SEM EIRA E NEM BEIRA OU…

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de Lu Dias Carvalho

   eira    

Minha avó materna sempre contava aos netos que, quando se casou com o nosso avô, ele não tinha eira e nem beira, tampouco ela. E que os dois viveram tempos muito difíceis para ensinar ao menos o beabá aos filhos. Dizia que se nós quiséssemos sofrer menos na vida, teríamos que estudar muito, pois o Criador põe a inteligência na cabeça da pessoa, mas é preciso que ela vá botando um pouquinho de água todo dia, para que a agudeza cresça, pois se faltar o líquido do esforço, a inteligência vai se embotando até morrer. Essa água, segundo minha vó, era o estudo diário.

As gentes antigamente, apesar de todas as dificuldades pelas quais passavam, valorizavam muito o estudo. Viam-no como se fosse a saída para uma vida menos sofrida. Como eram poucos os exemplos que tinham de pessoas estudadas, observavam que todas as conhecidas gozavam de boa posição social. A pobreza era associada à ignorância, à falta de erudição, ao analfabetismo. O sonho de toda família era ter os filhos “estudados”, para que não vivessem sem eira e nem beira, comendo o pão que o diabo amassou. Será que a minha avozinha estava certa?

A expressão “sem eira e nem beira” era muito usada em tempos idos, tendo vindo de Portugal para nosso país lá pelos idos de 1500. Mas como surgiu? Vejamos primeiro o que diz o mestre Aurélio:

Eira
1. Área de terra batida, lajeada ou cimentada, onde se malham, trilham, secam e
  limpam cereais e legumes; almanxar./ 2. Terreno onde se junta o sal, ao lado das marinhas./ 3.  Pátio, em algumas fábricas de tecido./ 4.  Bras. Lugar anexo às fábricas de açúcar, onde se guardam as canas antes de serem utilizadas.

A eira (ver ilustração à esquerda) ficava próxima às casas e tinha uma beira que impedia o vento de levar os grãos para fora do espaço destinado a eles. Sua presença demonstrava que a família era rica e próspera, ocupando uma boa posição social dentro da comunidade. As famílias que não tinham nem uma eira, ou mesmo uma beiradinha dela, eram consideradas pobres ou até mesmo miseráveis. Era muito comum que se referissem a uma pessoa sem recursos como sem eira e nem beira, sendo que os mais poéticos acrescentavam o ramo de figueira apenas para rimar, penso eu.

Há também quem defenda que a beira ou beiral refere-se à aba da casa (ver ilustração à direita/ foto Pinterest), aquela parte do telhado (marquises) que protege contra a chuva. Enquanto as casas dos necessitados não tinham eira e tampouco beira, as pessoas de posses tinham não apenas eira e beira, mas também uma forte tribeira (o telhado propriamente dito). Velha história! Antigos dias!

22 comentaram em “SEM EIRA E NEM BEIRA OU…

  1. Adevaldo R. de Souza

    Lu,

    Penso que “eiras e beiras” não são atributos para que as pessoas sejam felizes. Não gosto daquelas que preferem comer pelas “beiradas”, principalmente políticos.

    Abraço,

    Adevaldo

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Adevaldo

      Eles comem pelas beiradas, pelo meio, por baixo e por cima. São famélicos pelo dinheiro e poder.

      Abraços,

      Lu

      Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Ramon

      Fico muito feliz que esteja gostando. Nós vamos ter muito mais. Será um prazer contar com a sua presença.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. Pierre Santos

    Lu, fiquei alegre, não só porque me diverti com o eira e nem beira, nem flor de laranjeira (que besteira!), como porque “revi” aqui o nosso Ed.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      PP

      Tenho acompanhado o noticiário de Chipre. Saia logo daí. O Ed já voltou e vai botar para quebrar.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  3. Carlos A. Pimentel

    Lu

    Quando criança ouvia muita a expressão “sem eira e nem beira”, cujo sentido sempre levava àquela pessoa pobre, triste, sem um lar, sem bens materiais. Meus avós maternos tinham casa própria e, imagino, com beira. Podemos dizer também que tinha uma eira no grande quintal da casa do interior. As eiras e beiras materiais dos meus avós paternos eram alugadas a terceiros. Mas caramba! Que paradoxo incrivel! Como a gente era feliz! Neste caso, eu só tenho uma explicação: neste ícone abstrato chamado lar, na “eira” eles espalhavam os grãos da felicidade, do amor, da bondade e da dedicação ao trabalho. Nas “beiras” o manto dos exemplos e da educação que começa no seio da família.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Beto

      Deveria ser uma festa para as crianças, ajudando seus pais ou criados da casa no serviço na eira. Imagino um grande alarido, com muitos causos e café. A meninada deitava e rolava, imagino eu. Como você bem diz, ali estavam as sementes de muito trabalho, do amor à terra, do respeito à vida. Penso que as eiras atuais passaram a se chamar “terreiros” ou “galpões” ou “tabuleiros”.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  4. Edward Chaddad

    Lu

    Também passei por esta, sem eira e nem beira. Mas hoje, penso, eu nasci em um lar muito rico, cheio de ternura, amor, dedicação ao trabalho e sabedoria, como era visão de sua avó materna, o caminho dos estudos. Castelos daqueles que têm bens materiais não podem nunca ser comparados com as famílias que possuem, como riqueza maior, o amor, é o tesouro que guardo e tento passar para os meus filhos, a verdadeira herança divina.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Ed

      Tudo aquilo que a gente adquire com dificuldade traz um sabor especial. Ainda me lembro da dificuldade de meus avós, tanto paternos quanto maternos, trabalhando com muito empenho para educar seus filhos. Meus pais deixaram de aproveitar a vida, muitas vezes, para que os parcos ganhos fossem endereçados à educação de seus filhos. Fico imaginando de quantas coisas abriram mãos. Eu me sinto orgulhosa deles e eternamente grata.

      Abraços,

      Lu

      Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Celita Linda

      Estes ditados são uma parte muito interessante da língua. Morro de rir ao pesquisá-los.

      Beijos,

      Lu

      Responder
  5. Mário Mendonça

    Lu Dias

    Com a evolução na era da globosfera fica difícil alguém viver/ficar sem eira e nem beira. Por incrível que pareça podemos aprender de tudo sem sair de casa, não precisamos mais ir a escola, ela vem até nós.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      Muitas famílias já educam seus filhos ser irem a uma escola tradicional. Para mim, a maior importância da escola é o convívio social.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  6. Terezinha Pereira

    Lu,
    quando a gente passeia pelas cidades históricas de Minas, vê casas com eira, com beira e até com tribeira…

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      TT

      É verdade! Temos um passado de muitas eiras, beiras e tribeiras. Tudo herança portuguesa.

      Beijos,

      Lu

      Responder
  7. LuDiasBH

    Nélio

    Vocês irão dar uma volta ao mundo.
    Os textos sobre porvérbios e expressões populares têm sido bastante lidos.
    Fica aqui o convite de vocês.

    Também irei repassar para os meus contatos.

    Abraços,

    Lu

    Responder
  8. Nelio Lemos

    Lu,
    passeando por São João del Rei fiquei sabendo, através do guia local, que esta expressão se referia ao telhado das casas. Agora você vem me dar um novo conhecimento. Obrigado!

    Responder
      1. LuDiasBH

        Nélio

        Normalmente tais expressões costumam ter mais de um significado. Nas imagens que ilustram o texto, coloquei os dois.

        Abraços,

        Lu

        Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.