Historiando Manacéa – QUANTAS LÁGRIMAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

O homem caminhava recurvado pelo peso da dor e da idade. Jamais aceitara que fosse apenas um passageiro do tempo. Nascera numa família rica. Tivera muito dinheiro e poder. Os bajuladores cercavam-no de honrarias e lisonjas. Passara pelos três poderes da República. E se sentia um dos homens mais importantes da vida pública de seu país. Conhecera a maior parte do mundo, mas nada sabia sobre a efemeridade da vida e sobre si mesmo.

O tempo foi passando e o homem nem se deu conta. Nada fez para enriquecer seu espírito, deixando-o tão desnudo quanto uma avezinha recém-nascida. Por isso, não conseguia abandonar o passado. Nele vivia dia sim e outro também, assentado na sua velha cadeira de palha, com o rosto entre as mãos, dizendo para si mesmo “Ai, quantas lágrimas/ Eu tenho derramado/ Só em saber/ Que não posso mais/ Reviver o meu passado”.

A criançada, ao voltar da escola pública ali por perto, sentava-se na sua varanda, e ficava a ouvi-lo falar sozinho: “Eu vivia cheio de esperança e de alegria/ Eu cantava, eu sorria/ Mas hoje em dia eu não tenho mais/ A alegria dos tempos atrás”. Mirava-o com visível compaixão. Os dedinhos indicadores, próximos à cabeça, davam voltas para dizer, silenciosamente, que ele sofria dos miolos, àqueles que ali iam pela primeira vez. Crianças deixavam-lhe balas e biscoitos, economizados da parca merenda. E ele, bem o sabia, nada fizera pela educação dos pobres!

De uma feita, um molequinho, nos seus 10 anos de ingenuidade, aproximou-se do homem e perguntou-lhe o porquê de ser tão triste assim. Ele levantou a cabeça e, numa doída confissão, respondeu-lhe com a voz quase sumida: “Só melancolia os meus olhos trazem/ Ai, quanta saudade a lembrança traz/ Se houvesse retrocesso na idade/ Eu não teria saudade da minha mocidade”. A criança, em sua pureza, achou que o homem estivesse referindo-se ao seu cãozinho que morrera uma semana antes. Com seu coraçãozinho partido, aproximou-se daquele farrapo humano e beijou-lhe a cabeça, deixando ao seu lado duas bananas… De sua parca merenda.

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QUANTAS LÁGRIMAS

Nota: Velho Homem em sua Tristeza, obra de Van Gogh

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Rubens – PAISAGEM COM ARCO-ÍRIS

Autoria de Lu Dias Carvalho

A composição Paisagem com Arco-Íris é uma obra do pintor flamengo Peter Paul Rubens, um dos mestres do estilo barroco que em seu trabalho dava ênfase ao movimento, à cor e à sensualidade. Este tipo de representação era muito comum na cidade de Antuérpia durante a infância do pintor, estando ele familiarizado com tal gênero, sem falar no seu trabalho com Jan Bruegel, — denominado “Bruegel dos Veludos” — um dos mais importantes paisagistas da época.

A paisagem retrata uma tarde de fim de verão na propriedade do artista, estando aí presentes inúmeros elementos. À direita em primeiro plano vê-se um grupo de patos que se refresca no riacho. Um pouco mais adiante, também em primeiro plano, algumas reses estão sendo direcionadas para casa, provavelmente pelo homem que se encontra entre as duas mulheres na estrada. Ele se dirige à leiteira que usa uma vestimenta branca e azul, carrega um cântaro na cabeça e um balaio no braço. Ao seu lado está outra mulher, usando blusa vermelha e saia branca, que conversa com o homem que segue em direção contrária, levando uma carroça. Próximo ao grupo um rapaz pesca no riacho, mas com a cabeça voltada para o observador.

À esquerda, debaixo de duas compridas árvores, camponeses trabalham com três montes de feno, sendo que uma escada leva-os ao cimo. Uma carroça já se encontra carregada. Um imenso arco-íris ocupa grande extensão da parte superior do quadro, unindo o lado direito ao esquerdo. Um bosque escuro estende-se à direita, enquanto uma amplidão de terras iluminadas pelo sol poente espalha-se à esquerda. Para os que viveram na Europa do século XVII, o arco-íris possui uma simbologia religiosa: representava a aliança firmada entre Deus e a espécie humana após o dilúvio, senso que a colheita simbolizava a recompensa aos que usavam as mãos para executar o trabalho. Mas será que o artista estava pensando nisso?

