Historiando C. Buarque e V. de Moraes – VALSINHA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A mulher sentia que seu homem dela se afastava. Lembrou-se com saudade dos anos em que eram tão felizes juntos e nada faziam sem compartilhar, numa afinada sintonia. Muitos casais invejavam-nos, tamanha era a adoração que dos olhos deles brotava. Mas ele mudara tanto. Sua indiferença aquebrantava seu coração delicado. Não mais a olhava com ardor e reclamava de tudo. Relegada, a desditosa só fazia chorar, sozinha num canto escondido da casa. Até que “Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar/ Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar/ E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar/ E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar”.

A mulher correu para o quarto para se enfeitar e perfumar para seu amante. “Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar/ Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar/ Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar/ E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar/ E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou.”.

“E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou/ E foram tantos beijos loucos/ Tantos gritos roucos como não se ouvia mais/ Que o mundo compreendeu/ E o dia amanheceu em paz”. O homem percebeu então que bastava uma fagulha de amor para despertar todos os desejos, que se apagaram, em razão do seu enfado com seu costumeiro e enfadonho trabalho. E a mulher percebeu que o ardor que os unia reacendera, tomara forma, ganhara vida para não se arrefecer jamais, pelo menos era isso que queria. E seu coração acordou em paz.

Obs.: Clique no link para ouvir VALSINHA

Nota: Arte da Dança, obra de Leonid Afremov

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Pintores Brasileiros – BELMIRO DE ALMEIDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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É um dos primeiros artistas realmente cosmopolitas da nossa história. (Rafael Cardoso)

O pintor, caricaturista, escultor, jornalista e professor Belmiro de Almeida (1858-1935) nasceu na cidade do Serro em Minas Gerais e morreu em Paris, França, aos 77 anos de idade. O artista iniciou seus estudos artísticos no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, indo depois para a Academia Imperial de Belas-Artes na mesma cidade. Teve como professores Agostinho José da Mota, Zeferino da Costa e Souza Lobo. Ao formar-se na Academia Imperial de Belas Artes, o jovem passou a expor suas obras no Brasil e na Europa.

Inicialmente Belmiro optou pela caricatura, sendo um importante colaborador dos jornais cariocas. Trabalhou também como ilustrador. Tinha grande vontade de ganhar o concurso da Academia que dava como prêmio uma viagem ao exterior, para o aperfeiçoamento dos estudos. Mesmo não sendo premiado,  viajou por conta própria, contando com a ajuda de amigos para se manter em Paris e Roma, permanecendo cerca de cinco anos no estrangeiro. De lá enviava seus trabalhos para serem expostos no Brasil. Também se dedicou à escultura.

O artista viajava muito para a Europa, onde procurava acompanhar as tendências contemporâneas. Ali se encantou com o pontilhismo e o divisionismo de Seurat. Foi professor na Escola Nacional de Belas Artes. Ganhou duas medalhas de ouro do Salão Nacional de Belas-Artes. Após a Segunda Guerra Mundial, Belmiro fixou residência definitivamente em Paris. Dentre seus trabalhos de destaque estão a estátua do “Manequinho” (símbolo do clube do Botafogo), as telas “Namoro do Guarda”, “Dame à la Rose”, “Mulher em Círculos”, “Arrufos”, etc.

Segundo o escritor e historiador da arte Rafael Cardoso, o artista mineiro foi “uma das figuras mais interessantes das artes plásticas durante as quatro primeiras décadas da República.”. Era um artista completo e de grande conhecimento cultural. Foi pintor, caricaturista, escultor, jornalista e professor, tendo legado às futuras gerações uma obra rica e variada. É uma pena que não tenha tido o reconhecimento merecido pela posteridade.

Fonte de pesquisa
http://www.entreculturas.com.br/2010/08/pintura-belmiro-de-almeida/
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardoso

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MEMÓRIA FERROVIÁRIA – RAILWAY MEMORIES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O trem sempre causou encantamento no homem, pois tornou-se um dos mais carismáticos símbolos da modernidade. Ao longo do século XX, o Brasil teve milhares de quilômetros de estradas ferroviárias, os trens chegavam e partiam em todos os cantos do país. Pontes, túneis, giratórias, rotundas, armazéns e estações foram construídos. A arquitetura típica ferroviária influenciou significativamente na modernização e monumentalização das novas edificações brasileiras. Mas, com o passar do tempo, o trem perdeu competitividade devido à opção pelo transporte rodoviário e seu expressivo investimento. Ao longo dos anos, muitas linhas ferroviárias foram desativadas. Os trens de passageiros deixaram de circular. O impacto sobre o transporte ferroviário foi imensurável. Milhares de estações ficaram abandonadas e muitas desapareceram. Mesmo assim, o Brasil ainda é detentor de valioso patrimônio ferroviário.

