A ARTE EM CRISE (Aula nº 63)

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Autoria de LuDiasBH

   

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Como visto anteriormente, a arte entrou em crise nos países setentrionais (Alemanha, Holanda e Inglaterra), crise essa gerada pela Reforma protestante. Enquanto os artistas do sul europeu (Itália e Espanha) dedicavam-se a botar em prática as novas regras surgidas, os do norte viam-se perdidos em meio aos questionamentos dos protestantes no que diz respeito à existência da arte. Ela poderia existir ou não de acordo com as novas crenças? Com tantas dúvidas só lhes restava trabalhar com a ilustração de livros e pintura de retratos, uma vez que a arte religiosa estava proibida. Isso dificultava-lhes a vida, pois não lhes garantia viver decentemente da profissão escolhida.

Hans Holbein, o Jovem (1497-1543), oriundo de uma família de artistas, era o mais importante pintor alemão à época. Quando as proibições efetuadas pela Reforma envolveram seu trabalho, ele estava prestes a tornar-se o mais talentoso mestre dos países de fala alemã. Acabou trocando a Suíça pela Inglaterra, onde não tardaria a compreender que ali também estaria ao sabor das convulsões religiosas oriundas da Reforma. Não mais podendo pintar suas “Madonas”, tornou-se pintor da corte inglesa, onde teria inúmeros trabalhos, sendo sua principal função pintar retratos da família real, legando à posteridade obras magníficas nesse gênero.

Após Holbein deixar para trás os países de língua germânica, a pintura ali decaiu rapidamente. Após sua morte, o mesmo aconteceu com as artes na Inglaterra, também tomada pelas novas normas religiosas. Em meio a esse cataclismo nas artes, o retrato foi o único gênero a sobreviver, passando a receber influência do estilo maneirista que, por sua vez, deixava para trás o refinamento do estilo impecável de Holbein.

Dentre os países protestantes na Europa, apenas um permitiu que a arte sobrevivesse à agitação provocada pela Reforma — os Países Baixos. Seus artistas acharam uma brilhante saída para não perder seu ganha-pão, uma vez que apenas o gênero do retrato não seria capaz de mantê-los. Como é sabido, desde os tempos de Jan van Eych os artistas desse país eram tidos como grandes mestres da representação da natureza, enquanto os italianos eram exímios na representação do corpo humano. Logo, como não podiam mais criar obras religiosas, buscaram fazer pinturas nas quais mostravam sua habilidade na representação superficial das coisas. As chamadas “pinturas de gênero” passaram a ser o foco desses talentosos mestres.

Pieter Bruegel, o Velho (c.1525-1569), foi o mais importante dos mestres flamengos —  pertencentes ou relativos a Flandres (atualmente França e Bélgica) — no que diz respeito à pintura de gênero. Ele se dedicou, sobretudo, a pintar cenas da vida dos camponeses, tanto é que foi, para muitos, um camponês flamengo, ou seja, a obra foi confundida com o artista. Ele nutria grande simpatia pela gente do campo, inclusive vestindo-se como eles, com o objetivo de inserir-se no meio deles, estudando-lhes o comportamento, sem que chamasse a atenção. É sobre a gente camponesa que pintou muitas obras famosas. Gostava da temática dos provérbios tradicionais, sobre os quais elaborava alusões tragicômicas, muitas vezes com cunho moral. É tido como o pintor mais influente de sua época. Suas paisagens exerceram grande influência na arte flamenca e no norte dos países baixos. Pieter Bruegel, o Velho, seria seguido por gerações de pintores holandeses.

A França — situada entre a Itália e os Países Baixos setentrionais — recebeu influência de um lado e de outro. Os artistas franceses, assim como aqueles dos Países Baixos, tiveram dificuldades para se adequar às mudanças na arte propostas pelos artistas italianos. Os artífices franceses, contudo, não demoraram a aceitar a arte dos maneiristas italianos.

Exercício
1.  O que levou a arte a entrar em crise nos países do norte europeu?
2.  O que sabe sobre Hans Holbein, o Jovem e Pieter Bruegel, o Velho?
3.  O que aconteceu aos artistas franceses da época?

