Lucas Cranach, o Velho – CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO

Autoria de Lu Dias Carvalho

A pintura denominada Crucificação de Cristo, também conhecida por Crucificação de Schleissheim, é uma obra religiosa do pintor alemão Lucas Cranach, o Velho, que fez muitas pinturas religiosas usando a temática da Crucificação. Muitos estudiosos veem nela uma grande afinidade espiritual com a pintura de Dürer, pela sua simplicidade espontânea e monumentalidade. Em sua obra, o artista foge da tradição comum, que apresenta a postura de Cristo na cruz quase sempre frontal.

A cruz de Cristo é vista de lado em escorço (desenho ou pintura de qualquer objeto que o reproduz de maneira reduzida, em proporções menores). Margeando a esquerda, como se fosse parte de uma moldura, em primeiro plano, a cruz de um dos ladrões é também escorçada. Ela se encontra na mesma posição da de Jesus Cristo, embora não se encontre de frente para o Salvador. Apenas a cruz do segundo ladrão mostra-se em posição frontal para o observador, embora seu corpo mostre-se ligeiramente tombado para a esquerda. Outro diferencial é que, na maioria das pinturas sobre a Crucificação de Cristo, apenas Ele é apresentado como pregado na cruz, enquanto os dois ladrões estão amarrados, mas, aqui, eles também foram crucificados e trazem o corpo banhado pelo sangue.

O corpo lívido de Cristo, riscado por fios de sangue que descem da cabeça, mãos, peito e pés, traz o baixo ventre coberto por um lençol branco, visivelmente ondulado pelo vento, contribuindo para mostrar a agitação vinda da natureza, como se chorasse a morte do filho de Deus, o que dá maior dramaticidade à cena da Paixão. A postura das cruzes permite uma melhor visão da paisagem ao fundo, que apresenta um céu de nuvens escuras e turbulentas, assim como as balançantes folhas do salgueiro e do carvalho. O artista prima nos detalhes.

Centralizados no espaço formado pelas cruzes estão as figuras de Maria, mãe de Jesus, que olha com ternura e sofrimento o filho na cruz, e do apóstolo João Evangelista, que se enlaça ao braço da Mãe Dolorosa, na tentativa de consolá-la em sua indescritível aflição.

Ficha técnica
Ano: 1503
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 138 x 99 cm
Localização: Pinacoteca de Munique, Alemanha

 Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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PSICOPATOLOGIA – ACUMULAÇÃO COMPULSIVA

Autoria de Dr. Telmo Diniz

A psicopatologia denominada “acumulação compulsiva”, também conhecida por disposofobia (fobia em dispor das coisas), consiste na aquisição ilimitada de bens, objetos e outros “trens” inúteis – como a gente fala aqui, nas nossas Minas Gerais. Também pode ser conhecida por outros nomes, como a “Síndrome da Miséria Senil” ou “Síndrome de Diógenes”, alusão ao filósofo grego Diógenes de Sinope, que vivia como um mendigo, dormindo num barril (como o Chaves mexicano) e recolhendo das ruas inúmeros objetos sem nenhum valor. As pessoas que sofrem dessa perturbação são, em sua grande maioria, idosos, que vão acumulando tudo o que podem, e são incapazes de desfazerem-se destes mesmos objetos. É uma questão séria de saúde e pode ser resolvida com terapêutica apropriada e com abordagem multidisciplinar.

A Síndrome de Diógenes (SD) é uma alteração comportamental, caracterizada pelo isolamento social, pela autonegligência (descuido com o autocuidado, com a higiene pessoal e do lar), pelo comportamento paranoico e pelo colecionismo. Na Síndrome de Diógenes, o ato de colecionar e de juntar as coisas é a tônica do problema. Trata-se de um sintoma de uma doença mental, ou seja, um transtorno de ansiedade, visto por muitos como um transtorno obsessivo compulsivo (TOC), que deve ser tratado.