O livro Memória Ferroviária – Railway Memories será lançado pela Mandala Produção e é do autor Luiz Antonio da Cruz, que nos apresenta um painel sobre a história do trem. Pesquisador, escritor e fotógrafo – o autor viajou, pesquisou, entrevistou, registrou inúmeros trechos ferroviários e muitas edificações nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro. Revisitou os viajantes estrangeiros e suas impressões sobre o transporte no Brasil, foi encontrar as manifestações sobre o trem, as viagens, a nostalgia e a saudade – registradas na literatura, na música, no cinema e nas artes plásticas. Algumas de suas fotografias são do tempo de sua adolescência, quando se envolveu com o tema patrimônio.

Lançamento
O livro Memória Ferroviária – Railway Memories será lançado no dia 9 de julho de 2016, sábado, às 17h00, no SESI Tiradentes – Centro Cultural Yves Alves, à Rua Direita, 168, Centro Histórico, Tiradentes-MG. A obra contém 156 páginas, com fotografias do autor, de seu arquivo e do acervo do Instituto Moreira Salles. O projeto gráfico é da artista plástica Maria José Boaventura e a capa do designer Thiago Dágmar. A versão inglesa é de Michael Hugh Knowles e o prefácio de Celso Nucci.

Contato
Mais informações através do Tel. 32 3355-1386 e 32 99133-0164
E-mail: producaomandala@gmail.com

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Historiando T. Jobim e C. Buarque – SABIÁ

Autoria de Lu Dias Carvalho

sabia

O jovem detém-se silencioso no convés do navio. Sua terra afasta-se numa elevação esverdeada. Seus olhos abraçam o azulado celeste do céu. O navio singra em direção à nova morada. O vento mistura seus pensamentos confusos, qual bando de mariposas no luzir do lampião. Nuvens ágeis fazem sombreados no oceano, e lágrimas banham-lhe o rosto… Em vão. O jovem, entre lágrimas, para si murmura: “Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Para o meu lugar/ Foi lá e é ainda lá/ Que eu hei de ouvir cantar/ Uma sabiá/ Cantar uma sabiá.”.

O mar empina-se e entope-se de força bruta. Lança nos rochedos sua colcha de espumas que se refaz, altera-se e volta a tomar forma, tal como a vida que não para, apenas singra. As lembranças de seu país rodopiam em sua mente. A voz do jovem continua a ressoar: “Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Vou deitar à sombra de uma palmeira/ Que já não há/ Colher a flor/ Que já não dá/ E algum amor possa espantar/ As noites que eu não queria/ E anunciar o dia.”.

A luz do sol há muito se dissipou no horizonte. O jovem agora é banhado pelos finos raios da lua. O timoneiro segue guiando a nave pra longe. As lembranças do expatriado não mais navegam… Flutuam. Ele repete, agora em voz alta: “Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Não vai ser em vão/ Que fiz tantos planos/ De me enganar/ Como fiz enganos de me encontrar/ Como fiz estradas/ De me perder/ Fiz de tudo e nada/ De te esquecer.”. Eu te amo, meu Brasil!

Estrelas enviam ao moço exilado abraços em código Morse. Dizem-lhe que tudo na vida é impermanente, e aquilo que ora o atormenta e machuca, um dia, com certeza, não se fará mais presente. O alumiado do navio expele reflexos tênues, deixando nas águas do oceano marcas sutis. O pranto doído do jovem esvai-se pelos ares, cheio de saudades de seu povo e de seu país que tristemente ele vai deixando para trás.

Uma brisa marinha traz de volta o murmulho do expatriado, transformando-o em notas musicais. Nas praias de seu país, os que ali se encontram, ouvem, em forma de canção, o juramento do moço infeliz: “Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/ Para o meu lugar/ Foi lá e é ainda lá/ Que eu hei de ouvir cantar/ Uma sabiá/ Cantar uma sabiá.”.

E todos tiveram a certeza de que ele cumpriria sua palavra.

Obs.: Clique no link para ouvir a música: SABIÁ

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Victor Meirelles – MOEMA

Autoria de Lu Dias Carvalho

moema

A tela, que assim nos arrebata e seduz, resiste à análise crítica a mais exigente, considerando-se a execução artística e as exigências da composição. (Homem de Melo)

Obra de maior valor, pois que reúne em grau muito subido todas as qualidades da grande pintura, é a Moema do Sr. Vctor Meirelles de Lima. Desenho, colorido, transparência aérea, efeitos de luz, perspectiva, exata imitação da natureza em seus mais belos aspectos, elevam esta composição magistral à categoria de um original de grande preço. O assunto, todo nacional, é uma das nossas lendas mais tocantes. (Gomes dos Santos)

A composição Moema é uma obra do pintor brasileiro Victor Meirelles, pintor de história, que nela retrata um tema indianista e, que faz parte do imaginário nacional. O artista inspirou-se no canto VI do poema épico “Caramuru”, escrito de frei José de Santa Rita Durão, em 1781, especificamente em “Caramuru, Poema Épico do Descobrimento da Bahia”.

