Victor Meirelles – A PRIMEIRA MISSA NO BRASIL

Autoria de Lu Dias Carvalho

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[…] os selvagens (tribo Tupiniquim) correram em grande número ao lugar da solenidade, e ali mostravam dar grande atenção à cerimônia sagrada, fazendo-se notar entre eles um velho, que parecia compreender e explicar aos outros a santidade daquele ator. (Trecho da carta de Pero Vaz de Caminha)

 A Primeira Missa no Brasil retrata um acontecimento que teria ocorrido em 1º de maio de 1500, quando Pedro Álvares Cabral mandou rezar uma missa para marcar simbolicamente a posse da terra de Vera Cruz para a coroa portuguesa e a implantação da fé católica no novo domínio. (Rafael Cardoso)

A composição denominada A Primeira Missa no Brasil, obra do pintor Victor Meirelles, é sem dúvida uma das mais famosas e conhecidas da pintura brasileira, sendo considerada a primeira pintura histórica do Brasil, levando em conta a concepção deste gênero, de acordo com a tradição acadêmica francesa da época. Até então, na pintura nacional predominavam os gêneros considerados de menos importância: paisagens, retratos e naturezas-mortas. À época, a pintura histórica era vista como uma arte maior, entre os demais gêneros da pintura. Deveria, portanto, ter um grande tema, onde, além das informações pictóricas, ficassem expressos outros conhecimentos, tais como ciência, filosofia, história e religião.

A Primeira Missa no Brasil retrata um momento da história brasileira, que acontecera 360 anos antes de a obra ser executada em Paris, onde o pintor encontrava-se em estudos. Maior triunfo para Meirelles foi o fato de esta pintura ter sido aceita para figurar no importante Salon de Paris,  o que aumentou significativamente a sua importância e fama no Brasil, com pareceres favoráveis, mas também contrários ao quadro. Não se falava de outra coisa, à época.

Para compor sua narrativa, Victor Meirelles, sob o incentivo do poeta e pintor Manuel de Araújo Porto- Alegre, fez um estudo minucioso da carta de Pero Vaz de Caminha, de onde retirou a narrativa visual representada em sua composição. Inclusive, estudou detalhadamente a vegetação, o tipo físico dos índios e a indumentária usada por eles.

Aos pés da cruz de madeira e diante do altar está o frei Henrique de Coimbra, paramentado com uma vestimenta branca. Ele eleva um cálice em direção ao madeiro. Ajoelhado atrás dele encontra-se um franciscano, servindo de acólito, que segura o paramento dourado do frei, para que não toque o chão. Os dois destacam-se do restante do quadro, sobretudo pela forte luz dourada que sobre eles incide e, que também ilumina o grupo composto por fidalgos e a guarnição da armada portuguesa, ajoelhados, e os objetos que se encontram ao redor.

À esquerda vê-se outro grupo formado por religiosos franciscanos, estando dois deles bem iluminados, e os serviçais da expedição portuguesa. Um dos frades encontra-se prostrado no chão. No meio da cena há um espaço, onde se encontra uma arca, sobre a qual está escorado um crucifixo, e outros objetos necessários à realização do ofício. Este vazio deixado pelo pintor tem também o objetivo de destacar as figuras humanas centrais, assim como o altar, confirmando a submissão das gentes portuguesas à religião cristã.

Ao redor do grupo principal estão os índios, nas mais diferentes posições: de pé, trepados em árvores, sentados ou deitados no chão, acompanhando, curiosos, a encenação religiosa. À esquerda, num plano mais baixo, um grupo liderado por um índio de cocar, que traz os braços abertos, parece deixar a cena, embora a acompanhe com o olhar. Atrás deste grupo, um pouco mais distante, um segundo grupo emerge da selva, com os braços para cima, indicativo de surpresa. Os índios acorrem para ver o que está se passando.

Em primeiro plano, um índio idoso, com a mão no ombro de uma jovem índia, que usa uma tanga de penas brancas,  parece explicar o que está acontecendo, ao indicar o grupo central. À direita, na parte inferior da tela, a figura de um índio, usando cocar e tanga e segurando uma lança, está de costas para o que acontece no centro da composição. À frente dele, outro índio, também usando cocar e tanga, aponta o acontecimento para sua companheira, que segura o filhinho. Dois outros índios encontram-se numa grande árvore, sendo que um deles acompanha atentamente a cerimônia central.

