Autoria de Lu Dias Carvalho
Numa depressão severa, as mãos que se estendem para você estão fora de seu alcance. (Andrew Salomon)
Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por quê? (Mikhail Bulgakov em O Exército Branco)
Muitos podem achar que a afirmativa de que “a depressão é a imperfeição do amor” é uma tremenda invencionice, mas o escritor Andrew Solomon, ele mesmo uma vítima da doença, argumenta com muita propriedade sobre o assunto. Segundo ele, quando a depressão se faz presente, ela degrada o eu da vítima e acaba por lhe roubar a capacidade de dar e receber amor, pois a solidão avoluma-se e destrói as vias de contato com o outro e a capacidade de a pessoa sentir-se bem consigo mesma. Como para amar o outro é preciso que amemos primeiro a nós mesmos, o sentimento de afeição torna-se totalmente inviável. E sendo o amor o manto que protege a mente contra si mesma, é preciso buscar medicamentos e psicoterapias que restaurem a capacidade de receber e dar amor.
Por muito tempo acreditou-se que as doenças psicossomáticas não eram reais. Por isso, a queixa dos deprimidos não era levada a sério, sendo elas tidas como coisas de pessoas fantasiosas, chantagistas e que queriam chamar a atenção para si. Hoje sabe-se que além de reais, elas podem trazer severos impactos para o corpo. Assim, quando o cérebro funciona mal, deve ser tratado adequadamente, como se faz com os rins, fígado, coração e outras partes do corpo humano.
É fato que a depressão atinge pessoas diferentes e de maneiras diferentes, de acordo com a predisposição de cada uma, pois ela interage com a personalidade do indivíduo, daí as diversas maneiras de reação à doença e aos medicamentos. Alguns indivíduos conseguem passar por uma depressão leve sem o uso de remédios, enquanto outros são mais frágeis e precisam desses. Não há uma regra comum.
O fato é que ninguém passa pelos caminhos da vida sem travar contato com a tristeza e a dor, não importando a classe social, etnia, idade ou gênero. Nada existe que possa invalidar a angústia que se apodera do ser humano em vários momentos de sua vida. Talvez ela tenha as suas raízes fincadas na própria finitude humana, quando o homem se confronta com a sua própria insignificância diante do existir finito. A crença pode abrandar essa angústia, mas não a erradica. O próprio Jesus, segundo falam os Evangelhos, na sua passagem terrena vivenciou o sofrimento. E quanto maior for a consciência do eu e a interação com o planeta, maior é a angústia ante a impotência de que quase nada pode ser feito para mudar as coisas que se considera inaceitáveis.
Acredito que a dor e a tristeza são fundamentais para a nossa humanidade, de modo que eliminá-las do mundo seria um desserviço ao homem. Mas, quando elas ceifam a vontade de viver, algo precisa ser feito, pois, enquanto para os não depressivos o sofrimento não compromete a caminhada, para os depressivos ele se torna desproporcional às circunstâncias, adubando a depressão. O melhor caminho para tratá-la é não se acostumar com a sua presença. Não esperando chegar ao fundo do poço. É preciso buscar ajuda, quando se é incapaz de domá-la sozinho.
Para o escritor Andrew Solomon a depressão está presente na história da humanidade desde que o homem tomou consciência de seu próprio eu, e vem aumentando muito nos dias de hoje em consequência de motivos como:
- o ritmo acelerado de nossa época;
- o caos tecnológico;
- a alienação das pessoas;
- o colapso da estrutura familiar;
- a solidão endêmica;
- a devastação do planeta;
- o fracasso do sistema de crenças (moral, político, religioso, social…);
- a falta de significado para a vida.
Portanto, é preciso que encontremos soluções para os problemas gritantes que vêm acompanhando a modernidade, pois eles são uma clara mensagem à vulnerabilidade humana e a de todo o nosso planeta cada vez mais desprotegido e em perigo.
Solomon enumera algumas necessidades:
- baixar o nível de poluição socioemocional;
- buscar fé e estrutura (no seu Deus, no eu, em outras pessoas, ou em qualquer outra coisa);
- ajudar os que são privados de seus direitos civis;
- praticar e ensinar o amor;
- melhorar as circunstâncias que conduzem a níveis aterradores de estresse;
- manifestar-se contra a violência e suas representações;
- preservar o planeta Terra;
- praticar algum tipo de voluntariado, etc
Na maturidade deste novo milênio, espero que salvemos as florestas tropicais desta nossa Terra, a camada de ozônio, os rios e correntes, os oceanos, e salvaremos, também espero, as mentes e os corações das pessoas que vivem aqui. Então controlaremos nosso crescente medo do demônio do meio-dia – nossa ansiedade e depressão. (A. Salomon)
Nota: A Mulher em Depressão, quadro do psicanalista e pintor pernambucano Lúcio Escobar, feito em 2004.
Fonte de Pesquisa:
O Diabo do Meio-Dia/ Andrew Solomon
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