Relatou-me o senhor Elpídio da Silva Gangá, jardineiro dos bons que, quando era ainda um rapazola, acompanhou seu patrão, eleito deputado federal, em sua mudança para Brasília, a fim de cuidar dos jardins de sua mansão à beira do lago Paranoá. Como o homem era o presidente de seu partido, sua casa vivia permanentemente lotada. Bastava escurecer para que os carros pretos fossem chegando um atrás do outro. E se os viventes que deles saíam eram empertigados como paus de sebo, seus motoristas não ficavam para trás, carregando todo o esnobismo dos patrões.
De uma feita, contou-me o jardineiro, o clima no local parecia pesado, pois os automóveis começaram a chegar ainda com o sol no meio do céu, num entra e sai danado. A reunião parecia não ter fim. Mas ele fingia nada perceber, entretido em cuidar de suas plantas. Eis que foi rodeado por um grupo de motoristas, já cansados de esperar por seus patrões, caçando uma maneira de matar o tempo. E cada um deles começou a vomitar mais grandeza do que o outro, falando sobre o que iriam adquirir com o décimo terceiro salário, zombando do jardineiro nas entrelinhas do bate-papo. Um dizia que iria comprar o Palácio da Alvorada, outro que estava em negociação com o Estádio Mané Garrincha, outro que iria comprar o lago Paranoá para botar ali seu iate, e assim seguiam os tais sujeitos achando-se o “o do borogodó”.
O senhor Elpídio da Silva Gangá escutava tudo calado, sem ao menos levantar a cabeça, certo de que troçavam dele, pois para bom entendedor meia palavra basta. Depois de muitas risadas, o mais conversado deles lhe dirigiu a palavra:
– E você, amigão, o que irá comprar com o seu décimo terceiro?
– Eu estou pensando em doá-los aos pobres, porque não está me faltando nadica de nada. Agora, quanto a vocês, tratem de arranjar outros empreendimentos para comprar, porque eu não vendo nenhum desses que estão querendo adquirir. Já os comprei faz muito tempo – veio de pronto a resposta.
Sem graça, o grupo saiu à francesa.
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