O céu azul está separado da terra pela linha do horizonte mais ao longe. Predominam na tela as cores preta e ocres, assim como os tons terrosos mais escuros. As montanhas são delineadas em tons de cinza e a vegetação traz muitos tons de verde. O olhar do observador é direcionado para o madeiro, que quase toca a margem superior da tela. É como se ele, observador, se encontrasse atrás dos índios, presenciando o ofício.

Segundo o escritor e historiador de arte Rafael Cardoso, “Entre esboços e palpites, idas e vindas de estudos e correspondências, o tempo decorrido entre a primeira ideia do quadro e sua versão definitiva foi superior a três anos.”. Esta obra consagrou Victor Meirelles como um importante pintor histórico da pintura brasileira.

Ficha técnica
Ano: c. 1860
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 268 x 356 cm
Localização: Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil

Fonte de pesquisa
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardoso
https://www.escritoriodearte.com/artista/victor-meirelles/

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Historiando Chico Buarque – GENI E O ZEPELIN

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni. (Chico Buarque)

Geni nasceu rebento de mãe-menina e estrangeiro. Mal sentira as cruezas da vida, o pai fez-se ausente, indo seduzir em outras plagas. Cresceu carente, em meio ao desamor e ao desamparo. Adolescente, viu a mãe partir nos braços da tísica galopante, ficando só, num mundo sem deleites. E a frágil flor, que do fruto inepto brotara, teve que decidir: definhar ou resistir. E é por isso que “De tudo que é nego torto/ Do mangue e do cais do porto/ Ela já foi namorada”. Sua figura mirrada é a única arma de sobrevida, portanto, “O seu corpo é dos errantes/ Dos cegos, dos retirantes/ É de quem não tem mais nada”. E a flor machucada “Dá-se assim desde menina/ Na garagem, na cantina/ Atrás do tanque, no mato”. E consigo nem se importa, “É a rainha dos detentos/ Das loucas, dos lazarentos/ Dos moleques do internato/ E também vai amiúde/ Co’os velhinhos sem saúde/ E as viúvas sem porvir/ Ela é um poço de bondade”. Todos os becos e ruas sabem que “(E) é por isso que a cidade vive sempre a repetir/ Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni.”!

Como a vida tem seus tempos e contratempos “Um dia surgiu, brilhante/ Entre as nuvens, flutuante/ Um enorme zepelim/ Pairou sobre os edifícios/ Abriu dois mil orifícios/ Com dois mil canhões assim”. Nem é preciso dizer que “A cidade apavorada/ Se quedou paralisada/ Pronta pra virar geleia”. Exasperadas, as pessoas clamavam aos céus, sem saber o que estava por vir, “Mas do zepelim gigante/ Desceu o seu comandante/ Dizendo: – Mudei de ideia”. E calmamente ele se explicou: “-Quando vi nesta cidade/ Tanto horror e iniquidade/ Resolvi tudo explodir/ Mas posso evitar o drama/ Se aquela formosa dama/ Esta noite me servir”. Quem seria tal dama a atrair tão desconhecido e exótico viajante? – perguntaram-se todos. “Essa dama era Geni.”. Perplexas, as gentes, em coro, responderam: “Mas não pode ser Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni.”.

Ainda que o perigo fosse iminente, as damas da cidade invejaram a escolha feita pelo dito visitante: “Mas, de fato, logo ela/ Tão coitada e tão singela/ Cativara o forasteiro/ O guerreiro tão vistoso/ Tão temido e poderoso/ Era dela prisioneiro”. Mas Geni rejeitou a preferência, pois “Acontece que a donzela/ – e isso era segredo dela –/ Também tinha seus caprichos/ E a deitar com homem tão nobre/ Tão cheirando a brilho e a cobre/ Preferia amar com os bichos”. Atemorizaram-se os citadinos com a negação, pois viam em Geni a única salvação. E foi assim que “Ao ouvir tal heresia/ A cidade em romaria/ Foi beijar a sua mão/ O prefeito de joelhos/ O bispo de olhos vermelhos/ E o banqueiro com um milhão”, em uníssono imploraram: “Vai com ele, vai, Geni/ Vai com ele, vai, Geni/ Você pode nos salvar/ Você vai nos redimir/ Você dá pra qualquer um/ Bendita Geni”! E “Foram tantos os pedidos/ Tão sinceros, tão sentidos/ Que ela dominou seu asco”.

