase apagada do tufo que está na base.

Do lado esquerdo da Mãe de Deus, a linha passa na ponta do olho esquerdo de Jesus, na ponta de seu polegar esquerdo e vai até um ponto ligeiramente abaixo do ombro de Jerônimo; daí, passa pela manga branca esquerda do Santo, pelo vértice do ângulo vermelho formado pela capa de Conti ao encontro da manga preta, e vai até a metade da parte final do tufo floral, na base do quadro. Pronto: todos os figurantes foram englobados, exceto o leão, símbolo de São Jerônimo, que, estando em espaço neutro, não interfere no todo.

 Mas ainda não é tudo. Um quadro assim tão amplo, de acordo com os rígidos princípios formais, que a Renascença impunha aos seus artistas, exige a fixação de um eixo de equilíbrio, que atenda a todos os pesos distribuídos pelo quadro. Ora, neste em discussão, o espaço ocupado por Jesus, Jerônimo, o leão e o Comendador é maior do que o outro lado, ocupado por Maria, Batista e Francisco. Este fato poderia deixar o lado direito mais pesado, desequilibrando o conjunto. Mas Rafael pensou em tudo: descreveu de alto a baixo, em ligeira diagonal, uma linha que, vinda lá de cima, passa pelo olho esquerdo de Jesus, pelo ângulo existente na junção de suas perninhas, pela ponta do vestido vermelho de Maria, pelo olho esquerdo do Querubim, pela ponta de seu pintinho (depois dizem que os anjos não têm sexo…), pelo último galhinho de flor acima da linha limite do tufo e morre na base do quadro. Este eixo na diagonal deixa o lado direito da superfície menor, pondo em destaque o outro lado, que assim se valoriza ao igualar-se em peso com o outro, no que é de grande ajuda o passo para diante dado pelo Querubim com o pé direito. Aí está mais um exemplo das mágicas sempre realizadas pelo mago das Stanzi.

Todavia, ainda continua a não ser tudo. Você descreveu em seu texto a curva na qual estão inscritas as cabeças dos figurantes da parte inferior, incluindo a do Querubim. Na parte superior também há uma curva: a descrita pelos anjinhos em torno do sol que aureola Maria e seu Filho. Elas são exatamente curva e contracurva, pois não se unem numa circunferência, no que são impedidas pela cruz-cajado de Batista, pelas pernas da Virgem e pelo espaço vazio entre a cabeça de Jerônimo e o céu acima. O friso recurvo dos anjos exerce pressão para baixo e a curva inferior ali se dispõe para receber o que desce do céu e formalizar o diálogo simbólico entre as duas partes, complementando nesta correspondência o equilíbrio da composição.

 Finalmente, só para concluir esta parte, vejamos uma derradeira mágica do renascentista, realizada também na obra em discussão. Tudo aí nos parece tão natural e é tão fácil a interação com cada forma existente no quadro, principalmente quando se trata de seres humanos, que o espectador se sente num convívio íntimo com tudo aquilo, como se estivesse participando da cena. A empatia estabelecida entre as partes celeste e terrestre é tão comunicativa e envolvente, que chega a parecer-nos corriqueiro o prodígio aí em desenvolvimento. Mas assim não é. Nunca testemunhamos uma aparição desta ordem, na qual tantos seres sagrados estivessem envolvidos, não é mesmo? Vejamos, pois, do que nos vem esta sensação. As linhas composicionais, as figuras geométricas de base, a gesticulação dos personagens, a intenção direcional dos olhares, etc, por si já nos dão esta sensação. Mas, além disso, o pintor facilita ainda mais tudo isto.

Observemos como as pequenas asas do Querubim compõem com os tufos de vegetação existentes para além de sua cabeça um diminuto semicírculo, que é repetido em tamanho bem maior no arco-íris e repetido em tamanho maior ainda no sol alaranjado atrás da Virgem (a propósito, a Virgem é imensa, bem maior que o sol – e isto em nada nos incomoda…). O crescimento apontado dessas formas se dá em círculos concêntricos, que vão crescendo até o infinito – eis a sensação que temos. Enfim, os anjinhos trouxeram a Virgem com o Menino Jesus; agora os círculos concêntricos estão se encarregando de ascendê-los, como também ao Querubim, para o espaço celeste. Os personagens daqui a pouco irão para onde devam ir e não nos restará a ver, senão a paisagem de Foligno. A visita de Maria com seu Filho acabou.

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