Autoria de Lu Dias Carvalho

E da mesma forma que o corpo humano oferece um círculo que o rodeia, também podemos encontrar um quadrado onde esteja encerrado o nosso corpo. (Leonardo da Vinci)
O Homem Vitruviano descreve uma figura masculina desnuda separadamente e simultaneamente em duas posições sobrepostas com os braços inscritos num círculo e num quadrado.
O pintor italiano Leonardo da Vinci é tido como uma das mais importantes figuras da arte ocidental. Embora tenha sido conhecido principalmente como pintor, era também cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Dentre os desenhos deixados por ele, o Homem Vitruviano (ou o Homem de Vitrúvio) tornou-se um ícone cultural.
Trata-se de um desenho encontrado em seus diários, feito por volta de 1490 e que mostra o traçado e as proporções entre as diversas partes do corpo humano. Durante o Renascimento, muitos artistas, arquitetos e tratadistas puseram-se a interpretar os textos vitruvianos (de I a.C.), para fazer novas representações gráficas, mas nenhum deles conseguiu combinar de forma harmoniosa e matemática as proporcionalidades do corpo humano e a solução da quadratura do círculo, conforme propunha o arquiteto Marcus Vitruvius Pollio. Dentre os desenhos que foram feitos, o de Leonardo da Vinci tornou-se o mais famoso e o mais difundido.
Ao examinar o desenho ilustrativo, o leitor notará que temos duas diferentes posturas, formadas pela combinação das posições dos braços e das pernas. Observe que a figura humana com braços e pernas em cruz está colocada dentro do quadrado. Enquanto aquela com braços e pernas abertos está abrigada dentro do círculo.
A postura em cruz delimita os lados do quadrado, enquanto a postura com pernas e braços abertos delimita o círculo. A área das duas figuras geométricas é igual. O umbigo da figura humana é o seu real centro de gravidade — continua imóvel, embora pareça se mover. Examinando o desenho como um todo, pode-se notar que a combinação das posições dos braços e das pernas forma quatro posturas diferentes: braços e pernas em cruz, braços e pernas abertos, braços em cruz e pernas abertas, braços abertos (para o alto) e pernas unidas.
A razão deste desenho ter sido chamado de Homem Vitruviano baseia-se no fato de que o arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio (I a.C.) apresenta no seu tratado sobre arquitetura — composto por uma série de dez livros — uma descrição sobre as proporções do corpo humano, usando como unidade de medida o dedo, o palmo e o antebraço, o que o levou a acreditar que um homem com as pernas e os braços abertos encaixaria perfeitamente dentro de um quadrado e de um círculo (figuras geométricas perfeitas). Achou também que, se o corpo humano fosse representado ao mesmo tempo, dentro das duas figuras, o umbigo — centro gravitacional da figura humana — coincidiria com o centro das duas figuras geométricas.
Vitrúvio tanto fez a sua apresentação em forma textual assim como através de desenhos, mas, com o passar dos anos, a descrição gráfica se perdeu, enquanto a obra passou a ser copiada. O homem descrito por Vitrúvio apresenta-se como um modelo ideal para o ser humano, cujas proporções são perfeitas, segundo o ideal clássico de beleza. Ele já havia tentado encaixar as proporções do corpo humano dentro da figura de um quadrado e um círculo, mas suas tentativas ficaram imperfeitas.
O arquiteto teórico milanês Cesare Cesariano (terceira gravura à direita) entendeu a geometria descrita por Vitrúvio, contudo, cometeu um erro ao relacionar as duas figuras (círculo e quadrado), de modo que a figura humana ficasse inserida no centro das duas. Para que essa coubesse em sua construção, tendo como centro o umbigo, foi necessário que mãos e pés ficassem muito esticados, tirando, assim, a proporcionalidade descrita.