Uma parcela de especialistas faz uma ligação entre este transtorno com o início de demência no idoso. Trata-se de uma perturbação que é definida por três características principais:

  • a acumulação obsessiva de bens ou objetos que parecem inúteis para a maioria das pessoas;
  • a incapacidade de se livrar de qualquer um dos objetos ou bens recolhidos e um estado de aflição ou de perigo permanente (uma espécie de paranoia);
  • a acumulação compulsiva interfere com os passatempos e atividades do dia a dia dessas pessoas, que tendem a ficar isoladas e sem convívio social. Normalmente, elas vivem em condições sem higiene, apresentam depressão, são incapazes de cuidar de si próprios e acabam por adoecer.

O tratamento sempre é um desafio, em especial pela recusa ativa e não aceitação por parte da pessoa. Fica um pouco mais fácil se há familiares ou outro tipo de suporte social. Entretanto, para uma grande parcela dos casos, antes da intervenção médica, pode haver a necessidade de intervenção judicial, que obriga a pessoa a se tratar para que possa manter sua casa em condições sanitárias de modo a não impossibilitar a habitação naquele lugar, ou para resguardar a saúde dela própria e até de animais de estimação que convivem com ela.

Há casos em que, além da saúde mental comprometida, a autonegligência propicia o surgimento de desnutrição e de doenças infecto-parasitárias, que devem ser urgentemente abordadas. Ainda durante o tratamento dessas doenças há o risco de a pessoa sucumbir a pneumonias e outras infecções comuns entre idosos. O tratamento psiquiátrico deve contemplar intervenções psicoterápicas e uso de medicações, conforme os sintomas que ocorrem em cada caso. E se você conhece algum idoso que fica acumulando coisas inúteis e lixo em casa, saiba que ele está precisando da sua ajuda, de um médico, de um psicólogo, de um nutricionista, dentre outros.

Nota: imagem feita pelo fotógrafo Geoff Johnson

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Historiando Cartola – ACONTECE

Autoria de Lu Dias Carvalho

Ele lhe fizera tantas juras de amor e infindas promessas… Um era o esteio do outro, o sol de cada dia, a chuva caindo docemente sobre a terra, a brisa nas tardes tépidas entrando pela janela. Foram tantos os momentos repartidos, o mundo visto a dois sob os mais diferentes prismas. Mas certo dia, quando a tarde fez-se noite, as estrelas esconderam-se no céu, a lua ocultou-se na face escura da serra e o arco-íris partiu para outras terras…

Ele chegou meio acanhado, assentou-se no mesmo sofá, onde, juntos, uniam seus corpos molhados, e com voz baixa pediu-lhe: “Esquece o nosso amor, vê se esquece/ Porque tudo no mundo acontece/ E acontece que já não sei mais amar”.  Perdida, em meio à frieza daquelas palavras, ela deixou seu pranto rolar, enquanto o mundo desabava em derredor. Indiferente, ele prosseguiu: “Vai, chorar, vai sofrer/ E você não merece/ Mas isso acontece”.

A moça queria uma explicação ainda que frágil. O amor não podia fenecer, assim, como as margaridas arrancadas nos prados, apenas pelo prazer humano de serem desfolhadas. Não se desfia o coração, como quem desmancha crochês e bordados. Não se apaga a ternura e o cuidado, como se fora uma folha rabiscada com o grafite preto de um lápis. Teria sido tudo uma brincadeira inconsequente e sem graça? Mas ele se explicou: “Acontece que meu coração ficou frio/ E nosso ninho de amor está vazio/ Se eu ainda pudesse fingir que te amo/ Ai, se eu pudesse/ Mas não quero, não devo fazê-lo/ Isso não acontece”.

Com os olhos inchados pelas lágrimas e pela noite insone, a moça pôs-se, mal amanhecera o dia, a caminhar pela praia. E não foi preciso muito tempo para que avistasse o ingrato rolando na areia com a nova namorada. A seguir, ela perdeu a razão, não reconhecia mais o que era areia ou água. Foi caminhando em direção ao mar, envolta pela brisa, até ser coberta por um lençol de espumas prateadas. Ainda hoje, não são poucos os que dizem que ela virou sereia, pois seu corpo jamais foi ter à praia. Mas isso acontece! E como acontece!