Geni, o poço de bondade, “Nessa noite lancinante/ Entregou-se a tal amante/ Como quem dá-se ao carrasco/ Ele fez tanta sujeira/ Lambuzou-se a noite inteira/ Até ficar saciado”. No virar da noite para o dia, quando “(E) nem bem amanhecia/ Partiu numa nuvem fria/ Com seu zepelim prateado”. E Geni “Num suspiro aliviado/ Ela se virou de lado/ E tentou até sorrir” por ter cumprido um favor tão sofrido e desmedido, pra salvar aquela gente. “Mas logo raiou o dia/ E a cidade em cantoria/ Não deixou ela dormir”. Com banda e escárnio, a cidade pôs-se inteira a bramir: “Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni”.

Mortificada com tamanha ingratidão, Geni, o poço de bondade, pôs-se a rezar para que o comandante do zepelim gigante voltasse pra buscá-la. E foi assim que, ao cair da noite, todo o céu da cidade iluminou-se, e as gentes em aflição viram que o navegante das estrelas voltara. A espaçonave pousou na praça, e o brilhante visitante tomou nos braços sua amante. A nave alçou os céus e Geni virou princesa encantada na boca dos viventes. Bendita Geni!

Obs.: Clique no link para ouvir GENI E O ZEPELIM

Nota: Nude, obra de Leonid Afremov

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Pintores Brasileiros – VICTOR MEIRELES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O brasileiro Victor Meirelles de Lima (1832-1903), nascido em Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis), no estado de Santa Catarina, já aos cinco anos de idade demonstrava o seu pendor para a pintura. Embora fosse de origem modesta, seu talento foi reconhecido, quando era ainda muito novo, o que o levou a estudar na Academia Imperial de Belas Artes, na cidade do Rio de Janeiro. Seus desenhos foram levados a Félix-Émile Taunay, então diretor da Academia, que muito os apreciou. E o jovem, que tinha apenas 14 anos, foi aceito como aluno da nobre instituição.

Na pintura, Meirelles escolheu aquele que era considerado o gênero mais destacado da época: a pintura histórica. Após receber o Prêmio de Viagem ao Exterior, quando contava com incompletos 21 anos, viajou para a Europa a fim de aperfeiçoar-se em pintura. Na Itália, ele estudou com Tommaso Minardi e Nicola Consoni, além de estudar as obras dos grandes mestres da pintura italiana, especialmente as de Ticiano e Paolo Veronese. Na França estudou com Léon Cogniet e Andrea Gastaldi. Em Paris, pintou seu mais famoso quadro: “A Primeira Missa no Brasil”.

Ao retornar ao seu país, após oito anos de permanência fora dele, o artista ganhou a proteção de D. Pedro II, grande admirador de seu trabalho. Veio depois a tornar-se professor na Academia onde estudara. Em meio a sua  podem ser citadas as composições: “A Batalha dos Guararapes”, “Combate Naval do Riachuelo”, “Moema”, “A Primeira Missa no Brasil”, “Retrato de Dom Pedro II” , “Passagem do Humaitá”,  etc.

Victor Meirelles foi o primeiro pintor brasileiro a ser aceito no Salão de Paris, o mais importante local de exposição do mundo, à época, com sua obra “A Primeira Missa no Brasil”. Além de muitos amigos importantes em seu país, também granjeou muitos críticos, numa fase em que acadêmicos e modernistas enfrentavam-se. Além disso, pelo fato de ser visto como um forte aliado do Império, logo após o advento da República, ele foi deixado no ostracismo, morrendo pobre e esquecido.

Embora tenha tido formação acadêmica tradicional, Meirelles também foi influenciado pelo barroco. Atualmente é tido como um dos precursores da pintora moderna no Brasil e um de nossos principais pintores do século XIX. Sua pintura de batalhas marcou não apenas a sua arte, como a arte brasileira do século XIX.

O pintor e poeta Manuel de Araújo Porto-Alegre, ex-diretor da Academia Imperial de Belas Artes, teve uma grande importância na vida de Victor Meirelles. Estimulou-o em seus estudos e trabalhos e protegeu-o, inclusive contribuindo para que sua permanência na Europa fosse prorrogada. Os dois mantiveram uma longa e dinâmica correspondência.

Victor Meirelles, pintor, desenhista e professor, morreu aos 71 anos de idade.