Para entender melhor a pintura, o leitor precisa conhecer um pouco do mito sobre Moema, uma índia brasileira que se apaixonou por  Diogo Álvares Correia, náufrago português, que recebeu dos indígenas o apelido de Caramuru. Ao se ver abandonada, a índia jogou-se no mar, nadando atrás do navio francês que conduzia seu amado de volta à Europa. Ele levava em sua companhia apenas a índia Paraguaçu. Moema morre de exaustão e seu corpo é levado até à praia pela maré, onde é encontrado.

Na pintura, o corpo nu de Moema, em primeiro plano, encontra-se numa  praia desértica, em meio a pedras, areia e conchas. Tudo em derredor parece silencioso e calmo. Até o mar mostra-se quieto. O dia parece estar amanhecendo. Os cabelos negros e revoltos da índia estão espalhados sobre a areia, como se servissem de travesseiro para seu rosto pálido, voltado para o céu. Ela ainda traz no corpo parte da tanga de penas coloridas, que lhe cobre a púbis, arranjo esse que tira a naturalidade da pose.

O artista escolheu para pintar, não uma cena descrita pelo poema épico, mas aquilo que imaginou ter acontecido com a índia, após seguir o navio em que se encontrava Caramuru. Ou seja, ele ampliou o enredo do escritor, dando-lhe um final de acordo com sua imaginação.

Na época em que foi feita, a pintura teve pouca repercussão, contudo, atualmente é vista com outros olhos. Críticos e historiadores de arte têm-na como um importante marco na carreira de Victor Meirelles, sendo um dos mais notáveis exemplos do indianismo romântico na artes visuais brasileira, transformando-se num ícone nacional, inclusive recebendo várias releituras e sendo objeto de estudo nas escolas.

Ficha técnica
Ano: 1866
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 129 x 190
Localização: Museu de Arte de São Paulo (MASP), Brasil

Fonte de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
https://www.escritoriodearte.com/artista/victor-meirelles/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Victor_Meirelles

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Dr. Telmo – O HOMEM DAS BOAS PALAVRAS

Autoria de Celina Telma Hohmann

telmo

O homem das boas palavras, da observação atenta do que rodeia a alma e consegue, com doces  toques, fazer-nos avaliar nosso estado anímico! Amo textos que provêm desse homem! Sou fã, e já adianto, nem acreditava que houvesse profissionais da área médica voltados às nossas carências, além do conforto físico, e, acrescente-se, um psiquiatra que vê além daquilo que carece somente de medicação.

Como sei o que é a falta de ânimo! E, vergonhosamente digo, passo por essa fase com relativa frequência. Não, não devia, afinal, o que me falta? Grosso modo, nada! Tenho bem mais que uma grande parcela dos que conheço e sei de uma parcela enorme que não conheço, mas estão aí, talvez ao meu lado, sem que eu os veja. Minha linha de conforto é não confrontar-me com esses desconhecidos e ficar com pena somente dos que estão ao alcance.

Sou um tanto paradoxal. Por vezes, arrependo-me do que deixei de fazer, noutras, pelo que fiz. Não deveria arrepender-me de nada! Não fiz o que não quis fazer e fiz o que quis, então, tive todas as chances. Fica então a pergunta: onde estou errando? Tenho a dádiva da vida, uma relativa inteligência (confesso que me julgo inteligente, sim!). Meus problemas são inerentes à condição humana,  nada tão sofrível ou temeroso, são os obstáculos que contorno, às vezes, com algumas tropeçadas, mas ainda assim, tudo é contornável.  Mas esse medo vem de onde? Do conformismo em não pular do penhasco, mesmo sabendo que lá embaixo há uma rede de proteção chamada Fé e Fé absoluta?  Ou a síndrome do “coitadismo” me rodeia? Não pensei nisso até ler o texto.

Não tenho paciência para sentir pena de mim própria e nem me dou esse direito, mas o tal desânimo se instala e ruge, paralisa e faz-me viver por horas. Nas madrugadas, quando o silêncio se instala, resolvo meus problemas (na cama, claro, e sozinha, lógico, rs!), com   os olhos fechados e a mente passeando por todas as coisas pendentes, que nessas horas, eu resolvo que resolverei pela manhã. Resolvo nada!  A casa continua sem a reforma que fiz na meditação da madrugada e nas falsas promessas de que sairia à busca da forma de fazê-la. O exercício matinal – que também programei – fica à espera e os ossos, ah, esses reclamam, somando-se às reclamações caladas que acompanham a falta de ânimo!  Por sorte, mantenho a benção de saber que amanhã pode ser tarde, mas…

Obrigada pelo belo texto! Um alerta para os meus conformismos que não levam à nada. Já comecei a sair dele: li o texto e expus meu comentário, sincero, sofrido#nemtanto, e estapeei minha incompetente vontade de extrapolar. Vou que vou. Prometo: volto!

Nota: imagem de Dr. Telmo Diniz

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