Leonardo da Vinci, por sua vez, não se prendeu à relação geométrica entre o círculo e o quadrado. Contando com os seus próprios conhecimentos, corrigiu o que achava estar errado nas medidas, dando a mãos e pés um tamanho proporcional, de forma que o centro do círculo à volta do “homo ad circulum” coincide com o umbigo. E o centro do quadrado à volta do “homo ad quadratum” encontra-se mais abaixo, à altura dos genitais. Com medidas tão precisas, Leonardo conseguiu pôr-se adiante do cânone da Antiguidade, ficando o seu Homem Vitruviano aceito como a real representação das descobertas feitas por Vitrúvio.
O desenho do Homem Vitruviano reafirma o grande interesse de Leonardo da Vinci pela arte e ciência. No conceito da Divina Proporção, tão procuradas nas obras do Renascimento, dá-se a busca e definição das partes corporais do ser humano. Leonardo foi o responsável pelo encaixe perfeito do corpo humano dentro dos padrões matemáticos esperados. O seu desenho faz parte da coleção da Gallerie dell’Accademia em Veneza (Itália). O redescobrimento das proporções matemáticas do corpo humano, no século XV, por Leonardo e os outros pesquisadores, é considerado como uma das grandes realizações que levaram ao Renascimento italiano.
Marcus Vitruvius Pollio descreve no terceiro livro de sua série de dez livros, intitulados De Architectura, as proporções do corpo humano masculino. Eis algumas:
- O comprimento dos braços abertos de um homem (envergadura dos braços) é igual à sua altura.
- A distância entre a linha de cabelo na testa e o fundo do queixo é um décimo da altura de um homem.
- A distância entre o topo da cabeça e o fundo do queixo é um oitavo da altura de um homem.
- A distância entre o fundo do pescoço e a linha de cabelo na testa é um sexto da altura de um homem.
- O comprimento máximo nos ombros é um quarto da altura de um homem.
- A distância entre a o meio do peito e o topo da cabeça é um quarto da altura de um homem.
- A distância entre o cotovelo e a ponta da mão é um quarto da altura de um homem.
- A distância entre o cotovelo e a axila é um oitavo da altura de um homem.
- O comprimento da mão é um décimo da altura de um homem.
- A distância entre o fundo do queixo e o nariz é um terço do comprimento do rosto.
- A distância entre a linha de cabelo na testa e as sobrancelhas é um terço do comprimento do rosto.
- O comprimento da orelha é um terço do da face.
- O comprimento do pé é um sexto da altura.
O Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci é usado como referência estética de simetria e proporção no mundo todo. Mas não pode ser qualquer homem, ele deverá ter proporções bem específicas:
- Face — do queixo ao topo da testa = 1/10 da altura do corpo.
- Palma da mão — do pulso ao topo do dedo médio = 1/10 da altura do corpo.
- Cabeça — do queixo ao topo = 1/8 da altura do corpo.
- Base do pescoço às raízes do cabelo = 1/6 da altura do corpo.
- Meio do peito ao topo da cabeça = 1/4 da altura do corpo.
- Pé = 1/6 da altura do corpo.
- Largura do peito = 1/4 da altura do corpo.
- Largura da palma da mão = quatro dedos.
- Largura dos braços abertos = altura do corpo.
- Umbigo = centro exato do corpo.
- Base do queixo à base das narinas = 1/3 da face.
- Nariz — da base às sobrancelhas = 1/3 da face.
- Orelha = 1/3 da face.
- Testa = 1/3 da face.
Ilustrações: 1. Desenho de Leonardo da Vinci/ 2. Obra baseada no desenho de Leonardo da Vinci/ 3. Desenho de Cesare Cesariano (observem pés e mãos esticados).
Ficha técnica:
Data: 1490
Técnica: lápis e tinta sobre papel
Dimensões: 34 x 24 cm
Localização: Gallerie dell`Accademia, Veneza, Itália
Fontes de pesquisa:
Grandes Mestres da Pintura/ Abril Coleções
Grandes Mestres da Pintura/ Folha de São Paulo
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