Fonte de pesquisa
https://www.escritoriodearte.com/artista/victor-meirelles/

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Georg Grimm – VISTA DO CAVALÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição Vista do Cavalão é uma obra do pintor alemão Georg Grimm, que em nosso país permaneceu cerca de dez anos, no século XIV. Apesar de apenas uma década vivida aqui, ele muito contribuiu com nossa arte, inclusive influenciando uma leva de jovens pintores. Grimm, neste trabalho, lança seu olhar para a paisagem brasileira, mostrando-a como algo habitual. O local retratado é o Morro do Cavalão, situado ao sul do bairro de Icaraí, em Niterói/RJ.

O artista apresenta um local bastante aprazível, onde reina uma grande calma. À direita encontra-se um pequeno e baixo muro, que já perdeu parte do reboco branco e, que traz uma passagem com degraus no meio. Num terreno inclinado, acima do muro, estão inúmeras árvores. Possivelmente, em razão da entrada, uma casa encontra-se mais acima, não tendo sido representada pelos pinceis de Georg Grimm.

Abaixo do muro há muitas rochas e areia que dão acesso ao mar. Uma mulher está sentada no lajeado com uma criança, tirando ou calçando seus sapatos, enquanto outras três brincam, nuas, no raso, sob sua vigilância. Uma delas é negra, o que fortalece a sensação de integração racial. As rochas, que se estendem até a água, protegem-nas, assim como a sombra das árvores que se inclinam em direção ao mar.

Um pouco mais distante, à esquerda, no pé de um morro, um casarão branco surge próximo à praia, em meio a  frondosas árvores. Em frente vê-se um pedaço do mar azul. O céu azulado contém inúmeras nuvens brancas, mas sua luminosidade é branda. O pintor usou da verticalidade das árvores e da horizontalidade das rochas para dar harmonia à pintura.

Quase toda a paisagem está iluminada, excetuando alguns pontos sombreados debaixo das árvores e uma pequena parte do lajedo e da água. O ponto de maior luminosidade é o branco do reboco da entrada, que atrai de imediato o olhar do observador. Há também sobre ele um pouco do sombreado das árvores acima. A passagem tem a função de separar a área arborizada da outra em que se encontram as figuras humanas. É possível notar que se encontra em ruínas, inclusive não mais ostentando o capitel esquerdo. Contudo, não se trata de um lugar abandonado, mas de excessivo uso.

Embora o comum na pintura de paisagem seja o enquadramento horizontal, o pintor usou o vertical, harmonizado com a verticalidade das árvores, o que torna as figuras humanas ainda menores em meio à paisagem.

Ficha técnica
Ano: 1884
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 110 x 85 cm
Localização: Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil

Fonte de pesquisa
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardoso

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VISTA DA LAGOA DO BOQUEIRÃO E…

Autoria de Lu Dias Carvalho

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É uma pena que muitos pintores não tenham deixado o nome gravado em todas as suas obras, tendo os historiadores e críticos de arte que trabalhar com suposições. E é exatamente isso que aconteceu com esta composição, embora alguns estudiosos de arte atribuam-na a Leandro Joaquim, artista brasileiro do século XVIII, que fazia parte da chamada Escola Fluminense de pintura. Mas nada existe que comprove ser ele é de fato o autor da obra. Nem mesmo se sabe a data correta do quadro em questão, seu título ou a lagoa retratada. Tudo entra no rol das suposições, com acontece com muitas obras da arte brasileira. O fato é que aqui está retratada uma paisagem da cidade do Rio de Janeiro, que recebe o título de Vista da Lagoa do Boqueirão e do Aqueduto de Santa Teresa.

A composição mostra o Aqueduto Carioca, que era responsável por levar as águas captadas do rio Carioca, e, que hoje recebe o nome de Arcos da Lapa. Embora os Arcos sejam atualmente brancos, aqui eles se encontram meio amarronzados, com destaque para os reflexos da luz. Não se sabe ao certo se essa era a sua cor original, uma vez que, antigamente, os pintores não se atinham à exatidão daquilo que compunham, ou seja, não havia um compromisso histórico, como confirma o enquadramento oval da obra.

