Autoria de Larissa Fernandes

Há cerca de um mês atrás, eu escrevi aqui neste blog, em uma situação parecida com a de muitos companheiros com problemas mentais, que ora vivem momentos difíceis. Tinha muitas dúvidas e inseguranças quanto ao medicamento. Acabara de começar o tratamento, encontrando-me no início da segunda semana, mas receosa de não ver resultados positivos, e de que os efeitos colaterais não passassem. Hoje estou no 36º dia de tratamento e, se pudesse, ajudaria de alguma forma os que estão começando o tratamento, ainda receosos e inseguros, sofrendo com aqueles difíceis primeiros dias. O que posso fazer é repetir as palavras da Lu, que me ajudaram muito: sejam persistentes, otimistas e pacientes. Os resultados bons virão!
As duas primeiras semanas foram realmente difíceis. Iniciei meu tratamento por conta de depressão, embora, há alguns meses atrás, tivesse tido pânico também. Já havia passado pela Síndrome do Pânico, mas nada foi tão terrível quanto a depressão. Quando dei início ao tratamento com remédios, já mal saía da cama pra comer ou fazer qualquer outra coisa. Minha vida era dormir e desejar não estar viva. Tive muito medo de suicídio, ideia que esteve na minha cabeça por alguns dias, e foi completamente apavorante. Na ocasião busquei amigos de confiança e me abri com eles, pedindo ajuda. Um deles, em especial, foi muito acolhedor e recomendou-me tentar os remédios. Mas sempre tive muita resistência a eles, pois não gostava da ideia de ter meu estado de humor regulado por uma substância química, que não saberia precisar em que outros aspectos do meu sistema nervoso atuariam. Tinha pavor de depender de medicamentos, mas vi que, na situação em que me encontrava, ou me entregava a eles, ou não saberia dizer o que seria de mim. Poderia nem estar viva hoje.
Uma semana antes de iniciar o tratamento com o antidepressivo, iniciei também análise. Iniciei o tratamento com a dose de 10 mg, que é a dosagem que mantenho até agora. Os seis primeiros dias foram, de fato, difíceis. Tive a ansiedade e os sintomas da depressão acentuados, mas nada que não pudesse suportar com um pouco de esforço. Já tinha começado tratamento, em outra ocasião, com sertralina, mas não suportei os efeitos adversos do remédio. A reação do oxalato de escitalopram, para mim, foi muito mais leve. Nessa primeira semana também tive náuseas e diarreia, além de um sono monstruoso, chegando a dormir 18 horas por dia, na primeira semana.
Os efeitos colaterais duraram até por volta do 14º dia. A partir daí as náuseas desapareceram, o sono e a ansiedade paradoxal diminuíram bastante. Os primeiros efeitos bons (uma calma e a volta do sentimento de bem-estar, de alegria), apareceram por volta do décimo dia. Eu não sentia nenhum sentimento bom havia alguns meses. Só sentia pesar, medo, tristeza, muita angústia e uma sensação ruim de enxergar o mundo de um jeito estranho, como se estivesse vivendo em um filme. Por volta do décimo dia, eu me peguei sentindo bem em alguns momentos do dia. Acho que os efeitos bons foram se estabelecer mesmo por volta do 20º dia.
Eu me tornei outra pessoa nesses vinte dias de tratamento. Voltei a ser uns 70% do que era antes dessa doença, que nos transforma em outra pessoa e torna o mundo uma coisa horrível, insuportável, modificando nossos sentimentos e pensamentos. A depressão transforma-nos naquilo que não somos. E hoje posso dizer que, embora não me sinta ainda 100% como era antes, eu me sinto muitíssimo melhor, “normal”. Claro que a tristeza ainda existe, ainda sinto raiva, angústia, ansiedade, mas isso, na medida certa, são coisas normais que acontecem a qualquer pessoa. Sinto que estava em um buraco escuro e que o remédio foi fundamental pra me dar forças pra chegar até a sua saída. Compreendi que o medicamento não muda a vida da gente, sozinho. Ele faz um trabalho importantíssimo, e que realmente faz muita diferença pra quem sente os efeitos da depressão, da ansiedade, da Síndrome do Pânico, da TAG, ou do TOC, etc. Ele nos estabiliza emocionalmente para podermos conseguir pensar sobre as coisas da nossa vida, nossos conflitos, e podermos mudar objetivamente as coisas que nos causam mal.
Quanto aos efeitos colaterais, sobre os quais vejo muitos relatos no blog, compartilho com todos, que também aconteceram comigo. Não tive diminuição da libido, acho que até aumentou um pouco. Acredito que a baixa da libido estivesse muito ligada também à depressão. Mas tenho mais dificuldade de chegar ao orgasmo, não chega a ser anorgasmia, mas está um pouco mais difícil. Ainda sinto um sono meio incômodo no decorrer do dia, o que talvez me leve a mudar o horário do remédio para a noite, e uma dor de cabeça leve, que começa no pescoço, quase diariamente, mas nada muito incômodo. De resto, só tenho a dizer para os que estão sofrendo com essa coisa horrível, que nos trazem os transtornos mentais, é que busquem ajuda, pois o tratamento existe. É fundamental operar mudanças de hábitos em nossa vida, uma terapia ou a análise também é importante. E para aqueles que temem os antidepressivos, como era o meu caso, o que posso dizer é não tenham medo. Sejam pacientes e confiem, pois os resultados virão. Dias bons voltarão, acompanhados de alegria e vontade de viver.
Muito obrigada, Lu, pelas palavras, quando estive aqui no início do tratamento. E parabéns por este espaço de acolhimento para tanta gente vítima desse sofrimento terrível e desumano que é a depressão, o pânico, etc. Um beijo a todos, e acreditem que dias melhores virão! Levem o tratamento a sério!
Nota: Melancolia, obra do pintor francês Louis Jean-Fraçois Lagrenée
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