Rubens pintou esta paisagem após comprar o castelo de Het Steen, situado entre Bruxelas e Antuérpia. Trata-se de uma reconstrução artística imaginária de sua propriedade, vista como um lugar idílico. Suas paisagens tardias aproximam-no do espírito de Ticiano. Esta  pintura faz parte das obras do final de sua vida.

Ficha técnica
Ano: c. 1636
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 945 x 125 cm
Localização: Pinacoteca de Munique, Alemanha

 Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Könemannhttp://www.wga.hu/html_m/r/rubens/5landsca/16landsc.html

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Historiando Paulo Vanzolini – VOLTA POR CIMA

Autoria de Lu Dias Carvalho

Juvenal chegou à rodoviária, vindo da colheita de café no norte paulista, onde permanecera por cinco meses, buscando uma maneira de arranjar a vida cada vez mais difícil para as gentes pobres. Tudo que ganhara estava numa conta no Banco. Comera o pão que o diabo amassou a fim de economizar o que pudesse. Trazia consigo muitos planos. Haveria de dar uma pintura no barraco com pó xadrez. A cor seria conforme a escolha de sua companheira, adornamento que toda mulher gosta de fazer. Compraria para ela um vestido de organdi branco, comprido, com muitas fitas e, finalmente, os dois se casariam no cartório, de modo a parecer gente de bem, e ele não seria qualquer um à toa, sem incumbência com a família.

Mal botou os pés no chão de sua cidadezinha, Juvenal foi cercado por um moleque que se ofereceu para ajudá-lo a levar a mala e o volumoso rádio toca-fitas, que anunciava sua chegada com um meloso bolero, música preferida de sua morena. O menino foi logo soltando o verbo: “O senhor já sabe que sua mulher fugiu com um mascate?”. Uma fincada de dor paralisou o pobre homem. Suas pernas bambearam e ele se sentou no meio-fio. Um golpe desgraçado de doído jogava seus sonhos por terra. Uma torrente de água saltou de seus olhos, mal tendo ele tempo de dar ao garoto uns trocados. Os amigos aproximaram-se dele, mas sem lhe perguntar o porquê, tamanho era a piedade. Sentiam-se constrangidos, pois sabiam o motivo.

Todo alquebrado pela dor, Juvenal dirigiu-se para a casa de sua mãe, encontrando conforto em seu abraço e colo. Mais calmo, ele lhe relatou: “Chorei, ai eu chorei/ Não procurei esconder/ Todos viram, fingiram/ Pena de mim, não precisava ter/ Ali onde eu chorei/ Qualquer um chorava”.  Na semana seguinte recebeu uma proposta de trabalho numa cidade grande. Juntou tudo e partiu. Um ano depois, voltou acompanhado de sua jovem esposa. Todos o elogiavam por seu visível bem-estar. E aos que retornavam ao acontecido, ele dizia: “Dar a volta por cima que eu dei/ Quero ver quem dava.”. E à esposa, que de tudo tomara conhecimento ali, e que o inquiriu pelo fato de nada ter dito a ela, ele explicou: “Um homem de moral/ Não fica no chão/ Nem quer que mulher/ Lhe venha dar a mão/ Reconhece a queda/ E não desanima/ Levanta, sacode a poeira/ E dá a volta por cima.”.

Contam alguns que, dois anos depois, Lindaura voltou de seu embeleco com o mascate, trazendo uma mão na frente e outra atrás. E, com os miolos meio revirados, andava rua acima e rua abaixo, clamando pelo nome de Juvenal.

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VOLTA POR CIMA

Nota: Separação, obra Edvard Munch.