Obs.: clique no link para ouvir:
ACONTECE

Nota: obra do pintor brasileiro Aldemir Martins

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Grünewald – CRISTO INSULTADO

Autoria de LuDiasBH

A composição Cristo Insultado, também conhecida como Cristo Escarnecido, é uma obra do pintor alemão Matthias Grünewald, que cria uma passagem da Paixão de Cristo, retratada na Bíblia. Esta pintura é a primeira obra conhecida do artista, que veio a tornar-se famoso. Ao contrário das pinturas divididas em episódios, presentes no século XV, ele fez uma cena única e perfeita. Um movimento giratório pode ser traçado a partir de onde se encontra a figura de Cristo sentado, passando pelo valentão com o punho armado, até chegar naquele que manipula a corda, dando à cena uma movimentação semelhante à de um redemoinho. Trata-se de uma pintura colorida com grande força expressiva e com belos efeitos de luz.

Jesus Cristo, sentado sobre um pequeno muro de pedras, com as mãos e braços amarrados, é vendado pelos chefes de sua escolta. O Mestre usa uma vestimenta azul e tem os cabelos e a barba compridos e desalinhados. Seus pés estão descalsos.  Um imenso pano branco dá duas voltas em torno de sua cabeça, tapando-lhe os olhos, sendo depois amarrado no pescoço, e suas pontas caem sobre o peito. Seu corpo está ligeiramente tombado para frente. A boca entreaberta expressa dor e resignação diante de tamanha selvageria.

Os comandantes da guarda aproveitam para infrigir mais sofrimento a Jesus. Batem nele e exigem que faça uso de seus poderes para adivinhar quem o agrediu, como se fosse um jogo. Como se tratasse de um espetáculo circense, há a presença de um músico no grupo. Na plateia, composta por sete pessoas das mais diferentes idades, é possível até mesmo ver o rosto de um garoto, que espia atrás do grupo.  À esquerda, um homem vestido com uma túnica amarela, toca flauta e um pequeno tambor, ao mesmo tempo. Perto dele, um brutamontes levanta o braço com o punho cerrado para golpear a cabeça de Jesus. Um homem, usando uma roupa mais clara, cruzada na frente e empunhando um cajado, à direita, traz a mão espalmada, tentado deter o feroz agressor. Outro homem, usando gorro avermelhado, abraça este último, com as mãos tocando-lhe os ombros, e conversa com ele, parecendo meio contristado com o que vê. À direita, é possível enxergar apenas a cabeça de um homem que usa gorro. Ao todo são seis bastões presentes na cena.

A figura de costas para o observador, com suas calças vermelhas coladas e colete amarelo sobre a camisa branca, parece ser a mais sádica e a que mais chama a atenção. Ele traz parte da corda, que arrasta Cristo, enrolada na sua mão esquerda, e a ponta dela na direita, em posição de quem a usa para bater em Jesus. A sua posição torna-o inferior ao tamanhdo dos demais algozes. É também a figura responsável por introduzir o observador na cena.

Ficha técnica
Ano: c.1503
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 109 x 73 cm
Localização: Pinacoteca de Munique, Alemanha

 Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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MAROLO – FRUTA DA SEMANA SANTA

Autoria de Luiz Cruz

     

 O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Assim que a matalotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais, ainda tinha araticum maduro no cerrado. (João Guimarães Rosa)

A Serra de São José tem muitos atrativos. Além da paisagem, das cachoeiras e da rica biodiversidade, encontram-se alguns frutos típicos e um deles é o marolo (Annona crassiflora). É uma fruta da família Annonaceae, a mesma da fruta-do-conde. É conhecida também como araticum, bruto e cabeça-de-nego. Ela é composta por três ecossistemas: Mata Atlântica, Campo Rupestre e Cerrado.