Ilustração: 1. Retrato de Henrique VIII (1536/1537), obra de Hans Holbein, o Jovem / 2. Provérbios Holandeses (1559), obra de Pieter Bruegel, o Velho

Fontes de pesquisa
História da Arte / E. H. Gombrich
Renascimento / Nicholas Mann

6 comentários em “A ARTE EM CRISE (Aula nº 63)

  1. Marinalva Autor do post

    Lu
    Achei muito interessante este texto, pois nos mostra como a Reforma afetou a vida dos artistas da época. Acredito eu que muitos deles foram obrigados a buscar novas profissões.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Marinalva

      A vida não foi realmente fácil para os artistas dos países que abraçaram a Reforma, tanto é que muitos deixaram sua pátria em busca de países mais libertários. Outros tiveram que se adequar às novas formas de pintura, a fim de sobreviverem. Veremos mais sobre este assunto mais adiante.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. Adevaldo R. de Souza

    Lu

    Realmente foi grande o impacto causado pela Reforma protestante nos campos: político (diminuição do poder do papa), econômico (pagamento de indulgências pela burguesia) e teológico (pensamento religioso), atingindo as artes, pois a Igreja católica era mecenas de grandes artistas. Fico em dúvida porque a igreja Católica demorou tanto tempo para implantar a Contra Reforma, quando buscou, através da arte, um meio de reafirmar os valores cristãos.

    A Reforma protestante provocou crise e depois mudanças nas artes. Quem sabe após a crise provocada pelo coronavírus teremos mudanças significativas no Brasil, onde a influência do pensamento religioso vem crescendo.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Adevaldo

      Sempre me pego imaginando o quão esplêndida teria sido a arte em sua totalidade, se não tivesse vivido sob o braço na religião durante várias épocas da História. Veja as maravilhas da arte greco-romana, quando o artista tinha liberdade para criar. A egípcia já vergou sob o manto do Estado e de seus deuses. A Idade Média também foi responsável pela tirania religiosa na arte. A partir do Renascimento novos ares vão chegando, até que explode a Reforma, subjugando novamente a arte.
      Nos dias de hoje a arte é criada de acordo com os países onde vivem os artistas: laicos (ou seculares) e teocráticos. Não resta dúvida de que o atrelamento do Estado à religião, resulta num casamento esdrúxulo em que a Ciência é botada para correr, dando cria ao atraso, ao negacionismo, à prepotência, ao autoritarismo e a tudo que existe de ruim.

      O que alimenta a arte, em quaisquer que sejam os seus campos, é a liberdade plena do artista.

      Abraços,

      Lu

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  3. Hernando Martins

    Lu

    Tanto a política quanto a religião têm um fator preponderante na vida das pessoas, e isso em qualquer momento da história. A arte é nada mais nada menos que um reflexo do cotidiano das pessoas, ou seja, da forma de pensar e agir diante dos acontecimentos da vida.

    De acordo com o texto, observa-se que a reforma luterana, inserida na Europa teve um papel fundamental na mudança do pensamento religioso nas pessoas da época, e isso promoveu uma ruptura nas artes, em virtude da rejeição dos trabalhos com temática religiosa, que antes era o ganha pão dos artistas. Em algumas regiões da Europa, especificamente nos Países Baixos, conseguiram romper com essa tendência, através da temática da natureza. Lembrando também que os trabalhos de retratos, principalmente das famílias abastadas, continuaram sendo feitos.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Hernando

      O fervor religioso extremado, sem levar em conta qualquer tipo de lógica, é ainda mais nocivo do que o político, pois poda o ser humano de qualquer tipo de razão, levando-o a se assenhorear de campos dos quais desconhece totalmente, mas se vê, como um suposto enviado de Deus, a nele se intrometer. Essa gente acha que sabe tudo e que possui um conhecimento ilimitado que lhe é dado pelo divino. E quando a religião se atrela à política, aí temos o total retrocesso do saber humano. Veja que somente os países realmente laicos prosperam.

      Abraços,

      Lu

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