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Carlo Crivelli – PIETÁ

 Autoria de Lu Dias Carvalho

A composição Pietá é uma obra do pintor italiano Carlo Crivelli (c. 1433-1495), que também era conhecido como Donatino Creti. O artista era irmão do pintor renascentista Vittorio Crivelli. Por ter cometido atos criminosos foi obrigado a fugir de Veneza, sua cidade natal, indo para Zara, na Dalmácia.  Recebeu influências de pintores do círculo de Francesco Squarcione e dos trabalhos iniciais de Mantegna, e mais tarde do pintor Cosmè Tura. Sua obra é reconhecida por sua inclinação pela ornamentação e ostentação. O artista é comparado a Sandro Botticelli no diz respeito à técnica do desenho.

No painel, o corpo de Jesus Cristo está sendo aparado por José de Arimateia, que mais se parece com um anjo, ainda mais com o formato dado a seu manto, lembrando uma asa. De seu rosto deslizam lágrimas. Ele ampara Jesus pelas costas, com a mão esquerda, enquanto que, com a direita, retém seu braço.  A Virgem Maria encontra-se à direita do Filho, e seu gesto revela profundo sofrimento. Maria Madalena, a discípula amada de Jesus, segura sua mão esquerda. Ela é identificada através do atributo que jaz ao seu lado – um frasco com unguento. Mostra-se parecida com uma figura de Botticelli. Sua dor é tamanha, que ela evita pousar seus olhos diretamente no corpo do Mestre, optando por olhá-lo de soslaio.

Do corpo de Cristo emana uma profunda dor. Sua cabeça, ainda cingida pela coroa de espinhos, tomba para sua direita. Seus braços atléticos e mãos deixam visíveis enormes e salientes veias. Disposto sobre um tapete amarelo com decoração em vermelho, seu corpo não é visto por inteiro, mas apenas do baixo-ventre para cima. Da ferida abaixo do peito direito jorra sangue. Dois longos buracos na face externa das mãos mostram as marcas dos pregos. Dois pequenos anjos encimam a cena. Uma vela ilumina o Livro Sagrado. A posição da chama mostra que lá fora venta. O céu que se divisa atrás do cenário mostra-se triste.

Ficha técnica
Ano: c. 1491
Técnica: ?
Dimensões: 241 x 128 cm
Localização: Museu de Brera, Milão, Itália

 Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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Botticelli – PIEDADE

Autoria de Lu Dias Carvalho

paixao jesus

Também conhecido por Lamentação sobre o Corpo Morto de Cristo, ou Pietà, a composição acima mostra a inquietude e o drama religioso vivenciados pelo pintor Sandro Botticelli, nos anos que se seguiram aos acontecimentos com o frade dominicano Girolano Savonarola, que conseguiu tocar o coração dos fiéis com suas pregações, assim como o do pintor. É, sem dúvida, uma das pinturas mais tocantes do artista. É impossível observá-la sem se comover com a cena dolorosa, que se apresenta diante do observador.

Podemos notar que o cenário é a entrada de uma gruta, formando um pesado fundo de pedra. É possível perceber o sepulcro semioculto atrás das figuras humanas. Ao artista interessa mais a apresentação dos personagens. A Mãe Dolorosa  encontra-se no centro do grupo, com o filho morto ao colo. Não conseguindo suportar tamanha dor, ela desmaia. Observem o relaxamento de seus braços, que antes seguravam Jesus. São João Evangelista ampara a Virgem com seu corpo, e  com a mão esquerda toca-lhe a cabeça, enquanto que, com a direita, segura o lençol, onde se encontra o corpo liso e arqueado do Mestre.

Três Mulheres Santas encontram-se no quadro. A primeira delas, usando uma túnica verde, traz o rosto semicoberto. É possível que ela tenha um dos pregos na mão esquerda, para onde dirige seu olhar, mostrando-se visivelmente chocada. Ela se encontra bem próxima à Virgem. A segunda, vestindo um manto vermelho, abraça suavemente a cabeça de Cristo, enquanto aproxima seu rosto de sua face sofrida. Numa fotografia maior é possível ver uma lágrima escorrendo pelo rosto. A terceira mulher segura os pés de Jesus com extremo cuidado e, com lágrimas na face, fita seus pés perfurados pelo prego.

