Autoria de Luiz Cruz

Os campanários, os sinos e seus toques representam um dos traços mais expressivos da nossa cultura. Tanto que o “Toque dos Sinos”, em Minas Gerais, foi reconhecido como Patrimônio Nacional, através do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e inscrito no Livro das Formas e Expressões, em 2009, tendo como referência as cidades de Catas Altas, Congonhas, Diamantina, Mariana, Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei e Tiradentes. O “Ofício de Sineiro” também foi reconhecido como Patrimônio Nacional pelo IPHAN, e inscrito no Livro de Registros dos Saberes, no mesmo ano.
O Brasil herdou de Portugal a tradição dos sinos, que aqui logo foi assimilado como exímio instrumento de comunicação. Por isso, teve que ser instalado em locais mais elevados, para que o som alcançasse os mais longínquos lugares. E, para cumprir bem sua função, foram levados para o alto das torres. Porém, nem todos, ao circular pelos mais bucólicos cantos de Minas, podem apreciar curiosas soluções de campanários, entre elas destacam-se as aplicadas ao da Capela de Sant’Ana, em Mariana, instalado no adro, mas afastado da edificação e utilizando-se apenas de madeira e um pequeno telhado. Ou ainda o da Capela de São João, em Ouro Preto, uma das mais antigas da localidade. O sino foi afixado ao lado do templo, elevado apenas por uma coluna de alvenaria e protegido por um telhadinho. Sua colocação próxima aos fiéis e visitantes de forma tão simples, mas com graça, encanta-nos.
Há diversas soluções arquitetônicas singelas para os campanários, mas há também projetos altamente sofisticados e de autoria dos melhores arquitetos, ou mestres pedreiros, como os da Capela de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, criação do Mestre Aleijadinho. A cidade possuiu outros interessantes como os das capelas de Nossa Senhora do Carmo e do Rosário ou ainda o da Casa de Câmara e Cadeia – o atual Museu da Inconfidência. É importante salientar que ao longo dos séculos XVIII e XIX os sinos foram os instrumentos de comunicação tanto da Igreja quanto do “Poder Público”. Ainda merecem destaque os campanários das capelas de Nossa Senhora do Carmo, São Francisco de Assis e o da Casa de Câmara e Cadeia da cidade primaz de Minas – Mariana – tanto pela sofisticação arquitetônica quanto pela harmonia com que compõem uma das mais significativas paisagens mineiras.
São João del-Rei destaca-se no universo de campanários com soluções arquitetônicas bem peculiares e belas. Os campanários das capelas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo são em cantaria de pedra, têm os elementos decorativos em xistos verdes. São sólidos como fortalezas. Os campanários da Matriz de Nossa Senhora do Pilar foram edificados em cantaria de pedra, com espacialidade moderna para o período de sua construção, cujo acesso é através de uma complexa estrutura de madeira, que contrasta com a cantaria, cativando nossa atenção. Provavelmente, os campanários, os sinos e seus toques constituem um dos maiores atrativos da Semana Santa de São João del-Rei, que atualmente é considerada a mais completa do Brasil. Vale a pena visitá-la neste período e conferir este marco da cultura são-joanense.
Como os sinos são instrumentos que compõem o universo dos objetos litúrgicos, devem ser considerados também patrimônio e obras de arte, com certeza, precisam de cuidados para sua conservação e proteção:
• Todo sineiro deve aprender a usá-los com segurança pessoal, para sua proteção e conservação, buscando conhecer a história do sino para melhor desempenhar sua função.
• Conhecer os toques tradicionais dos sinos para assegurar a preservação dessa linguagem.
• Evitar dar manutenção sem o auxílio de profissional especializado, principalmente no badalo, pois bater o sino fora do batente traz um risco muito alto de rachá-lo ou trincar a bacia.
• Usar, preferencialmente, tiras de couro cru retiradas da barriga do boi para amarrar o badalo.
• Evitar intervenções na estrutura do corpo do sino para não comprometer o ajuste entre o corpo e a bacia, nem colocar pregos, pois aceleram a infiltração de águas na madeira.
• Buscar ajuda especializada para orientar a troca de peças para a manutenção do sino.
• Lubrificar, periodicamente, com graxa o eixo e o mancal do sino.
• Manter as torres limpas e fechá-las com tela evitando a presença de aves e outros animais.
• Amarrar a corda de couro no garfo, passando pela argola do badalo para os repiques, evitando-se o uso de arames ou cordas de nylon.
• O corpo do sino deve ser pintado para a proteção da madeira. A tinta feita com óleo de linhaça é mais indicada para melhor impermeabilização.
• Cobrir e proteger o sino quando ocorrerem obras na torre ou na sineira.
• Evitar dobres muito acelerados, pois, além de atípicos, trazem o risco de rachaduras e consequentemente o fim de sua utilização.
Nota: Campanário da Capela de Sant’Ana, em Mariana e Capela de São João, em Ouro Preto. Fotografia: LC
Referência
CRUZ, Luiz Antonio da. e BOAVENTURA, Maria José. Manual de Técnicas de Preservação e Manutenção de Patrimônio. Tiradentes: IHGT, 2016.
CRUZ, Luiz Antonio da. e BOAVENTURA, Maria José. Glossário do Patrimônio de Tiradentes. Tiradentes: IHGT, 2016.
DANGELO, André Guilherme Dornelles. BRASILEIRO, Vanessa Borges. Sentinelas sonoras. Belo Horizonte: e.43, 2013.
MARTINS, Judith. Dicionário de Artistas e Artífices dos séculos XVIII e XIX de Minas Gerais. Rio de Janeiro: MEC, Revista do IPHAN, 1974.
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