O Cerrado sofreu forte impacto devido às atividades agrícolas, ficando poucas manchas de matas junto ao sopé da serra. Embora reduzidas, essas áreas tornaram-se da maior importância para a proteção da biodiversidade. Uma das espécies encontradas nas matas do Cerrado da serra é o marolo, uma árvore de porte médio, variando de 4 a 8 metros de altura, com folhas grossas, troncos retorcidos e bastante resistentes aos incêndios, que ocorrem no ecossistema. Ela consegue desenvolver em áreas de baixa umidade e tem crescimento muito lento. Suas flores são verdes-amarelado, solitárias e carnosas, ocorrendo entre os meses de outubro e novembro. Os frutos em bagas são encontrados entre fevereiro e abril. Podem pesar até 2 kg e, quando maduros, caem sobre o solo. Têm sabor adocicado e perfume bem característico. Possuem elevados teores de açúcares, proteínas, cálcio, ferro, fósforo, vitaminas C, A, B1, B2 e fibras. As sementes são relativamente grandes, espessas e rígidas, para germinar precisam de longo período de dormência. Seus principais dispersores são os animais que se alimentam dos frutos. Infelizmente, devido ao desmatamento, a espécie está cada vez mais reduzida às pequenas manchas de matas.

A variedade dessa espécie é grande, cerca de 25, uma delas é o Marolo de Moita (Annona dioica), que foi descrita pelo viajante francês Auguste de Saint-Hilaire. A fruta tem amplo e tradicional uso na culinária mineira. Pode ser consumida in natura, com sua polpa faz-se licores, biscoitos, bolachas, bolos, sorvetes, picolés, geleias, doces, batidas, e ainda se prepara um creme para rechear os “ovos de páscoa”, pois sua combinação com o chocolate é perfeita! Seu sabor está intrinsicamente ligado ao período da Semana Santa, devido à grande oferta da fruta nesse período do ano.

Quem tiver interesse em saborear marolo não precisa sair procurando pelas árvores atrás da Serra de São José, basta chegar até a Praça São Sebastião, no centro de Santa Cruz de Minas, e encontrar com o José Norberto dos Passos. Ele, já idoso, aos seus 81 anos de idade, mas cheio de energia, sobe a serra, colhe os frutos e os vende em seu carrinho, instalado na praça. Norberto conhece todos os pés de marolo da serra e ajuda na preservação, divulgando essa espécie tão significativa para a culinária mineira e para a biodiversidade.

Nota: Fotografias do autor mostrando José Norberto dos Passos e a fruta marolo

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Johannes C. Verspronck – RETRATO DE UMA MENINA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O quadro Retrato de uma Menina é uma obra do pintor holandês Johannes Cornelisc Verspronck (1597-1662), tido como o mais original dentre os inúmeros retratistas da cidade holandesa de Amsterdam, que preservaram a tradição da pintura do grande mestre Frans Hals, de quem fora aluno. Era capaz de compor obras de expressão totalmente independente, como a vista acima.

Em sua composição, o artista postou seu modelo na pose convencional de três quartos, ou seja, mostrando três quartos do corpo, e com três quartos de altura. A retratada é uma menina, que veste um pomposo vestido azul, enfeitado com renda branca e dourada. Usa um colar e uma pulseira de pérolas e brincos de pedras e ouro nas orelhas. Seu cabelo dourado, preso atrás, também cai pelos lados.

A garota encontra-se com o corpo meio de perfil, mas seu rosto está voltado para o observador. Traz os braços cruzados na frente do corpo, com a mão esquerda sobre a direita, a qual segura um leque de penas brancas.

O fundo da composição não traz nenhuma informação. A luz, que sobre a modelo projeta-se, vem de uma abertura às suas costas, iluminando-a por inteiro, dividindo a tela em claro e escuro. Seu rosto branco, com olhos grandes, e lábios e bochechas rosadas, dá-lhe uma aparência de menina séria e ajuizada, o que dá grande beleza à tela.

Ficha técnica
Ano: 1641
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 82 x 66,5 cm
Localização: Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda

Fonte de pesquisa
A Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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