Ao lado direito da Virgem Maria encontram-se São Paulo (com a espada) e São Jerônimo, que bate com uma pedra no peito, em sinal de penitência.  À sua esquerda está São Pedro com sua chave, com a mão em posição de bênção. Eles se encontram mais afastados do corpo de Jesus. Todos os personagens trazem uma vistosa auréola, símbolo de divindade. A da Virgem encontra-se atrás da mão esqurda de São João Evangelista. Somente a terceira mulher, possivelmente Maria Madalena, apresenta uma auréola (halo dourado e brilhante, que envolve a cabeça dos santos) menos visível, em razão de essa se mesclar com a cor alaranjada do manto de S. João Evangelista.

A posição do corpo de Cristo morto, com os braços abertos, remete-nos à sua imolação e sua completa doação à humanidade. Todos os personagens, excetuando a Virgem Dolorosa e a mulher de verde, têm os olhos voltados para ele, figura mais importante da cena. As cores usadas por Botticelli reforçam a intimidade do drama: tons vermelho-escuros e ocres, verdes, alaranjados e amarelos, num misto de cores brilhantes e pálidas.Com essa obra, Sandro Botticelli, com sua comovente sensibilidade, confirma a sua total união com a doutrina do frade dominicano Savonarola.

 Ficha técnica:
Data: 1495
Técnica: têmpera sobre madeira
Dimensões: 140 x 207 cm
Localização: Alte Pinakothek, Munique, Alemanha

Fonte de Pesquisa:
Grandes Mestres/ Abril Coleções
1000 obras primas…/ Könemann
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
A Arte em Detalhes/ Robert Cumming
A História da Arte/ Sextante

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Dürer – LAMENTAÇÃO SOBRE CRISTO MORTO

Autoria de Lu Dias Carvalho

A composição Lamentação sobre Cristo Morto é uma obra religiosa do pintor alemão Albrecht Dürer, em que ele mostra um grupo de pessoas, em profunda consternação, rodeando o corpo de Cristo, que acaba de ser descido da Cruz. Esta pintura foi encomendada pelo ourives Albrecht Grimm, em memória de sua primeira esposa Margaret Holzmann. Em razão da escala de importância, que se levava em conta na pintura religiosa à época, o doador e sua família apresentam-se minúsculos, na base inferior da tela, acompanhados de seus brasões.

O artista usa a paisagem ao fundo, onde se encontra presente a cidade de Jerusalém, não como adorno do quadro, mas com a finalidade de complementar a dolorosa cena, para mostrar que até mesmo a natureza chora a morte do Salvador. Para dar a sensação de maior amplitude e dramaticidade à cena, ele optou por não usar a centralização. As figuras humanas estão dispostas numa pirâmide simétrica, sendo São João Evangelista, postado num plano mais elevado, o ápice da mesma. Nuvens escuras e funestas cobrem a cidade ao fundo, embora uma luz miraculosa ilumine o grupo, ampliando o sentimento de profundo pesar existente em cada pessoa presente à crucificação de Jesus.

O grupo, em torno do corpo desnudo e lívido de Jesus Cristo, exposto sobre um longo lençol branco, é composto por oito figuras maiores. Todos mostram um sofrimento comedido, excetuando a senhora mais idosa, que levanta as mãos para cima, num gesto de desespero. Nicodemus ampara o Mestre pelas costas, segurando-o por baixo dos braços. José de Arimateia, vestido de azul, traz nas mãos um grande pote com bálsamo para passar no corpo do morto, e segura a ponta do lençol. A Virgem Mãe, postada no centro do grupo, rodeada pelos amigos, cruza as mãos em sinal de dor, enquanto seu rosto expressa grande sofrimento e resignação. Uma jovem mulher ampara, com a mão esquerda, a mão direita de Jesus, enquanto a sua direita circunda a ferida deixada pelo prego. De pé, usando um manto vermelho, Maria Madalena segura um frasco com unguento.

A família do doador, composta por cinco pequenas figuras, encontra-se na base inferior da composição. À direita está sua esposa Margreth Holtzmann e uma filha, e à esquerda encontra-se o próprio Albrecht Glimm, acompanhado de seus dois filhos. Marido e mulher trazem os escudos representativos de suas famílias. Como já falei em outras obras, na feitura de pinturas religiosas, encomendadas por doadores, esses sempre apareciam na obra.

Ficha técnica
Ano: 1500
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 151 x 121 cm
Localização: Pinacoteca de Munique, Alemanha

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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