O artista escolhe o Aqueduto Carioca (Arcos da Lapa), como o elemento principal de sua composição, postado na parte superior, praticamente dividindo a composição oval ao meio, horizontalmente. Na parte superior, à esquerda, encontra-se o convento e uma igreja, mais abaixo. Uma lagoa ocupa grande parte do quadro. Dentro dela há grande movimentação de homens, mulheres, crianças e animais. A criançada diverte-se na água. Um homem negro, com camisa, vermelha tange o gado. Duas mulheres negras, com trouxas na cabeça, levantam as saias para não molhá-las

Na margem direita da lagoa, em relação ao observador, em primeiro plano, estão quatro figuras humanas: uma mulher negra, curvada sob o peso de um enorme cesto de roupa, que carrega na cabeça; um homem negro de chapéu e capa marrom, tocando uma viola, acompanhado de uma mulher negra, também de chapéu; mais à frente, um homem negro, vestindo camisa vermelha, leva um pesado cesto de roupas. Na ponta oval esquerda da composição encontram-se dois homens e uma carroça com uma parelha de bois.

Na margem esquerda da lagoa há muita movimentação: dois homens com canoas na cabeça; mulheres com trouxas, também na cabeça; um homem tangendo um burro; um sujeito montado a cavalo e pessoas conversando. Os adultos representados levam a crer que sejam todos escravos, tanto pela cor da pele como pelos pés descalços.

Houve uma grande modificação entre a paisagem do século XVIII e o local que existe nos dias de hoje:

  • os arcos foram alterados e pintados de branco;
  • a Lagoa do Boqueirão da Ajuda foi aterrada;
  • o morro de Santo Antônio não mais existe;
  • edifícios ruas tomaram o lugar do descampado.

Ficha técnica
Ano: c. 1790
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 86 x 105 cm
Localização: Museu Histórico Nacional, Brasil

 Fonte de pesquisa
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardoso

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Historiando Chico Buarque – O QUE SERÁ

 Autoria de Lu Dias Carvalho

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O que será que será/ Que dá dentro da gente e que não devia/ Que desacata a gente, que é revelia. (Chico Buarque)

Hoje amanheci de mal com a vida. Feito uma aranha irrequieta teço mil indagações sem encontrar resposta plausível para tamanha judiação com o povo brasileiro. Na pauta da minha mágoa e indignação encontra-se grande parte dos homens e mulheres públicos de meu país, que afanam nossa gente sem nenhuma comiseração.  Para que tanta riqueza e poder, ó malditos pútridos, se a vida é tão finita? Os imorais não veem nisso nenhuma transgressão, mas eu me vejo na mais profunda das prostrações, observando o mar de lama que se agiganta, sustentado pela mais hedionda e abominável corrupção.  Como é grande a desdita de nossa impotente nação!

Não mais preciso indagar sobre “O que será que me dá/ Que me bole por dentro, será que me dá/ E que me sobe às faces e me faz corar/ E que me salta aos olhos a me atraiçoar/ E que me aperta o peito e me faz confessar/ O que não tem mais jeito de dissimular/ E que nem é direito ninguém recusar” o fato de tomar conhecimento de tanta podridão e patifaria. Essa pungente agoniação “(E) me faz mendigo, me faz suplicar” que tenham piedade de meu país. E eu me pergunto se tamanha devassidão “(O que) não tem medida, nem nunca terá/ (O que) não tem remédio, nem nunca terá.”? Será que para isso “(O que) não tem receita” ou castigo?

Na rua, as pessoas estão a se perguntar: “O que será que será/ Que dá dentro da gente e que não devia/ Que desacata a gente, que é revelia/ Que é feito uma aguardente que não sacia/ Que é feito estar doente de uma folia/ Que nem dez mandamentos vão conciliar”? Muitas delas não avaliam que a corrupção que grassa no nosso país “Nem todos os unguentos vão aliviar/ Nem todos os quebrantos, toda alquimia/ Que nem todos os santos, será que será”, se os calhordas não forem punidos com exação. Sem a mão rigorosa da justiça “O que não tem descanso, nem nunca terá/ O que não tem cansaço, nem nunca terá/ O que não tem limite”, será para sempre o maldito estigma da nação brasileira.

Não mais é preciso que se pergunte: “O que será que me dá/ Que me queima por dentro, será que me dá/ Que me perturba o sono, será que me dá/ Que todos os tremores me vêm agitar/ Que todos os ardores me vêm atiçar/ Que todos os suores me vêm encharcar/ Que todos os meus nervos estão a rogar/ Que todos os meus órgãos estão a clamar/ E uma aflição medonha me faz implorar”? Mas será que essa gente desonesta, debochada, depravada e putrefata “(O que) não tem vergonha, nem nunca terá/ (O que) não tem governo, nem nunca terá/ (O que) não tem juízo”?

Obs.: Ouça a música SERÁ QUE SERA (À Flor da Pele)

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