SÃO JOÃO E SUA LINGUAGEM DE SIMBOLISMOS

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Autoria do Prof. Pierre Santos

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“E ouvi, vinda do templo, uma grande voz, que dizia aos sete anjos: Ide e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus” (João, Apocalipse, 16:01)

Uma vez em Patmos, São João indagou a ilhéus sobre algum lugar calmo, no qual pudesse permanecer em sossego. Indicaram-lhe montes cobertos de florestas, onde havia grutas ótimas para se abrigar, e o filho de Zebedeu partiu à procura delas, encontrando uma à medida. Era seu objetivo dar ali o desfecho ao seu evangelho, para o que levou consigo uma boa quantidade de pergaminho virgem, penas e tinta. Mas, quando quis dar início às escrituras, eis que começou a ter aquelas visões assustadoras, premonitórias e admoestatórias, frutos de sua alucinação e, para descrevê-las, pôs a seu serviço toda a sua irascibilidade e veemência.

O apóstolo, certamente, teve acesso aos antigos textos deixados pelos profetas, sobretudo por Daniel, além do que teria ouvido muitas vezes citações a respeito. A verdade é que alguns deles serviram de inspiração em determinadas passagens de seu livro. Obcecado pela impossível meta de extirpação do pecado da face da terra, para salvação da humanidade, naturalmente seguindo ‘ao pé da letra’ as palavras de Cristo, João queria prevenir a cada ser humano existente, e que viesse a existir, sobre o perigo a que todos estavam e estamos sujeitos de condenação ao eterno fogo infernal. Mas usar para tanto a linguagem trivial e coloquial só iria comover minúscula parte dos seres, deixando insensível às suas pregações o bruto da humanidade. Era preciso uma linguagem penetrante, contundente, demolidora mesmo, que sacudisse a consciência de todo mundo e inoculasse em cada indivíduo o temor do pecado. Por isto, São João recorreu a uma linguagem desestruturante, incomum, de vocabulário hiperbólico, que acendesse na consciência de cada um o sinal vermelho do perigo. Para tanto, projetou na tela panorâmica de sua imaginação as imagens terrificantes do que entendeu por ‘apocalipse’, ‘armagedom’ e ‘desforço derradeiro’ do bem contra o mal. Assim, foram criados a ‘Parúsia’, que significa a volta de Cristo no final dos tempos (idem, 1:08 – “Eis que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele”), ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’ (idem, 6:01 a 08), a ‘Besta’, o ‘dragão’ e o ‘Falso Profeta’ (idem, 16:13 e 14 – “E da boca do dragão, e da boca da besta, e da boca do falso profeta vi saírem três espíritos imundos, semelhantes a rãs”), o ‘Juízo Final’ (idem, 1:10 ao 20 – “E virei-me para ver quem falava comigo. E, virando-me, vi sete castiçais de ouro; E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro”) e o Armagedom (idem, 6: 12 a 14 – E, havendo aberto o sexto selo, olhei, e eis que houve um grande tremor de terra; e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue… E o céu retirou-se como um livro que se enrola, e todos os montes e ilhas foram removidos dos seus lugares), entre muitas outras peripécias intermediárias. A parúsia foi uma previsão que não se cumpriu.

Entretanto, se havia absurdo no que criava, para acionar um alarme irrefutável, absurdo algum havia em seu propósito, qual seja o de salvar, mesmo através do pânico, o imenso conjunto de seus semelhantes. Daí ter recorrido a um estilo enigmático, numa linguagem transbordante de simbolismos, que poucos, na verdade, poderiam ter entendido ou, pelo menos, assimilado o essencial de seu conteúdo, mas que, dado o seu teor bombástico, bastante confuso, haveria de abranger em seu conjunto todos os seres vivos, animais e vegetais, particularmente os humanos, que só poderiam divisar nessa linguagem o alerta da premonição. É o quanto, desesperadamente, o santo pretendia.

Não vou entrar no mérito da simbologia intuída pelo apóstolo. Os simbolistas desde sempre vêm fazendo isto e é vasta a literatura a respeito. Meu propósito é escrever mero artigo sobre o tema, enquanto curioso. Mas não posso deixar de registrar aqui as minhas impressões sobre a matéria pesquisada. Ora, em primeiro lugar, São João declarou ter tido todas aquelas visões e as anotou, ditadas pelos anjos a mandado do Senhor (1:1 – “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo”).

Aí, ocorre-me perguntar: então o apóstolo mentiu? Não. João não mentiu. Teve realmente aquelas visões, tal como as escreveu. Explico: disse atrás que ele projetou todas aquelas visões na tela de sua imaginação – e foi o que aconteceu. Há pessoas que têm esta capacidade de projetar visões em sua mente, como se as tivessem vendo na realidade, processo este que a psicologia denomina de clarividência profética ou precognição e explica de maneira convincente a existência e o significado disto. Creio ter sido isto que ocorreu ao santo, o que em nada diminui o seu impulso e o propósito de estar fazendo algo profundamente útil. Para que esta suposição não pareça gratuita e como não sou psicólogo colecionador de exemplos na matéria, digo que tenho na família uma pessoa com esta capacidade de ter visões e consegue visualizar pessoas que já se foram, os cavaleiros do apocalipse, campos de batalha e coisas assim. Este fato familiar, desde que eu era pouco mais que adolescente, sempre me impressionou e hoje me sugere a idéia exposta.

Claro que as opiniões a respeito exaradas são de um leigo, no que se refira à parapsicologia. Entretanto, há coisas intrigantes que são do conhecimento geral. Quem nunca ouviu, por exemplo, falar sobre telepatia? Ela, comprovadamente, existe. E sobre pessoas capazes de movimentar objetos só com a sua vontade, sem neles tocar, poder este chamado pelos especialistas de telecinese? Dizem até que há pessoas capazes de, só com a força da mente, provocar incêndios. Há muitas outras coisas dentro desta matéria que a parapsicologia vem estudando e demonstrando-lhes a veracidade. Por que não haveria de haver quem visse, visualizasse mesmo, coisas fora de sua realidade, perdidas em algum lugar do tempo, umas no passado, outras no presente e outras ainda no futuro? Essas previsões em cima do futuro, particularmente chamadas clarividências proféticas ou, mais especificamente ainda, precognição, segundo verifiquei na pesquisa, são as que ora nos interessam.

É muito provável que as visões e previsões joaninas tenham ocorrido desta maneira. Os profetas escreviam, intuindo coisas do futuro. Assim escreveu o apóstolo, profetizando. Algumas raras pessoas têm esta qualidade e pressentem acontecimentos para além do momento em que os captam, geralmente não demasiadamente adiantados com relação àquele momento. Já os profetas conseguem, em suas intuições, ir muito além, no futuro. Em São João, esta qualidade era bem mais intensa e extensa, pois não só conseguia prever coisas que aconteceriam quase quinhentos anos à frente (tempo até bem mais longo do que aquele brevemente que ele mesmo escreveu em seu texto), como ainda conseguia criar em seu subconsciente imagens que ilustravam o escrito e jogá-las como sensação ótica para o seu campo real de visão, como se estivesse enxergando os seus pensamentos – tal a precisão com que os ia pondo em letra de forma. O divino não estava naquele texto, mas sim na formação do santo ao longo do exercício atribulado e sofrido do apostolado.

(*) Viktor Vasnetsov, Os quatro Cavaleiros do Apocalipse, 1887, ost.

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